Suinocultores do Sul temem pela falência da atividade nos próximos dias

Publicado em 24/03/2016 10:40 e atualizado em 24/03/2016 11:12
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Produtores afirmam que o setor necessita de uma medida emergencial para não ser dizimado no PR, RS e SC

A suinocultura da região Sul do Brasil, conhecida mundialmente por ser o berço da atividade no País, está perto de entrar em colapso total, segundo a opinião de diversos produtores do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Na região onde estão as unidades federativas que mais produzem suínos, seja para o mercado interno ou de exportação, os produtores já cogitam deixar a atividade por conta do alto custo de produção, impulsionado pela inflação do milho e a baixa remuneração pelo quilo do suíno. 

Produtores das três unidades federativas são categóricos ao afirmar que, se o cenário não mudar imediatamente, os suinocultores estarão fadados à falência em um prazo de no máximo 40 dias. Na visão deles, a situação é ainda mais alarmante para os produtores independentes, que já não conseguem arcar com as despesas e também não encontram mais linha de crédito para esperar o momento tempestuoso passar. 

Região de Braço do Norte

No Vale do Braço do Norte, uma das regiões onde se concentra a maioria dos produtores independentes de Santa Catarina, o alto custo de produção praticamente inviabiliza a atividade suinícola. Conforme Adir Engel, presidente da Regional, a saca do milho custa ao suinocultor R$ 52,50 - valor semelhante a outras regiões do Sul do Brasil. 

Ele também destaca a tendência de baixa no preço pago pelo quilo do suíno, que durante a semana era de R$ 3,20, mas com projeção de queda até o fim da semana. Em contrapartida, o preço para produzir o quilo do suíno passa da casa dos R$ 4,00 - o que representa um prejuízo entre R$ 90 e R$ 100,00 por animal de 100 Kg. "Infelizmente são fatores que fazem os produtores falar em abandonar a atividade. Alguns terminadores já disseram aos criadores de leitão que não pegarão mais animais, pois encerrarão a atividade. É preocupante a situação".

O presidente da Regional de Braço do Norte também enfatiza que a maioria dos suinocultores não tem mais dinheiro para pagar as contas, uma vez que as negociações de milho e soja são transações mediante pagamento à vista. "O produtor não sabe o que fazer. O que ele ganha não paga as contas. Não sabemos o que vai acontecer nos próximos dias porque o produtor está em desespero. Os bancos também já começam a restringir crédito para o setor".

Com o cenário de dificuldade nos primeiros meses do ano, muitos produtores da região de Braço do Norte deixaram de fazer o ciclo completo para fazer apenas a terminação. "Isso reduziu bastante o número de matrizes de ciclo completo. O suinocultor só não abandona completamente a atividade porque a bovinocultura leiteira é muito forte na região. Vaca produz pelo o que ela come. Como o produtor sabe que a fértil irrigação nas pastagens é importante, ele não abandona a atividade". 

A classe dos suinocultores lembra que já houve crises graves, mas nunca por causa do alto custo de produção, conforme analisa Engel, principalmente pelo alto volume de exportação do milho brasileiro e a baixa área de plantio no território nacional. "O estopim da crise é o alto custo de produção. É claro que o Governo Federal depende das exportações por conta da balança comercial. Só que em contrapartida, está se matando o produtor brasileiro". 

Engel afirma que é muito mais fácil para o produtor de milho levar o cereal para o porto para ser exportado ao encarar a precariedade da malha viária brasileira. 

Os suinocultores aguardam que o consumo interno de carne suína melhore após o período de quaresma. Contudo, como o grande entrave para a atividade na região Sul é a aquisição de milho e seu frete caro, Engel ressalta que o País precisa adotar medidas urgentes para baratear o cereal. "Talvez seja necessário também frear um pouco a exportação. Não podemos deixar o nosso produtor morrer”. 

Região de Videira

O momento dramático vivenciado pelo setor não é diferente para os suinocultores do Núcleo Regional de Videira. Conforme Marcos Spricigo, presidente da Regional, a crise que afetou o setor entre os anos de 2011 e 2012 voltou à tona, mas com agravantes: o caos generalizado na economia brasileira associado ao sensível momento político. 

Na análise do presidente da Regional de Videira, o consumidor tem medo de gastar por não ter segurança sobre o futuro do País, o que impacta também no consumo da carne suína e seus derivados. "Todo mundo está envergonhado e preocupado com todo esse caos político de Brasília. Outras atividades também estão sofrendo, como o pessoal da área de transporte".

No Meio-Oeste do Estado o custo da saca de milho também passa os R$ 50,00. A remuneração ao suinocultor pelo quilo do animal está entre R$ 2,80 e R$ 3,10. "Esse fator torna a atividade insustentável, independente da eficiência ou não do produtor. Precisamos novamente da união da classe como fizemos em 2012, quando todas as associações do Brasil se juntaram em Brasília para lutar pela causa", analisa Spricigo. 

Ele ainda constata que a suinocultura está se "esfacelando" e garante que se o cenário atual permanecer por 30 dias, "nós não vamos mais ouvir falar em produtores de suínos". Spricigo afirma que todos os envolvidos na atividade estão em situação de risco, desde o pequeno produtor até a grande agroindústria. "A produção vai se desmantelar. Há produtores desistindo da atividade". 

Os produtores da Regional de Videira também necessitaram fazer mudanças no plantel para conseguir ter sobrevida na atividade. Spricigo explica que está ocorrendo o descarte das matrizes e que não são repovoadas. "Estão sendo cancelados todos os pedidos de matrizes até que a situação tenha uma melhor perspectiva".

Santa Catarina é reconhecida como o Estado que tem o melhor plantel de suínos quando o assunto é status sanitário. Contudo, conforme Spricigo, a unidade federativa pode ser a primeira a "quebrar" por falta de políticas públicas que viabilizem o setor. 

Em Iomerê 
A suinocultura de Iomerê também é a grande responsável pela movimentação econômica do município, sendo que mais de 150 famílias dependem da atividade. O mini-integrador Alfonso Mugnol teme em não conseguir mais absorver a demanda de animais dos produtores. "Se a gente não absorver os leitões desse pessoal eles vão morrer aos poucos". 

Mugnol constata que para mudar a delicada situação será necessário diminuir o número de suínos no País, importar milho da Argentina e que a economia brasileira volte a funcionar. "O produtor independente já está morrendo e as agroindústrias também estão no prejuízo. Se não acontecer nenhum fato novo, em questão de 40 dias estará todo mundo falido. Eu nunca vi uma situação tão grave como essa". 

Análise do Paraná 

De acordo com o produtor da região de Guarapuava, no Paraná, Wienfried Mathia, a crise no Estado não se difere da catarinense, sendo que os preços dos insumos estão inflacionados e o suíno com valor depreciado. Ele avalia que a falta de diálogo entre os elos da cadeia produtiva agrava a situação. Nesse contexto, Mathia avalia que as agroindústrias deveriam colocar um preço mínimo pela carcaça do animal, com a tarifação tipo exportação. "Isso permitiria ao produtor cobrir o custo. Para isso deve haver um entendimento entre as agroindústrias e frigoríficos independentes".

Mathia diz que muitos produtores do Paraná não têm mais condições de comprar rações para manter o plantel, de modo que acabam expulsos da atividade. "O suinocultor não tem como suportar. Se ele for independente e não fez caixa nos últimos dois anos quando o preço estava bom, está numa situação muito mais grave".

Análise do Rio Grande do Sul

De acordo com o vice-presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (ACSURS), Mauro Antonio Gobbi, ainda há oferta de milho no Estado e com preço melhor na comparação com o Paraná e Santa Catarina. Mas, de forma geral, ele avalia que as dificuldades enfrentadas pelos gaúchos são as mesmas, sendo que a atividade também está em risco de extinção, sendo que muitos suinocultores já pensam em desistir da atividade, mas não conseguem se desfazer do plantel. "Nós estamos em uma situação sem saída a não ser esperar essa crise passar". 

Contudo, apesar do momento conturbado, Gobbi acredita que a suinocultura irá se recuperar a partir do segundo semestre, assim como ocorreu em 2015, quando o setor começou o ano com dificuldades. "O setor deve se reequilibrar, mas vai ficar gente pelo caminho, que não vai conseguir arcar com os prejuízos até a estabilidade voltar". 

Avaliação da ACCS

O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, avalia que o momento é desesperador, agravado principalmente pela briga política em Brasília. “Os políticos estão preocupados em não perder seus assentos. Para equilibrar a balança comercial e minimizar o déficit, o governo exporta tudo. A crise se agrava ainda mais para quem produz proteína animal”.

Losivanio também é categórico ao afirmar que se nenhuma atitude emergencial for adotada pelo governo, em breve, o Brasil terá de importar carne. “Todos pagarão de novo o alto custo desta proteína, pois a inflação será novamente a vilã neste País da impunidade e da incompetência de muitos políticos”. 

Audiência Pública

A ACCS programa para o dia 4 de abril uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). A entidade espera a participação dos produtores, lideranças políticas e representantes correlacionados com a área.

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Fonte: ACCS

1 comentário

  • Celso Oss SALTO VELOSO SC - SC

    ...Vcs ficam defendendo os suinocultores, mas quando a produção de suínos dava R$ 180,00 de lucro, ninguém reclamava..., os produtores de milho que se lascassem... Por que, como na fábula da formiga e da cigarra, não guardaram o dinheiro quando a carne suína estava dando lucro? já os produtores de milho pagando R$ 100,00 reais o saco de adubo, isso não tem problema nenhum, né??!!.

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    • CELSO OSSSALTO VELOSO SC - SC

      por que não reclamam do preço do suino?

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    • PAULO ROBERTO RENSIBANDEIRANTES - PR

      O ciclo da avicultura é de um pouco mais de 30 dias, já o da suinocultura exige um período mais longo. Ocorre que com a valorização do dólar as exportações aumentaram mais de 50%, a demanda por animais (frango e suíno) ídem. Só esqueceram de aumentar a oferta das matérias primas (milho e farelo de soja) para a produção da proteína animal, no minimo para atender o aumento da demanda. LEMBRAM-SE DA MINISTRA DA AGRICULTURA COM BONÉ RUSSO, FESTEJANDO OS CONTRATOS DE EXPORTAÇÃO DE CARNE SUÍNA PARA A RUSSIA?? AGORA É COBRAR DESSA DOIDA PORQUE ELA NÃO PLANEJOU OS ESTOQUES DE MATÉRIAS PRIMAS !!!.GOVERNAR É NO MINIMO ... PLANEJAR !!!

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    • PAULO ROBERTO RENSIBANDEIRANTES - PR

      Com relação a essa senhora (katia abreu)... Reitero: ISSO NÃO VAI PRESTAR !!!

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    • RODRIGO POLO PIRESBALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC

      Sr. Rensi, sou um liberal em economia, penso que o governo ajudaria muito se sequer pensasse em mercado, quanto mais o governo planeja, pior fica. A escassez de milho foi provocada pelas politicas cambiais do governo, não sei quem teve a brilhante idéia de desvalorizar o real, o que sem sombra de dúvida garantiu o "sucesso" do agronegócio, ou melhor, o sucesso de algumas atividades em detrimento de outras. As usinas de etanol quebraram devido às politicas públicas, assim como o setor avícola e suinícola está nesse momento passando por um grande aperto. Esse assunto é um dos que ninguém quer tocar, a desestabilização do real e seus efeitos sobre toda a economia brasileira, principalmente sobre a mesa do pobre. Ontem mesmo vi duas reportagens, uma sobre o mercado de peixes, centenas de pessoas trabalhando no feriado, milhares de consumidores sendo disputados pelos vendedores, suando muito, os patrões e os empregados, para logo em seguida passar a outra, na qual informava que nada menos do que 250.000 pessoas passariam pelo aeroporto de Brasilia na sexta santa. É isso, enquanto o Brasil for um país onde todos trabalham para que alguns viajem, não vai para a frente.

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    • PAULO ROBERTO RENSIBANDEIRANTES - PR

      Veja o que "O LEVIATÃ" provocou na economia com os sucessivos PAC?s. Será que ninguém enxerga que TODAS as obras de infraestrutura têm interesses escusos, onde os governantes vivem dos PIXULECOS dos valores astronômicos dessas obras.

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    • RODRIGO POLO PIRESBALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC

      Sem dúvida, qualquer investimento, inicialmente, provoca crescimento economico. Keines dizia que é melhor construir piramides do que não construir nada, exatamente o oposto de Hayek. Acontece que quando os investimentos são direcionados por vontade politica, o dinheiro vai para projetos inviáveis, possiveis de ser realizados somente com dinheiro público, aliás dois dos maiores grupos produtores de grãos do Brasil, pediram "recuperação judicial" nesse inicio de ano. O que os "programas" de governo, sociais, economicos, culturais, produziram no país, foi uma dívida imensa e nada mais que isso.

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    • PAULO ROBERTO RENSIBANDEIRANTES - PR

      Num artigo, nesta data, escrito por Plácido Fernandes Vieira, no Correio Braziliense, resume toda a realidade do Brazil, onde "lullas & dilmas" governam as massas. Segue uma parte do trecho: "Em qualquer país civilizado, um governo envolvido num gigantesco escândalo de corrupção como esse já teria caído. Se não caiu até agora é certamente porque o subdesenvolvimento ético e moral ainda resiste no Brasil. Com a Lava-Jato, se as investigações não forem logo enterradas mais adiante, o país pode dar um passo à frente. Principalmente com uma reforma política que garanta aos cidadãos mais poderes e mecanismos de controle sobre os eleitos. Um mandato, hoje, no Brasil, é como um cheque em branco daqueles que Lula um dia disse que daria a Roberto Jefferson, o homem que implodiu o mensalão e acabou implodido pelo próprio escândalo".

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    • DALZIR VITORIAUBERLÂNDIA - MG

      Caro Celso Oos de Salto Veloso(SC)...sobrou quem de suinocultor nesta região...O meu amigo Osmar Carboni...O Munhol...e o Cesca de sua cidade... o Mario Faccin...e quem mais...mais ninguém...

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