Por que os Estados Unidos fracassaram?
Por que os Estados Unidos fracassaram
“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar.”
Copiado em18 DE JULHO DE 2012 – Outras Palavras
http://ponto.outraspalavras.net/2012/07/18/por-os-estados-unidos-fracassaram/
Este livro aponta as principais ilusões norteamericanas e como sua soberba e política externa gereram tanta crise, tanto ao mundo quanto a si
Por Paulo Nogueira, em seu blog
Morris Berman, 67 anos, é um acadêmico americano que vale a pena conhecer.
Acabo de ler “Por Que os Estados Unidos Fracassaram”, dele. A primeira coisa que me ocorre é: tomara que alguma editora brasileira se interesse por este pequeno – 196 páginas — grande livro.
A questão do título é respondida amplamente. Você fecha o livro com uma compreensão clara sobre o que levou os americanos a um declínio tão dramático.
O argumento inicial de Berman diz tudo. Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar.
Berman cita um episódio que viu na televisão. Uma mulher desabou com o rosto no chão em um hospital em Nova York. Ela ficou tal como caiu por uma hora inteira, sob indiferença geral, até que finalmente alguém se movimentou. A mulher já estava morta.
“O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade”, diz Berman. “Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior.”
Berman afirma que você sente no ar um “autismo hostil” nas relações entre as pessoas nos Estados Unidos. “Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro.”
O americano médio, diz ele, acredita no “mito” da mobilidade social. Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa “alucinação”, em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de 60 bilhões de dólares, como Bill Gates.
“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de Setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. A nossa política (econômica) interna criou a crise mundial de 2008.”
A soberba americana é sublinhada por Berman em várias situações. Ele cita, por exemplo, uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra americano derrubou por alegado engano um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.
Berman evoca também a Guerra do Vietnã. “Como entender que, depois de termos matado 3 milhões de camponeses vietnamitas e torturado dezenas de milhares, o povo americano ficasse mais incomodado com os protestos antiguerra do que com aquilo que nosso exército estava fazendo? É uma ironia que, depois de tudo, os reais selvagens sejamos – nós.”
Você pode perguntar: como alguém que tem uma visão tão crítica – e tão justificada – de seu país pode viver nele?
A resposta é que Berman desistiu dos Estados Unidos. Ele vive hoje no México, que segundo ele é visceralmente diferente do paraíso do narcotráfico pintado pela mídia americana — pela qual ele não tem a menor admiração. “Mudei para o México porque acreditava que ainda encontraria lá elementos de uma cultura tradicional, e acertei”, diz ele. “Só lamento não ter feito isso há vinte anos. Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos.”
Roma, Sêneca, Demóstentes e a ética na politica
Sêneca, Demóstenes e a ética na política
Em “A Origem do Cristianismo”, Karl Kautsky se refere ao período de decadência do Império Romando, quando a atividade política teria cessado. Nessa época, segundo ele, era moda pronunciar discursos edificantes e fabricar máximas morais. O fim da política e o privilégio das prédicas morais levavam, inevitavelmente, a uma evidente contradição: muitos dos pregadores eram flagrados em desvios graves, morais, semelhantes àqueles que condenavam. O artigo é de Emiliano José. Emiliano José (*)
Eu me impressiono com o clima moralista dominante, com a desqualificação permanente da política, com a elevação da moral à condição de deusa suprema. Homens puros e bons se elevam, e vão limpando o ambiente de tantos seres sujos, pecaminosos, e dados à prática da corrupção. Os pregadores alevantam sua voz tonitruante e condenam todos os que estejam ao lado, e que presumivelmente tenham cometido algum pecado. Nem lhes importa investigar se verdade ou mentira, que aos pregadores basta uma notícia para que saiam a campo e, em muitos casos, a notícia é encomendada, lamentavelmente. Saem a campo cheios de pose, com seus dedos incriminadores, seu verbo incendiário, cheios de razão.
É de hoje, é de ontem, é de anteontem essa prática. Se quisermos nos referir ao Brasil, é só lembrar personagem famoso – Carlos Lacerda, O Corvo –, que não se incomodava em inventar histórias fantasiosas para atacar seus adversários pela imprensa, e seu espírito golpista sempre andava de braços dados com o moralismo udenista, que hoje reaparece no Brasil com toda força.
A tentação é recorrer a Marx e dizer que a história nunca se repete – numa ocasião é tragédia, lá com Lacerda, na sequência, é farsa, como nos dias de hoje, com Demóstenes Torres. A moral e a ética não podem substituir a política. Podem e devem servir de substância a ela, se verdadeiras. São um substrato para o exercício da política, mas não podem e não devem substituí-la.
Em geral, mais cedo ou mais tarde, nessas épocas de tentativa de predomínio do moralismo, da substituição da política pela moral, os pregadores acabam bebendo do próprio veneno. O povo diria que o pregador age como o macaco, que não olha para o próprio rabo. É como se pregasse com tanta insistência o respeito à moral, o bom uso do dinheiro público – o que é absolutamente correto – apenas e tão somente para encobrir a montanha de problemas que ele próprio acumula ao longo de sua existência, quando não a montanha de fortuna adquirida exatamente com os métodos que condena.
O mundo que ele prega – de profundo respeito à ética – é uma exigência para os outros, e vale apenas como aparência para ele. Como defesa, quem sabe. Até que a casa caia e, não raramente, cai. Um fariseu, diriam os cristãos. Quando cai, há os que se assustam, perplexos com tal distância entre o verbo e a vida. É bom precaver-se contra os pregadores, os moralistas. São sepulcros caiados – ainda é a bíblia. É bom compreender que o pecado mora ao lado. Quase sempre. Demóstenes está aí para não deixar ninguém se enganar. Ou exigindo muito mais cautela diante dos pregadores.
Esses dias me caiu às mãos o livro “A origem do cristianismo”, de Karl Kautsky. Caiu às mãos é forma de dizer. Eu o procurei por sugestão de meu amigo Venício Artur de Lima. Valeu a pena. Por muitas razões, que não cabe aqui detalhar. Quanto a essa discussão, lembro-me da remissão que Kautsky faz ao período da decadência do Império Romano, quando, na visão dele, todas as atividades políticas tinham cessado. Nessa época, ainda segundo o nosso autor, “chegou a ser moda pronunciar discursos edificantes e fabricar máximas e historietas morais”.
O fim da política e o privilégio das prédicas morais voltadas à perfeição do indivíduo ou à simples valorização das virtudes individuais levavam, inevitavelmente, a uma evidente contradição: muitos dos pregadores eram flagrados em desvios graves, morais, semelhantes àqueles que condenavam. Vê-se que o problema vem de longe. Como exemplo clássico, Kautsky cita Sêneca, filósofo e preceptor de Nero, um severo crítico da riqueza, da avareza e do amor aos prazeres.
Ainda em vida, no entanto, Sêneca viu um tribuno do Senado acusá-lo de ter acumulado grande fortuna praticando a usura e falsificando testamentos. Deixou, ao morrer, uma fortuna de 300 milhões de sestércios, coisa de 6 milhões de marcos, uma das maiores fortunas da época. Não foi fiel à própria doutrina, como se vê.
E agora o Demóstenes Torres, ora Veja. Não compensa, face ao muito que foi divulgado, sobretudo por blogs progressistas, pela revista CartaCapital e alguns poucos outros veículos, voltar propriamente ao assunto, mostrar a intrincada rede do crime organizado, que envolveu o senador e Carlinhos Cachoeira mais os 200 telefonemas da direção da revista Veja com a inestimável e cúmplice fonte – ele próprio, Cachoeira.
A velha mídia entrou constrangida no assunto, e Veja fingiu que não é com ela, e desfilou de mistérios do Santo Sudário. O que ela deu do assunto beira ao ridículo. O que se deve responder é aonde vamos com esse moralismo udenista, conservador, retrógrado, que vem exatamente de pessoas que não tem nenhum compromisso com a ética em seu sentido mais republicano e filosoficamente mais profundo. Quanta distância entre tudo o que o senador Demóstenes Torres pregava e o que ele praticava cotidiana, sistematicamente.
Temos que discutir política. Temos que colocar a política no posto de comando. Temos que pensar cada vez mais nos instrumentos do Estado de Direito que garantam o respeito ao dinheiro público. Caminhar, como creio estamos caminhando, para um Estado que tenha mecanismos rigorosos de transparência, fiscalização e acompanhamento da aplicação dos recursos provenientes do povo brasileiro. Querer fazer alguém crer que a solução está na soma de virtudes individuais para enfrentar a corrupção é uma mistificação própria dos que não acreditam na democracia.
Ou o Estado de Direito é capaz de frear a corrupção, de acabar com as frequentes tentativas de privatização do Estado, ou, então, a corrupção prosseguirá sem o devido e necessário cotidiano combate. Não são os demóstenes que irão acabar com ela, como estamos vendo. São os mecanismos da política, do Estado de Direito democrático, que podem enfrentá-la, aprofundando a transparência, como tem sido feito pela Controladoria Geral da União, que passou a ter existência efetiva desde o início do governo Lula, quando Waldir Pires, por decisão do presidente, a construiu. E que segue agora, sob o governo da presidenta Dilma.
Se há a pretensão de frear a privatização do Estado, o patrimonialismo, a utilização de cargos do governo para fazer fortuna, trata-se de, com urgência, efetivar a reforma política, garantir o fortalecimento dos partidos políticos com a fidelidade partidária, financiamento público de campanha e voto em lista pré-ordenada, para citar três pontos essenciais.
Como livrar-se da maldição da relação entre o financiador e o financiado? Como evitar que o Congresso seja eleito pelos financiadores privados? Como assegurar que tantos setores do nosso povo, hoje ausentes do Parlamento, possam estar presentes nele? Sem dúvida, com o atual esquema eleitoral, não há chance de um homem do povo, salvo exceções, vir a ser um parlamentar. Onde arrumará o dinheiro para tanto?
Os financiadores privados, para tentar dizer tudo, são procurados, não apenas procuram, e se nem todos aprisionam os candidatos que financiam, boa parte exige contrapartida. Obviamente, participam de um jogo, de uma arquitetura institucional equivocada, que cumpre mudar, para que, afinal, todos ganhem. Tenho convicção de que há empresários que gostariam de trabalhar sob outra modelagem política, que gostariam que os negócios do Estado fossem realizados à luz do dia, de modo republicano, sem a intromissão de outros mecanismos.
Além disso, nosso Parlamento tem a missão de valorizar mais e mais a participação direta do povo. Há uma evidente crise da democracia representativa e, no interior da reforma política, é fundamental pensar mecanismos de intervenção direta do povo que ultrapassem ou complementem o momento das eleições propriamente ditas.
Fora disso, vamos patinar, andar em círculos, ser prisioneiros desse moralismo udenista tardio, vindo de personalidades cujas prédicas entram em confronto direto com suas vidas anteriores e com suas práticas cotidianas atuais. Os que defendem a democracia, os que almejam uma sociedade mais e mais justa, não podem ser reféns de uma discussão rasteira, pobre, fundada nas virtudes ou defeitos individuais desse ou daquele cidadão.
Devem lutar pela continuidade e aprofundamento das mudanças que inegavelmente temos experimentado desde 2003, pela radicalização da revolução democrática em curso no Brasil. Será essa luta que, levada à frente, poderá garantir que haja, de fato, ética na política – que significa, sempre, responder às necessidades da maioria da nossa gente, diminuindo de modo cada vez mais veloz as desigualdades que ainda nos afrontam.
Se é inegável que avançamos muito quanto ao enfrentamento da distribuição de renda sob os oito anos do governo Lula e sob o governo da presidenta Dilma, é também verdadeiro que falta muito que fazer, e para tanto é fundamental que cada centavo do dinheiro público seja aplicado em benefício da população, especialmente daquela mais pobre. É isso que devemos garantir. Isso é a ética na política.
(*) Jornalista e escritor.
Costa: Se o acidente tivesse ocorrido no Brasil
Em defesa do pobre Capitão Schettino
Se o acidente sinistro tivesse ocorrido em mares brasileiros, com certeza várias teses defensivas surgiriam, dada a impressionante criatividade de nossos colegas advogados criminalistas e, com
certeza, muitas delas poderiam ser utilizadas para livrar o capitão do navio da prisão e até para absolvê-lo até pelo STF …é claro:
1. o capitão não abandonou a embarcação pois, afinal, o bote é também uma embarcação;
2. como a rocha é uma ocorrência geográfica natural, o naufrágio foi um simples evento natural sem repercussão para o direito penal;
3. como o cruzeiro estava no raso, não houve naufrágio;
4. não há prova que as mortes ocorreram em razão do acidente;
5. em um governo civil, não deve haver autoridade para o comandante da capitania dos portos sob pena de instalarmos o
estado policial ditatorial militar (tese imediatamente adotada pelo STJ e STF);
6. o capitão é branco e de boa índole;
7. o naufrágio foi um acidente de consumo e os turistas são consumidores. Não há repercussão penal em razão da subsidiariedade do direito penal;
8. é inconstitucional a definição de mar territorial, pois o mar é feito de água;
9. a denúncia é inepta, como todas;
10. qualquer coisa que ocupe mais de uma página, seja chamada de habeas corpus e fale que o capitão é vítima de forças
superiores e mancomunadas, basta. (Sumulada pelo STJ e STF);
11. fugir para o Brasil e alegar que a Itália vive num estado de exceção permanente (Bunga-Bunga State) e que, portanto, seria impossível obter um julgamento justo, sem perseguição política,
nos tribunais italianos (em fase de unificação de entendimento, com participação especial do PT);
12. a prova de que o capitão abandonou o navio é ilícita: gravações interceptadas sem autorização judicial (Sumulada pelo STF);
13. ele foi interrogado por um Procurador da República, e o MP não pode investigar.
14. atipicidade material: os danos causados a embarcação são insignificantes, que inclusive pode vir a ser rebocada e reparada. A quantidade de vitimas fatais (cerca de 30) é insignificante no contexto de 4.000 pessoas. Aplicação do princípio da Insignificância.
15. o comandante tem profissão definida, endereço conhecido e bons antecedentes. A prisão é ilegal. A ofensa ao princípio da dignidade humana contamina toda a investigação e nulifica a ação penal.
16. o comandante foi ouvido sem a presença de advogado, nem mesmo da defensoria pública. Toda a prova colhida a partir daí está prejudicada pela teoria dos frutos da árvore envenenada (também conhecida como princípio do Eden) e não permite oferecer denúncia. Melhor fazer de conta que nada aconteceu.
17. não há gravação visual do capitão entrando no bote e abandonando o navio. Outrossim, como era noite e não havia visibilidade, poderia ter sido qualquer pessoa usando o celular do
capitão e se passando por ele. In dubio pro reo.
18. não há comprovação de que o capitão abandonou o navio dolosamente. O navio adernou (fato público e notório), fazendo com que muitos tripulantes fossem jogados ao mar. Ele não abandonou o navio por vontade própria, foi jogado ao mar
juntamente com o bote. Ausência de dolo. Tem que levar em conta que era sexta-feira 13.
19. se não foi caso de interceptação, mas
de gravação, ainda assim a prova é ilícita, porque obra de agente provocador: o capitão não ligou para o comandante para dizer onde estava; foi o comandante que ligou para o celular do capitão para acusá-lo de estar fora do navio. Prova unilateral, crime induzido, flagrante provocado, crime impossível;
20. as equipes de salvamento não tomaram as devidas cautelas ao entrarem, sem autorização judicial, no navio à deriva, inclusive utilizando explosivos. Alteraram a cena do crime antes da chegada dos peritos, em desacordo com o art. 6 a, do CPP. A produção de prova é imprestável ao impedir que o investigado possa contraditar as conclusões com o corpo de delito intacto, violando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Provas contaminadas pela nulidade que impedem a persecução penal.
21. ao capitão Schettino é assegurado o direito de ajuizar contra De Falco ação penal privada por crime contra a honra, sem prejuízo da ação de indenização por danos morais, pelo constrangimento de
constatar a reprodução midiática em larga escala das ordens que lhe foram enfaticamente dadas, o que fere o princípio da dignidade humana e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
22. não é possível afirmar a autoria do delito, pois o capitão Schettino, no momento do pseudo desastre, estava recolhido, jantando uma loirinha. Exercício regular de direito reconhecido.
23. o capitão Schettino não tinha o dever de permanecer no navio, o que equivaleria ao uso de algemas. Costume naval não recepcionado pela Constituição Cidadã. Prática condenada pelo STF. Matéria Sumulada. Ação penal nati morta.
Colecionada na internet.
A Fábula do Gato Barbudo – 2003 até hoje…
A Fábula do gato barbudo
Um fazendeiro plantava milho e armazenava o milho no paiol.
Com o milho, o fazendeiro alimentava as galinhas, os cavalos, as vacas, ovelhas e todos os outros bichos da fazenda.
Os bichos da fazenda, por sua vez, garantiam ao fazendeiro o seu sustento.
Os ratos insistiam em roubar o milho armazenado no paiol. Quem cuidava do paiol era um cachorro. Um cachorro preto e grande.
Quem cuidava do paiol antes do cachorro cuidar do paiol era o pai do cachorro e, antes do pai do cachorro assumir a sua função, quem cuidava do paiol era o avô do cachorro. E sempre foi assim, a família do cachorro cuidando do paiol, e não deixando que os ratos comessem todo o milho.
Era um trabalho duro: os ratos não acabavam nunca e, chovesse ou fizesse sol, lá estavam para roubar uma espiga aqui, outra ali.
O cachorro não tinha folga e para fazer frente à rapidez dos ratos, mantinha os músculos em forma e os reflexos ligeiros. Em compensação, o cachorro adorava o seu trabalho. Afinal, se não fosse por ele, os ratos já teriam há muito tempo comido todo o milho e acabado com a comida dos demais bichos.
Em reconhecimento ao seu trabalho, a bicharada elegeu o cachorro o presidente da fazenda. E claro que o mando do presidente não era perfeito,
discussões surgiam, a insatisfação aparecia.
Mas, de uma coisa todos podiam ter certeza: quem trabalhasse, ganhava o seu quinhão. Um dia, apareceu na fazenda um gato. Um gato magro e bigodudo. Tão bigodudo que, se tivessem barba os gatos, esse poderia ser um gato barbudo. O cachorro, como todo cachorro que se preza,ciente da sua função e do valor do seu trabalho, latiu para o gato, quis que o gato fosse embora.
O cachorro sentia que aquele bicho de ar debochado, malicioso, sem muito gosto para o trabalho, não poderia ser grande coisa. O fazendeiro não ouviu o que o cachorro quis dizer, e o gato foi ficando, foi ficando, foi ficando…
O gato, que não trabalhava (que, aliás, nunca tinha trabalhado), tinha bastante tempo para conversar com os outros bichos da fazenda.
E chegava de mansinho junto da bicharada, magrinho, fraquinho, e começava a miar. Os outros bichos, muito bonzinhos, paravam para escutar o que o gato tinha para dizer:
- Miau, miau, ai, ai. O que vai ser de mim.
Não existe lugar nesta fazenda para um bichinho como eu, tão injustiçado, tão fraquinho!
Veja, não posso trabalhar, o sistema é tão injusto!
Só por que não nasci forte como o senhor, Seu Cavalo, só por que não posso dar leite como Dona Vaca, não posso trabalhar!
O “Seu” Cachorro, o dono do poder, não avalia essas contingências históricas e me mantém mergulhado nessa penúria…
- Mas, Seu Gato, e aquele trabalho que lhe ofereceram na casa, como guardião da dispensa?
- Não aceitei, Seu Cavalo.
Na verdade, prefiro continuar minha luta por condições mais dignas!
No fim, depois de tanta ladainha, os bichos começaram a acreditar no gato. A sentir pena do gato.
E o gato, que se dizia injustiçado.
Que se fazia passar por vítima. Que era explorado pelo sistema e, principalmente, pelo cachorro que lhe negava tais milhos.
Conquistou a simpatia dos bichos.
E fez com que os bichos acreditassem que ele, tão sofrido, tão maltratado, iria garantir a todos melhores condições de vida.
Tanto miou, tanto fez, que um dia os bichos revoltados com a situação de absoluta miserabilidade do gato e com a injustiça social reinante na fazenda, resolveram destituir o cachorro.
E de nada adiantou o cachorro insistir que cuidar do paiol não era para qualquer um. Que ele havia treinado muito para assumir essa função. Que os ratos não eram mole, e não dariam trégua assim tão fácil.
Afastaram o cachorro e, por unanimidade, colocaram no seu lugar o gato.
Os bichos sabiam que o gato dantes nunca havia trabalhado.
Que não tinha sequer se preparado para assumir a função mais importante na fazenda.
Mas acreditaram que o gato, por ter sofrido mais do que ninguém com a política do cachorro, traria ordem e moralidade à administração do paiol.
No começo, tudo foi festa: no lombo de Seu Cavalo, viajava o gato para outros sítios e fazendas, falando sobre a sua conquista.
Contava aos outros bichos que agora a fazenda vivia uma nova realidade.
Tanta era a festa, tanta era a euforia, tanta era a esperança, que os bichos não perceberam que mais e mais gatos não paravam de chegar.
Gatos de todos os jeitos. Gatos vindos de todas as partes.
Gatos, que em comum com o gato-presidente, nunca tinham trabalhado na vida.
E o gato-presidente, que curiosamente chamava todos os demais gatos de companheiros, precisava arranjar uma função para essa gataiada.
Então, um dia, quando Seu Cavalo apareceu para puxar o arado, percebeu que, no seu lugar, um bando de gatos ocupava os arreios.
E Dona Vaca, que produzia o melhor leite da região, foi expulsa da estrebaria pelos companheiros do gato-presidente.
E as galinhas, no galinheiro não moravam mais: nos poleiros, gatos e mais gatos fingiam estar botando ovos.
E o gato-presidente remunerava prodigamente todos os seu companheiros. Afinal, um trabalho em prol da coletividade desempenhavam…
Como era de se esperar, o gato-presidente (que nunca havia trabalhado na vida) não conseguia cuidar do paiol.
Os ratos logo perceberam a situação: atacavam, como nunca haviam feito, o milho da fazenda.
Tão complicada ficou a situação que o gato-presidente precisou conversar com o seu conselheiro. Um gato de óculos, que miava de um jeito esquisito, puxando demais os “erres”:
- Miarr, presidente. A coisa tá feia.
Em nome da governabilidade da fazenda, temos que nos aliar aos ratos!
- Companheiro, os fins justificam os meios! Devemos passar aos demais bichos uma imagem de ordem e tranqüilidade!
E os gatos fizeram um pacto com os ratos: os ratos fingiam que não roubavam o milho, os gatos fingiam que caçavam os ratos.
Dessa forma, a bicharada acreditava que os ratos estavam sendo combatidos, e os ratos, que por baixo do pano recebiam suas espiguinhas, mantinham os gatos no poder.
Entretanto, o milho foi acabando.
E os bichos, que haviam acreditado na conversa do gato-presidente, com fome, começaram a ficar insatisfeitos.
E foram todos reclamar com o gato-presidente.
Tarde demais.
O paiol já estava infestado de ratos, ratos por toda parte, ratos em tudo. Ratos e gatos, gordos, barbudos, aproveitando tranqüilamente o que havia sobrado de milho no paiol enquanto o resto da bicharada, os bichos que sabiam trabalhar, que davam duro, ficaram sem comida.
Obs: Qualquer semelhança dos gatos da fábula com os gatos de verdade é fantasiosa. Os gatos são animais simpáticos, que, como nós, ocupam seu lugar na ordem natural das coisas.
Diferentemente de muito petista que existe por aí…
Aristides Athayde é advogado, professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito de Curitiba.
Colecionada por Telmo Heinen – Abrasgrãos/Formosa (GO)
O nosso retorno ao candeeiro e ao Carro de boi
Brasil, o retorno ao candeeiro e ao carro-de-boi
Não deixam de ser apelativos os argumentos dos ambientalóides quando argumentam contra os aproveitamentos hidrelétricos da Amazônia. Muito mais que as estradas e os incentivos fiscais, a região amazônica brasileira será mais impactada pelas usinas hidrelétricas que lá estão sendo construídas. Os muitos argumentos apresentados contra as usinas de Jirau e Santo Antonio no rio Madeira e Belo Monte no rio Xingu não podem deixar de sensibilizar os ouvidos das pessoas mais atentas à degradação do 1/2 ambiente pelo progresso.
Uma forma de raciocinar de forma correta é contra-argumentar que a alternativa para as usinas é o retorno ao candeeiro e ao carro-de-boi como fez o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral. Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer que a única forma de alavancar o progresso na região é através de ações decisivas e perenes como o resultado da construção das usinas hidrelétricas. Produzir energia limpa a custos razoáveis é um argumento definitivo para as usinas. O impacto delas será suficiente para tirar da Era da Pedra Lascada a população indígena do entorno. Certamente não será possível um milagre para alçar a condição de vida destas comunidades às melhores condições de vida da classe média brasileira.
È também necessário considerar que a alternativa às usinas hidrelétricas seria a geração de energia com combustíveis fósseis que são muito poluentes. Ou então, a geração de energia termonuclear que é alvo de muitas restrições pelo mundo a fora e o caso mais recente, a usina de Fukushima, no Japão, atingida por terremoto e por tsunami, é o caso atualmente mais ilustrativo dos riscos do aproveitamento de energia nuclear para não se recorrer ao desastre da usina de Chernobil na Ucrânia.
No Brasil, poder-se-ia perguntar o que seria do Nordeste sem o aproveitamento da potencialidade hidrelétrica do rio São Francisco. Se o Nordeste brasileiro fosse um país independente, estaria entre as trinta maiores economias do mundo. E esta mudança ocorreu em apenas cinco décadas pois a energia da Usina Paulo Afonso I , a primeira usina hidrelétrica construída no rio São Francisco, começou a ser gerada e distribuída na primeira metade da década dos anos 50 do século passado. Houve perdas do ponto de vista ambiental. A beleza da cachoeira de Paulo Afonso deixou de existir e hoje só pode ser vista em fotos preto-e-branco. Mas houve ganhos de natureza sócio-econômico. No tempo correspondente ao de uma geração ocorreu um verdadeiro milagre na caatinga nordestina. A realidade no polígono semi-árido do Nordeste é muito diferente do tempo do pioneiro cearense Delmiro Gouveia que teve a amplitude de visão e a audácia de montar, na primeira metade do século XX, o primeiro aproveitamento hidrelétrico na cachoeira de Paulo Afonso.
Em artigo recente o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral escreveu que a renúncia à energia hidrelétrica por motivos ambientais provocaria, no Brasil, o retorno ao candeeiro e ao carro-de-boi. Para acessar a postagem sob o título “O RETORNO À LAMPARINA E AO OBSCURANTISMO” no InfoBRASIL, a realidade nua e crua, CLIQUE AQUI.
Indicado pelo amigo Didymo Borges de Recife.
Mitologia Grega também foi afetada pela crise
2. “Afrodite foi rodar a bolsinha na esquina”.
3. “Hades começa a vender suco de soja”.
4. “Atenas entra em liquidação e muda seu nome para Apenas”.
5. “Platão, de tanto andar com Sócrates, agora está na fila para transplante de fígado”.
6. “Sem dinheiro para pagar uma diarista, Zeus muda o nome de seu lar de “Olimpo” para “Osujo”.
7. “Multidão na Acrópole protesta para que Aquiles trate seu calcanhar no SUS”.
9. “Acrópole é vendida e em seu lugar é inaugurada uma IURZ-Igreja Universal do Reino de Zeus”.
10. “Asclépio (deus da medicina) decide suspender o atendimento pelos planos de saúde”.
11. “Deusa Atenas é vista trabalhando como garçonete na Alemanha”.
13. “Narciso vende seus espelhos para pagar dívida do cheque especial”.
14. “Zeus vende o trono para José Sarney”.
15. “Medusa faz bico na ala dos ofídios em zoológico local”.
Waris Dirie Uma história real desta Africana da Somália
Waris Dirie Uma história real desta Africana da Somália
A heroína desta história real foi a primeira modelo africana a ter um contrato com exclusividade com a Revlon.
- Em 1997, escreveu seu primeiro livro, sua autobiografia, Flor del desierto, publicado em Nova York
- Em 2002, no segundo livro, Amanecer en el desierto, descreve sua viagem.
- Em 2005,no terceiro livro, Niñas del desierto,conta o dia que rompeu o silêncio, seus fracassos e suas vitórias.
- Em 2007, em seu quarto livro, Cartas a mi madre.
Waris Dirie disse que: “Este é meu livro mais intimista.Tem feridas que demoram a cicatrizar. O desejo de ver minha mãe de novo,..esquecê-la,… foi muito forte. Tive que compreender que o amor e o sofrimento estão muitas vezes conectados. Trabalhar neste livro foi doloroso, mas uma experiência realmente necessária para mim…
Nasci no deserto da Somália, não sei a idade que tenho. Só sei que cada dia é uma novidade. 33 anos? 36 anos?
Que diferença faz!, no deserto não tem papéis e não fazem falta. O deserto foi meu lugar durante toda minha infância, eu pastoreava o rebanho de camelos e cabras de meu pai.
O pior era andar descalça, o chão cheiode pedras,não podiamos comprar sapatos. Como me sangravam os pés!
Não tínhamos nada, nem casa, nem água, Éramos nômades…mas tínhamos o rebanho e a nós mesmos.
Estávamos bem! Unidos: minha mãe, Meus irmãos, meu pai me batia, mas…ele mandava. Era um homem forte, alto, decidido, guerreiro.
Mas devo dizer que anos depois, quando estava sozinha em Nova York, preferiria mil vezes um bofetão de meu pai a essa solidão.
Cheguei a Nova York por um milagre. Quanto tinha 13 anos fugi. Meu pai queria casar-me com um velho de 60 anos, pois ele lhe daria 5 camelos. Eu era diferente,rebelde. As meninas são educadas para trabalhar e serem oferecidas em casamento. Isso que os pais querem para suas filhas.
A mãe se preocupa para que sua filha seja limpa, virgem, por isso minha mãe, aos 5 anos, me levou para fazer ablação, por me amar. E eu, claro queria ser “pura e limpa”!
Na Somália se pratica a ablação mais severa: retiram o clitóris e os pequenos lábios da vagina.
A ferida é fechada deixando apenas uma abertura do tamanho da cabeça de um fósforo, para urinar e menstruar….
Minha irmã morreu com hemorragia e eu desde aquele dia…soube que nada mais poderia machucar-me. Somente temo a Deus!
Alá é o único que pode derrotar-me…
Quando comecei a falar sobre ablação nos Estados Unidos, me senti muita culpada, porque estava criticando a cultura de minha família amada.
Hoje dedico-me a conseguir meios para formar professores na Somália, educar as meninas, as mães…Tive êxito com minha mãe, vinte anos depois que fugi de minha casa e voltei à Somália.
Encontrei-me com minha mãe…e agora pensa como eu: Há esperança! Para fugir, cruzei o deserto.
Numa manhã acordei com um leão na minha frente, com sua enorme juba e lhe disse: Coma-me. Estou preparada…e ele se foi.
Esse dia soube que ALÁ reservara algo para mim… E fui encontrar-me com uma tia minha que estava casada com um diplomata da Somália enviado a Londres e pedi que me levassem como sua criada.
Nunca tinha visto brancos antes!
Me perguntava se queria mudar algo em meu Corpo? Se minhas pernas estavam tortas, mas não: e agradeço por elas, mesmo sendo herança de minha má nutrição infantil, mas me lembram quem sou.
A única formosura que valorizo é da alma. Devemos dar Graças por estar vivos…
Hoje não me falta nada…mas quando vejo água sendo desperdiçada me dá desespero. O que não fazem no deserto por uma gota de água!… Com o tempo, voltei a ver meu Pai. Roubaram seu rebanho e furaram-lhe os olhos com uma faca no deserto: Ficou cego…
Aquele homem tão poderoso e forte. Agora frágil e desamparado…Mas ainda de cabeça erguida!. Quando nos despedimos, confessou: “Você é como eu”.
Meu pai estava orgulhoso de mim . Chorei!
Waris Dirie se reencontrou com sua família, depois de 22 anos. A viagem de volta foi chocante. Atravessando o deserto, quis parar para socorrer a uma senhora que caminhava com os pés ensanguentados.
O chofer respondeu: “Não se preocupe, é apenas uma mulher”.
Como em um conto de fadas, Warie Dirie, se converteu em uma das modelos mais solicitadas da época. Um dia, enquanto esfregava pisos em uma loja, um fotográfo a descobriu. Logo, sua imagem era vista entre Paris, Londres, Itália e Nova York.
Waris Dirie deixou as passarelas, o cinema e a moda. Embaixadora das Nações Unidas, percorreu a África e conseguiu que 15 países fossem penalizados pela mutilação feminina.
Criou a Fundação Desert Dawn para lutar contra a violência.
No meu regresso a África, contei tudo aos jornalistas, em conferências, em programas de televisão, como defensora das seis mil meninas que são mutiladas por dia. Nada pode ser pior que urinar e menstruar por uma abertura do tamanho de uma ervilha.
“Não somos vítimas. Ajudamos a mulheres que querem melhorar de vida e que lutam por isso”.
“Não sei se existe algo chamado valor e não sei se tenho”, disse. Sou como a “Ave Fênix de Ébano’, renascida várias vezes de suas cinzas.
“Quem se colocar no meu lugar, perguntará se terei forças para chegar ao outro lado.
É algo que milhões de seres humanos fazem a cada dia, e é a esses que queremos ajudar”, propõe Dirie.
“Meu modo de ajudar é ser como sou; fazer o que faço cada dia. Convencendo as pessoas de que é possível mudar”
Dirie escreveu vários livros sobre sua vida e percorreu o mundo numa batalha sem descanso contra a ablação, mas assegura que, dia a dia, sua meta é levar a paz, o amor e o respeito que sempre tem buscado, um valor que “exijo do mundo, para mim e para todos”
Sherry Hormann, disse: “Fiz o filme (baseado na história original) porque sou mulher, mãe e um ser humano. Todos fomos crianças e as crianças deveriam estar a salvo de qualquer sofrimento” , comentou Hormann, que desde a primeira leitura do livro de Dirie colocou a “coragem da autora acima da tristeza”.
Hoje se dedica a seu filho ALEEKE de 13 anos e a sua gente.
Difícil encarar um olhar: O olhar onipotente de um leão.
A Dilma com seu lulês, mas o dilmês ainda rústico
Para não deixar o brasileiro com saudades do LULÊS, a presidente nos agracia com discursos da maior clareza e transparência em DILMÊS….
Celso Arnaldo faz o resumo da Ópera da Maluquice: Impressionado com o discurso de Dilma em Cannes, o jornalista Celso Arnaldo Araújo, grande caçador de cretinices, juntou quatro maravilhas do dilmês rústico:
Dilma Rousseff, tentando explicar aos jornalistas o conteúdo de suas sucessivas reuniões com chefes de estado das outras 19 nações mais ricas do mundo, que discutiram em Cannes o futuro do planeta, com uma sucessão de frases e ideias que, levadas ao pé da letra, sem uma rigorosa revisão, seriam barradas da ata da reunião de condomínio de um conjunto habitacional do
Minha Casa Minha Vida.
“Aí fomos para a reunião do G20. Na reunião do G20… Aliás, desculpa, dos Brics. Na reunião dos Brics, os Brics discutiram a questão da crise europeia. Os Brics, eu acho que nenhum deles foi… todos eles acharam que tinha de aumentar, se houvesse uma ajuda, se fosse necessário a ajuda, se… obviamente, os que são ajudados têm de querer.
Enfim, são discussões…”
“Com a primeira-ministra, com a chanceler Angela Merkel, nós discutimos a importância da relação do Brasil com a Alemanha; enfatizamos que vamos dar uma ênfase muito grande à questão da pequena e da média empresa no Ano Brasil-Alemanha 2013/2014 (…) Enfim, eu estou tentando ser o máximo específica, mas, em geral, há muita, havia muita
preocupação com a questão da crise europeia”.
“Não é protecionismo, nós temos de nos proteger também, cada um faz o que pode. Agora, tem algumas medidas que nós
nunca vamos controlar. Não vamos controlar a hora que eles resolvem despejar 800… A última vez foram 800 milhões? Bi? Trezentos? Quanto foi o último quantitative easing, o dois? Seiscentos bi? Eu não vou… não tem como controlar isso, não tem como controlar a política cambial chinesa. Nós achamos é que não… passamos o tempo inteiro dizendo isso: que tem isso, que não pode ser assim, que tem de mudar. E, hoje, isso meio que se internalizou; hoje, não somos só nós a falar isso”.
Ciranda financeira na Europa
Banco Central Europeu – Explicado como se fosse para as crianças…saiba mais !!!
O QUE É O BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da União Européia que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.
E DONDE VEIO O DINHEIRO DO BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuiram com 30%.
E É MUITO, ESSE DINHEIRO?
- O capital social era 5,8 bilhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 bilhões o capital do banco.
ENTãO, SE O BCE É O BANCO DESTES ESTADOS PODE EMPRESTAR DINHEIRO A PORTUGAL, OU NÃO? COMO QUALQUER BANCO PODE EMPRESTAR DINHEIRO A UM OU OUTRO DOS SEUS ACIONISTAS ?
- Não, não pode.
PORQUÊ?!
- Porquê? Porque… porque, bem… são as regras.
ENTÃO, A QUEM O BCE PODE EMPRESTAR DINHEIRO?
- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.
AH PERCEBO, ENTãO PORTUGAL, OU A ALEMANHA, QUANDO PRECISA DE DINHEIRO EMPRESTADO NÃO VAI AO BCE, VAI AOS OUTROS BANCOS QUE POR SUA VEZ VÃO AO BCE.
- Pois é!
MAS PARA QUÊ COMPLICAR? NãO ERA MELHOR PORTUGAL OU A GRÉCIA OU A ALEMANHA IREM DIRETAMENTE AO BCE?
- Bom… sim… quer dizer… em certo sentido… mas assim os banqueiros não ganhariam nada nesse negócio!
AGORA NãO PERCEBI!!..
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 bilhões de euros a países do
euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.
MAS ISSO ASSIM É UM “NEGÓCIO DA CHINA”! SÓ PARA IREM A BRUXELAS BUSCAR O DINHEIRO!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 bilhões de euros.
ISSO É UM VERDADEIRO ROUBO… COM ESSE DINHEIRO ESCUSAVA-SE ATÉ DE CORTAR NAS PENSÕES, NO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO OU DE NOS TIRAREM PARTE DO 13º SALÁRIO.
As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que poderiam pagar os dividendos aos acionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.
MAS QUEM É QUE MANDA NO BCE E PERMITE UM ESCÂNDALO DESTES?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.
ENTÃO, OS GOVERNOS DÃO O NOSSO DINHEIRO AO BCE PARA ELES EMPRESTAREM AOS BANCOS A 1%, PARA DEPOIS ESTES EMPRESTAREM A 5 E A 7% AOS GOVERNOS QUE SÃO DONOS DO BCE?
- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamosde corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6%, a 7 ou mais.
ENTÃO NÓS SOMOS OS DONOS DO DINHEIRO E NÃO PODEMOS PEDIR AO NOSSO PRÓPRIO BANCO!…
- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.
MAS, E OS NOSSOS GOVERNOS ACEITAM UMA COISA DESSAS?
- Os nossos Governos… Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.
MAS ENTÃO ELES NÃO ESTÃO LÁ ELEITOS POR NÓS?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois… quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta atual crise mundial, a maior de há um século
para cá. Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os cassinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.
E ONDE O FORAM BUSCAR?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?…
MAS METERAM OS RESPONSÁVEIS NA CADEIA?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody’s,uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram… passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.
E ENTÃO COMO É? COMEMOS E CALAMOS?
- Isso já não é comigo, eu só estou a explicar…
Estão nos cozinhando lentamente
Então como é que é? [É big, é big, é big, big, big...] – Estão nos cozinhando em fogo baixo.
Zero Hora, 06/11/2011 – Percival Puggina.
A fábula da rã que se deixa cozer viva, passivamente, em uma panela de água fria que vai ficando morna, depois quente e, por fim ferve, é perfeitamente aplicável a inúmeras estratégias em curso no país. Se, em vez de avançarem aos poucos, seus condutores saltassem etapas e nos jogassem diretamente onde desejam nos levar, haveria resistência social e os projetos fracassariam. Estão nos cozinhando em fogo baixo.
Muito se tem escrito sobre o ENEM, esse mastodonte que iniciou como uma avaliação de desempenho do Ensino Médio no país e que, com raras exceções, virou monstruosidade ainda maior – prova de seleção para ingresso nos estabelecimentos de Ensino Superior. Por quê? Porque alguns pedagogos, afinados com o poder político estabelecido, decidiram que era assim que tinha que ser. Já escrevi que quando o “coletivo” aparece com uma ideia, por extravagante que seja, ela acabará prevalente. Não vou discutir, aqui, os aspectos pedagógicos nem as onerosas trapalhadas em que se tem envolvido o tal provão do MEC. Detenho-me sobre uma pauta que não pode transitar sem ser denunciada em vista de seu significado para a democracia.
A forma federativa de Estado, constitucionalizada no Brasil desde a Proclamação da República, corresponde ao importantíssimo princípio da Subsidiariedade, que ordena competências em níveis superpostos, de tal modo que cada nível só age se o nível que lhe é inferior não puder cumprir bem suas atribuições. Esse princípio, que preserva, na base, a iniciativa dos indivíduos e, logo acima, a iniciativa das comunidades locais, e assim sucessivamente, tem óbvias aplicações no campo da Administração, do Direito, da Política e da Ética. Pois eis que, ao conjunto de ações centralizadoras já adotadas no Brasil, sempre pelo reverso desse respeitável princípio, soma-se agora o ENEM, como nova intromissão/cessão de autonomia em favor da União. Num país do tamanho do Brasil, as vagas nos estabelecimentos de Ensino Superior tornam-se disputadas nacionalmente, com estudantes transferindo-se de Garanhuns para Santana do Livramento e vice-versa, como se estivessem tomando lotação para ir ao colégio. Absurdo!
O sistema sempre foi descentralizado, regionalizado e, por fim, como convém, foi se municipalizando. Os investimentos que proporcionaram a maior parte dessas instituições de ensino resultaram de esforço, poupança ou pleitos locais. O provão nacional é uma cessão de autonomia no controle da porta de entrada do Ensino Superior!
Li todo o Caderno Amarelo aplicado este ano. Para quem está afeito às relações entre a linguagem e a política fica fácil perceber, em algumas questões, o emprego gramsciano do vocabulário e o uso da prova como instrumento de doutrinação e construção da hegemonia política. A centralização serve para muitos males, inclusive para esse específico mal. Serve para a submissão de Estados e municípios. Serve para a cooptação de maiorias parlamentares. Serve para afastar a sociedade de decisões ditas participativas pelo envolvimento de grupos sociais devidamente aparelhados. Serve para a corrupção. Serve, esplendidamente, para o uso da rede de ensino como instrumento de doutrinação (vide livros do MEC!). E, porque tem sido assim, em tudo e com tudo, também esse ENEM vai a serviço dos mesmos instrumentos de centralização e hegemonia.
Enquanto a panela aquece para as festas do poder, canta-se como em outras comemorações: “Para a União não vai nada? Tudo! Então como é que é? É big, é big, é big, big, big.” Pobre federalismo brasileiro. Zero Hora, 06/11/2011
