100 anos que mudaram a história: a evolução do milho em um século de transformações, por Marcelo Braga da Silva
Em 100 anos muita coisa pode mudar. O último século foi marcado por uma aceleração histórica que transformou a experiência humana em quase todos os sentidos. O mundo viu a transição de uma economia industrial para era digital e de serviços, em que a informação passou a ser difundida em tempo real. Saímos de um planeta onde o rádio era a tecnologia de ponta para um cenário de inteligência artificial, internet das coisas e exploração espacial.
No Brasil, essa mudança foi sentida no intenso processo de urbanização — deixando de ser um país rural para se tornar uma nação onde mais de 80% das pessoas vivem em cidades — além da superação de ciclos inflacionários e da modernização do consumo. A medicina também deu saltos gigantescos, elevando a expectativa de vida média do brasileiro de cerca de 35 anos em 1926 para mais de 75 anos hoje, refletindo melhorias no saneamento, nas vacinas e no acesso à saúde básica.
Nesse intervalo, o agronegócio moderno também passou por profundas transformações. Globalmente, a população saltou de cerca de 2 bilhões de pessoas, em 1926, para mais de 8 bilhões atualmente, exigindo uma escala de produção de alimentos jamais vista, além da exigência por consumo de alimentos cada vez mais saudáveis e sustentáveis. As guerras mundiais aceleraram a industrialização química, impulsionando o desenvolvimento de fertilizantes e defensivos agrícolas, enquanto a revolução digital levou o GPS, as automações e a inteligência artificial para dentro das cabines dos equipamentos agrícolas. Porém, nada disso substitui a importância do agricultor.
No Brasil, a mudança foi ainda mais significativa: o país deixou de ser importador de alimentos para se tornar o “celeiro do mundo”. De uma agricultura litorânea e rudimentar, avançamos para o bioma Cerrado na década de 1970, superando os desafios da acidez do solo com o uso do calcário e adaptando tecnologias às condições tropicais, em um ambiente considerado, até então, como inapto para o cultivo de alimentos.
O cultivo da safrinha foi um dos grandes divisores de águas da agricultura brasileira, permitindo que o agricultor cultivasse duas vezes na mesma área, dentro do mesmo ano agrícola, otimizando o uso dos recursos naturais e consolidando o país como um dos maiores exportadores globais de milho e o terceiro maior produtor mundial, atrás apenas de potências históricas, como Estados Unidos e China.
Há 100 anos, o cultivo do milho era uma atividade de subsistência, baseada em atividades manuais e em sementes convencionais que produziam o suficiente apenas para o consumo local e o trato animal. Naquele período, a produtividade média mal ultrapassava 1 tonelada por
hectare. A grande virada começou com a ciência aplicada ao desenvolvimento dos primeiros híbridos comerciais, na década de 1920.
Ao cruzar linhagens puras, os cientistas conseguiram desenvolver plantas mais vigorosas, uniformes, resistentes e adaptada aos diferentes ambientes produtivos. Já entre as décadas de 1950 e 1980, a chegada dos fertilizantes químicos e defensivos agrícolas permitiu o cultivo em larga escala, enquanto a mecanização substituiu gradualmente a tração animal, acelerando o plantio, as pulverizações e a colheita.
A partir das décadas de 1990 e 2000, uma nova tecnologia chegou para facilitar o manejo, o milho BT — híbridos geneticamente modificados, conhecidos como transgênicos ou OGMs — reduziu perdas drásticas e simplificou o manejo no campo. Essa inovação transformou o grão em uma commodity estratégica. O que antes era uma planta vulnerável às pragas e às condições climáticas tornou-se um cultivo de alta performance, capaz de resistir a pragas e tolerar o uso de herbicidas, elevando os patamares de produtividade para níveis que nossos antepassados julgariam impossíveis.
Nesse período, a produtividade do milho não apenas cresceu; ela deu um salto expressivo. Hoje, o milho movimenta indústrias que vão da alimentação humana e da proteína animal aos biocombustíveis. Os números comprovam essa evolução: o Brasil produz cerca de 120 a 130 milhões de toneladas anualmente, um contraste significativo em relação aos volumes registrados no início do século XX.
Atualmente, o país é o terceiro maior produtor mundial de milho, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, além de ocupar posição de destaque entre os maiores exportadores globais. No entanto, esse avanço não veio sem desafios. As constantes ameaças da cigarrinha-do-milho, as doenças, os gargalos logísticos de um país continental e as crises climáticas continuam testando a resiliência da produção agrícola.
Ainda assim, o melhoramento genético contínuo tem sido o principal aliado do produtor rural.
Nesse cenário em constante evolução, a Pioneer Sementes, que celebra seu centenário neste ano, desempenha um papel fundamental, sendo pioneira na comercialização de sementes de milho híbrido em escala mundial. A marca ajudou a levar a ciência, através da genética avançada, diretamente ao campo, investindo em centros de pesquisa e no desenvolvimento de híbridos adaptados às condições brasileiras, além da produção de sementes de alta qualidade, fator fundamental para altas produtividades.
Falar sobre a evolução do milho neste século sem mencionar a Pioneer Sementes é desconsiderar parte importante dos investimentos que contribuíram para esse crescimento, sempre ao lado do produtor na superação de cada desafio.
Os próximos 100 anos prometem ainda mais ganhos de produtividade, especialmente com o avanço da Agricultura 5.0. O uso de drones, sensores de solo e inteligência artificial para a aplicação precisa de insumos deverá contribuir para uma produção cada vez mais eficiente e sustentável. Além disso, a expansão das usinas de etanol de milho no Brasil traz uma nova demanda para esse cereal e reforça o papel do país como protagonista global, capaz de alimentar e mover o mundo.
Marcelo é engenheiro agrônomo e representante comercial da Corteva Agriscience no Tocantins, com mais de 25 anos de experiência no mercado de milho.