Práticas biofuncionais - uma forma inovadora de manejo, por Prof. Afonso Peche Filho

Publicado em 15/06/2026 14:40
Prof. Afonso Peche Filho é Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

As crescentes demandas por sistemas agrícolas mais resilientes, eficientes e sustentáveis têm impulsionado a busca por novas abordagens de manejo capazes de integrar produtividade, conservação ambiental e uso racional dos recursos naturais. Nesse contexto, o conceito de práticas biofuncionais surge como uma proposta inovadora desenvolvida a partir de pesquisas em Gestão do Conhecimento em Ecologia Aplicada, conduzidas pelo Instituto Agronômico (IAC). Essa abordagem representa um avanço conceitual ao organizar e sistematizar conhecimentos ecológicos em estratégias práticas de manejo voltadas para o fortalecimento das funções naturais dos agroecossistemas.

As práticas biofuncionais podem ser definidas como intervenções planejadas que têm por objetivo ativar, conservar ou potencializar processos ecológicos essenciais ao funcionamento dos sistemas produtivos. Diferentemente das práticas agrícolas convencionais, frequentemente avaliadas apenas pela operação realizada, as práticas biofuncionais são compreendidas a partir das funções que promovem no ambiente.

Assim, uma mesma ação de manejo pode assumir diferentes significados dependendo dos processos ecológicos que estimula e dos resultados funcionais que produz.

A proposta do IAC parte do princípio de que os agroecossistemas são sistemas vivos e complexos, nos quais solo, plantas, água, organismos e clima interagem continuamente. A produtividade agrícola não depende apenas da disponibilidade de insumos, mas também da qualidade dessas interações. Dessa forma, o manejo passa a ser orientado pela compreensão dos processos ecológicos que sustentam a produção, permitindo que o agricultor utilize de maneira mais eficiente os recursos presentes na própria propriedade.

Entre as principais funções ecológicas consideradas pelas práticas biofuncionais destacam-se a fotossíntese, a ciclagem de nutrientes, a infiltração e retenção de água, a formação e estabilização da estrutura do solo, a bioturbação, a exsudação radicular, a biodiversidade funcional e a biodisponibilidade de nutrientes. Essas funções constituem a base dos serviços ecossistêmicos que sustentam a produção agrícola e contribuem para a estabilidade dos sistemas ao longo do tempo.

Um exemplo clássico é a manutenção da cobertura do solo. Sob a perspectiva biofuncional, essa prática não se limita à proteção física da superfície. Ela promove múltiplas funções simultaneamente, como eliminação da erosão, conservação da capacidade produtiva do perfil, moderação térmica, produção de biomassa, estímulo à atividade biológica e aumento da infiltração da água. Além disso, as raízes das plantas de cobertura favorecem a formação de canais biológicos, estimulam a atividade microbiana por meio da exsudação radicular e contribuem para a agregação do solo.

Outro aspecto fundamental é o manejo da matéria orgânica. Resíduos vegetais, esterco, compostos orgânicos e restos culturais deixam de ser vistos apenas como fontes de nutrientes e passam a ser compreendidos como elementos estratégicos para alimentar as cadeias biológicas do solo. A decomposição desses materiais favorece a ciclagem de nutrientes, aumenta a atividade microbiana e melhora a biodisponibilidade dos elementos essenciais às plantas.

A biodiversidade também ocupa posição central na abordagem biofuncional. Sistemas diversificados, como consórcios, rotações de culturas, sistemas agroflorestais, cercas vivas e faixas floridas, ampliam habitats e fortalecem organismos benéficos. Essa diversidade funcional contribui para processos como polinização, controle biológico de pragas, decomposição da matéria orgânica e maior estabilidade ecológica do sistema produtivo.

Um dos diferenciais da proposta desenvolvida pelo IAC é a utilização da Gestão do Conhecimento como ferramenta para organizar informações científicas e experiências práticas em uma linguagem acessível aos agricultores, técnicos e gestores. Em vez de tratar cada tecnologia de forma isolada, a abordagem biofuncional busca compreender como diferentes práticas interagem e contribuem para o desempenho ecológico do agroecossistema. Dessa forma, cria-se uma estrutura conceitual capaz de orientar decisões de manejo mais eficientes e adaptadas às condições locais.

As práticas biofuncionais representam, portanto, uma inovação não apenas tecnológica, mas também conceitual. Elas oferecem uma nova forma de interpretar e manejar os sistemas agrícolas, valorizando os processos naturais como aliados da produção. Ao transformar conhecimentos da ecologia aplicada em estratégias práticas de manejo, a proposta do IAC contribui para o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável, resiliente e capaz de produzir com maior autonomia e eficiência. Trata-se de uma abordagem que fortalece a relação entre ciência, conhecimento e prática agrícola, colocando as funções ecológicas no centro das decisões de manejo.

Fonte: Prof. Afonso Peche Filho

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