Meu avô era uma figura, por Osvaldo Piccinin

Publicado em 18/06/2013 16:33 e atualizado em 19/06/2013 13:02
Por Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS.

Meu avô materno era um calabrês muito simpático, amoroso, educado e bastante ingênuo nos negócios. Nunca aprendeu a ler e nem escrever. 

Passou a vida inteira carregando uma sanfona pra baixo e pra cima na esperança de um dia aprender à tocá-la como num passe de mágica. Nunca aprendeu uma única música por inteiro. Sua canção preferida era  uma tal de “pé de anjo”, que só ele conhecia.

Chamávamos de “nono” para diferenciar do avô paterno.  Como grande contador de “estórias”, passava um dia todo engambelando-nos sem, no entanto repeti-las. E como ele era engraçado e interessante! Para nós -, uma diversão ficar ao seu lado, por horas a fio, sentados no terreiro do sítio ou na soleira da porta.

Verdade seja dita, não gostava muito de trabalho pesado, mas durante sua vida trabalhou um tempo como condutor de carro de boi, armeiro e depois mais velho, como consertador de guarda chuvas. Todo mundo pegava muito em seu pé, por ele gostar de uma cachacinha. 

Um dia ao chegar à nossa casa, para passar uma temporada, foi logo dizendo ao meu pai: - Dito, larguei de beber. Faz dois meses que não coloco cachaça na boca. Já bebi minha cota neste mundo!

Meu pai elogiou sua atitude, mas logo em seguida o viu tomando conhaque. - Mas o senhor não parou de beber? Mais que depressa respondeu: - Larguei de beber cachaça, como eu disse, porque é muito forte, mas conhaque é fraquinho - não faz mal nenhum.

Eu achava gozado ele receitar “garrafadas” para as pessoas como remédio, pois todas suas receitas continham cachaça e curavam qualquer doença. Uma garrafa com cobra dentro me chamava atenção, sobremaneira. Esta, segundo ele, curava de tudo. Até mal olhado.

Quando menino enterrou um cabrito de cabeça para baixo para vingar um “carreirão” tomado do infeliz. Outra ocasião cismou de imitar o vôo dos pássaros adaptando uma folha de zinco nos braços e saltando de um barranco em declive. Se tivesse conseguido voar, eu seria neto de alguém famoso, algo assim como os descendentes de Santos Dumont ou o neto do precursor que inventou a asa delta.  

Numa outra vez, segundo ele, nasceu um cabritinho sem ânus, e o bichinho berrava muito e inchava a cada dia, até que meu sábio avô, num gesto humanitário notou a anomalia no bodinho. Não teve dúvida, com um canivete de picar fumo, fez o serviço de desobstrução do canal “bostérico”, mas foi em vão, pois o bichinho veio a óbito.

Já no final de sua vida, sentado na varanda de casa fumando seu inseparável e fedorento cachimbo, perguntei-lhe: - Nono o senhor tem medo de morrer?
- Não tenho meu filho, porque a morte não é este espantalho que se fala. A própria natureza nos ajuda a morrer, assim como nos ajuda a viver.  

Confesso que me surpreendi com sua filosofada, apesar de não ter entendido nada naquele momento.

E VIVA OS CAUSOS DO MEU AVÔ!

Contato: [email protected]

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Fonte:
Osvaldo Piccinin

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1 comentário

  • Marcel Franklin Rafael Terra Boa - PR

    Não tive um avô assim, mas convivi com um senhor que trabalhou para a minha família desde antes de eu nascer que era muito engraçado. Na verdade eu considerava ele mais do que um avô, era amigo. Passávamos todos os dias juntos na nossa propriedade, e era risada o dia inteiro. Muita saudade do velho Nagir Sgrinholi. Deus o levou para alegrar o céu. Aguardo o momento de reencontrá-lo.

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