Petróleo: Impacto das altas poderá ser sentido na soja, no óleo, milho e açúcar

Publicado em 01/12/2016 17:43 e atualizado em 02/12/2016 16:40
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Ainda repercutindo o acordo firmado pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) nesta quarta-feira (30) de redução na produção de pouco mais de 1 milhão de barris por dia, a commodity voltou a subir nesta quinta-feira (1), registrando ganhos superiores a 4% nas bolsas internacionais e dessa forma quebraram a barreira dos US$ 50,00 por barril.

Para Gene McGillian, gerente de pesquisa de mercado da Tradition Energy, em entrevista à agência internacional de notícias Bloomberg, o otimismo (sobre o acordo) tem motivado uma alta rápida dos preços com a possibilidade de o corte ao lado de uma demanda mundial crescente irá trazer um equilíbrio ao mercado. "Eu vejo as máximas de 2016 alcançando os US$ 52,00 por barril, ou até mais altas" frente aos desdobramentos do acordo e os impactos que estão sendo esperados. 

Para outros especialistas, os preços do petróleo já começam a carregar um potencial de alcance entre os US$ 60,00 e US$ 70,00 por barril. E após o acordo, esse mercado viu até mesmo as projeções para uma redução de seu índice de volatilidade, de acordo com o Índice de Volatilidade do Mercado de Opções do Petróleo na Bolsa de Chicago. O indicador, nesta quarta, caiu 20%, sua maior variação em nove anos. 

Para Steve Cachia, diretor da Cerealpar e também consultor do Kordin Grain Terminal, de Malta, na Europa, apesar dessas boas perspectivas e da consistência do acordo, os ganhos recentes não significa uma tendência. "Trata-se apenas de uma mudança de patamar de nível de preço. Os fundamentos são conhecidos e o mercado trabalha com menos turbulência, a não ser quando há alguns riscos".

A redução acordada, afinal, de 1,2 milhão de barris/dia não muda muito o cenário de oferta e, como explica o executivo, apenas reduz os estoques - que são abundantes, atualmente - mas que, ao mesmo tempo, não indicam qualquer dificuldade na oferta. Segundo a própria Opep, seriam necessários apenas 31,9 milhões de barris por dia - de janeiro a junho - para equilibrar a oferta e demanda. 

Commodities Agrícolas

Entre as commodities agrícolas, as que poderiam sentir mais diretamente os efeitos dessa mudança de patamar do petróleo seriam a soja, o milho e o açúcar, ou seja, todas aquelas ligadas à combustíveis. "Quanto mais caro o petróleo, mais economicamente viavel fica usar combustíveis alternativos, como no caso milho e cana-de-açúcar para etanol, e soja para biodiesel", diz. 

E o acordo chega na sequência de um mandato da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) estimulando uma aumento do uso de biocombustíveis, o que acaba por configurar um cenário ainda mais favorável para estes produtos. As metas exigem que as empresas de energia utilizem em suas misturas 19,28 bilhões de galões de combustíveis renováveis na oferta dos convencionais. 

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"A conta é favorável a uma maior demanda e consumo pela indústria de biodiesel e etanol. Prova disso foi o rally que tivemos nos preços do óleo de soja", diz Cachia. No intervalo de 1º de novembro a 1º de dezembro, os futuros do óleo de soja negociados na Bolsa de Chicago subiram 7,30% no contrato janeiro/17 e 7,51% no março/17, os mais negociados neste momento, superando os 37 cents de dólar por libra. De 20 de agosto até esta quinta-feira (1), o ganho supera os 20% no vencimento janeiro, como ilustra o gráfico da CME Group, a seguir.

Gráfico Óleo CBOT - Agosto a Dezembro 2016

Como lembra o consultor de mercado Carlos Cogo, da Carlos Cogo Consultoria, além disso, o mercado de biodiesel nos Estados Unidos é mais "livre" do que o do Brasil, por exemplo, carregando uma possibilidade de expansão e isso também contribui. "Eles podem até mesmo exportar biodiesel, e isso é ótimo", explica.

Sobre o impacto nos preços do milho, o consultor lembra ainda que, atualmente, os preços do etanol registram ainda essa dependência dos preços da gasolina e que para o combustível o break even no petróleo está entre US$ 50,00 e US$ 55,00 por barril. Assim, uma mudança muito brusca das cotações altera, portanto, de forma expressiva, os valores do etanol e do milho. Hoje, cerca de 35% da safra norte-americana é utilizada para a produção do combustível, quando, no auge, esse índice já chegou aos 40%. 

Ainda falando de etanol, Cogo afirma ainda que uma consolidação das altas do petróleo é francamente altista para os futuros do açúcar. "Com o petróleo mais alto, sobem os preços do etanol, aumenta a produção de etanol, se reduz a de açúcar e os preços podem subir", diz. 

Demanda por alimentos

O consultor chama a atenção ainda para a outra face da moeda nesse novo momento do mercado do petróleo. Com os preços mais elevados, os países produtores e exportadores da commodity contam, portanto, com mais renda para a aquisição de alimentos e muitos deles são grandes importadores de produtos brasileiros. "Países do Oriente Médio, por exemplo, poderiam comprar mais do Brasil, principalmente proteínas animais". 

Custos de Produção

Em contrapartida, petróleo mais alto pode também significar altas nos custos de produção, impactando não só agroquímicos, mas também acarrentando em valores mais altos para os combustíveis e aumentando, além dos gastos com seu consumo próprio, os valores dos fretes por exemplo. 

Fragilidade do acordo

O acordo, que é o primeiro desse caráter em oito anos e marca o alinhamento de posturas de países com um histórico de posições duras e pouco felxíveis, ainda não tem todos os seus detalhes conhecidos e, por isso, tampouco seus efeitos mensurados com exatidão. A fragilidade da conciliação entre as nações que controlam 40% do petróleo do mundo é, portanto, grande. 

"Acordos que envolvem números grandes números de player têm tudo para dar errado. São países de grandes diferenças políticas, econômicas, culturais, sociais e isso pode pesar", explica Carlos Cogo. "Por isso, vai ser preciso acompanhar o ritmo, se é algo consistente", completa. 

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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