Publicidade

Por que importamos fertilizantes se temos tantas jazidas no Brasil?

Publicado em 23/10/2012 18:08 e atualizado em 05/03/2020 23:05 3049 exibições
por GLAUBER SILVEIRA

No último fórum deste ano do projeto Soja Brasil, uma parceria da APROSOJA BRASIL com o Canal Rural, realizado na última quinta-feira (18/10), em Londrina-PR, colocamos em discussão a necessidade de o Brasil ter uma política para os insumos agropecuários, em particular fertilizantes, defensivos e sementes.  Ficou clara a falta de uma agenda estratégica para um setor tão importante, não só do ponto de vista econômico, mas também de segurança alimentar.

O primeiro o que mais chamou a atenção de todos no debate foi a alta dependência de fertilizantes importados. No caso de fertilizantes nós dependemos de 75% de matérias-primas importadas; no caso do cloreto de potássio o número sobe para 90%. E é aí que está o problema. Os fertilizantes somam 30% do custo de produção para soja e milho, e em tempo de pico de preços o insumo chega a somar 40% do custeio dessas culturas.

Se refletirmos na importância do insumo para o Brasil, que deve dobrar sua produção em 20 anos, fica claro os riscos de sermos tão dependentes de importações. Ainda mais considerando que o setor é extremamente oligopolizado, particularmente no potássio, que temos maior dependência, com as principais jazidas comerciais presentes em apenas quatro países em um mercado dominado por três empresas, como destacou o deputado Reinhold Stephanes em sua fala durante o fórum.

Ainda assim o Brasil só consome 6,5% do fertilizante mundial, o que primeiro mostra nosso potencial de crescimento, mas também que comparado com a China, Índia e EUA (que consomem 30%, 16% e 12%, respectivamente), o país se torna um mero tomador de preços do mercado internacional. E embora existam jazidas de fósforo, potássio de grandes proporções e gás natural (com potencial para nos transformar em exportadores de nitrogenados), o custo de importar esses insumos é menor do que de produzi-los através da nossa indústria nacional.

Seja como for, o ex-ministro Stephanes bem colocou seu ponto de vista. Embora tenha construído em sua gestão as bases para um plano nacional de fertilizantes a ser encampando e incentivado pelo Executivo, após todos os debates e conclusões e a formatação de um texto final, o documento foi engavetado pelo governo.

Publicidade

Segundo Stephanes, no caso de fósforo e nitrogênio seria uma questão de médio prazo para o Brasil se tornar autossuficiente ou importaria fertilizantes apenas para complementar a produção nacional -- e não o contrário, como ocorre hoje. Para potássio, a exploração das minas na Amazônia de proporção internacional nem é cogitada, mas mesmo assim a exploração de minas ao longo do litoral ou cloreto trazido de países vizinhos como Bolívia e Argentina reduziria muito nossa dependência de produtos vindos da antiga União Soviética (Rússia e Bielorrússia), Canadá e Oriente Médio.

O pior de tudo é ver um ex-ministro dizer que tentou de tudo, verificou os problemas, fez sugestões ao MME (Ministério das Minas e Energias) para que mudasse o modelo de concessões de jazidas, (afinal quem a requer deve explorar e não ficar com a concessão por décadas sem fazer nada), e ter como resposta do MME que não iria mudar nada. Fico indignado ao ver um ex-ministro dizer que fez um projeto para mudar a realidade dos fertilizantes no Brasil e o governo simplesmente engavetou ou jogou fora..., por quê? A quem interessa nossa dependência?

Aí vem a pergunta inevitável: será que o governo não acha que os fertilizantes devem ser tratados como produtos estratégicos? Os governos de China, Índia e EUA acham que sim. Lá fertilizantes tem preços subsidiados, logística favorecida e o produto têm prioridade de passagem, pois garantem a produção de alimentos..., nada mais lógico. 


Mas no Brasil, os navios com cerca de 30 mil toneladas de fertilizantes passam dias esperando descarregar em filas nos portos, enfrentam greves de fiscais de todas as autarquias do governo e depois de uns vinte dias de espera o dono da carga recebe um prêmio: é convidado a pagar mais de US$ 800 mil pelo tempo de estadia do navio (demurrage), graças à ineficiência alheia.

Precisamos com urgência colocar os insumos agrícolas na agenda estratégica do governo federal, e mostrar a importância disso, da necessidade de ações concretas. Pois a julgar pelos sinais dados pelo governo, até o momento estamos sendo considerados o setor menos estratégico do país. Não precisamos de mais um PAP, de simples alterações de limites e volumes de crédito: precisamos de uma política agrícolas ampla, de visão de futuro, na pesquisa, no desenvolvimento contínuo de nossa produção..., do contrário continuaremos produzindo muito e de forma competitiva no campo, mas com pouca capacidade estática, portos trabalhando acima de sua capacidade, sem fomento a pesquisa, ou seja, com uma realidade ultrapassada.

GLAUBER SILVEIRA é produtor rural, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) E-mail: [email protected]: @GlauberAprosoja

Tags:
Fonte:
Ascom Aprosoja Brasil

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

7 comentários

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Que tal uma reunião da maioria dos representantes de medios e pequenos produtores e uma greve em todo o país ?

    Os oligopólios da soja, milho, etc. fazem o que querem.

    Gostaria de ver se o produto não saísse de seus locais de produção o que fariam ??? O país só se mantem em cima de comodities do tipo !!! É aí que tem que pegar !!! Uma greve de 3 dias, por exemplo, em casa e de braços cruzados !!!

    0
  • Clovis Felix de Paula Tangará da Serra - MT

    Boa Tarde Liones Severo.

    Segue abaixo email do Eduardo:[email protected]

    Abraços.

    Clovis

    0
  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Caro Eduardo Lima Porto, tenho acompanhado seus comentários sobre agroquimicos há muito tempo. Se existe essa vantagem para os produtores porque não trabalharmos essa alternativa. Tentei seu email [email protected], mas voltou. Gostaria de conversar com voce sobre este assunto. meu telefone 51.30736614. obrigado

    0
  • Eduardo Lima Porto Porto Alegre - RS

    Deixemos de Hipocrisia!!! O problema dos Fertilizantes passa integralmente pela LOGISTICA e não tanto pela exploração de jazidas, seja no Mato Grosso ou na Amazonia. A concentração mineral das minas de Potassio da Amazonia é ridiculamente baixa, extremamente complicada e se encontra numa região de enorme complexidade. Não adianta o ex-Ministro ficar falando de coisas que tentou fazer e não conseguiu. Ele foi parte do Governo Lula e nas mãos dele muitas outras coisas do Agro não andaram. Mesmo que um Grupo Nacional ou mesmo um Consórcio de Cooperativas viesse a explorar jazidas de Fósforo ou de Potassio no Brasil, não haveria qualquer redução significativa dos custos para o Agricultor Brasileiro na medida em que se buscaria equalizar com os preços de chegada do produto importado no Porto. Quanto maior for o demurrage do produto importado, maior será o "Prêmio" cobrado pelo fornecedor brasileiro ou não é verdade??? O Agricultor Brasileiro precisa importar diretamente DEFENSIVOS AGRICOLAS onde as margens podem chegar de 100% a 1.000%, inclusive sobre produtos livres de proteção patentária. O resto é conversa pra Boi Dormir....

    0
  • Fernando Nunes Castoldo Londrina - PR

    Infelizmente neste pais, existe um abismo muito grande, pois entendo que inúmeros setores, estão tendo sucesso não por iniciativa do governo, mas por serem " Iniciativa Privada" O agronégocio é um deles, sobrevive e cresce só porque tem gente Séria Honesta, Trabalhadora e Princípios! Diga-se de passagem, vamos nós agricultores se unir e começar a comprar estes politicos pois da forma democrática tá duro, tendo em vista a luta do stephanes que viajou o Brasil falando sobre este assunto e ninguém deu bola para ele!!!!!!!!

    0
  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    É !!! Um país de governantes ignorantes (e safados) e eleitores em sua maioria idem (70%; que não tem politica de MP e LP, e em todas as áreas é dominado por 1/2 duzia de 3 ou quatro; supermercados, bancos, construtoras, empreiteiras, que recebem incentivo parcial, cobrando contrapartida em doações partidá rias, além de comissões (nunca se viu tanto consultor e palestrante neste governo, como Lula, Dirceu, Pallocci, que ganham rios de dinheiro em questão de minutos e horas,em minha opinião tráfico de influencia ou o caminho das pedras para recomendações e auxilios em concorrencias); só pode dar com os burros nágua. Esse ano Pibinho de 1.5 % !!! Após 8 anos e 1/2 de céu de brigadeiro da economia mundial e planos do governo FHC a verdade veio à tona !! Liberou geral a corrupção e falta de controle e planejamento (incompetencia também). O espertalhão do Meireles, o famoso "Tiro Fijo" brasileiro, estipulou um controle "correto" das metas economicas e margens de inflação que podem variar ou -55%(-2) para baixo ou +45%(+2) para cima (mais ou menos 2 pontos !) Um absurdo que ninguém viu ou percebeu !! o mesmo que descontrole !!! Qualquer diretor de empresa grande seria demitido por justa causa, por incompetencia, se baseasse suas previsões e metas nesse nível !! Um absurdo !!!

    Estamos tão bem de inteligencia que ninguém percebeu !!! Ou de malandragem, ficou todo mundo quietinho!!!

    0
  • salvador reis neto Santa Tereza do Oeste - PR

    STEPHANES E O CARA E DOS BOMS SE ELE FALOU E VERDADE MAS SE O GOVERNO ENGAVETOU E O PT FASE O QUE, NOS OS AQRICULTORES E QUEM PAGA A COMTA NAO TAO NEM AI PRA NOS.

    0