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Notícias Agrícolas

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Publicado em 12/05/2010 13:47

A formação de profissionais para profissionalizar os agricultores e para o desafio de produzir mais e melhor com menos recursos

    JUSTIFICATIVA PARA A PROPOSTA

 

A agricultura latino-americana está submetida a uma profunda contradição: a) por um lado tem a imprescindível e urgente necessidade de se modernizar para tornar-se muito mais eficiente, porque do contrário, simplesmente não poderá enfrentar a fortemente subsidiada e protegida agricultura dos países desenvolvidos; e b) por outro lado, os governos desta Região, além de não subsidiarem e não adotarem medidas protecionistas em favor dos nossos agricultores, estão reduzindo exatamente aqueles recursos e serviços com os quais tradicionalmente se tentou fazer esta imprescindível modernização.

 

Por difícil que seja aceitá-lo, isto significa que a agricultura latino-americana terá que tornar-se mais eficiente, apesar de contar com menos crédito, insumos e equipamentos modernos, subsídios e medidas protecionistas.  Isto, por sua vez, significa que com uma menor quantidade de cada fator de produção os agricultores, sejam pequenos, médios ou grandes, terão que obter uma maior quantidade de produto, o qual deverá ser de melhor qualidade e obtido com um custo unitário mais baixo; significa também, que deverão tornar-se mais eficientes na administração do negócio agrícola em sua globalidade, com a finalidade de otimizar o uso dos recursos disponíveis, reduzir os custos de aquisição dos fatores de produção e incrementar os preços de venda dos excedentes.  Estes são os requisitos que inexoravelmente os agricultores terão que preencher simultaneamente; se não o fizerem a desumana competição dos mercados os transformará em ex-agricultores.

 

Esta difícil, porém não impossível missão, exige no mínimo, a geração de tecnologias compatíveis com os recursos que os agricultores realmente possuem e principalmente um gigantesco esforço de capacitação e organização dos produtores para que se profissionalizem e se transformem em eficientes empresários que possam, saibam e queiram corrigir as graves distorções tecnológicas, gerenciais e comerciais que atualmente ocorrem nos distintos elos do negócio agrícola, desde que o insumo sai da indústria até que o alimento chega à casa do consumidor.

 

Ambas  tarefas são mais de caráter científico-tecnológico-gerencial que político e, conseqüentemente, deverão ser outorgadas a competentes profissionais de ciências agrárias (agrônomos, veterinários, engenheiros agrícolas, zootecnistas e engenheiros florestais), os quais deverão demonstrar que são capazes de otimizar o uso e aproveitamento dos escassos insumos materiais para compensar a sua insuficiência, através da correta aplicação dos abundantes insumos intelectuais.  Desta forma, os nossos agricultores poderão tornar-se muito mais eficientes e conseqüentemente: a) emancipar-se, prescindir ou ao menos diminuir a sua dependência dos cada vez mais distantes: créditos abundantes e subvencionados, valor artificialmente alto do dólar, subsídios, medidas protecionistas, garantias oficiais de comercialização, etc-; b) tornar-se menos vulneráveis às adversas externalidades que estão fora do seu controle, como por exemplo os subsídios e as barreiras alfandegárias e não alfandegárias estabelecidas pelos países desenvolvidos.

 

            Para enfrentar este espetacular, porém inevitável desafio de “produzir mais e melhor com menos recursos” , requer -se como absolutamente imprescindível formar uma nova geração de profissionais de ciências agrárias com novos conhecimentos, aptidões, destrezas e sobretudo com novas atitudes de autoconfiança e convicção de que eles mesmos deverão assumir este desafio, simplesmente porque devido à sua natureza eminentemente técnica, não têm a quem delegá-lo.  A seguir se propõe o perfil dos referidos profissionais e as medidas que as faculdades de ciências agrárias poderiam adotar para proporcionar-lhes uma formação compatível com as oportunidades e ameaças da agricultura moderna.

 


A.       O perfil do profissional em ciências agrárias

 

As faculdades deverão formar um profissional cujo perfil de conhecimentos, aptidões, valores e atitudes se propõe a seguir:

 

1.         Que tenha uma sólida formação ética e humanística baseada nos princípios e valores da disciplina, perseverança e dedicação ao trabalho, honestidade, honradez, pontualidade e responsabilidade, amor à verdade e à justiça, respeito ao próximo, aos seus direitos e opiniões, espírito de lealdade, ajuda mútua e solidariedade, espírito de iniciativa e criatividade, permanente desejo de superar-se e de atingir a excelência e abertura às mudanças e inovações.  Que repudie o servilismo, a demagogia, e o egoísmo.  Grande parte destes princípios, valores, condutas, hábitos e atitudes deverão ser reforçados através do "currículo oculto ou invisível", isto é, do que vivenciem na cultura e no ambiente da faculdade e nas atitudes e procedimentos das suas autoridades e professores, os quais deverão formar e educar com o exemplo.  Que tenha plena consciência de que o privilégio de ter tido acesso à universidade, especialmente se for pública e gratuita, outorga-lhe mais deveres que direitos, especialmente o dever de retribuir à sociedade o beneficio recebido, assumindo o compromisso social de transformar - em vez de reproduzir ou perpetuar - as ineficiências e adversas realidades imperantes no meio rural.

 

 

 

2.         Que esteja consciente de que deve promover uma agricultura sustentável que conserve e recupere a fertilidade do solo; igualmente que esteja muito consciente de que os rendimentos e a renda dos agricultores atuais e futuros dependem em grande medida de tecnologias que ao melhorarem as condições físicas e biológicas do solo (além das químicas) mantenham a sua alta capacidade produtiva; que esteja consciente de que as atividades agrícolas, pecuárias ou florestais não podem ser encaradas como se fossem uma simples mineração ou extrativismo de recursos naturais, e que conseqüentemente deverá manejar (e não apenas extrair) de forma racional, integrada e sustentável os recursos existentes nas bacias hidrográficas, no solo, na água e na floresta, com todos os seus componentes; que priorize o uso de tecnologias limpas e brandas e que os fatores que eventualmente possam causar dano aos seres humanos, aos recursos naturais e ao meio ambiente sejam evitados ou utilizados em forma prudente, Oxalá como último recurso; que na medida do possível privilegie e/ou priorize as tecnologias biológicas e agronômicas sobre as químicas e mecânicas; que em zootecnia outorgue maior prioridade: i) à higiene, manejo e alimentação do rebanho antes de propor a aquisição de animais de alto potencial genético e à construção de instalações sofisticadas; e ii) à alimentação a base de pastagens melhoradas e rações autoproduzidas.  Enfim, um profissional que esteja formado para fazer a difícil compatibilizarão entre sustentabilidade econômica, social e ambiental.

 

 

3.         Mais generalista para que tenha a capacidade técnica que lhe permita diagnosticar e solucionar em forma holística os problemas tecnológicos, gerenciais e organizacionais das distintas etapas do negócio agrícola; que saiba fazê-lo em sua globalidade, dentro e fora das porteiras das propriedades.  A propósito, solicita-se não confundir generalista com superficialista ou "todólogo"; porque, agora muito mais que antes, a agricultura requer profissionais do mais alto nível que tenham a flexibilidade e o engenho que lhes permita desempenhar-se dentro da incerteza, da adversidade, da escassez e ainda assim competir com a agricultura fortemente subsidiada e protegida dos países subdesenvolvidos.  Propõe-se formar generalistas porque não convém sacrificar a grande maioria dos egressos, ensinando-lhes na graduação conhecimentos muito especializados porque estes geralmente são requeridos por uma pequena minoria, a qual poderá adquiri-los nos cursos de pós-graduação.

 

4.         Em virtude das diferentes potencialidades e restrições dos distintos estratos de agricultores de cada país, o profissional deverá ter a versatilidade e o ecletismo para desempenhar-se com igual eficiência com produtores de distintas disponibilidades de recursos, níveis tecnológicos e escalas de produção.  Isto significa que o profissional de ciências agrárias deverá conhecer os conceitos, critérios, princípios e métodos (não necessariamente as receitas) que lhe permitam, de acordo com as circunstâncias de cada caso:

 

-          utilizar qualquer tipo de insumo ou equipamento, desde o autoproduzido na propriedade até o mais sofisticado, porque os países da América Latina necessitam utilizar todos eles para poder inserir-se com êxito nos mercados internacionais que são cada vez mais competitivos;

 

 

-          formular distintos níveis de alternativas tecnológicas, desde a mais elementar até a mais complexa que utiliza a agricultura empresarial moderna.

 

 

Em qualquer dos dois casos deverá ter o espírito crítico, o discernimento, a consciência e a honestidade profissional para escolher casuisticamente as tecnologias mais adequadas às conveniências, necessidades e possibilidades dos agricultores (e não tanto ao interesse de quem fabrica e comercializa insumos e maquinaria).

 

5.      Que seja realista e pragmático no sentido de saber solucionar os problemas dos agricultores “tais como eles são" e com base nos recursos que eles realmente possuam ou possam adquirir, mesmo que estes sejam muito escassos, porque os países necessitam que todos os seus agricultores introduzam inovações para tornarem-se muito mais eficientes, em beneficio deles mesmos, da sociedade e da economia nacional.

 

   6.      Que seja criativo e engenhoso para que saiba encontrar soluções inovadoras, mesmo que as condições físico-produtivas das granjas sejam adversas, os recursos de capital sejam limitados e os agricultores não tenham acesso ao crédito oficial, porque estas são, infelizmente as circunstâncias que caracterizam  mais de 90% dos agricultores da América Latina[1].

 

 

Em virtude deste altíssimo percentual de excluídos, o profissional deverá dominar com muita competência, especialmente a correta e eficiente aplicação das tecnologias de baixo custo e mínima dependência de insumos externos, de modo que o mais pobre e marginalizado dos agricultores possa ter oportunidades de adotar tecnologias mais produtivas, de forma paulatina e autofinanciada; igualmente deverá estar conscientizado e capacitado para promover o cooperativismo e outras formas solidárias e associativas para solucionar aqueles problemas que muitos agricultores, devido à sua fragilidade e pequena escala, não estão em condições de resolvê-los de forma individual. (Solicita-se ver ponto 8, item vii, página 7). O profissional deverá ter criatividade para ser um eficiente formulador de soluções, além de um hábil executor das mesmas; que saiba criar soluções adequadas e levá-las à prática de forma crítica e consciente para que não seja um eficiente aplicador de tecnologias equivocadas; que saiba aplicar soluções convencionais para problemas conhecidos, mas também formular alternativas novas para problemas desconhecidos ou emergentes.

 

7.           Que creia mais na eficácia das soluções da engenharia, da agronomia, da zootecnia e da medicina veterinária, que nos créditos, subsídios, protecionismos, decisões políticas, leis, etc.; porque estes, mesmo que sejam desejados, estão fora do controle do profissional de ciências agrárias.  Esta atitude lhe outorgará a autoconfiança anímica e a auto-suficiência técnica para que possa assumir como sua a responsabilidade de solucionar -junto com os agricultores - os problemas do setor agropecuário, em vez de omitir-se assumindo cômodas atitudes exculpatórias e inculpatórias; que se sinta comprometido e socialmente responsável de corrigir as distorções tecnológicas, administrativas e organizacionais da agricultura; e também as inércias e ineficiências que caracterizam algumas instituições que apóiam o desenvolvimento do setor agropecuário, com por exemplo, as cooperativas,  as estações experimentais, as associações de agricultores e as agências de extensão rural[2].  A agricultura é uma atividade econômica (não apenas produtiva) e como tal necessita de um profissional identificador de oportunidades, solucionador de problemas e gerador de renda para quem contrate o seu serviço técnico.

 

           

8.           Com conhecimentos, habilidades, destrezas e aptidões práticas que lhe permitam executar com eficiência e perfeição as atividades agrícolas e solucionar os problemas mencionados a seguir, porque são eles (e não necessariamente a falta de créditos e subsídios) que estão impedindo que os agricultores tenham rentabilidade e competitividade:

 

i)       como obter os fatores de produção a preços ou custos mais baixos;

 

ii)      como produzir eficientemente para aumentar rendimentos, reduzir custos e melhorar a qualidade das colheitas;

 

iii)     como diversificar as espécies agrícolas e integrá-las com as pecuárias também diversificadas, com o propósito de ocupar a mão-de-obra familiar e gerar renda durante todo o ano, de reduzir a dependência do crédito e de evitar desnecessários riscos de clima, mercado, pragas e enfermidades;

 

iv)     como administrar as propriedades para evitar superdimensionamentos e subtilização estacional dos recursos nelas existentes;

 

v)      como processar e conservar os produtos agrícolas para incorporar-lhes valor, reduzir perdas pós-colheita e adiar a venda para épocas de menor oferta, quando os preços se elevam;

 

vi)     como comercializar os excedentes com menor intermediação para obter melhores preços no mercado;

 

vii) como organizar as comunidades com objetivos empresariais para que os agricultores constituam os seus próprios serviços e através de mecanismos solidários não paternalistas reduzam os custos dos investimentos e facilitem a solução dos seus problemas comuns (de mecanização, inseminação artificial, processamento primário das colheitas, produção de sementes e mudas, elaboração de rações, etc.)

 

Além de saber formular e executar o incluído nestes últimos sete itens, é necessário que o profissional esteja consciente de que numa agricultura competitiva já não é suficiente que os agricultores adotem cada uma delas de forma isolada, medíocre ou esporádica.  Por tal motivo, durante o seu período de formação o futuro profissional deverá adquirir a consciência, a disciplina e o hábito de adotá-las todas, com máxima eficiência e sempre, procurando atingir o duplo objetivo de qualidade total e custo mínimo.

 

9.         Que sem perder o seu espírito crítico tenha uma mentalidade mais aberta, neutra e pluralista para não cair em preconceitos, maniqueísmos e polarizações entre:

 

 

-      agricultura familiar x agricultura empresarial

-      agricultura orgânica x revolução verde

-      tração animal x mecanização

-      controle biológico de pragas x controle químico

-      tecnologias autóctones x tecnologias de ponta

-      setor público x setor privado

-      tecnologias de processo x tecnologias de produto

 

Que compreenda que ambas opções de cada uma destas matérias tem debilidades e fortalezas, e que saiba tirar proveito dos aspectos positivos (antes de criticar os negativos) que todas estas opções oferecem; que esteja consciente de que a heterogênea agricultura de cada país necessita de todas estas alternativas tecnológicas e empresariais, desde os adubos orgânicos, rações autoproduzidas e tração animal até as plantas transgênicas , transplante de embriões , plantio direto, irrigação com pivôs centrais,  agricultura de precisão, etc.). Que não “ideologize” e não politize desnecessariamente os problemas da agricultura, porque na maioria dos casos os seus baixíssimos rendimentos, por unidade de terra e de animal, demonstram por si sós, que eles são conseqüência de erros primários para cuja correção se requer muitíssimo mais de tecnologias e de capacitação, que de concepções ideológicas e de retóricas formulações políticas; que esteja consciente de que a falta de políticas, por desejáveis e desejadas que sejam, não pode e não deve servir de justificativa, desculpa ou pretexto para continuar postergando ad infinitum a correção de muitíssimas distorções, as quais, devido à sua elementalidade e baixo custo reconhecidamente não dependem de decisões políticas.  Deve estar consciente de que os principais  problemas da maioria dos agricultores são de natureza tecnológica, gerencial e organizacional; e conseqüentemente deverão ser solucionados preferentemente pelos profissionais das ciências agrárias nas propriedades e nas comunidades que pelos políticos nas tribunas dos parlamentos.

 

10.      Que, acima de tudo saiba produzir e administrar o negócio agrícola com eficiência porque esta é a essência e a razão de ser do profissional agrário; se não é tecnicamente competente para produzir e administrar com eficiência, de pouco serve que tenha profundos conhecimentos sobre cálculo integral e infinitesimal, estatística, meio ambiente, ciências sociais, macroeconomia, etc.  Ao contrário do que costuma afirmar-se, este requisito de aprender a produzir produzindo com eficiência é necessário para todos os egressos e não apenas para aqueles que se dedicarão a administrar propriedades ou a exercer extensão rural.  Como poderá um professor universitário ou agrotécnico, um formulador de políticas agrícolas ou um pesquisador oferecer uma contribuição significativa para melhorar a eficiência produtiva, se durante a sua passagem pela faculdade, não teve a oportunidade de produzir com eficiência e não vivenciou as verdadeiras dificuldades que os agricultores enfrentam para fazê-lo?  Os produtores, sejam pequenos, médios ou grandes, necessitam de um profissional que lhes proporcione as tecnologias e a capacitação que eles requerem para ganhar dinheiro fazendo agricultura; e será virtualmente impossível atingir este objetivo enquanto os agricultores não forem apoiados   por   pragmáticos   planejadores, docentes,  pesquisadores e extensionistas, os quais  ao ter aprendido na faculdade a produzir e administrar com eficiência saibam que aportes deverão fazer, desde os seus distintos âmbitos de especialização,  para eliminar os erros produtivos e gerenciais que a grande maioria dos produtores atualmente comete.

 

11.      Que tenha uma atitude mais positiva e construtiva no sentido de:

 

a)  buscar as oportunidades e potencialidades de desenvolvimento existentes nas propriedades e comunidades [3] em vez de limitar -se a identificar apenas as restrições e ameaças.

 

 b) utilizar na plenitude das suas potencialidades (no tempo e no espaço) os recursos endógenos existentes nas propriedades, antes de adotar o caminho mais fácil de solicitar o aporte de recursos adicionais;

 

c)  formular e aplicar soluções em vez de limitar-se comodamente a diagnosticar os

problemas  existentes;

 

d)   priorizar os problemas solucionáveis com as "ferramentas” da sua profissão, em

vez de omitir-se enfatizando aqueles que devem ser resolvidos por terceiros;

 

e) evitar as causas dos problemas antes de corrigir suas conseqüências.  No caso específico do profissional de medicina veterinária é necessário que seja ainda mais conscientizado de que deverá privilegiar as medidas que evitem que os animais adoeçam (através de ações profiláticas e preventivas porque são de menor custo, aplicação mais fácil e maior eficácia) sobre as medidas curativas. O médico veterinário deverá estar muito advertido de que ao diminuir a morbidez dos animais, através das emancipadoras medidas preventivas, estará reduzindo não só a mortalidade, mas também contribuindo para que o pecuarista tenha rentabilidade e competitividade, através do caminho mais pragmático que consiste em reduzir os custos de produção e melhorar a qualidade dos produtos que oferece ao mercado.  Deverá outorgar maior prioridade às medidas preventivas, as quais com custos mínimos, evitam aqueles problemas que com maior freqüência afetam aos animais (e economicamente aos pecuaristas), como por exemplo as parasitoses e as enfermidades infecciosas, nutricionais e reprodutivas.

 

12.      Que tenha plena consciência de que o êxito econômico do agricultor depende de que ele seja muito eficiente em todos  os  elos  do   negócio   agrícola.   Para que possa oferecer   uma melhor contribuição ao referido êxito é necessário que o egresso tenha mentalidade e formação empresarial, espírito empreendedor e possua sólidos conhecimentos não só em tecnologias de produção, mas também em administração rural e agronegócios, armazenagem e conservação, processamento agroindustrial e comercialização de insumos e produtos; porque todas estas contribuições são as que o agricultor necessita para seguir o único caminho realista que o conduzirá ao êxito econômico da sua empresa, seja pequena, média ou grande.  Este caminho realista consiste em reduzir ao mínimo os custos unitários de produção e simultaneamente incrementar ao máximo os preços de venda dos excedentes.

 

13.      Que, além de respeitar os conhecimentos e ouvir as interpretações que lhe apresentam os agricultores, saiba ver aquelas potencialidades, oportunidades e soluções que os produtores não conseguem ver; que seja  um questionador e crítico das adversas realidades do campo e não um legitimador ou perpetuador das mesmas; que saiba diagnosticar os problemas reais em vez de identificar apenas os problemas aparentes, porque muitos agricultores costumam confundir causas com efeitos.

 

14.      Que ante a evidente redução do emprego público esteja preparado para empregar-se no exigente setor privado ou conquistar o seu próprio espaço de trabalho como empresário, sócio de grupos de agricultores ou agente privado de assistência técnica, cujo honorário deverá ser pago com parte da renda adicional que o agricultor obtenha graças ao seu eficiente assessoramento. O profissional deverá demonstrar nos fatos que a relação custo/beneficio da sua assistência técnica é muito favorável ao agricultor; se não conseguir fazê-lo, simplesmente nenhum produtor o contratará.

 

15.      Que priorize o incremento da geralmente muito baixa produtividade dos fatores de produção que os agricultores já possuem antes de solicitar que se lhes proporcionem os referidos fatores em maior quantidade; que priorize os insumos intelectuais sobre os insumos materiais de modo que, na medida do possível, os primeiros antecedam, substituam ou potencializem os últimos; que esteja preparado para identificar e corrigir as ociosidades, superdimensionamentos e desperdícios de recursos que em forma permanente ou estacional ocorrem nas distintas etapas do negócio agrícola.  Que jamais perca de vista que o mais decisivo e determinante fator de produção é a família rural; conseqüentemente, o incremento da sua produtividade e a sua plena ocupação durante o ano inteiro, através de uma agricultura diversificada e verticalizada, deverão receber especial prioridade.

 

16.      Que tenha como importante objetivo o de profissionalizar os agricultores, transformando-os em eficientes (ainda que sejam pequenos) empresários com a finalidade de emancipá-los daquelas dependências externas que são reconhecidamente evitáveis ou desnecessárias; e através da formação de grupos solidários e associativos, torná-los mais autodependentes, auto-suficientes e autogestores.  A ação do profissional deverá ser preferentemente emancipadora de dependências e não perpetuadora das mesmas;  com este propósito emancipador, sempre que seja recomendável, o profissional deverá propor pastagens melhoradas e rações autoproducidas antes de rações industrializadas, medidas preventivas antes de curativas, rotação com leguminosas inoculadas antes de fertilizantes nitrogenados sintéticos, diversificação antes de crédito, sementes de variedade antes de híbridos, etc.  Se não for possível emancipá-los, será necessário, pelo menos, diminuir a sua vulnerabilidade às externalidades que lhes são adversas.

 

17.      Que tenha a humildade de iniciar a tecnificação da agricultura com o possível (com os recursos que existem nas propriedades e com tecnologias que possam ser adotadas com menor dependência de recursos externos) como estratégia para promover uma modernização democrática, gradual e autofinanciada.  Esta gradualidade (no tempo e no espaço, qualitativa e/ou quantitativa), ao permitir que os recursos necessários para financiar as etapas mais avançadas de tecnificação, sejam autogeradas nas próprias granjas, é uma interessantíssima e realista estratégia para que a crônica insuficiência de crédito não continue constituindo-se em um motivo real ou uma simples escusa para justificar "porque" os agricultores não tem acesso à tecnificação (com relação ao mencionado nos pontos 16 e 17 se solicita ver a nota de rodapé n° l).

 

18.      Que perca sua timidez, saiba comunicar-se em forma escrita e oral com qualquer público, e que esteja muito bem formado para obter máximo proveito da oratória, dos auxílios audiovisuais, do rádio, da televisão e dos poderosíssimos meios modernos de comunicação; tudo isto para que tenha maior cobertura e êxito como promotor de iniciativas, agente de mudanças e líder mobilizador das enormes potencialidades que lamentavelmente ainda permanecem latentes nos homens, mulheres e jovens rurais e, conseqüentemente, nos seus lares, granjas e comunidades.

 

19.      Que adquira o hábito e a disciplina de exercer o auto-estudo permanente como forma de evitar a rápida obsolescência do conhecimento e de atingir e manter a excelência profissional.  Na faculdade deverá aprender a estudar de forma mais eficiente para obter alto rendimento na assimilação e atualização de conhecimentos durante toda a sua vida; que saiba procurar e selecionar informações e conhecimentos para solucionar problemas novos (não apenas na Internet e nas revistas científicas internacionais, mas também nas estações experimentais, nas propriedades dos agricultores eficientes, nos mercados, nas agroindústrias, etc.) e adaptar-se a situações  imprevistas e cambiantes.  Com o objetivo de que o estudante possa ser o protagonista da construção e apropriação do conhecimento, o domínio do inglês e da computação são imprescindíveis.

 

B.        Medidas que as faculdades de ciências agrárias poderiam adotar

para formar o profissional proposto

 

1 .          Antes de qualquer reforma curricular as faculdades deferiam adotar as seguintes medidas: a) estabelecer mecanismos expeditos e eficazes para que a totalidade dos docentes conheça e vivencie os problemas reais que ocorrem nos distintos elos da cadeia agroalimentar e nos serviços públicos e privados que apóiam o desenvolvimento do setor agropecuano; b) consultar aos demandantes externos (empregadores, líderes dos pequenos, médios e grandes agricultores, representantes das cooperativas e agroindústrias, etc.) e aos ex-alunos; isto é, submeter-se a uma avaliação externa, solicitando aos demandantes a sua opinião sobre a faculdade, sobre as contribuições e serviços que oferece ao setor agropecuário e a qualidade dos seus egressos.  Em função do que os professores diagnostiquem e os demandantes proponham, definir o perfil profissional, o conteúdo das disciplinas, os programas de pesquisa e os de extensão universitária.

 

As faculdades deveriam estabelecer imediatas e fluidas relações com o mundo do trabalho e com o setor produtivo, industrial e comercial da agricultura porque não podem ignorar as propostas das instituições e pessoas para as quais estão formando os seus egressos.  Em certos casos este fluxo bidirecional - com os agricultores, com o setor rural, com os mercados, com as instituições públicas que apóiam a agricultura e com o agribusiness - denunciará um evidente desencontro entre “o que e como” se ensina nas faculdades e os problemas concretos que, na vida cotidiana, enfrentam os ex-alunos, os agricultores e as instituições que os apóiam.  A constatação da escassa pertinência e relevância entre a formação universitária e a demanda rural será, em muitos casos, tão impactante e contundente que nenhum docente poderá continuar ignorando-a e, conseqüentemente o processo de mudanças deverá ser iniciado por todos e imediatamente.

 

Representantes dos demandantes externos recém-mencionados deveriam integrar, com voz e voto, com direitos e deveres[4] os colegiados deliberativos das faculdades, a fim de que exista maior congruência entre as decisões da faculdade e as reais necessidades do setor agropecuário.

 

2.           Ainda que existam outras causas, as faculdades deverão reconhecer que o desemprego de profissionais agrários é uma clara advertência de que eles não estão respondendo adequadamente às atuais necessidades e aspirações dos empregadores públicos e privados, dos agricultores de distintos estratos e da sociedade em geral; outros sinais de alerta são a diminuição do número de candidatos para os cursos agrários e a elevada deserção de estudantes.  As faculdades não podem continuar formando o egresso que elas querem e estão acostumadas a formar, mas sim, devem fazê-lo de acordo com as exigências reais dos empregadores e agricultores.  A referida advertência, além de ser considerada como uma ameaça, deverá ser encarada como um estímulo (no mundo moderno as soluções dependem mais dos profissionais competentes que dos políticos eloqüentes) para efetuar uma ampla e profunda reorientação na formação dos profissionais, à qual deverão aderir de forma ativa e realmente comprometida todos os professores.  As faculdades de ciências agrárias tem o indelegável e urgente desafio de eliminar a seguinte e gravíssima contradição que atualmente ocorre entre uma oferta profissional inadequada e uma demanda rural insatisfeita: por um lado o poder público está gastando parte dos seus escassos recursos na formação de desempregados, entre outras razões, porque os egressos não têm a capacidade técnica para solucionar os problemas dos agricultores “tais como eles são e com os recursos que realmente possuem"; e por outro lado, a maioria destes mesmos agricultores não consegue fazer uma agricultura rentável e competitiva porque lhes faltam exatamente as tecnologias e a capacitação que poderiam e deveriam lhes ser proporcionadas pelos referidos desempregados.

 

As faculdades que não eliminarem esta contradição terão crescentes dificuldades para sobreviver por falta de legitimação da sociedade, a qual tem o direto de exigir que elas demonstrem que são capazes de produzir resultados mais concretos e de solucionar com maior rapidez os crônicos problemas dos agricultores e do setor agropecuário, "tais como eles são".

 

3.         Proporcionar condições para que os estudantes conheçam, convivam e interatuem com a realidade concreta das famílias rurais, das suas propriedades, das suas comunidades, dos mercados, das agroindústrias e dos serviços que apóiam o desenvolvimento do setor agropecuário.  Esta convivência deverá ocorrer desde o primeiro semestre do curso porque não é razoável ensinar aos estudantes a solucionar os problemas rurais se antes disto os alunos nem sequer tiveram a oportunidade de conhecer os problemas que pretendem resolver.  A primeira disciplina do currículo deveria ser "Conhecimento Vivencial da Realidade Rural e do Negócio Agrícola”, a qual deveria ser ensinada no campo com o propósito de que adquiram um conhecimento panorâmico visual e crítico sobre como é e como funciona na prática o setor agrícola e rural, em sua globalidade; que conheçam a floresta antes de aprender a resolver o problema da árvore.  Desde o início do curso os estudantes devem conhecer vivencialmente os acertos e erros que os agricultores e seus empregados cometem no acesso aos insumos, no uso dos recursos produtivos, na aplicação das tecnologias, na administração das propriedades, na armazenagem, processamento e conservação das colheitas e na comercialização dos excedentes.

 

              Durante o seu período de formação deverão aprender a diagnosticar e corrigir os referidos erros (começando com os mais freqüentes, generalizados e elementares os quais normalmente requerem soluções também elementares e de baixo custo - e avançando de forma gradual para os mais complexos, os quais geralmente exigem soluções mais sofisticadas e de maior custo) e a resolver os problemas existentes nos distintos elos da cadeia agroalimentar, inclusive alguns que ocorrem fora das propriedades e comunidades rurais.  A urbanização demográfica da América Latina deverá ser compensada com a "ruralização" do ensino das suas faculdades de ciências agrárias.  Com tal fim seria conveniente que uma grande parte das suas dependências fosse transferida para a zona rural e lá possuíssem instalações para hospedagem e alimentação com o objetivo de eliminar o motivo ou escusa para que os estudantes não permaneçam no campo; porque é lá na zona rural onde deveriam aprender a diagnosticar problemas, identificar oportunidades de desenvolvimento, formular soluções, desenvolver o espírito crítico e a criatividade e valorizar a cultura do trabalho.  A própria realidade rural é o melhor local para captar e absorver conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais e a melhor forma de aprender e reter tecnologias é operando com elas.  A melhor maneira de adquirir sensibilidade e compromisso com a solução dos problemas dos agricultores e com o melhoramento das condições de vida das suas famílias e comunidades é convivendo com as mesmas.

 

4.           Que na medida do possível, o ensino seja feito diretamente no campo, em torno de problemas produtivos, gerenciais ou comerciais concretos (ensino modular, em sistemas de produção através de disciplinas integradoras ou por blocos), em vez de ensinar exclusivamente na sala de aula, no computador e no laboratório, disciplinas de forma isolada[5] e desvinculada de outras matérias e da problemática real dos agricultores; que os estudantes formulem soluções com o seu próprio engenho e executem as práticas com as suas próprias mãos, tantas vezes quantas sejam necessárias até que aprendam a realizá-las com perfeição e rigor, em vez de limitar-se a ouvir e a observar o que dizem e fazem os docentes.  As disciplinas e os seus conteúdos só se justificam na medida em que contribuem a interpretar, questionar e transformar os processos de produção agropecuária e a realidade rural; se não o fazem deverão ser eliminados do currículo e substituídos por outros mais instrumentais que sejam de real pertinência e relevância para a formação e/ou o exercício profissional.

 

5.           Exigir que gradativarnente e durante todo o período de formação os estudantes tenham a obrigação de assumir responsabilidades, ter iniciativas, tomar decisões  e executar todas as atividades e tarefas que normalmente executam os agricultores em todos os elos do negócio agrícola. Estas práticas deverão    ser    efetuadas   não   apenas   nas    unidades    didático-produtivas   da     faculdade[6], mas também nas propriedades eficientes e ineficientes dos pequenos, médios e grandes agricultores, nas agroindústrias e nos mercados.  Durante o seu período de formação os estudantes deverão ser estimulados a formular e executar seus próprios mini-projetos empresariais produtivos para que se exponham a riscos e conheçam os problemas e dificuldades que afetam o negócio agrícola em todas suas etapas e componentes.  Deverão ter oportunidades concretas de: a) aprender as ciências agrárias diagnosticando problemas e suas causas, identificando recursos e potencialidades, formulando soluções, corrigindo erros, produzindo, administrando unidades produtivas, industrializando e comercializando excedentes; e b) fazê-lo com eficiência, perfeição e excelência, a fim de que os estudantes aprendam a "fazê-lo corretamente desde a primeira vez” e desta maneira adquiram o hábito, a disciplina e a satisfação de fazê-lo de forma correta sempre.

 

  6.         Reforçar a função de extensão universitária para outorgar-lhe o mesmo status e importância que se atribui à docência e à pesquisa; não apenas para levar conhecimentos ao mundo exterior à faculdade mas especialmente para trazer ao seu interior os anseios, problemas e necessidades das cúpulas e especialmente, das bases do setor agropecuário; e a partir dos mesmos formular os programas de ensino e pesquisa que contribuam a dar efetivas respostas aos referidos anseios, problemas e necessidades.  Estimular as saídas ao campo e todas aquelas atividades que permitam incrementar a vinculação da faculdade com os produtores e empregadores; valorizar, para efeito de carreira funcional, os professores que executem atividades de extensão e trabalhos de campo que contribuam a solucionar os problemas concretos que afetam a maioria dos agricultores, como instrumento para motivar para que esta importantíssima prática se generalize entre os docentes.  Os critérios para galgar graus acadêmicos de maior hierarquia (professor titular ou chefe de departamento) deveriam privilegiar aquelas atividades que promovem o acercamento da faculdade à realidade rural e não as que contribuem ao distanciamento da mesma.

 

No mundo moderno o valor de um profissional em ciências agrárias se avalia não apenas pelos conhecimentos teóricos e títulos acadêmicos que possua ou pela quantidade de artigos publicados em revistas científicas internacionais, mas também pela sua sólida capacidade teórico-prática de contribuir direta ou indiretamente à solução dos problemas concretos que, cotidianamente, enfrentam os distintos estratos de agricultores e o setor agropecuário em sua globalidade.

 

Os estudantes deverão praticar, no campo, os métodos de extensão para que saibam trabalhar com os agricultores na solução dos seus problemas.  As atividades de extensão deverão formar eficientes agentes privados de assistência técnica, porque este apresenta-se como um campo ocupacional muito promissor para o futuro; evidentemente, que o será para aqueles profissionais que, graças a um excelente assessoramento técnico-gerencial, sejam capazes de incrementar a renda dos agricultores individuais ou agrupados; parte da qual seria destinada ao pagamento dos seus merecidos honorários profissionais.  Nas atividades de extensão as faculdades deveriam envolver as escolas de primeiro e segundo grau situadas nas zonas rurais, com a finalidade de capacitar os professores que nelas trabalham e apoiá-las na adequação dos seus currículos às reais necessidades das famílias rurais; cada escola rural poderia atuar como uma “universidade popular" formadora de uma nova geração de mulheres e homens rurais, os quais ao receberem uma adequada formação valórica e conhecimentos úteis para a vida e o trabalho no campo, teriam as atitudes e aptidões necessárias para assumir como sua a missão de solucionar os problemas que existem nos seus lares, propriedades e comunidades.  Tais escolas poderiam constituir-se em eficientes e econômicas multiplicadoras e capilarizadoras das atividades de extensão realizadas pelas faculdades.

 

7.           A função de pesquisa não só para, mas com os produtores é importante para as faculdades porque através da mesma podem gerar-se soluções aos problemas dos agricultores, enquanto os professores se relacionam e aprendem da realidade produtiva e os estudantes se formam em um processo criativo que permite-lhes aprender a diagnosticar e buscar soluções aos problemas reais e em situações reais dos produtores e das suas comunidades.  Para tal fim a pesquisa deve ter como propósito essencial elevar a capacidade de inovação dos alunos e dos docentes e desenvolver seu espírito crítico e investigativo. 0 tipo, os temas e os projetos de pesquisa que se realizam na faculdade, inclusive as teses de graduação, devem definir-se a partir das necessidades concretas dos produtores, dos seus problemas e desafios reais.  As clássicas teses de graduação poderiam ser substituídas por práticas de campo, estágios pré-profissionais supervisionados ou formulação e execução de um micro ou mini-projeto empresarial que inclua todas as etapas do negócio agrícola.

 

8.           Analisar a conveniência de agregar às três funções clássicas da faculdade a função PRODUÇÃO, devido à sua decisiva importância para a formação e para o exercício profissional dos egressos, uma vez que a sua grande maioria se dedicará, direta ou indiretamente, a melhorar a eficiência da produção agrícola e pecuária.  Uma faculdade que produz (além de ensinar a produzir) com eficiência e excelência terá melhores possibilidades de formar profissionais que, independentemente da sua especialidade ou campo ocupacional, sejam capazes de oferecer uma contribuição mais significativa para o melhoramento da eficiência e excelência da produção agrícola do país.  Esta nova função poderia incluir a produção de bens e serviços.

 

9.           Estabelecer um adequado equilíbrio entre professores em regime de tempo integral/dedicação exclusiva e docentes em tempo parcial para que estes últimos tragam para dentro da faculdade as aspirações, enfoques, problemas e propostas que eles mesmos vivenciam nas instituições públicas e privadas nas quais atuam na outra parte do seu tempo (pesquisa, extensão, agroindústrias, associações de agricultores empresariais, organizações de pequenos agricultores, agências de financiamento agrícola, etc.)

 

10.           Em virtude da extraordinária influência que os professores exercem na formação e no exercício dos egressos e através deles no desempenho de todas as instituições que apóiam o desenvolvimento do setor agropecuário, as faculdades deveriam outorgar máximo rigor na seleção dos futuros docentes para que tenham um exemplar antecedente profissional e/ou grande potencial latente de desenvolvimento, desejo de permanente superação e grande vocação de serviço; porque se os docentes não possuírem estas qualidades pessoais, de pouco servirá proporcionar-lhes oportunidades de capacitação e oferecer-lhes adequadas condições de trabalho.  Por uma questão de coerência, o perfil dos professores deverá ser compatível com o que se está propondo para os egressos.  As faculdades deverão privilegiar a contratação de professores que tenham sido graduados e obtido seus títulos de pós-graduação em outra e preferencialmente em outras faculdades, com o propósito de trazer experiências culturais diferentes da faculdade na qual desempenharão suas atividades docentes.

 

11.       Devido às profundas e rápidas mudanças que estão ocorrendo em todas as tecnologias (químicas, biológicas, agronômicas e mecânicas) e em todos os setores do contexto global da agricultura, as faculdades deverão estimular todos os professores a que analisem objetiva e criticamente os conteúdos das suas disciplinas para avaliar se eles continuam vigentes; e se realmente estão ajustados aos requerimentos da agricultura moderna, a qual exige mudanças profundas para que possa ser feita com eqüidade, sustentabilidade, rentabilidade e competitividade; esta medida deverá ser estendida inclusive àquelas matérias aparentemente distanciadas da vida cotidiana dos agricultores, como por exemplo as ciências básicas; estas deverão ser adaptadas em seus conteúdos para que tenham um caráter mais instrumental de ensinar matemática para solucionar problemas agrícolas, a física para resolver problemas agrícolas, a química para solucionar problemas agrícolas, etc.  Na medida do possível os professores de todas as disciplinas (inclusive das ciências básicas e sociais) deveriam ser profissionais em ciências agrárias ou possuir uma longa experiência vivencial da problemática da agricultura e do setor rural; porque do contrário os docentes não estarão em condições de incluir nos conteúdos de suas matérias o que é essencial para o exercício profissional dos egressos e de eliminar o que é secundário.

 

A adequação do conteúdo de cada disciplina não deverá ser efetuada apenas pelo respectivo docente, mas sim por um colegiado de professores, ex-alunos e demandantes externos, porque se este procedimento não for adotado as modificações dificilmente terão a amplitude e profundidade necessárias; idêntico sistema de colegiado e com a participação de integrantes externos se propõe para a aprovação dos temas que serão objeto de pesquisa, de modo que contribuam a solucionar de maneira efetiva os problemas concretos da agricultura real - e muito especialmente daquela imensa maioria de produtores que se desempenha dentro da escassez de recursos a da adversidade produtiva - e não a responder a inquietações pessoais dos pesquisadores.

 

12.       Considerar que a introdução de novos conteúdos e a dedicação de maior tempo a práticas de campo, deverão ser compensadas com a diminuição das aulas discursivas e com a significativa supressão de conteúdos e atividades de menor importância ou vigência; se esta medida não for adotada, o currículo ficará sobrecarregado de disciplinas e atividades e desta forma os estudantes não disporão de tempo para exercer o auto-estudo (com o objetivo de que eles mesmos construam grande parte da sua formação de maneira mais ativa e autônoma), questionar, problematizar, pesquisar, fazer reflexões, produzir, fazer estágios, iniciar-se no negócio agrícola, etc.  Em virtude do muito que será necessário incluir em termos de conteúdos e atividades novas, os conteúdos antigos que tenham baixa probabilidade de ser utilizados, durante e depois da formação deverão ser sumariamente eliminados, com o propósito de ceder tempo, espaço e recursos para a formação pragmática e realista que exigem os tempos modernos.

 

 

13.         É evidente que para aprender mais e melhor é necessário ensinar e estudar mais e melhor, o que é difícil fazer quando os conteúdos são descontextualizados, as aulas são teóricas, os métodos de ensino são inadequados e o calendário escolar tem apenas oito meses entrecortados por feriados e greves, sejam de professores, funcionários ou estudantes.  A revalorização da cultura do trabalho deveria começar nas próprias faculdades como uma eficaz estratégia para ensinar com o exemplo.  Uma maior carga horária, sem greves e com menos férias contribuiria inclusive a reduzir a duração dos cursos e pouparia recursos, os quais deveriam ser destinados a melhorar a qualidade do ensino, fazendo-o preferencialmente no campo, onde os agricultores enfrentam os seus problemas.

 

 

Três importantes precauções

 

1a.)     É necessário tomar cuidado para não promover mudanças superficiais porque elas apenas contribuem a "continuar fazendo mais do mesmo", como por exemplo:

 

            a)      com a boa intenção de "humanizar” a formação dos profissionais agrários, incluir disciplinas sociais se elas, por serem teóricas, abstratas e irrelevantes, só contribuem a "ideologizar" e politizar os problemas do setor agropecuário e a desviar a atenção dos estudantes da essência da profissão que é promover uma eficiente e sustentável produção agropecuária;

 

b)      levar os estudantes ao campo porém continuar com aulas discursivas, sem exigir que os alunos formulem soluções com o seu próprio engenho e executem as práticas com as suas próprias mãos;

 

c)      incluir no currículo uma disciplina sobre Conhecimento da Realidade Rural e do Negócio Agrícola porém atribuí-la a um docente que ao não ter vivenciado suficientemente os problemas no campo e em todo o circuito agroalimentar, ensina-lhes em sala de aula conhecimentos teóricos que pouco contribuem a proporcionar-lhes uma visão panorâmica dos problemas concretos e cotidianos que enfrentarão durante a sua formação e no seu exercício profissional;

 

d)      incorporar a disciplina de administração rural porém ensiná-la exclusivamente em sala de aula através de tediosos exercícios de contabilidade agrícola ou de simulações nos computadores; urge outorgar maior realismo, pertinência, objetividade e pragmatismo no “que e como" se ensina nas faculdades;

 

e)      incluir no currículo conteúdos sobre os outros elos do negócio agrícola (processamento  agroindustrial, armazenagem, comercialização, etc.) porém ensiná-los de maneira descontextualizada e com os mesmos vícios e distorções com os quais geralmente se ensina a etapa de produção propriamente dita;

 

f)       elaborar exaustivas e bem intencionadas propostas de reformas, aprová-las em cerimônias solenes, incorporá-las ao currículo mas simplesmente não levá-las à prática.  A educação agrícola requer uma profunda e urgente reengenharia não somente nas intenções e nos conteúdos,  mas também na administração das faculdades, nos métodos pedagógicos (incluindo educação não formal, contínua e a distância), na utilização racional dos recursos das casas de estudos e especialmente nos valores, procedimentos e atitudes cotidianas de todos os estamentos universitários.  Mudanças epidérmicas produzirão poucas soluções e muitas frustrações em quem financia as faculdades e em quem na condição de usuário tem o legítimo direito de exigir um profissional adequado às suas necessidades.  A nova formação deverá ir muito além de mudanças no organograma, inclusão de temas emergentes ou aquisição de sofisticados equipamentos de laboratório ou computação que costumam absorver grande parte dos recursos que depois faltarão para levar os estudantes ao campo.

 

2a)      Frente às rápidas mudanças que ocorrem na agricultura e nos mercados, o profissional deverá ter sólidos conhecimentos das ciências biológicas, químicas, físicas, matemáticas, econômicas e sociais porque estas lhe proporcionarão os instrumentos conceituais, fundamentos, princípios e critérios que ele necessitará para formular soluções casuísticas, especialmente quando tenha que oferecer respostas e soluções a realidades cambiantes e imprevistas.  Isto, no entanto, não significa que o currículo deverá estar sobrecarregado com conteúdos teóricos, abstratos, descontextualizados e disfuncionais de matemática, química, física, biologia e ciências sociais.  Seus conteúdos deverão ser criteriosamente definidos de forma colegiada com a participação de pessoas que tenham a experiência de campo que lhes outorgue a idoneidade para selecionar exclusivamente os princípios e conceitos básicos que sejam realmente indispensáveis e relevantes para:

 

i)  a fundamentação e compreensão das disciplinas profissionalizantes;

 

ii) o exercício profissional da maioria dos egressos (não de uma minoria que talvez possa necessitá-los algumas poucas vezes durante a sua trajetória profissional).

 

3a) Alguns dos novos conteúdos e procedimentos que se está propondo incluir no currículo não necessariamente deverão ser objeto de disciplinas adicionais uma vez que poderão ser incorporados de forma capilarizada ou transversal nas disciplinas já existentes. O importante é que estes novos conteúdos tenham um caráter mais utilitário na solução dos problemas cotidianos dos agricultores; que sejam ensinados de maneira tal que os estudantes entendam “para que” os estão estudando e, graças a isto, estejam motivados e interessados em adquirir estes conhecimentos instrumentais; e que outorguem muito mais ênfase à aplicabilidade do que o estudante aprendeu que a sofisticação do que o professor ensinou.

 

Reflexão final

 

“As universidades do mundo não podem esquecer que enquanto elas tem disciplinas, a sociedade fora delas tem problemas e a função da Universidade é colocar estas multidisciplinas a serviço da solução dos problemas do mundo”.  

 Alfonso Borrero, sacerdote jesuita colombiano.

 

Observação

 

Documentos sobre educação agrícola superior que ampliam e aprofundam esta proposta poderão ser solicitados ao autor, dirigindo-se aos seguintes endereços de Emails: Polan.Lacki@uol.com.br  e  Polan.Lacki@onda.com.br 

Telefone: (041) 32432366  96021239  Curitiba - Paraná  

 

 

Página Web de Polan Lacki :  http://www.polanlacki.com.br

 

 

 


 
Fonte: Polan Lacki
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