Os agricultores do meio: a questão, por Amilcar Centeno

Publicado em 13/05/2013 11:35
Por Amilcar Centeno Silva.
Quando falamos de nossos produtores agrícolas, frequentemente focamos as questões sociais e econômicas dos pequenos produtores ou a pujança e o desenvolvimento de nossos grandes produtores, que competem de igual para igual no mercado internacional de commodities agrícolas.
Pouco ou quase nada se fala sobre o agricultor de médio porte ou, como vamos nos referir neste artigo, os agricultores do meio! 
Antes de mais nada, é preciso definir com clareza o que entendemos serem estes agricultores do meio. Neste artigo vamos nos referir aos agricultores do meio como aqueles cuja estrutura produtiva os fazem pequenos demais para competir com a eficiência dos grandes produtores de commodities agrícolas verticalmente integrados, ao mesmo tempo em que são grandes demais para comercializar seus produtos diretamente ao consumidor final ou para ter acesso aos programas de apoio ao pequeno produtor. 

Estes agricultores não são definidos apenas pelo tamanho de suas propriedades ou de sua renda, muito embora suas características estejam relacionadas ao porte de suas atividades. Sua condição é muito mais um posicionamento intermediários entre os extremos do mercado do que um segmento estrutural. São verdadeiros representantes da classe média rural.
Uma característica comum aos agricultores do meio é a dramática redução da sua participação nas economias de livre mercado na medida em em que estas economias se desenvolvem e se urbanizam. Isto se dá pelo fato de estarem no meio de duas poderosas forças polarizantes. No extremo inferior, tendem a ser divididos em operações de menor porte pelos processos de partilha por herança ou simplesmente pela inviabilidade econômica. No extremo superior, tendem a ser consolidados em operações de maior porte pelas forças de mercado que buscam a eficiência de escala para viabilizar resultados positivos num mercado commoditizado e de margens residuais.
Este efeito é denominado pelos especialistas como polarização ou o “desaparecimento do meio”, e é mais evidente nas economias mais desenvolvidas. Nos Estados Unidos, por exemplo, este é um fenômeno estrutural extremamente preocupante e é denominado de AOTM – Agriculture of the Middle (a Agricultura do Meio). Neste país, num período de apenas 10 anos houve uma redução de 25% no número e de 29% na renda dos agricultores do meio, Esta redução é tão dramática que alguns estudos preveem que se nada for feito para reverte esta tendência, estes agricultores poderão desaparecer ao longo da próxima década! E com eles desaparecerão todos os benefícios econômicos, sociais e ambientais que esta classe média rural proporciona às comunidades e países em que atuam. Falaremos destes benefícios mais adiante.
No Brasil pouco se fala e pouco se faz a respeito desta agricultura do meio, porém as estatísticas, bem como a simples observação da realidade, já dão sinais de que este “desaparecimento do meio” já está em andamento em nosso setor produtivo.
Uma análise superficial dos números de nossos censos agrícolas nos indicaria, a princípio, de que não estão ocorrendo mudanças significativas na estrutura fundiária do país, afinal, ao longo das últimas 4 décadas, apesar de todo o desenvolvimento de nossas fronteiras agrícolas, o tamanho médio da propriedade rural oscilou entre 70 ha e 80 ha, e o número de agricultores permaneceu em torno de 5 milhões.

Porém, uma análise mais detalhada destes dados, mostram que estas médias ocorreram a partir de um crescimento dos extremos e uma ainda pequena mas constante redução do meio, caracterizando o início de um fenômeno de polarização desta estrutura.

Apenas para efeito de análise estatística, vamos assumir que os agricultores do meio de uma forma geral são produtores com propriedades entre 100 e 1000 ha e com uma receita bruta anual entre R$ 65 mil e R$ 275 mil (similar à renda uma família de classe média com 4 membros). Com base nesta definição e comparando os dados do censo agrícola de 1970 com os do último censo de 2006, é possivel verificar que neste período o número de agricultores do meio permaneceu relativamente constante, oscilando entre 400 e 500 mil produtores, equivalentes a 8,5% a 9,5% do total, porém a área ocupada por estes agricultores apresentou uma redução contínua de 37% para 34% da área total.

No mesmo período, os agricultores de pequeno porte (menos de 100 ha) permaneceu como o setor mais populoso do meio rural, incluindo cerca de 90% dos produtores, porém ocupando menos de 20%, enquanto os agricultores de maior porte (acima de 1.000 ha), mesmo representando apenas 1% do total de produtores, cresceu sua participação na área total de 39% para 45%.
Muito embora estas mudanças ainda sejam relativamente pequenas, elas são constantes e indicam o estagio inicial de um processo de polarização. Ignorá-las significa perder a oportunidade de reagir a tempo de reverter esta tendência, um erro cometido por países que ja passaram por este processo, como é o caso dos Estados Unidos mencionado anteriormente.
Nas próximas semanas vamos discutir as razões pelas quais devemos nos preocupar com esta tendência, suas prováveis consequências, e as possíveis soluções para revertê-la.
Até lá, 

PENSE NISSO!

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Fonte: 100teno Estratégia Planejamento

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