Artigo/Cepea: Clima favorece produção de etanol na safra 2023/24

Publicado em 21/11/2023 14:23

*Por Ivelise Rasera Bragato Calcidoni, Pesquisadora do Cepea

 

O clima favorável, com poucas chuvas na maior parte do período de colheita da cana-de-açúcar, resultou em rápido andamento das atividades agrícolas e industriais em São Paulo na temporada atual (2023/24). Até a primeira metade desta safra, os efeitos do fenômeno El Niño foram pouco sentidos pelo setor sucroenergético – chuvas pontuais foram registradas no início de outubro, atrapalhando a moagem naquele mês. O processamento da cana deve seguir até dezembro para algumas unidades produtoras.

A disponibilidade de matéria-prima no ciclo atual foi maior, e isso resultou em crescimento de 14,06% da moagem de cana na safra (de abril/23 – início oficial da temporada – a outubro/23) frente a igual período de 2022. Na mesma comparação, as produções de etanóis (anidro e hidratado) e de açúcar aumentaram, 10% e 22,65%, respectivamente.

Um destaque desta safra tem sido a produção de etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro, que está perto de atingir três bilhões de litros na parcial de 2022/23 (de abril/23 a outubro/23), avanço de 42,39% na comparação com o mesmo período de 2022. E boa parte desse produto saiu do Centro-Oeste tendo como destino o mercado paulista.

Com a maior oferta, os preços dos etanóis estão inferiores aos do ano passado, em termos reais. Levantamento do Cepea mostra que, na parcial do ciclo vigente (de abril/23 a outubro/23), os Indicadores CEPEA/ESALQ mensais dos etanóis hidratado e anidro do estado de São Paulo acumularam respectivas quedas de 14,4% e de 13,8%, frente à igual período da temporada passada, em termos reais (os valores foram deflacionados pelo IGP-M de outubro). 

As quedas são verificadas mesmo num cenário de aquecimento das vendas de etanol. Em outubro, as vendas do hidratado somaram 1,7 bilhão de litros (+29,03% em relação ao ano passado), reflexo da vantagem competitiva do biocombustível frente à gasolina C nas bombas. No acumulado da temporada atual, a comercialização cresceu 4,53% para o etanol hidratado e 4,1% para o etanol anidro.

Contudo, o que se observa é uma certa inércia na migração da gasolina para o etanol hidratado quando o preço do combustível fóssil está competitivo. Os proprietários de carros flex pagam mais por combustível quando dão preferência para a gasolina, além de abrirem mão das externalidades positivas decorrentes do uso do etanol hidratado.

No caso do açúcar, o cenário é um pouco diferente, com as cotações internacionais dando bom suporte aos preços internos. Na Bolsa de Nova York (ICE Futures), os contratos futuros atingiram a marca de 27 centavos de dólar por libra-peso em finais de outubro por conta da preocupação quanto ao desempenho da safra de cana-de-açúcar na Ásia, diante do tempo seco na Índia e na Tailândia. Também existe a possibilidade de que a Índia não exporte açúcar na próxima temporada, iniciada oficialmente em 1º de outubro.

Os preços do etanol podem estar atualmente num patamar abaixo dos verificados em anos anteriores, mas talvez o que o Brasil vive hoje no setor de combustíveis, em especial do etanol, seja parecido com o ocorrido há duas décadas com o lançamento dos veículos flex fuel em 2003: o surgimento de uma demanda que não existia, com o Combustível Sustentável de Aviação (SAF, sigla em inglês). Um momento de transição energética em meio à performance e à sustentabilidade, com a utilização do etanol como combustível no setor de aviação.

Esse segmento ainda é incipiente, mas plantas industriais no Brasil que já receberam a certificação mundial ISCC (International Sustainability & Carbon Certification) para a comercialização desse combustível. Trata-se de um passo importante que se verifica para toda a cadeia dos biocombustíveis, desde o cultivo da biomassa até o consumo final, para garantir uma produção sustentável.

Assim, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, que já é uma realidade e diferente daquela de outros países, coloca o Brasil bem à frente e com perspectivas bastante otimistas para os próximos anos. Além da questão comercial, existe a contribuição expressiva do biocombustível para a conservação ambiental a partir das externalidades positivas resultantes do etanol.

Fonte: Cepea

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