Não, eu não me arrependo de uma vírgula. E reitero todo e cada ponto...

Publicado em 17/06/2013 22:33 e atualizado em 18/06/2013 11:15
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Não, eu não me arrependo de uma vírgula do que escrevi.

Não, nem mesmo as eventuais palavras de ordem contra a sem-vergonhice brasileira fazem com que reveja minhas posições.

Não, eu não acredito que estejamos diante de um mal-estar em busca de uma interpretação.

Não, eu não acho que, com as exceções costumeiras, a imprensa esteja cumprindo a sua função.

Não, eu não acredito que estejamos diante de algo nem novo nem bom.

Na madrugada, escreverei mais detidamente sobre este nosso fim do outono da anarquia. Desculpo-me por não fazer aquele ar encantado de alguns dos meus coleguinhas: “Ai, gêêêênnnntiiii, olhem quantas pessoas de braaaancoooo, carregando a bandeira… Ai, eles só querem paaazzz… Ai, alguma coisa está acontecendo no Brasil…”.

Isso não é nem jornalismo de opinião nem jornalismo de informação. É militância política. Eu já disse que não me deixo seduzir por comportamentos que, se generalizados, tornam o mundo mais violento e menos livre, ainda que algumas das pessoas que estão sendo alvos dos protestos também não sejam do meu agrado.

Não só não me arrependo de uma vírgula como reitero todo e cada ponto.

Por Reinaldo Azevedo

 

Manifestantes derrubam um portão do Palácio dos Bandeirantes; polícia repele vândalos com bombas de gás. Eles querem mortos e feridos

Às 19h17 chamei aqui a atenção para o fato de que a manifestação em São Paulo haviam se dividido. Uma parte rumava pela Faria Lima e buscava a Paulista, e outra seguia pela Marginal Pinheiros. No ponto em que estavam, havia dois destinos possíveis: o Palácio dos Bandeirantes e a sede da TV Globo em São Paulo. De novo, uma divisão: uma parte ficou lá vituperando contra a emissora, apesar da cobertura feita pela emissora ser dulcíssima com os protestos e outra seguiu mesmo para o palácio.

A turma que foi pela Marginal Pinheiros era aquela mais, digamos assim, política, com bandeiras do PSTU, do PCO e de um movimento ligado ao PSOL.

Muito bem! Até havia alguns minutos, a Polícia Militar de São Paulo não havia usado nem uma miserável bomba sequer. É verdade que os manifestantes, por seu turno, fizeram o que lhes deu na telha, ocuparam a parte as áreas da cidade que bem quiseram, ditaram, enfim, as ordens. A polícia se limitou a acompanhar.

É claro que a turma da desordem não ficou contente com isso. É uma gente que lucra com o conflito e com o confronto. Mesmo sabendo que um grupo rumava para o palácio, Alckmin ordenou que os policiais deixassem livre a frente do prédio. Muito bem, eles chegaram. Inicialmente, houve apenas protestos. Mas aí um grupo forçou e conseguiu derrubar um portão dos jardins do palácio. A invasão foi repelida com bombas de efeito moral.

Neste momento, há centenas de pessoas em frente à sede do governo, onde fazem um grande fogueira. Eis os militantes pacíficos cantados em prosa e verso por setores do jornalismo. Chamem Aiatoelio Gaspari para que diga, exatamente, a hora — com a preciso dos minutos — em que esses democratas britânicos decidiram derrubar a grade do palácio.

Os bandos ligados à extrema esquerda querem porque querem mortos e feridos. Isso justifica a sua luta. Suas ideias sempre se alimentaram do sangue dos idiotas, dos inocentes úteis e dos culpados inúteis.

Por Reinaldo Azevedo

 

Na Assembleia Legislativa, fogueira do lado de fora e incêndio do lado de dentro

Impressionantes as imagens do Rio. Há uma fogueira na porta da Assembleia Legislativa. A sede de um banco foi invadida, e os móveis e cadeiras foram usados numa grande fogueira. Um coquetel molotov foi lançado contra o prédio, e uma sala sofreu um princípio de incêndio. Uma pessoa levou pelo menos um tiro com bala de verdade.

A Polícia Militar do Rio, é visível, ficou completamente rendida. Durante horas, vândalos atacaram a Assembleia sem enfrentar qualquer resistência. Lá dentro, 70 policiais estavam acuados, com 20 feridos.  

Por Reinaldo Azevedo

 

Apesar de cobertura favorável às manifestações, Globo vira alvo de protestos e é chamada de “fascista”

Por mais que a cobertura das TVs, especialmente da Globo, sejam simpáticas aos que protestam, não tem jeito: os manifestantes, pouco importa a pauta, não gostam da imprensa. Em São Paulo, milhares de manifestantes se dirigiram para as imediações da sede da Globo e recitaram palavras de ordem contra a emissora. Em Brasília, quando perceberam que um repórter da Globo entrava num link ao vivo, mandaram ver num refrãozinho: “Globo fascista/ falso moralista”.

E olhem, reitero, que a abordagem das TVs não poderia ser mais favorável. Os manifestantes eram tratados, assim, como uma assembleia de sábios. Mas não adianta: quando se rompem os vínculos da democracia representativa, toda representação — e, por consequência — representatividade passam a ser inúteis, encaradas como coisa de reacionários.

Daí o ódio à imprensa. Ainda que os jornalistas também saiam jogando coquetel molotov — de certo modo, passaram o dia jogando coquetéis molotvs verbais —, a sua adesão sempre será considerada fraca e insincera. No Jornal Nacional, Patrícia Poeta leu um pequeno editorial afirmando a cobertura imparcial da emissora. Não adiantou. Virou alvo de xingamentos nas redes sociais. Voltarei ao assunto mais tarde. 

Por Reinaldo Azevedo

 

Tropa de Choque do DF está dentro do Congresso; coronel da PM é atacado a tapas, pontapés e cusparadas; diretor-geral da Câmara é chutado

Um grupo tentou entrar no Congresso pela chapelaria. Foi repelido com spray de pimenta. A tropa de choque está do lado de dentro do Congresso. Na Folha, leio o seguinte:
*
Um grupo de manifestantes agrediu a tapas, pontapés e cusparadas dois coronéis da Polícia Militar e o diretor-geral da Câmara dos Deputados agora há pouco no Congresso Nacional. Um grupo formado pelo deputado federal Mendonça Filho (DEM-PE), o diretor-geral da Câmara, Sérgio Sampaio, e dois coronéis da PM, dentre os quais o chefe da Casa Militar do governador Agnelo Queiroz (PT-DF), se dirigiu à entrada de parlamentares no subsolo do Congresso para fazer uma averiguação sobre o risco iminente de invasão no prédio, quando foi surpreendido e cercado por um grupo de 200 manifestantes que haviam conseguido furar o cerco da Polícia Militar.

Sérgio Sampaio disse à Folha que recebeu “chutes e tapas”. “Quando vi, estávamos cercados”, disse o diretor-geral. O deputado Mendonça Filho disse que o grupo foi à entrada para verificar a situação a pedido do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que está na Rússia. Depois das agressões, chamou o deputado André Vargas (PT-PR) às pressas ao Congresso porque resolveu que não assumirá sozinho os riscos de controle de acesso ao prédio.

“Sou o único deputado aqui e não vou tomar sozinho as decisões de segurança”, disse o parlamentar. Por volta das 21h30, havia cerca de 700 manifestantes postados na frente do Congresso ainda ameaçando invadir o prédio. Os manifestantes trincaram um dos vidros do Congresso com um martelo. Eles gritam “vamos entrar em casa”. Mais tarde, um manifestante tentou romper o cordão de isolamento da polícia, que reagiu com spray de pimenta, cassetetes e gás lacrimogêneo.

Três representantes dos manifestantes estão reunidos com negociadores da polícia legislativa. Entre as reivindicações, eles pediram a punição de todos os que agrediram manifestantes nos protestos ao redor do país e a derrubada da PEC 37, que restringe os poderes do Ministério Público.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

 

No Blog do Planalto, Gilberto Carvalho, o Insuflador Geral de Revoltas, tenta pegar carona em manifestações

Ainda voltarei à questão na madrugada. Mas antecipo aqui para vocês se divertirem um pouco. No Blog do Planalto, Gilberto Carvalho tenta, assim, assumir uma espécie de paternidade do movimento, fazendo de conta que estão todos juntos. A verdade é que o petismo tentou flertar com o baguncismo em São Paulo, e o tiro saiu pela culatra. Leiam o post do Blog do Planalto.
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O ministro-chefe da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, em entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira (17), afirmou que a manifestação é própria da democracia, e que o governo quer estabelecer um diálogo com os grupos que têm se manifestados nos últimos dias. Hoje, o ministro recebeu representantes de grupos que fizeram manifestações no último fim de semana no Distrito Federal.

“A manifestação é própria da democracia. O nosso projeto político cresceu no país fazendo mobilização. Mobilização é muito bem-vinda. Por isso que nós estamos preocupados em fazer uma discussão, uma aproximação, um diálogo, e elevarmos o nível dessa discussão porque esses jovens têm alguma coisa a nos dizer. Esses jovens nos apontam angústia… E se alcançam uma grande repercussão de mobilização é porque corresponde ao anseio de muita gente. Então é próprio da nossa atitude ouvir e valorizar isso”, defendeu.

Gilberto Carvalho já havia conversado com manifestantes no último sábado, durante a partida de abertura da Copa das Confederações, entre Brasil e Japão. Segundo Carvalho, é próprio do governo estar atento, ter a humildade de ouvir, e procurar compreender o processo para reagir de maneira adequada.

“Eles são portadores de mensagens, e nós temos que compreender. É por isso que eu fiz questão, durante o próprio jogo, estive lá, conversando com os manifestantes. Foi um gesto de diálogo, de entendimento. E fiquei muito feliz de eles terem aceitado, parte deles, virem aqui. (…) Acho que foi um bom início de conversa, e acho que eles nos trazem reivindicações que consideramos importantes para gente tratar”, comentou.

Por Reinaldo Azevedo

 

FHC e os protestos: uma mensagem no Facebook com uma penca de equívocos, que ajudam a explicar por que o PSDB está na areia

Vejam esta foto da Praça da Sé, de 25 de janeiro de 1984. Volto em seguida.

A turma que faz o Facebook do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu emprestar ao Passe Livre e a seus associados um viés sociologizante, ligando a manifestação, acreditem!, às Diretas-Já. Lê-se lá o seguinte:

“Os governantes e as lideranças do país precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos nas ruas. Desqualificá-los como ação de baderneiros é grave erro. Dizer que são violentos nada resolve. Justificar a repressão é inútil: não encontra apoio no sentimento da sociedade. As razões se encontram na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro”.

Comento
Enquanto o Anonymous e o Passe Livre não mandarem no Brasil, as pessoas são livres para escrever a besteira que lhes der na telha, e eu sou livre para apontar: “É besteira!”.

Vamos ver:
1: Associar o protesto às Diretas-Já é uma tolice. Ainda que esculhambada, para todos os efeitos, o Brasil vivia, em 1984, sob uma ditadura. As eleições diretas, por exemplo, só seriam restauradas cinco anos depois;

2: Não houve um só ato de depredação e de vandalismo nas manifestações em favor das Diretas.

3: O movimento era feito em praças públicas, de preferência em feriados (como 25 de janeiro, Dia de São Paulo) e fins de semana. Havia a preocupação de não levar as cidades que abrigavam os protestos ao colapso.

4: O movimento das Diretas-Já reivindicava um direito fundamental, pilar de qualquer regime democrático: o direito de eleger seus governantes.

5: Quem lutava pelas Diretas-Já pedia que se recriassem os instrumentos institucionais de interlocução democrática. Era um movimento contra a ditadura.

6: Os que estão nas ruas agora, na prática, descartam justamente os instrumentos democráticos de negociação. Não reconhecem a autoridade de pessoas eleitas legitimamente pelo povo.

7: FHC — quem quer que tenha escrito esse texto por ele, já que não o imagino sentadinho, cuidando de sua página no Facebook… — está emprestando ao movimento uma pauta que ele não tem.

8: O ex-presidente endossa o equívoco de entender o protesto — liderado por um grupo político chamado “Passe Livre”, com o apoio de partidos de extrema esquerda como PSOL, PSTU e PCO — como uma espécie de mal-estar ainda difuso, que acabará revelando a sua real natureza: “carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro”. Antes fosse assim. A atual oposição estaria mais perto do poder…

9: Então FHC acha que “dizer que [os atos] são violentos nada resolve”? Pergunto: nos protestos havidos em São Paulo e Brasil afora, há ou não violência? O que quer dizer “justificar a repressão é inútil”? Não se deve reprimir quem vai às ruas com coquetéis molotov?

10: FHC acha legítimo que uma minoria — nem que fosse uma minoria de 200 mil pessoas — paralise a cidade e imponha a sua vontade a 11,5 milhões de pessoas?

11: Os petistas estão apoiando o protesto de hoje em São Paulo. Noto que FHC gostaria que os tucanos fizessem o mesmo. Então está certo. Vou resgatar dois versinhos dos meus tempos de Libelu: “Se estamos todos juntos/ contra quem vamos lutar?”.

12: Trata-se de um texto infeliz e oportunista.

13: Estes que hoje lideram esse protesto estiveram com o PT nas eleições recentes (no primeiro, no segundo ou nos dois turnos). E voltarão à nave-mãe quando a eleição virar “isso ou aquilo”.

14: Mais: confundem-se duas realidades distintas, fenômenos diferentes, mas combinados: os que protestam contra o uso de dinheiro público na Copa do Mundo não têm a mesma origem e a mesma motivação do Passe Livre e associados.

15: Essa mensagem, atribuída a FHC, explica por que, sem a força do Real, os tucanos perderam três eleições seguidas — e podem perder mais 10 (sempre dependerá da fadiga de material do petismo): o partido tenta disputar com o PT um eleitorado que jamais será deles, ignorando aquele que jamais será petista. Ao agir assim, o PSDB não gera valores de resistência à ordem vigente nem estabelece vínculos fortes com seu eleitorado.

16: Pior: na forma como aparece a mensagem, ela acaba resultando meio hostil ao governo Geraldo Alckmin, a quem coube e cabe manter a ordem na cidade.

17: Finalizo lembrando que ninguém precisa justificar eventuais excessos da polícia. Mas cumpre lembrar que a democracia é o regime em que nem tudo é permitido. Só nas ditaduras o único limite é não haver limites.

Para encerrar: “Pô, você já falou tão bem de FHC aqui…” Já! E o farei de novo sempre que achar necessário e merecido. Mas eu não tenho compromisso com o equívoco de ninguém. Nesse e em outros casos, discordo do ex-presidente e deixo isso claro. Se eu fosse militante partidário, sentir-me-ia impelido a justificar as considerações do “líder”. Ocorre que, por mais que os detratores tentem me impor essa pecha, eu não tenho partido. Tenho valores, convicções, crenças etc., que não estão, no seu conjunto, representados por nenhuma legenda — muito menos pelo PSDB. Quando o petismo faz a coisa certa — e raro, mas acontece —, aplaudo. Se um homem admirável como FHC diz — ou assina — a coisa errada, só me resta dizer “não”. Esse é um compromisso com os leitores deste blog, tanto com os que gostam da página como com os que a odeiam.

Por Reinaldo Azevedo

 

Vândalos do Rio obrigam a GloboNews a admitir que, de vez em quando, a PM precisa agir — no Rio, é claro, onde existe “patrimônio de todos os brasileiros. Já em São Paulo, o negócio é dar pau na Polícia!

Parte da gigantesca manifestação do Rio se dirigiu para a Alerj — Assembleia Legislativa do Rio. E ali o pau comeu. Vândalos tentaram invadir o prédio e promover quebra-quebra. Os pichadores entraram em ação. A polícia teve de recorrer a bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral e a spray de pimenta para espantar os manifestantes. Essa turma fez, em suma, aquilo que vinha sendo a rotina das manifestações em São Paulo, inclusive na última quarta-feira.

E, aí, vejam vocês, o tom da GloboNews mudou completamente. Leilane Neubarth, nesse caso, lembrou que a Alerj “é um patrimônio do Rio e do Brasil”. Rodrigo Pimentel, o especialista em segurança da Globo, que elogiara havia pouco a PM do Distrito Federal por não ter reagido à invasão do Congresso (havia cartazes convertidos em tochas), disse que há coisas que a polícia não pode tolerar: invasões, depredações… Vai ver isso só vale para o Rio. Já em São Paulo…

Quem quiser que recorra aos arquivos que ficam nos sites noticiosos. Até ali, a GloboNews se caracterizou por uma cantilena de elogio aos manifestantes, especialmente de São Paulo, e de censura nada velada à polícia. Alguém que ignorasse os fatos e ouvisse aquele conversê todo ficaria com a impressão de que a PM de São Paulo, na quinta, reprimiu um grupo de pacíficas normalistas. Evidentemente, é uma informação falsa como nota de R$ 3.

Neste momento, há pessoas pondo fogo em papéis e cartazes na porta da Assembleia, que tem a fachada depredada. Uma professora universitária — mais uma naquele cipoal de “especializas no próprio pensamento” que dão plantão na GloboNews — diz uma frase que guardarei para uma antologia que estou fazendo. Prestem atenção: “Isso [a depredação] faz parte de uma certa desordem de algo que deu tão certo”. Não sei o que quer dizer. Mas deve querer dizer alguma coisa.

Chamo a atenção dos leitores para o fato de que, em São Paulo, nas quatro vezes em que a PM foi obrigada a intervir, foi justamente para impedir manifestações como a que se vê em frente à Alerj. Há um carro virado perto da Assembleia, que foi incendiado.

Não me diga!

Rodrigo Pimentel disse que, se existem manifestantes que carregam coquetel molotov, é sinal de que eles não têm boas intenções. Não me digam!

Achei que aqueles depredadores todos de São Paulo, que foram reprimidos pela PM, fossem pessoas bem-intencionadas.

Por Reinaldo Azevedo

 

José Eduardo Cardozo não quer ajuda para controlar a situação em Brasília? Na capital do país, protesto é contra gastança com a Copa. Exército protege Dilma

Mais de cinco mil pessoas protestam em Brasília em solidariedade aos movimentos que pedem a redução da tarifa de ônibus nas capitais, sim, mas sobretudo contra a gastança de dinheiro público na Copa do Mundo.

Manifestantes estão na cobertura do Congresso Nacional. A polícia e os homens que cuidam da segurança do Parlamento não conseguiram impedir que tomassem o local. Muitos deles, neste momento, transformam os cartazes em tochas.

Atenção! A PM responde pela segurança do Distrito Federal, mas a da Praça dos Três Poderes é de competência federal. José Eduardo Cardozo não precisa de ajuda, não? Afinal, ele disse que queria dar uma mãozinha a São Paulo…

Neste momento, o Palácio do Planalto, onde está o gabinete de Dilma, está cercado por forças federais. A segurança é feita pelo Exército.

Na GloboNews, Leilane Neubarth interpreta o sentimento dos invasores do Congresso, em tom encantado: “É como se dissessem: ‘Temos um pedaço do nosso país”.

Bonito!

Por Reinaldo Azevedo

 

Rio surpreende e deve fazer a maior manifestação do país

Não tenho números. Mas tudo indica que a manifestação no Rio é a maior do país, superando a de São Paulo. As televisões fazem um estrago danado com a inteligência dos pobres telespectadores, sem exceção. Na Record, um tal Marcelo Rezende faz de conta que estamos assistindo à verdadeira Queda da Bastilha — já que aquela de 1789 foi a falsa, né? Quando a prisão foi tomada, não havia lá mais do que meia dúzia de vagabundos. Na GloboNews, em tom mais contido, exalta-se o valor democrático dos protestos — sempre na linha “somos todos companheiros, e quem causa tumulto é a polícia”. A diferença entre Rezende a GloboNews é só de tom, não de conteúdo. O repórter de polícia, naquele estilo muito característico, fala o que dá na telha. A emissora mais chique chama professores universitários, e estes… falam o que lhes dá na telha.

Em Brasília, a coisa também está pegando fogo (já falo a respeito). Uma coisa é certa: os protestos do Rio, de Brasília e de Belo Horizonte não são contra o valor da passagem de ônibus, não! O foco é a gastança de dinheiro público com a Copa do Mundo.

Eu bem que tentei advertir os petistas: “Parem de flertar com a bagunça; estão abrindo a Caixa de Pandora”. Agora eu quero ver como fazer para devolver os sustos para a dita-cuja.

Por Reinaldo Azevedo

 

A mensagem de um que se diz “libertário”. Ele acha que não estou entendendo nada… Então tá!

Acabo de receber uma mensagem de um sujeito que se identifica como Luís César, acusando-me de não estar entendendo nada. O texto, embora siga as regras gerais da língua, é um tanto confuso e vai misturando conceitos, fazendo uma confusão dos diabos. O sujeito se diz um “libertário” — parece ser, assim, uma mistura de Adam Smith com Bakunin. Lastima meu “conservadorismo” e, oh!!!, diz que faço “mal à causa do liberalismo econômico”. Ele não se conforma, por exemplo, com a minha opinião contrária à legalização das drogas e do aborto. Não fica claro por que um liberal em economia tem de ser, necessariamente, um perseguidor de fetos. Ele deve saber, mas não me explicou. Atribui-me ainda o que não penso, a saber: ser contrário à união civil gay. É claro que é mentira! Eu critico e o fato de o Supremo ter tomado uma decisão que nega a letra explícita da Constituição. O texto é gigantesco, uma espécie de samba-do-libertário-doido. Vou ao trecho que mais interessa agora:

(…)
Na sua cegueira conservadora, não percebe que o movimento pelo Passe Livre, por mais absurda que seja sua reivindicação (nesse particular, você está certo), pode ser o prenúncio de uma reação ao governo do PT. Você esquece que Fernando Haddad acaba sendo o principal alvo das manifestações, já que cabe a ele definir o valor da passagem. Ora, Reinaldo, espanta-me que você não perceba que ninguém se mobiliza por causa de 20 centavos (…)”

Comento
Ai, ai, ai, Luís César!

Então vamos ver.

Já escrevi aqui umas boas dezenas de vezes que nem tudo o que não é PT é bom. Já comprei briga com gente até mais articulada do que estes que estão por aí, liderando protestos. É o caso da turma de Marina Silva, por exemplo. Acho uma violência que uma lei tente impedi-la de criar um partido, mas repudio seus valores mais gerais, que considero mais obscurantistas do que os do petismo. Assim, rapaz, pouco me importa se o Passe Livre acaba sendo ruim também para o PT. Isso não é suficiente para que eu aplauda a turma. Não é o petismo que pauta o meu gosto, a minha análise, as minhas escolhas.

O Passe Livre e seus associados fazem aquilo que mais execro no debate público: acreditam que podem impor às maiorias o seu pensamento, na base da força bruta. Vivemos tempos em que cada minoria ou grupo acredita ter o direito natural de importunar a vida dos outros, sem atentar para as consequências.

Não é democracia. Não é libertarismo. É fascismo. De resto, Luís César, eu não dou a menor pelota para esferas de sensações e sentimentos entranhados. Essas são questões individuais, que interessam aos analistas. Devem ser tratadas no divã, não na Avenida Paulista.

Eu fico me perguntando onde estava essa gente durante o julgamento do mensalão, por exemplo. Roubar dinheiro público não lhe parece assunto suficientemente grave para parar a cidade?

Infelizmente, senhor sedizente libertário, atribuo essas manifestações em favor da gratuidade dos transportes a um mal-estar, sim, mas de outra natureza:1) este é o país que está sendo cevado da cultura estúpida de que o estado é um saco sem fundo, que abriga qualquer desaforo; 2) a garantia reiterada da impunidade para outros movimentos militantes estimulou essa gente a achar que tem direito e legitimidade para parar a cidade quando lhes der na telha.

Por Reinaldo Azevedo

 

Custo mensal com a elevação da passagem: R$ 4,40; custo com a cerveja numa única beberagem: R$ 48. Ter “consciência social” mesmo bêbada: não em preço!

Recebo de um leitor uma mensagem engraçada. Volto em seguida:

“Caro,
normalmente, não costumo sair de casa aos domingos à noite, mas, ontem, abri uma exceção para ouvir samba de breque num barzinho da Vila Madalena, que costumo frequentar. Pois bem: havia lá uma moça bem bonita (se ela não acendesse um cigarro na bituca do outro, seria mais cobiçável), de seus 25 anos, imagino, na companhia de um amigo (visivelmente, não se tratava de namorado). Estavam numa mesa na calçada, e ela, já bem alegrinha, cantava em voz alta (e, obviamente, desafinada) as músicas entoadas pelo grupo. Eis que, de repente, ela começou a gritar um mantra mais ou menos assim: “Vem pra rua, vem, contra o aumento! Amanhã, 17h, no Largo da Batata! São Paulo vai parar!” O garçom, rindo pra mim, disse: “Também, depois de 8 cervejas…
A cerveja que ela bebia custa, ali, R$ 6,00…
Abração”

Volto
Entendi. Desembolso suplementar da “estudanta” alegre com a elevação da passagem: R$ 4,40. Desembolso da alegre “manifestanta” com as cervejas: R$ 48. Só os 10% da gorjeta somam R$ 4,80.

Isso na hipótese, claro!, de que ela tenha parado nas oito…

Por Reinaldo Azevedo

 

Os fascistas expressam seu ódio à liberdade de imprensa e atacam até setores da “mídia” que os apoiam

A conta de VEJA no Twitter foi invadida por hackers às 12h20. Há lá a assinatura: “We are Anonymous”.

Com as exceções de praxe, a turma a que os fascistas chamam “mídia” é fascinada pelo… Anonymous. Consideram a verdadeira “democracia digital”.

No perfil invadido, leem-se pérolas como esta:
“A TODOS os estados do #Brasil, vamos dar um xou hoje! O Gigante acordou e vai ser impossível parar. VAI PRA CIMA BRASIL”.

Ou ainda (na forma original):
“Outros vários perfis estão sendo tomados por min neste momente e estará a dispor, p serem usados como divulgação de videos fotos….”

Ou:
“Nem a polícia e nem Mídia irão nos calar! BRASIL”.

Há mais:
“Aos mais velhos: Desliguem suas TVs, deixem o telejornal fascista de lado e venham para as ruas hoje,Vamos LUTAR JUNTOS!

Outra delicadeza:
“Jornalismo fascista nós não precisamos de vocês.” A LUTA CONTINUA Brasil O Gigante Acordou Brasil Revolução”

Encerro
O que eles chamam de “telejornal fascista” é o “Jornal Nacional”, que fez uma abordagem editorial mais do que favorável ao movimento em São Paulo. No Rio, a abordagem foi negativa. Em São Paulo, segundo o que se viu lá, os manifestantes é que teriam reagido às agressões da polícia; no Rio, teria ocorrido o contrário. Sabem como é… Em São Paulo, não há barquinho que vai nem tardinha que cai. São Paulo veio ao mundo sem mar, sem Pão de Açúcar, sem Sérgio Cabral e sem José Mariano Beltrame. 

Uma das formas que essa gente tem de manter o apoio da “mídia” é acusando a “mídia” de estar contra eles. Intimidada, a dita-cuja, então, repercute o alarido. Não se enganem: trata-se de uma manifestação contrária, também, à liberdade de imprensa. Ainda voltarei ao tema.

Por Reinaldo Azevedo

 

Veja por que, com 65 mil pessoas, SP mobilizou apenas um terço dos 100 mil do Rio. E não, não errei na conta!

Segundo o Datafolha, 65 mil pessoas acabaram participando de protestos em São Paulo. Especialistas da Universidade Federal Fluminense, que fizeram um cálculo considerando a área ocupada e a concentração por metro quadrado, a cidade do Rio reuniu 100 mil pessoas. Foi uma surpresa. Em São Paulo, a palavra de ordem dominante foi mesmo a redução da tarifa de ônibus. No Rio, ficou evidente, além da passagem, os gastos do governo com a Copa do Mundo foram um importante fator de mobilização.

Então vejam que coisa… Os petistas aderiram aos protestos em São Paulo na certeza de que estavam encostando uma faca no pescoço do governador Geraldo Alckmin (PSDB). José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, numa inciativa patética, recorreu ao Jornal Nacional para, que mimo!, “oferecer ajuda” ao estado — que demonstrou nesta segunda, até agora, não precisar de ajuda nenhuma desde que os manifestantes não se comportem como bandidos.

Que fique claro mais uma vez! A polícia de São Paulo, em regra, reprimiu bandidos, não manifestantes — por mais ridícula que seja a sua causa principal. “E os jornalistas?” Que se apure cada caso e, se comprovada a falha, que os responsáveis sejam punidos.

Dado o noticiário com viés claramente contra o governo do estado e a PM, a expectativa era que São Paulo fizesse a maior manifestação do país. Mas não foi assim, não! A do Rio foi bem maior, sempre destacando que a cidade tem a metade da população da capital paulista.

Estando certos os números dos especialistas da Universidade Federal Fluminense, para que São Paulo tivesse o mesmo número do Rio, seria preciso levar 200 mil pessoas às ruas. Assim, considerando a população de cada cidade, o protesto paulistano mobilizou apenas um terço da carioca.

Por Reinaldo Azevedo

 

BH, com a terceira maior manifestação do país, teve confrontos, bombas de gás e balas de borracha

Belo Horizonte fez a terceira maior manifestação do país. Pode ter reunido até 40 mil pessoas. Também ali, a causa principal do protesto não foi o valor da passagem de ônibus, mas o investimento de dinheiro público na Copa do Mundo.

Leiam texto publicado no Globo,  que fala em 20 mil pessoas.
*
Manifestantes e policiais militares entraram em confronto na tarde desta segunda-feira nas imediações do estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Segundo a PM, pelo menos 20 mil pessoas participam de um protesto contra o reajuste da passagem de ônibus e os gastos com a Copa do Mundo, entre outros assuntos. O conflito ocorre na Avenida Presidente Antônio Carlos, em frente à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na região da Pampulha.

A confusão começou quando os manifestantes tentaram romper o cordão de isolamento feito pela polícia militar, que revidou à ação com bombas de gás lacrimogêneo e tiros com balas de borracha. A intenção da PM era de evitar a aproximação do grupo ao estádio, onde jogaram Taiti e Nigéria pela Copa das Confederações. No protesto, os participantes também atearam fogo em objetos na avenida que dá acesso ao estádio.

Os manifestantes saíram em passeata da Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, rumo ao Mineirão. Governo e prefeitura decretaram ponto facultativo para os servidores e recesso nas escolas públicas. Em Belo Horizonte, a tarifa, que era de R$ 2,65, passou para R$ 2,80. O movimento está sendo realizado por estudantes das redes pública e particular de ensino, movimentos sociais e partidos políticos. Cerca de 30 policiais militares do Batalhão de Choque acompanham a manifestação.

Um jovem de 18 anos caiu do viaduto da Avenida Presidente Antônio Carlos quando fugia da Polícia Militar. Segundo informações da PM, ele foi levado para o Hospital Risoleta Neves. O jovem tem quadro estável.

Organizado pelo facebook, o movimento estudantil da capital mineira tem comando descentralizado. Filiado ao PSOL, o escritor Fidelis Alcântara é um dos líderes do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac). Outra porta voz é a estudante de veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Juliana Rocha, da executiva nacional da Assembleia Nacional de Estudantes – Livres (ANEL). No sábado, dia 22, dia marcado para o jogo entre México e Japão, os manifestantes prometem nova uma nova mobilização.

Por Reinaldo Azevedo

 

Setenta PMs estão encurralados na Assembleia Legislativa do Rio, 20 deles feridos. Vândalos continuam em ação. PM não atua

Do tom politicamente correto, com sotaque universitário da Globo News (é a maior concentração de especialistas de terceiro grau do mundo mundial!), à peroração demagógico-bagaceira de Marcelo Rezende, na Record, passando por Datena, na Band, tinha-se a impressão, já afirmei aqui, de que se assistia à Queda da Bastilha. As TVs, cada uma dentro do seu estilo, abandonaram qualquer compromisso com a objetividade. A cobertura virou uma salada russa. Na madrugada, tentarei caracterizar cada um dos componentes da mistureba. Vocês vão entender, por exemplo, por que o Movimento Passe Livre está irritadinho: acha que a pauta está sendo desvirtuada. Fica para depois.

Globo, GloboNews, Record, Band, a maioria dos sites noticiosos e portais… Em uníssono, declararam a ilegitimidade das polícias para realizar qualquer tipo de intervenção. Assim, consagra-se o sacrossanto direito à manifestação, pouco importa o local. Aí, convenham, aumenta a possibilidade de que não haja confronto. A se repetir o padrão de hoje em algumas cidades, fica consagrado o “direito” dos manifestantes de parar a cidade quando lhes der na telha. Mas pergunto: eles têm mesmo esse direito? E amanhã? E depois de amanhã?

No Rio, a visão edulcorada, encantada, deslumbrada — CRETINA MESMO — da realidade começou a ceder espaço à verdade quando um grupo de mais ou menos 300 pessoas começou a atacar a Assembleia Legislativa, a promover quebra-quebra, a agredir policiais. Pior: enquanto essa turma partia para o tudo ou nada, uma massa compacta, de milhares, atuava como uma espécie de cordão de isolamento.

Só aí o tom das TVs começou a mudar: “Ah, não, assim não!”. Ora, mas não é isso o que se fez em São Paulo em quatro manifestações? Pois é. Há 70 policias dentro da Assembleia, impedidos de sair. Pelo menos 20 deles estão feridos. Na rua, uma fogueira é alimentada, acabo de ver, com móveis e cadeiras de escritório. Não sei de onde foram retirados.

E agora? Sei lá eu! Acho que é o caso de convocar uma junta de jornalistas e professores universitários. Já que a Polícia Militar nunca sabe o que faz, segundo esses valentes, eles próprios devem saber, certo?

Por Reinaldo Azevedo

 

Televisão

Record bate…SBT

Assembleia Legislativa do RJ em chamas

A cobertura dos protestos de hoje pelo Brasil afora deu ao Jornal da Record sua primeira vitória contra Carrossel, desde que a novela estreou no SBT, em 2012.

Alcançou doze pontos na Grande São Paulo, de acordo com números prévios do Ibope. O SBT registrou onze pontos. No horário, a Globo, com novela das sete e Jornal Nacional, marcou 28 pontos.

A propósito, o JN teve média de 27 pontos hoje. Uma audiência acima do usual. Não bateu, no entanto, os 32 pontos que alcançou em 23 de abril, a melhor marca do ano.

(por Lauro Jardim)

 

Congresso

Governo atônito

O Palácio do Planalto está atônito diante das manifestações que acontecem neste momento em todo o Brasil. Não sabe o que fazer ou o que falar.

Por Lauro Jardim

 

Direto ao Ponto

Veja e ouça a vaia como se estivesse na arquibancada do estádio em Brasília

A vaia que levou Dilma Rousseff às cordas deixou grogues os devotos da seita lulopetista. Desde a tarde de sábado, milicianos sem rumo vagam pela internet murmurando que só havia, no estádio em Brasília, torcedores da elite golpista, todos loiros de olhos azuis. Nem notaram que é outro tiro na testa: estão jurando que os pobres foram excluídos das arenas da Copa da Ladroagem pelo governo que jura só pensar nos pobres.

O prenúncio do nocaute é assim mesmo, ensina o vídeo feito por alguém que estava nas arquibancadas do Mané Garrincha. Sem cortes espertos, sem apartes cretinos de narradores assustados com a perda de patrocínios federais, mostra a coisa como a coisa foi e deixa a multidão soltar a voz.  É a voz de gente farta de tanta mediocridade, tanta tapeação, tanta roubalheira, tanto cinismo.

Confira. É reconfortante sentir-se como quem esteve lá.

(Augusto Nunes)

 

Blog bate recorde de visitas e recebe elogios e insultos às pencas. Por quê? Porque não reconheço o caráter democrático ou liberalizante de boa parte dos protestos. Ou: De volta ao petismo primitivo

Este blog bateu ontem o recorde de visitas num único dia: 267.439. Obrigado aos que amam e aos que odeiam. Aos mansos de espírito e até aos furiosos, que contribuem para que me mantenha no que acredito ser o caminho reto. Escrevi e li muita coisa nesta segunda. Elogios, sim, aos montes. Insultos também, às pencas. Procurei um bom lead para começar este post, algo que fosse, a um só tempo, uma síntese intelectual deste dia, mas também afetiva — já que, notei pela cobertura das TVs, a onda agora é ser emocional, confessional, lançar sensações no ar, ainda que desconectadas de um pensamento — e tive de apelar a quem fez uma síntese com a qual eu não poderia competir. Como não vejo salvação fora da razão (esse cara — católico! — sou eu) e repudio a ditadura das sensações, esse texto tem só um lead possível:

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
(…)
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
(…)
tu serás um homem, ó meu filho!

Voltei
É trecho do poema “Se” (If), do poeta britânico Rudyard Kipling (1865-1936), na tradução de Guilherme de Almeida. O bom poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998) fez uma paródia injusta, mas inteligente e engraçada, do texto, em “Kipling revisitado”:

Se etc
Se etc
Se etc
Se etc
Se etc
Se etc
Se etc
Serás um teorema,
meu filho!

Não pretendo ser um teorema ou transformar em teoremas a realidade política e social, especialmente porque o presente tem sempre variáveis que desconhecemos, mas é preciso que a gente consiga distinguir o inédito do novo — ou, como se diz muito hoje em dia, do “histórico”. Recebi, sim, com tal volume de leitores, muitos elogios, mas também não faltaram os insultos os mais pesados. E vinham de todos os lados: dos petistas porque evidenciei aqui que tentavam transformar um protesto que os tinha também como alvos em uma manifestação contra Geraldo Alckmin — como se não houvesse pessoas nas ruas em 11 outros estados. A grande manifestação, diga-se, aconteceu mesmo no Rio. Levei pauladas dos que estão à esquerda do PT porque apontei a reivindicação doidivanas, irresponsável, da “tarifa livre”. E tomei pancada de antipetistas porque eu não estaria percebendo que o que vai nas ruas é, afinal, uma manifestação de cidadania, que contesta o petismo, o governo Dilma, sei lá o quê. Não contava, obviamente, com o endosso de petistas e forças que estão à sua esquerda. E, como deixei claro aqui nesta segunda e nos dias anteriores, não acho que as manifestações afrontem a metafísica petista-esquerdista. Ao contrário até: eu as considero, em muitos aspectos, derivações teratológicas desse mesmo espírito. AINDA QUE SE DEVA FRISAR QUE HÁ NAS RUAS PROTESTOS DISTINTOS, QUE SE COMBINARAM.

Uma contradita que não se resume à violência
A minha contradita em relação ao que está em curso, especialmente em São Paulo e Rio, não se resume à violência — embora ela seja grave, sim, e exija uma resposta do estado democrático e de direito. Lamento! Ainda que os 65 mil de São Paulo e os 100 mil do Rio estivessem se manifestando contra Dilma Rousseff — que faz um governo que considero sofrível; ainda que milhares de pessoas Brasil afora estivessem se manifestando contra o PT, cujas escolhas políticas, em regra, abomino; ainda que os protestos nas 12 capitais estivessem a pedir cadeia para os mensaleiros e estivesse a esconjurar a corrupção generalizada; ainda que os manifestantes estivesse justamente indignados com os gatos públicos — e muito pouco transparentes — da Copa do Mundo, eu me obrigaria a vir a público para declarar: EU NÃO RECONHEÇO A NINGUÉM, MENOS AINDA ÀQUELES QUE SERIAM, ENTÃO, MEUS ALIADOS, O DIREITO DE PARALISAR AS CIDADES, VIOLAR A CONSTITUIÇÃO E CERCEAR O DIREITO DE IR E VIR DE MILHÕES DE PESSOAS. A minha esperança não me permite violar a minha consciência; os meus anseios não convivem com a agressão ao estado democrático e de direito; as minhas utopias não combinam com a imposição e com o desrespeito a leis democraticamente estabelecidas. E não! Não vou arredar pé desse ponto.

Então é bom e útil que fique muito claro: eu não tenho severas e graves restrições ao que está em curso apenas porque deploro os atos de selvageria que vi no Rio, em Brasília ou em São Paulo. Falarei um pouco a respeito. A minha restrição é anterior. Já escrevi e reitero: eu não apoio ações ou movimentos que tornam o mundo menos livre do que é, menos democrático do que é, menos pluralista do que é. E gente que ousa acreditar que pode impor a sua vontade à força porque tem a ambição de que o seu anseio traduza a vontade coletiva não é nem jamais será da minha turma, ainda que, episódica ou esporadicamente, goste ou desgoste das mesmas coisas que me agradem ou me desagradem. Não posso e não vou chamar a imposição de exercício da cidadania.

Pautas distintas
Em São Paulo e no Rio, o mote principal da manifestação foi a redução das passagens de ônibus. Em Belo Horizonte e em Brasília, falou-se mais dos gastos oficiais com a Copa do Mundo, a despeito das precariedades existentes na saúde e na educação. São pautas distintas, que acabaram se combinando no que seria um movimento nacional. Assim, uma das tarefas postas ao jornalismo é saber, com precisão, para além das perorações encantadas e encantatórias, quem quer o quê e mobiliza quem. Isso ainda não está claro.

Noto que há um esforço para tentar adivinhar as raízes do que seria uma súbita explosão de consciência. Descontentamentos há tempos represados, insatisfações há muito mitigadas teriam vindo à flor da pele, e estaríamos vivendo os nossos dias de Egito ou Turquia. Para tanto, convenham, seria necessário que se caracterizasse, então, ou a ditadura (que nos aproximaria do povo egípcio) ou o regime autoritário à moda turca, que censura a imprensa, impõe a linha justa religiosa, submete a sociedade, paulatinamente, a uma disciplina teocrática. Mas onde estão esses fatores? Na ausência deles, interroga-se se a inflação renitente, o crescimento medíocre, um Congresso que se orienta pelo troca-troca não foram abrindo rachaduras na muralha petista. O protesto contra a passagem de ônibus teria sido, então, a gosta d’água que fez romper o dique.

Como já escrevi aqui, peço desculpas, então, pelo meu pessimismo, pela minha desesperança. Em São Paulo, por exemplo, o protesto é mesmo contra a elevação da passagem de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20. Um movimento que atuava em parceria com o petismo, o Passe Livre, que tem como pauta principal a aloprada defesa da “tarefa zero”, uniu-se a militantes de extrema esquerda, e os dois grupos organizaram uma série de protestos violentos, que demandaram a, atenção!, justa e correta intervenção da Polícia Militar. Se houve excessos na quinta-feira — e bala de borracha em jornalista não é necessariamente prova disso; é preciso apurar —, que sejam punidos! Mas o fato é que a PM, em regra, combateu baderneiros, incendiários, depredadores. Se eles não representavam o movimento, que este viesse a público para repudiar o vandalismo. Não só não fizeram isso como tiveram o topete de mentir, sustentando que os arruaceiros apenas respondiam à violência policial.

Dissequei ontem aqui o, por assim dizer, pensamento de uma das líderes do Passe Livre. Ela acredita firmemente que seu movimento pode impor ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e ao governador do Estado, Geraldo Alckmin a sua vontade. Eles só serão considerados democratas se concordarem com a turma, hipótese em que os paulistanos terão a cidade de volta. Caso contrário, diz ela, “a gente vai continuar colocando as nossas forças nas ruas, ocupando ruas importantes e parando a cidade”. E ponto! Na entrevista coletiva — imaginem vocês!!! — concedida pelo grupo nesta segunda, Érica de Oliveira parecia até um pouco irritada com a tentativa da imprensa de, benignamente, em favor dos valentes, tentar ampliar a pauta. Ele deixou claro: eles querem a redução da tarifa. Sem isso, não há conversa. Em algumas capitais, essa também é uma questão de honra. Em outras, o alvo principal é a Copa do Mundo. Em Brasília, promotores conseguiram meter até a PEC 37 no cardápio.

Ainda que, no resto do Brasil, fosse verdadeira a existência de uma pauta mais, como direi? liberal-democrática, em São Paulo, ela é falsa como uma nota de R$ 3 — ou de R$ 3,20. Por aqui, a agenda inegociável é a redução da tarifa. Ou é isso ou é isso, dizem os representantes do Passe Livre, que hoje se encontram com Haddad. Ou é isso, ou eles continuarão, como dizem, a parar a cidade. Afinal, como nos explicou Mayaa Vivian, outra pensadora do Passe Livre, eles acham que as empresas privadas de transporte só estão mesmo interessadas no lucro.

Outra abordagem
A minha abordagem é outra, e, à diferença de Arnaldo Jabor, que fez um mea-culpa no Jornal da Globo, não mudei de ideia. Ao contrário! Estou ainda mais convicto. Casaram-se três pragas da contemporaneidade, que resultaram nos conflitos que estamos vendo: uma é de alcance quase universal nas democracias; as outras têm uma marca muito nossa, muito própria de Banânia.

Uma das doenças das democracias é a emergência de minorais radicalizadas ou de grupos sectários que reivindicam o direito de impor à coletividade as suas vontades. Confundem a tolerância que devem ter os regimes democráticos com uma ditadura de minorias. Assim, para esses grupos, nada mais natural do que tomar de assalto as ruas ou as instituições e impor uma decisão na base do berro — e, se necessário, da violência. Desculpem-me! Eu não posso esquecer que, há coisa de dois meses, grupinhos de 20 ou 30 pessoas simplesmente impediam o funcionamento da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, com amplo apoio da imprensa — o mesmo com que contou o Movimento Passe Livre. Isso que chamo “fascismo de minoria” é chamado por aí, com impressionante desassombro, de “direito” e “liberdade de expressão”. Não é um mal exclusivo do Brasil.

Já a impunidade tem a nossa cara. Está se tornando corriqueira no país a noção de que desrespeitar a lei para fazer justiça social é mais do que um direito; seria mesmo um dever. Assim, o Movimento Passe Livre e seus companheiros de extrema esquerda só estariam querendo o bem dos paulistanos e dos brasileiros. E por que não poderiam, então, parar a cidade? Afinal, não é isso o que faz, dia sim, dia também, o MST, sem que se lhe advenha qualquer consequência? Não estão aí os índios, com o amparo de Gilberto Carvalho, a invadir terras, a incendiar propriedades, a expulsar proprietários?  Outro traço que vai nos definindo como país é a noção de que o Estado é o grande provedor de tudo. Logo, perguntam, por que o transporte não pode ser gratuito?

Infelizmente, não vejo em nada disso uma abordagem de resistência, que pudesse ser, de algum modo, útil à democracia, ao estado de direito e mesmo à alternância de poder. Ao contrário: vejo reproduzido em alguns desses episódios a pior mística dos primeiros tempos do petismo, e não é por acaso que a imprensa se tomou de encantos pelo Passe Livre. Eu diria até, atenção para isto!, que também os traços de classe social se repetem. A exemplo dos primeiros petistas, lá do começo dos anos 1980, também o Passe Livre tem a cara, o jeito e o pensamento da elite radicalizada, que se considera dotada de uma consciência superior, com a qual vai civilizar e libertar os oprimidos. É próprio desse estrato social, faça ou não política, tenha ou não “consciência”, achar que a lei existe apenas para os outros.

Volto a Kipling
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
(…)

Vou manter a minha calma também desta vez. Poucos de vocês imaginam como torço para estar errado — como torcia no caso da dita “Primavera Árabe” ou no do caráter autoritário do obamismo. Desta vez, gostaria imensamente de estar errado. O diabo é que acho que não estou. Vamos ver como as coisas se comportam. Se é verdade que esse é mesmo um movimento mudancista, então o Brasil caminha para uma virada importante, e Dilma poderia ir começando a fazer as malas.

Mas acho que as coisas não são bem assim. Temo que possamos estar diante de um petismo meio degenerado, que pode alimentar correntes políticas que estão à esquerda do partido. Vejo, sim, a esperança de muitos. Eles se manifestam nos comentários, convidando-me a seguir o caminho de Jabor. Não vou, não! Até ônibus foram sequestrados (ver post) nas imediações do Palácio dos Bandeirantes para que alguns manifestantes pudessem deixar claro o que pensam. Não contem comigo! Gente que derruba grades de palácio de governo num regime democrático tem é vontade de nos impor a sua ditadura. Não são e jamais serão meus aliados.

Por Reinaldo Azevedo

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Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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