Pontos fundamentais na gestão da água em bacias hidrográficas, por Prof. Afonso Peche Filho

Publicado em 16/03/2026 12:11
Afonso Peche Filho é Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
Foto: Antoniane Arantes – CATI – SP

A gestão da água em bacias hidrográficas é uma condição essencial para conciliar produção agrícola, equilíbrio ambiental e segurança hídrica.

No caso da agricultura irrigada, essa gestão assume papel ainda mais estratégico, pois a irrigação depende de disponibilidade regular de água, infraestrutura adequada e critérios técnicos que evitem desperdícios e conflitos entre usuários. A bacia hidrográfica deve ser entendida como a unidade natural mais apropriada para esse planejamento, porque integra relevo, rede de drenagem, solos, cobertura vegetal, áreas de recarga, usos da terra e intervenções humanas.

O primeiro fundamento da gestão é o conhecimento da disponibilidade hídrica da bacia. Isso envolve avaliar a quantidade e a sazonalidade da
água superficial e subterrânea, o comportamento das vazões, a recarga e os períodos críticos de estiagem. Sem esse diagnóstico, a expansão da irrigação pode comprometer a capacidade de suporte da bacia e intensificar disputas pelo recurso.

Nesse contexto, a reservação de água destaca-se como elemento central. Reservar água significa regular a oferta ao longo do tempo, armazenando parte do recurso em períodos de maior disponibilidade para uso em épocas de maior demanda. Para a agricultura irrigada, essa prática reduz a pressão direta sobre rios e córregos durante a estiagem, aumenta a estabilidade produtiva e fortalece a resiliência dos sistemas agrícolas. No entanto, a reservação precisa ser tecnicamente planejada, pois estruturas mal dimensionadas ou implantadas sem critério podem gerar impactos hidrológicos e ambientais relevantes.

Associada à reservação, a outorga do direito de uso da água é um dos principais instrumentos de ordenamento hídrico. Mais do que uma exigência formal, a outorga permite disciplinar captações, controlar volumes retirados, definir condições de uso e compatibilizar a irrigação com os demais usos múltiplos da água. Em bacias com agricultura irrigada intensa, a outorga é indispensável para evitar a sobre-exploração, reduzir a informalidade e dar base técnica à fiscalização e ao planejamento.

Outro ponto fundamental é o reconhecimento de que a água atende múltiplas funções. A agricultura irrigada deve coexistir com o abastecimento humano, a dessedentação animal, a indústria e a manutenção das funções ecológicas dos ecossistemas aquáticos. Por isso, a gestão da água exige pactos territoriais, critérios transparentes e governança participativa.

Além disso, a eficiência dos sistemas de irrigação e o manejo racional da aplicação da água são decisivos. Não basta dispor de água; é necessário usá-la corretamente. Isso implica reduzir perdas, ajustar o método de irrigação, monitorar a umidade do solo e aplicar água de acordo com a demanda real da cultura. O uso inadequado provoca desperdício, lixiviação de nutrientes e degradação do solo.

A conservação do solo, das áreas de recarga, das nascentes e das matas ciliares também é parte inseparável da gestão hídrica. Solos cobertos, estruturados e biologicamente ativos favorecem infiltração, armazenamento de água e regulação dos fluxos hidrológicos. Da mesma forma, a qualidade da água deve ser monitorada, considerando riscos de salinização, sedimentos, nutrientes e contaminação difusa.

Em síntese, gerir a água em bacias hidrográficas exige integrar diagnóstico, reservação, outorga, eficiência de uso, conservação ambiental e participação social. Na agricultura irrigada, produzir com segurança depende não apenas de captar água, mas de respeitar os limites ecológicos da bacia e organizar seu uso com responsabilidade técnica e institucional.

Fonte: Prof. Afonso Peche

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