Lobo: Meu cachorro, por Osvaldo Piccinin

Publicado em 03/06/2013 15:13
Por Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS.

Meu pai sempre gostou de um bom animal de sela - cavalo ou mula e um cachorro para ajudá-lo na lida do gado. Lembro-me que nosso primeiro cão chamava-se Tarzan, por sinal, muito inteligente e dócil com a família. Ficou em nosso convívio por quatro anos até ser atropelado por um caminhão.

Sua morte, de forma traumática, foi sentida por toda família e para suavizar a tristeza ganhamos outro – um cruzamento de pastor alemão com vira- lata, mas não menos ativo, brincalhão e querido que o Tarzan.  Foi batizado pelo nome de Lobo.

Muitas vezes o fazíamos de travesseiro no quintal de casa, outras o mandávamos buscar objetos esparramados – principalmente chinelos. Não demorou muito e o Lobo ganhou o carinho e a confiança da família. Todas as vezes que meu pai chegava da roça chamava - o para ajudar a tirar carrapichos grudados nas pernas da calça -, tarefa que fazia com muita eficiência e rapidez.

Na lida do gado era campeão. Agarrava uma rês pelo focinho e só largava quando meu pai gritava seu nome com firmeza. Era um excelente reprodutor, demonstrou isso ao cruzar com uma cadela do vizinho - onde nasceu uma bela ninhada, digna de uma foto preto e branco que apesar de desbotada, guardo - a até hoje.

Numa tarde, ao cair da noite, meu tio foi até nossa casa fazer uma reclamação sobre o mau comportamento do nosso cachorro – havia matado duas de suas galinhas. Era tudo o que eu não queria ouvir, pois eu conhecia o temperamento e principalmente o caráter do meu pai em relação a não admitir coisas erradas que pudessem causar prejuízos a outrem.    

Ao despontar na porteira, corri contar-lhe a tragédia. Claro, - de forma sutil, acreditando que meu velho deixaria isso pra lá, mas foi em vão.  Aplicou-lhe uma tremenda surra de fazer dó. Parecia que as chibatadas eram em minhas costas -, que pena eu sentia! Na roça a gente sabia - uma vez adquirido este costume, jamais o perderia e tantas outras galinhas seriam mortas.

Passaram-se três meses e tivemos a impressão que o Lobo tinha aprendido a lição, mas que nada – lá vem meu tio novamente, desta vez o danado tinha matado mais duas galinhas. Aí o bicho pegou!  

Meu pai morrendo de raiva e vergonha pediu que entrássemos em casa, porque queria ter uma conversa particular com o cachorro, - não irei surrá-lo fique tranqüilo, apenas terei uma conversa curtinha com o Lobo - nos disse.

Fiquei escondido atrás da porta para ouvir a tal conversa, mas ao apanhar a espingarda pressenti cheiro de tragédia no ar. Eu não queria acreditar na sua coragem de fazer aquilo com o nosso estimado cachorro, apesar de todas suas artes.

 Sentado no terreiro com a língua de fora, como estivesse me esperando para brincar – assim fazíamos todas as tardes, levou um tiro certeiro no peito e se foi nossa riqueza!  Todos choraram muito, inclusive meu pai - e um rastro de tristeza impregnou nosso lar por vários dias.

Para mim foi um grande choque, e até hoje fico me perguntando qual seria outra forma de puni-lo sem ter de sacrificá-lo. Mas todos confirmaram os dizeres de meu pai, na ocasião, que olhando nos meus olhos disse: - filho, infelizmente, não teve outra saída, pois ele jamais deixaria este costume e continuaria nos envergonhando para sempre, vamos arrumar outro cão, amanhã mesmo. E assim foi feito.

E VIVA O LOBO!

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Fonte:
Osvaldo Piccinin

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3 comentários

  • DIOTOKO KIAM Campinas - SP

    Muito interessante e triste esta historia.Como o senhor,cresci no meio rural vivenciando os mesmos fatos narrados nesta e outras cronicas.Coincidencias a parte,tb tivemos um cachorro,meio vira-lata/policial,tb chamado Lobo que entrou em nossa vida a troco de uma cerveja paga ao antigo dono,em hora bem propicia,pois ja haviamos tido duas visitas indesejaveis, assim estavamos a procurar um cachorro de guarda.Esse nosso Lobo era cinzento puxando ao pastor alemao,porte bem avantajado,chegou a bordo de uma carroca e foi amarrado perto da casa,motrou-se arredio,e contrariado,pois era criado livre seguindo o dono pela cidade,mas apos alguns dias se acostumou com a familia.Apos algum tempo,resolvemos solta-lo para aliviar um pouco sua angustia de estar acorrentado,assim que se viu livre,passou a perseguir as galinhas,como que descontar nelas o fato de ter que ficar preso,creio que ficamos com umas tres galinhas a menos ate que ficou resolvido que so soltariamos o Lobo ao escurecer depois de todos galinaceos empoleirados,o que passou a ser feito todas noites e ele deixou de perseguir/matar galinhas,mesmo estando solto parte do dia,salvando-o deu tragico fim como o Lobo da cronica.

    Tb um conhecido,dono de caes e galinhas de fundo de quintal,tem um fox paulistinha que matou uma galinha pesando o dobro dele e como castigo ficou amarrado arrastando essa galinha morta por alguns dias,esse conhecido garante que o tal fox nem se aproxima das penosas,deixando-as sossegadas.

    Muito Obrigado,

    Kiam,MD

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  • manoel carlos ferreira Salto - SP

    Caro Osvaldo,

    Parabéns pela crônica.

    Ao ler seu texto lembrei-me de muitos fatos semelhantes, ocorridos nos meus tempos de criança, em Santo Antônio da Platina - Pr. Essa era a regra, cão ladrão, matador de galinhas, morte certa, salvo, se algum compadre bondoso surgisse e levasse o cão para "os cafundó do Judas" com garantia que ele não mais retornasse à casa - senão: morte!

    Como Engenheiro Agrônomo UFPR 1973 CURITIBA (temos algo em comum além de cão Tarzan), hoje pecuarista, vivi há oito anos situação muito parecida como a de seu cão Lobo, neste caso o meu chama-se Tarzan, um cruzamento tricross de Rotiwailler com Pastor Belga e Doberman - veja só que cruzamento cruel. Tarzan, pelagem negra, porte enorme, pintas amarelas acima da sombrancelha, aos dois anos desandou a matar galinhas nos arredores da sede da fazenda, não havendo tela nem cerca que o segurasse. Assessorando-me com um tio, caçador das antigas, ex dono de matilhas de cães caçadores - a sentença: mate-o ou mande-o prá muito longe, sentenciando: " Este está perdido". Voltei pra casa decidido, tentaria em curtíssimo prazo doá-lo para bem longe, ou lhe daria um tiro. Na noite dessa decisão, deitado ouvia seu latido forte, corajoso e decidido, avisando que ali havia uma fera e que ninguém se aproximasse. Fiquei a imaginar: tirante o defeito de matar galinhas, tinha tudo que eu desejava: Cão dócil, obediente, corajoso, vivia solto no quintal enorme da sede da fazenda, convivência fácil com visitantes, bravo com estranhos do portão pra fora. Perdi na mesma hora a coragem de doá-lo e ainda mais, matá-lo.

    Na manhã seguinte, dois funcionários trabalhavam próximo à sede, quando vi-os arrumando uma cerca elétrica do pasto de bezerros: Bingo! Cerca elétrica é o nome da solução, pois até tatu alguns amigos afastam de suas hortas com o choque! Em duas horas de trabalho já tínhamos um fio de arame em toda a volta da sede, na altura aproximada da forma que um cão passa por debaixo de alambrados. Liguem o choque, soltem o Tarzan até então amarrado, sentenciei. Foram dois ou três minutos e o primeiro e único grito. Em segundos o Tarzan volta da cerca, onde estava acostumado a escavar e então, por debaixo de minhas pernas pedia socorro, sem entender o que se passara. Foi a melhor coisa que poderia ter feito, a cerca elétrica com dois fios, aparelho desses apropriados, com choques rápidos e entrecortados, sem contra indicação, inclusive para meus dois netos, Enrico e Pedro, que podem desfrutar do Tarzan livremente. Saio com o cão sempre e tangencio galinheiros nossos ou de vizinhos, ele demonstra muita vontade de atacar, mas desiste ao menor sinal do dono. Resolvi o problema, o Tarzan fica em um hectare da sede solto, cuidando da casa, nunca mais tive que pagar por galinhas aos vizinhos, nem passar vergonha pelo cão. Só uma coisa, gato na sede é gato morto. Em oito anos, todo gato que invade o espaço do Tarzan é liquidado e enterrado. Estamos tentando melhorar esse aspecto, mas ainda sem progresso - já contamos treze gatos, mas aí já é querer demais, não é? Que o digam Tom e Jerry.

    Cordialmente.

    Manoel Carlos Ferreira

    Fazenda Raízes

    Joaquim Távora - Paraná

    E mail: [email protected]

    Fone: (43) 3559 1154

    Cel: (11) 99958 1601

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  • CRISTIANE MAIDANA CORREIA Ponta Porã - MS

    Me emocionei... tenho 13 cachorros e sou apaixonada por eles. Cristiane

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