Os agricultores do meio: A importância

Publicado em 27/05/2013 09:18 e atualizado em 09/07/2013 09:23
Por Amilcar Centeno Silva.

Em nosso último artigoa presentamos a questão dos agricultores do meio, definindos como aqueles cuja estrutura produtiva os fazem pequenos demais para competir com a eficiência dos grandes produtores de commodities agricolas verticalmente integrados, ao mesmo tempo em que são grandes demais para comercializar seus produtos diretamente ao consumidor final ou para ter acesso aos programas de apoio ao pequeno produtor.

Discutimos a tendência ao desaparecimento destes verdadeiros representantes da classe média rural, um fenômeno que tende a se manifestar na medida em que a economia e agricultura dos países se desenvolvem. Indicamos, também, que esta tendência dá sinais de estar em seus estágios iniciais na agricultura Brasileira.

Mas afinal, porque devemos nos preocupar com esta tendência? Afinal, se poucos grandes agricultores, em conjunto com um grande número de pequenos produtores, são capazes de produzir todo o alimento, fibra e energia de que necessitamos, porque deveríamos nos preocupar com o “meio”?

Podemos começar esta discussão afirmando que normalmente esperamos mais de nossos agricultores do que simplesmente produzir uma grande quantidade de alimento barato. Esperamos, também, que estes agricultores cuidem e protejam o meio ambiente para as gerações futuras, que nos forneçam alimentos de qualidade, muitas vezes com atributos diferenciados (orgânicos, frescos, integrais, etc.), bem como que sejam bons cidadãos, contribuindo para a sustentação das comunidades rurai em que vivem. Em poucas palavras: esperamos que pratiquem uma agricultura sustentável e que nos proporcionem segurança alimentar.

É dentro deste contexto que os agricultores do meio ganham importância, desempenhando importantes funções econômicas, sociais e ambientais.
Osbenefícios ambientais derivam principalmente do fato dos agricultores do meio seremgeralmente gestores de propriedades que estão na família há várias gerações, o que torna o cuidado com a terra altamente prioritária, uma vez que entendem que ela é parte da herança familiar e deve ser mantida e preservada para as próximas gerações. 

Outro aspecto muito importante é que o conhecimento do ambiente local é passado de geração para geração, permitindo uma efetiva conservação e o uso sustentável da propriedade. Desta forma, as decisões destes agricultores não levam em consideração apenas o lucro, mas também a preservaçãodo ambiente e das comunidades em que operam.

Isto não quer dizer que estes agricultores do meio não cometam erros que possam afetar o ambiente ou as comunidades em que vivem, mas sim que estes agricultores tendem a levar estas questões em consideração em suas decisões. Como afirma o ambientalista R. Edward Grumbine no seu livro Ghost Bears (Island Press, 1992), “só podemos prover a gestão efetiva de um ambiente natural se tivermos alguém vivendo neste ambiente com a intimidade e o tempo suficientes para que possa aprender como gerenciá-lo”.

A importância social dos agricultores do meio deve-se principalmente à sua estreita relação com as comunidades em que operam. Enquanto os grandes produtores tendem a negociar diretamente com os fabricantes ou grandes distribuidores de insumos, os agricultores do meio normalmente compram máquinas no concessionário da região, adquirem fertilizantes e sementes dos distribuidores locais, e armazenam ou comercializam seus grãos junto às empresas da região.

Por outro lado, da mesma forma que nos grandes complexos industriais, nas grandes propriedades a mão-de-obra tende a ser predominantemente composta por trabalhadores de baixa renda, na grande maioria recebendo um salário mínimo, reduzindo a capacidade destes empreendimentos de distribuir renda e limitando seus benefícios econômicos às comunidades locais.

No outro extremo, os pequenos produtores tendem a ser integrados por grandes empresas, trabalhando sob contrato e utilizando pacotes tecnológicos especificados pelas empresas contratantes, incluindo processos e tecnologias padronizadas. Nas suas formas mais extremas, estes agentes integradores tornam-se até mesmo proprietários das plantas e animais existentes na fazenda, a ponto de ter sido criada a expessão “servos em sua própria terra” para descrever estes produtores “franqueados”, que acabam se tornando simples fornecedores de mão-de-obra, com um mínimo de independência para tomar decisões, bem como com um espaço muito restrito para exercer a criatividade e o empreendedorismo que sempre caracterizaram o homem do campo.

Caso esta tendência pela polarização da estrutura fundiária persistir, num futuro próximo todas as decisões e negociações serão feitas por empresas e investidores distantes, beneficiando não as comunidades locais, mas acionistas anônimos de grandes corporações com sede em aglomerados urbanos.
Não queremos de forma alguma negar ou ignorar os benefícios econômicos proporcionados pelos grandes produtores de commodities, que necessitam da eficiência de escala para operar em mercados com margens residuais. 

Também não queremos negar os benefícios sociais, econômicos e ambientais proporcionados pelos pequenos produtores rurais, porém é preciso reconhecer que a pequena área cultivada por estesagricultores (menos de 20% no Brasil) limita o impacto destes benefícios.
Como dissemos no início, nosso objetivo é chamar a atenção para o importante papel e os grandes benefícios proporcionados à sociedade pelos agricultores do meio, enfatizando a necessidade e a urgência de tomarmos medidas que preservem esta “classe média rural”.
No próximo artigo vamos explorar e discutir algumas das possíves medidas que poderiam ajudar a preservar esta “agricultura do meio”. 
    

Até lá, 

PENSE NISSO!

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Fonte: 100teno Estratégia Planejamento

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