Precisão ou Revolução? Parte 2
Publicado em 25/03/2013 17:59
e atualizado em 09/07/2013 09:22
Por Amilcar Centeno Silva.
Na semana passada abordamos o conceito da Agricultura de Precisão, bem como os benefícios da solução mais popular neste início de aplicação desta nova e fantástica tecnologia: os sitemas de auxílio à direção ou, como são chamados popularmente, as réguas de luz e os pilotos automáticos.
Estes são apenas os primeiros passos de uma tecnologia que promete revolucionar a agricultura do Século XXI, com um impacto tão abrangente e tão significativo quanto a biotecnologia e os biocombustíveis.
As próximas ferramenta da Agricultura de Precisão já estão aí, ainda em seus passos iniciais, vivendo as necessárias etapa de adoção e aprendizado,imprescindíveis quando se introduz uma nova técnica tão complexa e revolucionária.
Nesta etapa estão o mapeamento da fertilidade e o mapeamento da produtividade, assim como a consequente aplicação em dose variável, que são os passos seguintes da Agricultura de Precisão.
Desconheço estatísticas confiáveis, mas utilizando informações de diferentes fontes é possível estimar que já tenhamos no Brasil mais de 1 milhão de hectares com sua fertilidade mapeada de forma detalhada, permitindo aplicar nestas áreas as novas técnicas da Agricultura de Precisão. Muitas destas áreas já estão recebendo aplicações de fertilizantes em doses variáveis há alguns anos. Em uma propriedade que visitei recentemente, que já pratica adubação em taxa variável há 6 anos numa área total de 3.500 hectares, já foi possível comprovar uma economia de aproximadamente R$ 1 milhão em fertilizantes ao longo deste período. E isso sem interromper a sequência de ganhos anuais de produtividade!
Outra fonte de dados importante para a introdução da Agricultura de Precisão são os mapas de produtividade. Esta tecnologia foi introduzida ainda no início deste século, quando as colheitadeiras foram equipadas com sensores que permitem medir em tempo real a quantidade e a umidade dos grãos colhidos. Estas informações, combinadas com a tecnologia de posicionamento do GPS e com o auxílio de softwares específicos, nos permitem mapear a produtividade em escala sub-métrica. Em pouco tempo não estaremos mais falando em sacos ou toneladas por hectares, mas em quilos por metro quadrado!
Uma das maiores barreiras para a expansão da Agriucltura de Precisão é a questão de como agir e gerenciar a variabilidade das lavouras. Afinal, até então estávamos acostumados a administrar a lavoura por talhões, com muitoshectares cada, e agora ficamos olhando nossos mapas e perguntando a nós mesmos: o que faço com este metro quadrado pintado de vermelho? Ou com aquele de cor verde?
No caso dos mapas de fertilidade as coisas são um pouco mais claras, pelo menos no que diz respeito ao Fósforo, Potássio e Nitrogênio. Isso se deve principalmente ao fato de já existirem técnicos e empresas com conhecimento suficientes para fazer uma recomendação de dose varável de nutrientes, seja em quantidade (mais frequentemente), seja em composição (menos frequente).
Quanto aos mapas de produtividade, o aprendizado deverá ser um pouco mais longo, uma vez que existem inúmeros fatores que podem afetar esta produtividade. De uma forma geral, quase todos os que lidam com a agricultura devem se lembrar da famosa regra do barril, que afirma que o nível da água dentro de um barril equivale à altura do furo mais baixo! Da mesma forma, na agricultura, a produtividade de uma área depende do fator limitante (o furo mais baixo do barril). Podemos interferir de todas as formas nos outros fatores, mas se não eliminarmos este fator limitante, não obteremos a resposta esperada na produtividade da lavoura.
O problema é que este fator limitante também varia de lugar para lugar e de safra para safra dentro dos mesmos talhões. De qualquer forma, precisamos identificar estes fatores antes de começarmos a interferir com as técnicas da Agricultura de Precisão.
Quase sempre somos tentados a acreditar, num primeiro momento, que o fator limitante é a fertilidade do solo, mas nem sempre isto é verdadeiro. No Meio-Oeste dos Estados Unidos, berço da Agricultura de Precisão, é comum vermos os agricultores discutindo quais seriam os fatores causadores de variabilidade mais frequentes em suas propriedades, e o interessante é que a fetilidade quase sempre está em 10º a 12º lugar da lista! Nas condições específicas destas grandes planícies temperadas, o fator limitante mais frequente é a drenagem. Para piorar as coisas, o efeito deste fator limitante inverte conforme a precipitação média ao longo da safra: nos anos mais úmidos, a produtividade maior é nas áreas próximas aos drenos, sendo que nos anos mais secos, estas são as áreas de menor produtividade.
Por isso mesmo, os especialistas no assunto sempre recomendam que não se faça interferências nas lavouras logo após os primeiros mapas de produtividade, mas que se procure acumular 4 a 5 mapas para entender esta variabilidade ao longo do tempo e em diferentes condições de produção.
Ainda não vi uma lista semelhante com os fatores que causam variabilidade nas lavouras Brasileiras, mas consigo imaginar uma série de fatores que poderiam anteceder a fertilidade dos solos, como a compactação do solo (nos rastros das máquinas), acidez (que depende da uniformidade de distribuição de calcáreo), doenças de solo (que quase sempre aparecem em manchas) e doenças fúngicas (como a ferrugem da soja).
As primeiras ferramentas da Agricultura de Precisão estão aí, assim como nossos técnicos estão se qualificando para assessorar os produtores neste complexo esforço de entender e gerir a variabilidade de suas lavouras. Por outro lado, ninguém conhece sua propriedade como o agricultor. Por isso, ninguém melhor do que o produtor para entender a variabilidade de suas lavouras ou para identificar os fatores limitantes que causam esta variabilidade em cada canto de cada talhão.
No próximo artigo vamos discutir um pouco sobre como podemos interferir nesta variabilidade para colhermos resultados na última linha de nossos balanços.
Por enquanto, PENSE NISSO!
Fonte:
100teno Estratégia Planejamento