A caminho da irrelevância , por Ruy Wolfart

Publicado em 29/11/2013 10:12

As coisas devem acontecer na hora certa. Tal qual na situação quando a Justiça tarda, não é justiça. Depois de tantas décadas de negociações globais sobre tarifas e comércio, a Organização Mundial do Comércio (OMC) perdeu brilho, importância e praticamente sentido. Quando o Brasil, de fato, deveria ter conseguido um arranjo global que diminuísse o protecionismo dos países ricos (Estados unidos, Comunidade Europeia e Japão), porque naqueles momentos era relevante, não o conseguiu.

Esses países concediam nas décadas de 1970/80 centenas de bilhões de dólares de subsídios anuais às suas produções agrícolas. Existiam estocadas montanhas de milho, trigo, cevada, soja, manteiga, açúcar de beterraba e de carnes. Certa quantidade era desovada nos mercados, em condições de preços, que provocava desarranjos nos sistemas produtivos dos países do Terceiro Mundo, como o Brasil.

Tentando combater essas assimetrias no âmbito do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), foram promovidas a Rodada Tóquio - anos 1970, a Rodada Uruguai - 1986 a 1994 - e a Rodada Doha a partir de 2001. Todas fracassaram literalmente e nesse período acabaram os estoques de alimentos produzidos e estocados com subsídios.

A realidade hoje é outra. Atualmente, há uma demanda alimentar em crescimento pela urbanização gigantesca de populações rurais, como vem acontecendo na China, e do paralelo crescimento da renda per capita. Ocorre uma reconfiguração global, com a crescente importância da China e Índia no mercado de alimentos, em face de suas limitadas condições de terra e água.

Nesses países a demanda por comida é elástica e será necessário produzir e fornecer muito mais do que ocorre hoje. Como se vê, a política hegemônica ocidental não resistiu à marcha dos anos e, para piorar, sua população rural envelheceu. Eles não têm mais todo esse gás. Nada como o tempo para colocar as coisas nos seus devidos lugares. Que o diga o pensamento estratégico que permeia a sociedade chinesa.

Mudou o cenário de discussões no âmbito da OMC. O que vinha sendo discutido é velho e está morto. Infelizmente, a máquina pública brasileira não tem sido adequada para essa nova realidade, utilizando-se como exemplo o quadro de funcionários da embaixada na China. Tão poucos para tanto trabalho, com o objetivo de atender as relações com esse parceiro crescentemente estratégico.

O governo não tem captado os sinais das iniciativas, como as da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA) e da Aprosoja-MT nas tratativas conduzidas com a China. Já que a OMC não conseguiu modelar as relações multilaterais para conter os desajustes de tarifas e comércio e para que o Mercosul não continue sendo uma muleta regional e ideológica, em detrimento dos interesses brasileiros, que se façam acordos bilaterais.

Se antes as desculpas para as negociações não andarem eram os países ricos e a OMC, o que falta hoje para o Brasil não perder novamente o bonde da História ?

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Por: Rui Wolfart

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