Os desafios do próximo governo para a indústria brasileira
O Brasil voltou a falar em reindustrialização justamente quando investir ficou mais difícil. Juros elevados encarecem máquinas, a reforma tributária abre uma longa fase de adaptação e o cenário internacional adiciona incertezas. Ao mesmo tempo, decisões econômicas e mudanças nas regras tornam mais difícil responder à pergunta que antecede qualquer investimento industrial: vale comprometer capital por cinco, dez ou vinte anos no Brasil?
Em ano de eleições, essa discussão precisa estar no centro do debate sobre o futuro do país. O próximo governo e o Congresso Nacional terão de enfrentar questões que afetam diretamente a capacidade de a indústria investir, gerar empregos e competir no mercado global. Crédito acessível, previsibilidade econômica, segurança jurídica e regras estáveis são condições fundamentais para que projetos produtivos saiam do papel.
Automatizar linhas de produção e ampliar a capacidade das fábricas exigem crédito e perspectiva de retorno. Com o dinheiro caro, projetos industriais disputam recursos com alternativas financeiras de menor risco. Mudanças regulatórias e tributárias ampliam a cautela e podem adiar investimentos. A reforma tributária tem potencial para corrigir distorções históricas, mas sua transição exigirá adaptações relevantes. O desafio do poder público será conduzir esse processo com clareza e previsibilidade para as empresas.
A transformação tecnológica torna essa agenda ainda mais urgente. Inteligência artificial, automação e novos processos já definem as regras da competitividade, mas incorporar essas ferramentas custa dinheiro e exige planejamento. Não faz sentido cobrar da indústria brasileira velocidade para competir globalmente e, ao mesmo tempo, oferecer um ambiente em que financiar a modernização é caro e as regras que afetam o retorno dos investimentos permanecem em movimento.
A Mooca dá dimensão concreta a essa discussão. Um dos berços da industrialização brasileira, a região completou 470 anos com 228 empresas, mais de 70 mil empregos diretos e indiretos e R$ 12 bilhões movimentados por ano. São companhias dos setores de aço, vidro, metalurgia, química, construção, alimentos, máquinas e logística, conectadas a cadeias que abastecem empresas e consumidores em todo o país. Há mais de R$ 1 bilhão em projetos de expansão, automação, equipamentos e novas tecnologias mapeados na região.
Parte desses projetos convive com uma incerteza local. Empresas da Mooca aguardam uma definição do poder público estadual sobre as alternativas para a implantação do pátio de manobras da futura Linha 16-Violeta. O diálogo avançou e soluções foram apresentadas, mas a indefinição sobre o futuro de áreas produtivas também tem custo para quem precisa planejar investimentos de longo prazo. O caso mostra como decisões públicas precisam considerar os impactos sobre a atividade econômica e buscar soluções que conciliem infraestrutura e produção.
Isso não significa que empresas devam ser dispensadas do desafio de inovar. Negócios que não incorporam tecnologia nem elevam a produtividade naturalmente perdem competitividade. Há, porém, uma diferença entre perder espaço para um concorrente mais eficiente e deixar de investir porque juros, mudanças de regras ou decisões do poder público tornam imprevisível o retorno de um projeto.
O próximo ciclo de governo será uma oportunidade para transformar o discurso da reindustrialização em condições concretas para produzir e investir. Isso exige decisões consistentes, diálogo com o setor produtivo e uma visão de longo prazo que ultrapasse o calendário eleitoral. A indústria precisa fazer sua parte, modernizando processos e buscando eficiência. Ao poder público cabe criar um ambiente em que o investimento produtivo seja viável e tenha perspectivas claras.
A medida mais eficiente de uma política de reindustrialização estará nas decisões tomadas dentro das empresas. O Brasil saberá que criou condições para fortalecer sua indústria quando investir em uma nova máquina, incorporar inteligência artificial, ampliar uma fábrica ou desenvolver uma nova tecnologia voltar a ser um bom negócio no país.