Arroz sem feijão? Por Evaristo de Miranda
Neste março do Ano da Graça de 2026, o agronegócio vive intensa atividade no campo. Batalhas são vencidas com empreendedorismo e tecnologia, numa verdadeira guerra contra o tempo, intempéries e impactos da situação macroeconômica. Paradoxo: a área plantada e a produção de soja e milho crescem nesta safra e caem as do feijão e do arroz.
Março marca o fim da colheita de soja. Mais um recorde, acima de 180 milhões de toneladas. Dessas, cerca de 114 milhões serão exportadas. Os produtores estão com margens apertadas (baixo preço das commodities) e custos de produção em elevação (frete e diesel). A colheita do milho-verão foi boa e prenuncia-se uma ótima produção no milho de segunda safra: plantios dentro do calendário e boa umidade no solo em muitas regiões. A cigarrinha-do-milho ameaça, exige alto investimento em controle sanitário para evitar perdas significativas de produtividade.
O arroz com feijão anda na contramão da soja e do milho: queda na área plantada e na produção. Agora é o pico da colheita de arroz no Rio Grande do Sul. Com baixos preços e altos custos de produção, rizicultores optaram por cultivos mais rentáveis, sobretudo no Centro Oeste. O arroz cedeu área para o milho, soja e sorgo. Dificilmente a produção atingirá 11 milhões de toneladas. Impensável uma safra análoga à de 2025. Os preços subirão. Se faltar arroz, o mercado, muito organizado nesta cadeia com a participação de indústrias e grandes cooperativas, fará os ajustes necessários, inclusive com importações do Mercosul. Se o (des) Governo não atrapalhar.
A situação do feijão é mais preocupante. Houve redução significativa da área plantada em grande parte do país, sobretudo no Paraná: mais de 10%. Um pequeno aumento em Minas Gerais não será suficiente para impedir a queda na produção. Os preços baixos do feijão, problemas de acesso a um crédito civilizado, a falta de seguro e os altos riscos fitossanitários desse cultivo (mosca branca > mosaico dourado) levaram os produtores a outras opções, como a soja, até em áreas de muita tradição no feijoeiro, como o norte do Paraná. A safra tende a ficar abaixo de 3 milhões de toneladas, bem inferior à do ano passado. A oferta de feijão carioca e preto já está estreita e os preços agora firmes, apesar dos estoques. Pode faltar feijão no segundo semestre, com consequente alta de preços e impactos na inflação.
Quando o Governo não age certo na hora certa, tende a agir errado, na hora errada. Em ano eleitoral, feijão com arroz mais caros não é bom. Pode levar a medidas populistas: importar feijão para baixar preços ou proibir sua exportação. Seria um duplo equívoco: desestimularia mais os produtores para plantar. Um problema momentâneo pode tornar-se crônico. O Brasil exporta excedentes da produção de feijões e, sobretudo, fradinho. Foram mais de 500.000 toneladas em 2025, sobretudo para Egito e Índia (mungo verde e preto). Seria uma contradição: o país acaba de levar comitiva à Índia para ampliar a exportação de feijões, incluindo o guandu ou andu.
A produção e os produtores de feijão e arroz no Brasil precisam de políticas diferenciadas e estratégicas. Não bastam narrativas delirantes, como o arroz orgânico do MST. Se o Governo destinar metade da renúncia fiscal, feita via Lei Rouanet, à agricultura, a exemplo do realizado à cultura, seria outra realidade. Foram cerca de 3,5 bilhões de reais para artistas em 2025. Imagine-se um bilhão e meio de reais para apoiar a produção de arroz e feijão, através de garantias de assistência técnica, crédito rural adequado, seguro rural efetivo e acessível, auxílios a mecanização e irrigação. Aí teria sentido a parlenda: Um, dois, feijão com arroz. Três, quatro, feijão no prato... do brasileiro e no estrangeiro.