O que nos impede de produzir etanol de cereais?, por Glauber Silveira

Publicado em 17/06/2014 08:50 e atualizado em 20/06/2014 20:46 646 exibições
Por Glauber Silveira é Presidente da Câmara Setorial da Soja, Diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio-MT.

A Aprosoja tem se empenhado muito na busca de apresentar a produção de etanol de cereais como uma grande alternativa para a região central do Brasil. Na última reunião neste mês de junho, felizmente a Céleres e o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) bateram o martelo: produzir etanol de cereais é extremamente viável no Centro-Oeste do Brasil. Pensei: maravilha! Primeiro, porque exportamos 20 milhões de toneladas de milho, chega a safra e o preço do milho despenca e inviabiliza a produção, e o etanol seria uma das alternativas.

Mas, infelizmente, minha alegria durou pouco. Logo veio a parte ruim. Foi apresentado o problema: apesar da viabilidade financeira apresentada, considerando-se um investimento na usina no valor de US$ 68 milhões para o consumo de 500 mil toneladas de cereais (milho, sorgo etc.) ao ano, com um playback de seis anos e uma TIR (taxa interna de retorno) de 27,26%, o problema seria a comercialização do etanol produzido. Ou seja: vamos vender para quem?

No primeiro momento, minha decepção foi total. Existe viabilidade financeira, tem milho sobrando, mas não temos consumo para o etanol. Atualmente, MT produz mais de um bilhão de litros de etanol, os quais são consumidos 60% no Estado de MT e 40% são vendidos geralmente para o norte do Brasil, com vendas também para SP – sendoassim, o mercado está saturado. Foi apresentado na reunião que em MT atualmente o etanol representa menos de 30% do mercado de combustíveis e a gasolina detém mais de 70%.

Temos uma aptidão enorme no Brasil de produzir etanol e hoje consumimos mais gasolina que etanol. Há 10 anos em MT, o etanol respondia por mais de 60%. Se estivéssemos na proporção 60% etanol e 40% gasolina, MT hoje teria que importar etanol. Ficou então a pergunta: por que as pessoas deixaram de abastecer com etanol? A resposta está no preço do etanol e da gasolina, a diferença hoje é menor que 30%, o que faz as pessoas abastecerem com gasolina devido ao consumo maior dos carros ao usar etanol.

Temos escutado constantemente os usineiros dizendo que o problema é a intervenção estatal no mercado, onde o governo mantem um preço político da gasolina, preço este que deveria estar 20% mais alto. Assim, o etanol seria mais competitivo e aumentaria o consumo significativamente, isso se com o aumento do preço da gasolina não tivéssemos o mesmo aumento no etanol, pois neste caso o que teríamos seria apenas custo ao consumidor e eu tenho muito medo que isto aconteça pelo que vou relatar logo mais.

Fica claro que o controle do governo sobre o preço da gasolina é um dos problemas. Como consumidor que já pago caro pelo combustível, seja qual ele for, lembro que o combustível no Brasil é um dos mais caros do mundo, com pré-sal ou não, com aptidão espetacular para produzir etanol ou não. Sendo assim, me preocupa muito apenas a tese de se corrigir em 20% o preço da gasolina, pois podemos ter também corrigido em 20% o preço do etanol.

Pelo que tenho acompanhado e lido, grandes usinas dizem que existe espaço para redução de custos. Uma das questões então é a eficiência industrial e também agronômica das usinas. Não podemos de forma alguma repassar ineficiência ao consumidor, e sendo assim neste mercado competitivo, seja de etanol ou outro qualquer, apenas os mais eficientes sobreviverão.

Fica claro que para termos um aumento do consumo de etanol precisamos aumentar a diferença do preço do etanol e da gasolina, mas a meu ver não quer dizer que isto pode ser resolvido somente pelo aumento do preço da gasolina. Será que não pode ser pelo barateamento do preço do etanol?

Fui ver como se forma o preço do etanol ao consumidor de MT: as usinas vendem para a distribuidora na safra na média de R$ 1,40 a 1,60 o litro, formados pelo custo industrial, a matéria-prima e os impostos, com todos os impostos pagospela usina, e o frete em geral computado até Cuiabá. O custo de produção industrial do etanol no geral fica em torno de R$ 0,40 o litro, e o preço nos postos varia de R$ 2,05 a R$ 2,45 reais o litro. Ou seja: existe um acréscimo de quase R$ 1,00 por litro, o que me parece um exagero.

Na minha cidade, Campos de Júlio-MT, temos uma usina, a Usimat, que me disse vender para as distribuidoras na safra o litro de etanol a R$ 1,57 posto em Cuiabá e, pasmem, nos postos da minha cidade, que ficam a apenas 70 quilômetros da usina, o preço do etanol na bomba é de R$ 2,41, ou seja, R$ 0,84 de acréscimo. Um dos problemas desse acréscimo no preço é o “passeio” dado pelo combustível: o etanol carregado na usina em Campos de Júlio-MT é transportado até Cuiabá e depois volta para abastecer os postos da região. Esse “passeio” custa ao consumidor o acréscimo de R$ 0,14 o litro.

Com outros combustíveis, flagramos esse “passeio” que serve apenas para encarecer o produto na bomba e dar dinheiro para transportadoras, as quais muitas delas são das distribuidoras. É dinheiro jogado fora e poluição inútil pelas “estranhezas” na distribuição de combustíveis no Brasil. Lembrando que o custo de produção do etanolno geral é de R$ 0,40 o litro, e pensem numa usina de cana, a quantidade de gente, máquinas etc... Sendo assim,para distribuir gastamos mais que o dobro do custo de produção! Isso é correto?

Fica claro que existe uma distorção. Temos usinas quebrando por estarem com margem apertada, e os consumidores não abastecem com etanol por ser caro. Com diferença menor que 30% entre gasolina e etanol, entendemos que é possível reduzir o preço do etanol sem baixar o preço da usina, que pode aumentar seu ganho com escala e eficiência. Constatamos preços praticados pela mesma rede de distribuição de R$ 2,05 a R$ 2,40 em postos com menos de 300 km de distância.

Muitas usinas identificaram este problema, vendo que a margem maior está fora da porteira da usina. Por isto, grandes usinas criaram sua distribuidora ou se uniram a elas com parcerias, e quem não fez isto está em dificuldades. Entendo que na região Centro-Oeste, onde temos uma enorme aptidão para produzir milho e cana, poderíamos estar abastecendo 100% com etanol, e o consumidorde MT pagando de R$ 1,90 a R$ 2,00 no litro de etanol. Afinal, se continuarmos como está, em breve seremos o país 100% gasolina.

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Glauber Silveira

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