Como os biológicos podem impulsionar a safra 2026/27 de grãos

Publicado em 15/09/2026 12:04
*Por Juliana Oliveira e Miliane Marques

A safra brasileira de grãos 2026/27 começa com perspectivas de produção elevada. Em setembro, a StoneX projetou 183,5 milhões de toneladas de soja e 29,3 milhões de toneladas para a primeira safra de milho. Se confirmado, o volume representará um novo recorde para o país, com crescimento de 0,5% e 2,4% em relação ao ciclo anterior, para soja e milho respectivamente.   

Quem trabalha no campo sabe que, entre uma projeção e o resultado efetivamente colhido, existem muitas variáveis. O potencial é expressivo, mas será colocado à prova por um cenário climático desigual. Com o El Niño em fortalecimento, áreas do Sul apresentam maior probabilidade de chuvas acima da média, enquanto parte do Brasil Central e das regiões Norte e Nordeste podem enfrentar chuva abaixo da média e temperaturas elevadas.  

Na prática, uma mesma safra poderá reunir excesso de umidade, pressão de doenças, atrasos operacionais, déficit hídrico e restrições à absorção de nutrientes.  

Nesse cenário de elevado potencial produtivo e riscos climáticos contrastantes, os biológicos podem agregar valor. Segundo a CropLife Brasil, a área tratada com bioinsumos alcançou 194 milhões de hectares em 2025, crescimento de 28% sobre 2024. O avanço demonstra que essas tecnologias já integram os sistemas de produção, atuando em funções como proteção contra agentes bióticos, melhoria de processos nutricionais e
suporte fisiológico às plantas. 

Nas regiões com maior risco de calor e déficit hídrico, a disponibilidade de nutrientes pode ser afetada pela menor umidade do solo, redução do fluxo de nutrientes até as raízes e limitação do crescimento radicular. Nesse ambiente, microrganismos associados à nutrição podem complementar processos naturais de aquisição e uso de nutrientes. Alguns atuam na fixação biológica de nitrogênio; outros podem favorecer a disponibilização de nutrientes ou a exploração do solo pelas raízes. 

A contribuição esperada não é tornar a cultura tolerante à seca, mas ajudar a sustentar o estado nutricional e a atividade metabólica enquanto houver condições para a planta e o microrganismo funcionarem. Não porque neutralizem o clima, mas porque atuam em pontos específicos que ajudam a reduzir perdas e aumentar a eficiência do sistema: proteção contra agentes bióticos, melhoria de processos nutricionais e suporte ao funcionamento fisiológico da planta. O benefício, porém, depende de selecionar a tecnologia para o problema correto e aplicá-la antes que o estresse ou o dano estejam estabelecidos. 

Já nas áreas com maior frequência de chuva e períodos prolongados de molhamento foliar, cresce a atenção para doenças e perda antecipada de área fotossintética. Biofungicidas e outros agentes de controle podem complementar programas químicos por mecanismos como ocupação preventiva do nicho, competição e produção de metabólitos. O ganho para a safra está em reduzir o estabelecimento inicial do patógeno e contribuir para maior estabilidade do programa. Para isso, a entrada deve ser preventiva, com cobertura adequada e integração aos fungicidas indicados; não se deve esperar que um agente biológico substitua ação curativa quando a doença já está instalada. 

A associação entre biológicos de proteção e de nutrição permite atuar em diferentes limitações da lavoura. Raízes funcionais favorecem a absorção; uma planta adequadamente nutrida sustenta seu crescimento; e a preservação da área foliar contribui para a produção de fotoassimilados e o enchimento de grãos. Essa complementaridade, entretanto, não significa empilhar produtos: cada componente deve ter objetivo agronômico definido, compatibilidade comprovada e momento de aplicação coerente. 

Transformar projeções em grãos efetivamente colhidos dependerá de uma série de fatores, alguns fora do controle do agricultor. Outros, porém, podem ser manejados com planejamento, conhecimento e tecnologia. Cada episódio de estresse aumenta o risco de afastar a produtividade realizada  do potencial produtivo da cultura.

Em fases críticas do desenvolvimento, parte dessas perdas pode ser irreversível, reforçando a importância de estratégias de manejo antecipadas.  

Os biológicos não eliminam o impacto do clima, mas podem ajudar a planta a estar mais preparada para enfrentá-lo e preservar seu potencial produtivo. Também não devem ser vistos como uma ferramenta isolada. Os biológicos podem atuar de forma integrada aos químicos, genética, nutrição, agricultura de precisão e outras práticas agronômicas. Em um ambiente de produção cada vez mais complexo, combinar tecnologias e conhecimento para antecipar desafios é tão importante quanto reagir a eles. 

 E, à medida que os biológicos ocupam mais espaço nas lavouras, um princípio se torna ainda mais importante: biológico não é tudo igual. Ciência, pesquisa, registro, qualidade e validação em condições de campo são fundamentais para que essas tecnologias entreguem eficiência e consistência. Diante de uma safra com alto potencial e riscos contrastantes, os biológicos podem contribuir para transformar manejo em maior eficiência e resiliência. O caminho não está em atribuir a todas as tecnologias os mesmos benefícios, mas em conectar cada solução a uma limitação real da lavoura. Quando proteção, nutrição, genética, químicos e práticas agronômicas são integrados com diagnóstico e qualidade de execução, aumenta a probabilidade de preservar área foliar, sustentar o estado nutricional e converter uma parcela maior do potencial produtivo em grãos colhidos.  
 
Juliana Oliveira é graduada em Ciências Biológicas, Mestre e Doutora em Agronomia – Proteção de Plantas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM); Miliane Marques é engenheira-agrônoma pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), com pós-graduação pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) em Solo e Nutrição de Plantas e Agronomia e Ciência de Campo. Ambas são agrônomas de campo de biológicos da Corteva Agriscience.

Por: Juliana Oliveira e Miliane Marques
Fonte: Corteva Agriscience

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