A sustentabilidade da energia, EVSRISTO DE MIRANDA (no ESTADÃO)

Publicado em 23/09/2016 13:18 e atualizado em 25/09/2016 12:25
629 exibições
Já somos uma das economias de mais baixo carbono, mas podemos melhorar

A fonte de 68% da energia renovável no País, que garantiu 28% da matriz energética brasileira em 2015, é a agropecuária. Um caso único no mundo para um país industrializado e com as dimensões territoriais do Brasil. Além disso, no ano passado, pela primeira vez a geração de eletricidade de origem eólica ultrapassou a de origem nuclear. Foram 1.859.750 toneladas equivalentes de petróleo (TEP) asseguradas pelos ventos, ante 1.267.124 TEP geradas por usinas nucleares, segundo o sempre excelente Balanço Energético Nacional (BEN), recém publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

A geração da energia nuclear mantém-se constante há anos. E não houve, nem haverá no curto prazo, nenhum aumento do parque nuclear. Já o setor eólico se beneficia de numerosos incentivos, cresceu 77% em um ano e seguirá crescendo. Mas a contribuição das eólicas na matriz energética ainda é pequena: 1,3%. Esse marco histórico das eólicas passou quase despercebido, assim como o papel da agricultura na geração de energia renovável.

A participação da energia renovável na matriz energética nacional foi de 41,2% em 2015. Um recorde fantástico. E já chegou a mais de 45% em alguns anos, em função de fatores climáticos, da economia, etc. A média mundial de energia renovável nas matrizes energéticas é de apenas 13,5%. Essa contribuição é ainda menor nos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): 9,4%. Ou seja, nas nações desenvolvidas mais de 90% da energia é suja, vinda em geral de petróleo, gás e carvão mineral. Isso pode ser avaliado nas emissões de CO2.

Cada brasileiro emite sete vezes menos CO2 do que um americano e três vezes menos do que um europeu ou um chinês, apesar da enorme população da China. Graças às energias renováveis, na produção de 1 MWh o setor elétrico brasileiro emite três vezes menos CO2 do que o europeu, quatro vezes menos do que o norte-americano e seis vezes menos do que o chinês.

Além de grande produtora de alimentos e fibras, a agropecuária nacional ampliou em magnitude única no planeta sua capacidade de gerar energia. A agricultura brasileira produz combustíveis sólidos (lenha e carvão vegetal), líquidos (etanol e biodiesel), gasosos (biogás e gás de carvão vegetal) e energéticos (cogeração de energia elétrica e térmica com subprodutos agrícolas, como bagaço de cana-de-açúcar, lixívia, palhas, cavacos, etc.).

Só os produtos energéticos da cana-de-açúcar garantiram 16,9% do total da energia consumida no Brasil em 2015, uma contribuição superior a todas as hidrelétricas juntas (11,3%)! Lenha e carvão vegetal contribuíram com 8,2%, ajudando a mover caldeiras e fornos, desde os das padarias e pizzarias até os das siderúrgicas de ferro gusa. Por fim, biodiesel, lixívia, biogás e outros resíduos asseguraram 3,1% de nossa matriz energética. Hoje, só o sebo de boi – um resíduo de frigoríficos – garante cerca de 20% da produção de biodiesel. O resto vem dos óleos vegetais, sobretudo de soja.

Para produzir alimentos, fibras e energia a agricultura brasileira consome energia na matriz (diesel para suas máquinas, energia elétrica, etc.). Quanto? 4,4%, segundo os dados do Balanço Energético Nacional. E ela devolve 28%.

A agricultura é o setor que menos consome energia e 4,4% é para toda a agropecuária: produção de alimentos, fibras e energia. O consumo específico para gerar energia é bem menor. Uma série de detalhamentos acerca do desempenho energético de várias cadeias produtivas está sendo calculada pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa. Nos dados do BEN 2015, a geração de energia (hidrelétricas, termoelétricas, usinas nucleares) consumiu 10,7% da energia da matriz.

A agroenergia é o resultado da transformação da energia solar em energia química pelas plantas. França, Japão ou Canadá poderiam produzir 28% de sua matriz energética com sua agricultura, como faz o Brasil?

Provavelmente, sim, mas consumiriam mais de 50% em sua matriz energética para realizar tal “feito”. Por quê? O clima limita a geração de agroenergia em países temperados. Em altas latitudes a fotossíntese só é possível na primavera-verão, de três a cinco meses, com cultivos de ciclo curto, como milho ou beterraba.

Já em países tropicais, com temperaturas elevadas, a fotossíntese é possível praticamente o ano todo, com cultivos de ciclo longo, como cana-de-açúcar, dendê, mandioca. Um campo de cana-de-açúcar ou de dendê é uma das mais eficientes e rentáveis usinas solares existentes!

Aqui, ganhamos mesmo em culturas de ciclo curto (soja, milho, girassol), pois é possível garantir duas colheitas em um ano (safras de verão e inverno). Outros países tropicais poderiam produzir mais energia renovável. Mas não o fazem. Além da geografia, é fundamental usar uma tecnologia agrícola tropical inovadora – e, nisso, o Brasil é reconhecidamente um líder mundial.

A contribuição da agroenergia na matriz energética brasileira continuará crescendo. E já seria maior se políticas erráticas e erradas não tivessem vitimado o etanol.

O uso eficiente de resíduos e a integração produtiva levarão a novos saltos tecnológicos, como etanol de segunda geração e gaseificação de palhas. Com novas hidrelétricas em funcionamento, mais o crescimento da agroenergia, das eólicas e da energia fotovoltaica, o País poderá atingir 50% da matriz energética com fontes renováveis. Já somos uma das economias de mais baixo carbono do planeta. Podemos melhorar, mas os países desenvolvidos precisam avançar – e muito – na descarbonização de suas economias para chegar perto do que fazemos. Quando o assunto é meio ambiente, como enfatiza o atual ministro da Agricultura, o agronegócio brasileiro é muito mais solução do que preocupação.

Evaristo de Miranda

Chefe Geral da Embrapa Monitoramento por Satélite e Coordenador do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (GITE)

Atual
  1. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA)
Anteriores
  1. FOOD AND AGRICULTURE ORGANISATION - FAO (ROMA)
  2. UNITED NATIONS EDUCATIONAL, SCIENTIFIC AND CULTURAL ORGANISATION - UNESCO (PARIS)
  3. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA - SAAI/PR (BRASÍLIA)
Formação acadêmica
  1. UNIVERSITÉ DE MONTPELLIER - FRANÇA

 

A semente da redução do preço da gasolina conta com um terreno fértil para vingar? / NOTÍCIAS AGRÍCOLAS

Um novo número divulgado nesta sexta-feira, 23 de setembro, volta a afirmar a difícil situação da economia brasileira e do trabalho árduo que a mudança de direção vai exigir das autoridades nacionais daqui em diante. Segundo informações da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a venda de combustíveis no país recuou 2% em agosto. O total, entre todos os produtos, foi de 74,37 milhões de barris comercializados. 

O elevado índice de desemprego no Brasil, as vendas de carros travadas no país - com o setor automobilístico sendo um dos mais emblemáticos marcos da atual crise econômica - e uma mudança no padrão de consumo dos brasileiros diante desse quadro foram determinantes para o resultado. Então, sim, o motorista tem preferido abastecer com gasolina e andar mais quilômetros do que observar o valor unitário na disputa gasolina x etanol, por exemplo. 

O levantamento da ANP confirma essa mudança ao indicar que, no mês passado, enquanto as vendas de etanol hidratado caíram 14% em relação a agosto de 2015, e somaram 8,5 milhões de barris, no mesmo período, as vendas de gasolina subiram 7,5% e totalizaram 22,25 milhões de barris. A palavra da vez é competitividade. Vende mais que atende melhor. Ao contrário do que aconteceu há um ano, afinal, a relação entre os dois combustíveis se inverteu e o etanol perdeu espaço. 

Hoje, o preço do etanol é, em média, 68,5% do preço da gasolina, ainda como mostra um levantamento da agência, e essa relação ao chegar nos 70% reduz ainda mais essa competitividade, como mostra uma média nacional estudada não só pela ANP, como também pelas montadoras de veículos. 

Enquanto isso, a Petrobras passa os dias refazendo suas contas e tentando colocar em ordem suas finanças quando, surpreendentemente, chega a notícia de que, ao mesmo tempo, uma redução no preço da gasolina estaria sendo estudado na estatal. A medida, que visa buscar um equilíbrio em relação à média de outros países, poderia ser anunciada até o final do ano. Pagamos afinal, uma gasolina 30% mais cara do que os gringos. 

Se o impacto dessa decisão em todas as frentes em que pode ser sentido já foi avaliado é difícil dizer. A arrecação tributária do Brasil não pode sofrer com isso já que nossas contas não param de crescer e devemos ter um déficit primário histórico de mais de R$ 170 bilhões. E hoje, 38% do preço da gasolina são de tributos, sendo somente 28% vindos do ICMS. Dos 31% da margem atual da Petrobras, quanto permanece? Quanto os cofres da companhia sentirão, especialmente no presente momento? O endividamento da Petrobras hoje chega a R$ 397 bilhões. 

Gasolina Petrobras

Uma nova política está sendo estudada pelos diretores, baseada em uma flutuação que pudesse refletir mais as oscilações do dólar e do petróleo no mercado internacional, esse que também tem vivido dias difíceis e de falta de direção. As mudanças fazem muito sentido e o Brasil de fato precisa se adequar ao modelo. Mas estamos preparados para isso?! 

Estamos com alternativas prontas para serem implementadas quando essa baixa chegar e pesar diretamente sobre o planejamento dos usineiros brasileiros? Ao baixar o preço da gasolina tipo A - que é adquirida por todas as refinarias - ao ser repassado para as bombas, o etanol poderia perder ainda mais sua competitividade, o que resultaria uma inevitável pressão sobre a receita das usinas. Até que ponto vai o lobby dos usineiros sobre o governo Temer? Até que ponto o bom momento para os preços do açúcar - dado o déficit mundial de oferta - compensa esse cenário? Vamos acompanhar. 

As decisões da Petrobras, vale lembrar, não são decisões que têm o mesmo impacto de uma empresa comum. As medidas anunciadas pela estatal têm um peso ainda maior, e as últimas em questão, além de contarem com o objetivo de reestruturarem a empresa, carregam ainda a possibilidade de uma abertura do setor ao capital privado e, consequentemente, uma menor intervenção do estado. E ao decidir baixar o preço da gasolina - bem como aumentá-lo, eventualmente, diante dos cenários e necessidades - a Petrobras carrega uma influência sobre os rumos da economia do Brasil. Principalmente agora.

O combustível "mais barato" poderia pressionar muito menos a inflação nacional, que também precisa de socorro urgente. E o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em um evento realizado nesta semana, sinalizou a necessidade deste socorro ganhar a atenção merecida, começando a citar a possibilidade forte de uma redução da taxa de juros no país. A continuidade dessa avaliação passará, certamente, pelo índice inflacionário. Assim, um mãozinha da gasolina não seria nada mal. 

Fonte: ESTADÃO + Notícias Agrícolas

Nenhum comentário