O impacto do atraso norte-americano, por Amilcar Centeno

Publicado em 18/06/2013 11:08 e atualizado em 19/06/2013 13:07

Neste momento, todos os olhos de quem produz, compra, vende ou de alguma forma se envolve com a cadeia produtiva da soja, estão voltados para o Meio Oeste dos Estados Unidos. Lá está sendo jogada a sorte deste mercado para esta safra.

Apesar de toda a capacidade da maior frota de máquinas do mundo (veja artigo da semana passada), já estamos no meio do mês de junho e apenas 85% da área de soja foi plantada até agora nos 18 principais estados produtores daquele país, responsáveis 95% da produção norte-americana, equivalente a um terço da produção mundial da oleaginosa. No ano passado, nesta mesma época do ano, 98% da área já havia sido plantada.

A estas alturas já é possível afirmar que haverá uma redução na produtividade e na produção das lavouras de soja norte americana, porém ainda é muito cedo para estimarmos o tamanho deste impacto, mas vale a pena olharmos para os fatos sob a ótica dos produtores norte americanos, para entendermos o tamanho do drama que estão vivendo e o que poderá acontecer com suas lavouras daqui para a frente.

Como regra geral, a recomendação é que se plante a soja o mais cedo possível, assim que as condições do solo se recuperarem do frio e da umidade do inverno. O objetivo é permitir que as plantas recebam o máximo de radiação solar que a forte sazonalidade daquelas latitudes oferecem ao longo do curto ciclo produtivo, uma vez que as plantas necessitam desta energia para converter dióxido de carbono em carbohidratos, proteínas e lipídios (óleo).

Na maior parte das regiões produtoras dos Estados Unidos, o ideal é que a soja seja plantada até final de Abril ou início de Maio. Plantando após este período corre-se o risco de reduzir a produtividade da lavoura. Existe inclusive uma expressão popular entre os produtores norte americanos: “Get that soybean field green to the eye by the 4th of July” (“tenha aquela area de soja verde aos olhos em torno de 4 de julho”, feriado da independência dos Estados Unidos). Na primeira semana de Maio passado, apenas 12% da área de soja havia sido plantada.

Veja nas fotos abaixo como o atraso no plantio impacta no desenvolvimento das plantas de soja. Fica claro como plantando-se mais cedo a soja “fecha” a área, permitindo coletar toda a energia solar que atinge a lavoura. 

Outro ponto importante que afeta a quantidade de energia solar disponível para o desenvolvimento da soja é o número de horas de sol por dia. No hemisfério Norte, o dia mais longo do ano, o solstício de verão, ocorre em meados de junho, quando o comprimento do dia chega a mais de 15 horas de sol. Depois desta data, o número de horas cai rápidamente, sendo que por ocasião da colheita, em meados de setembro,acontece o equinócio de outono, quando noite e dia têm o mesmo número de horas. Caso a soja seja plantada no final de Abril ou início de Maio, a lavoura fechará a cobertura do solo aproximadamente uma semana depois do solstício de verão. Quando semeadas após esta data, as plantas perdem a oportunidade de absorver este pico de energia solar, reduzindo seu potencial produtivo.

A data de plantio também influi no número de dias do ciclo produtivo, uma vez que que o desenvolvimento das plantas é interrrompido pelas primeiras geadas, que no Meio Oeste norte-americano normalmente ocorrem no final de setembro ou início de outubro. Recomendações dos serviços de extensão dos EUA indicam que a soja plantada após o dia 10 de Junho tem sua produtividade reduzida em aproximadamente 0,5 sacos/há por dia até o final do mês. Da mesma forma, cada 3 a 5 dias de atraso normalmente atrasa o periodo de maturação da soja em 1 dia, aumentando o risco das plantas serem afetadas pelas primeiras geadas que normalmente ocorrem no final de setembro ou início de outrubro na maior parte das regiões produtoras.
    Além de otimizar a quantidade de energia solar absorvida pelas plantas, é preciso estimular as plantas    a maior parte possível da água disponível ao longo do ciclo produtivo, uma vez que existe uma relação linear entre o volume de água transpirada e a produtividade das plantas. Pode-se dizer que as plantas precisam transpirar, pois páticamente trocam água por dióxido de carbono no processo de produção de matéria seca, tanto da planta como dos gãos. De uma forma geral, são necessários 75 metros cubicos de água para produzir uma saca de soja. Isto inclui tanto a água transpirada pela planta como aquela evaporada a partir do solo, de modo que deve-se procurar reduzir a quantidade de água evaporada do solo, deixando o máximo possível de água disponível para a transpiração e metabolismo das plantas. Para isso é importante plantar cedo, aproveitando os dias mais frios do final de abril e início de maio e fechando a lavoura o mais cedo possível.
 
Por fim, também é preciso semear cedo para garantir que a planta tenha tempo para produzir o maior numero de nós, uma vez que é nestes nós que são produzidas as flores, que produzem vagens e, por fim, as sementes dentro destas vagens.A soja plantada tardiamente não tem a oportunidade de desenvolver tantos nós quanto as plantas semeandas mais cedo, afetando signficativamente a produção de sementes por planta.

A combinação destes tres fatores resulta numa redução da produtividade da soja com o atraso na data ideal de plantio. De acordo com experimentos conduzidos no estado de Nebraska, cada dia de atraso após 1º de Maio reduz o potencial produtivo da soja em 40 kg/ha num ano normal, e em 17 kg/há em anos mais difíceis. Resultados semelhantes foram encontrados em experimentos realizados em outros estados produtores.

Projeções mais concretas só serão possíveis no mês de Agosto, pois o clima nesta fase final do ciclo produtivo será fundamental para definição da produtividade da soja, porém, com base no que foi descrito acima, podemos esperar que as lavouras de soja norte-americanas terão sua produtividade sériamente afetada pelo significativo atraso ocorrido no plantio desta safra. As primeiras estimativas de consultores locais indicam que a produtividade média deverá ficar entre 38 e 40 sacos/há, comparados a 45 a 48 sacos/ha em anos normais.

Portanto, neste momento em que estamos planejando nossa próxima safra, é possível projetar mais um ano de excelentes resultados para os produtores brasileiros de grãos, principalmente se o clima não trouxer dificuldades para nossas lavouras.

PENSE NISSO!

 

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Fonte: 100teno Estratégia Planejamento

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