Brasil chega a 2026 com setor agrícola ajustado à nova realidade econômica global e doméstica

Publicado em 22/01/2026 12:36
Por Hugo Centurion, head da Ascenza Brasil

O ano de 2025 consolidou o agronegócio brasileiro como um pilar robusto da economia nacional, encerrando o período com conquistas expressivas que reforçam nossa capacidade produtiva e competitividade global. O setor alcançou números históricos: exportações recordes de US$ 169,2 bilhões (crescimento de 3% sobre 2024), safra recorde de 352,2 milhões de toneladas de grãos (incremento de 17%) e a abertura de 525 novos mercados desde 2023. Esses resultados impulsionaram o PIB nacional e foram importantes para o controle da inflação de alimentos, demonstrando que o campo brasileiro continua sendo motor do desenvolvimento econômico e da segurança alimentar do país.

A produtividade das principais culturas atingiu patamares inéditos, com destaque para a soja, que registrou média nacional de 3.621 kg/ha, e para o milho, com produção total de 139,7 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A diversificação da pauta exportadora também deve ser destacada, com a alta de exportação de produtos não convencionais. O comércio de gergelim, por exemplo, somou US$ 195,1 milhões apenas para a China. A diversificação demonstra a capacidade do setor de se reinventar e buscar novos nichos de mercado, reduzindo a dependência de commodities tradicionais.

Com todas essas boas notícias de 2025, o Brasil chega a 2026 com um setor agrícola ajustado à nova realidade econômica global e doméstica. Há desafios, como a inadimplência no crédito, que atingiu níveis recordes. Mas a pressão financeira está estimulando o setor a adotar práticas de gestão mais profissionais, com foco em eficiência operacional, controle de custos e uso de tecnologia para maximizar produtividade por hectare.

A capacidade de adaptação do produtor brasileiro diante de adversidades históricas nos dá confiança de que ele saberá navegar ao longo de 2026. As projeções apontam para um crescimento mais comedido, porém sustentável, do PIB do agronegócio, estimado em torno de 1%, após a expansão de 9,6% em 2025, conforme a CNA. A safra 2025/2026 deve superar 354 milhões de toneladas, com destaque para a soja (projeção de 177,6 milhões de toneladas, +3,6%) e manutenção de níveis recordes na produção de carnes.

O mercado internacional, embora apresente volatilidade nos preços das commodities, oferece demanda estrutural sólida, especialmente na China, na crescente classe média asiática e na expectativa da implementação gradual do acordo Mercosul-União Europeia, desde que atendidas as exigências de sustentabilidade e rastreabilidade.

O acordo comercial entre Mercosul-UE representa um divisor de águas para o agronegócio brasileiro, criando a maior zona de livre comércio do mundo, com cerca de 720 milhões de consumidores e PIB combinado de US$ 22 trilhões. O tratado oferece acesso ao mercado europeu com redução gradual de tarifas para 95% dos bens nacionais, segundo o governo brasileiro.

No mercado doméstico, a expectativa é de estabilidade no abastecimento. A tendência de consumo por alimentos mais saudáveis, orgânicos e com certificação de origem cria oportunidades para o setor agregar valor e desenvolver cadeias curtas de comercialização. O e-commerce agrícola e plataformas digitais como o Ceasa Digital estão democratizando o acesso de pequenos produtores aos consumidores finais, ampliando margens e reduzindo intermediações.

O segmento de hortifrúti merece destaque como exemplo de dinamismo e capacidade de adaptação. As exportações subiram em 2024 e em 2025, resultado da qualidade e diversidade da produção brasileira, e da conquista de mercados exigentes. Produtos como manga, melão, uva, mamão e maçãs encontraram nichos específicos, em que o Brasil se destaca pela combinação de clima favorável, janelas de exportação estratégicas e crescente profissionalização do setor.

O apelo saudável de frutas e hortaliças, aliado à demanda global por alimentos frescos e nutritivos, posiciona o hortifrúti como segmento de alto potencial para os próximos anos.

Para 2026, o setor enfrenta o desafio de equilibrar a expansão da área produtiva com investimentos em tecnologias que minimizem impactos climáticos.

O hortifrúti brasileiro tem todas as condições de ampliar sua participação no mercado global, desde que continue investindo em logística, armazenamento controlado e rastreabilidade atributos essenciais para atender mercados premium e cumprir exigências sanitárias internacionais.

Em 2026, os produtores rurais brasileiros seguem no centro do desenvolvimento do país, mostrando que trabalho, tecnologia e visão de longo prazo transformam desafios em oportunidades e mantêm o Brasil como potência agrícola global.

Hugo Centurion, head da Ascenza Brasil, é engenheiro agrônomo formado pela Faculdade de Agronomia Manoel Carlos Gonçalves, com MBA em marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), MBA em Gestão de Agronegócios: Estratégia, Transformação e Tecnologia pela FIA Business School e curso de Negociation and Persuasion na Harvard Business School. Atuou como head comercial, diretor de unidade de negócios, gerente geral, gerente de marketing e de vendas em multinacionais no Brasil e no exterior.

Fonte: Ascenza Brasil

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