Matando a fome e a sede, por Amilcar Centeno
Publicado em 29/04/2013 16:05
e atualizado em 29/04/2013 17:43
Por Amilcar Centeno Silva.
Todos sabemos que a água é fundamental para a vida, não só para saciar nossa sede mas também para a produção de alimentos. Tanto que as secas ou veranicos são as principais causas para a perda de produção na agricultura.
Por outro lado, seguidamente lemos matérias alarmantes ou discursos apocalípticos anunciando que o consumo de água poderá ser o grande problema do mundo num futuro próximo e que a agricultura é a grande vilã da estória, pois é a principal consumidora de água doce do mundo, respondendo por cerca de 70% deste consumo.
Mas vamos examinar estes fatos mais de perto e com um pouco mais de racionalidade.
Antes de mais nada é preciso corrigir o verbo: não se consome água, mas usa-se a água. Isto porque, conforme diz a ciência, o volume de água existente neste planeta é o mesmo desde sua formação, algo em torno de 1,4 bilhões de km3. Ou seja, não se criou nem se consumiu uma única gota de água desde então. Ela pode mudar de estado, composição, localização ou qualidade, mas não é criada ou destruída (ou consumida).
É muito importante ter este fato muito claro quando se discute a questão da água, caso contrário podemos tomar decisões erradas e precipitadas. Podemos acabar fazendo como um amigo meu, que decidiu deixar de comer carne bovina pelo fato de uma vaca consumir 40 litros de água por dia. Ele apenas usou o verbo errado e esqueceu-se de que a vaca não consome, mas usa a água que bebe no seu metabolismo, devolvendo quase todo este volume na forma de urina, transpiração ou leite, fixando apenas uma parcela mínima na formação de novos tecidos. Mesmo esta pequena parcela acaba retornando à natureza após a sua morte!
Isto é válido tanto para a vaca como para qualquer outro ser vivo, sejam eles animais ou vegetais: mais cedo ou mais tarde, devolvemos ao mundo o que dele retiramos para nosso ciclo vital.
Mas se é assim, então porque tanta preocupação com a água?
Para darmos uma boa resposta a esta questão, antes de mais nada é preciso definir claramente quais são os problema, para que possamos buscar as soluções corretas.
Com base no que já foi dito, e levando-se em consideração o que se passa no mundo, podemos sugerir que existem dois problemas fundamentai com o uso da água pela humanidade: a sua disponibilidade e a sua qualidade.
A disponibilidade diz respeito ao local, à forma e ao momento em que ela está à disposição de nossas necessidades, a começar pelo fato de que 97,5% da água existente no planeta é água salgada. Isto ainda é um problema, muito embora estime-se que ainda nesta década cerca de 2% da água utilizada pelo homem virá de processos de desanilização da água do mar!
Outro problema é que dos 2,5% de água doce existente, 68,9 % está fixada na forma de gelo, principalmente nas duas calotas polares, e outros 30,8% encontra-se no subsolo, o que torna o acesso a esta água mais difícil e mais dispendioso. Isto nos deixa com apenas 0,3% dos 2,5% de água doce do planeta à disposição nos lagos e rios.
A boa notícia é que 20% desta água doce está localizada no Brasil, muito embora 80% esteja na bacia amazônica. De qualquer forma,uma boa parte desta água amazônica acaba sendo utilizada por nós, pois hoje sabemos que vem desta região a maior parte da umidade que forma as chuvas que caem em quase todo o território Brasileiro.
Um outro problema sério da disponibilidade da água é conciliar o momento da necessidade com o da disponibilidade desta água. Aqueles que vivem da agricultura sabem muito bem disso. Os agricultores dos Cerrados, por exemplo, recebem anualmente cerca de 1800 mm de chuva, suficientes para até 3 safras, mas infelizmente toda esta precipitação se concentram nos 6 meses da estação das chuvas! Imagine do que seríamos capazes se esta água estivesse disponível de forma constante ao longo de todo o ano?
Infelizmente, apenas 10% da água utilizada na agricultura vem de sistemas de irrigação. A maior parte é água da chuva, barata mas irregular! No Brasil, apesar de toda a água disponível, irrigamos apenas 4,1 milhões de hectares, quando temos potencial para irrigar de 22 a 30 milhões de hectares, muito próximo dos 24 milhões de hectares irrigados atualmente nos Estados Unidos.
Outro problema sério da água é sua qualidade, afetada principalmente pela poluição, que torna imprópria para o uso humano exatamente aquela pequena parcela da água doce disponível. A maior parte desta poluição vem do uso urbano e industrial. Ainda bem que 70% da água é utilizada pela agricultura, pois ela serve como um grande filtro purificador, reciclando-a principalmente através da evapotranspiração, de forma semelhante a um grande destilador de água. Podemos até afirmar que a Agricultura não só mata a fome, mas também mata a sede do mundo!
A pequena contribuição da agricultura para a poluição das águas provem dos resíduos dos defensivos e dos excedentes de fertilizantes, mas estes são fatores que estão sendo cada vez mais controlados com o uso de produtos menos tóxicos ou biodegradáveis, bem como pela aplicação da genética para tornar os organismos mais resistentes e eficientes.
Por outro lado, imaginem se 70% da água utilizada pelo homem não estivesse nas mãos da Agricultura mas sim no Rio Tietê? Aí sim estaríamos em maus lençóis!
Portanto, da próxima vez que matares a sede com um copo de água fresca, agradeça à Deus e levante um brinde à Agricultura!
PENSE NISSO!
Fonte:
100teno Estratégia Planejamento