O que nos impede de produzir mais?, por Glauber Silveira
Publicado em 26/03/2013 11:26
Por Glauber Silveira, engenheiro agrônomo, produtor rural e Presidente da Aprosoja Brasil.
Começamos esta safra com a grande possibilidade de nos tornarmos os maiores produtores de soja do planeta, afinal a quebra da safra dos EUA tornava mais fácil ou antecipava um posto que sem dúvida deverá ser nosso um dia. O Brasil tem tudo para ser o número um, temos clima propício, água e áreas para expansão, quesitos que já não são tão fartos mundo a fora. Mas parece que começamos a comemorar antecipado, pois a safra está complicada e a previsão só vem corrigindo para baixo.
O Brasil deve produzir nesta safra em torno de 82 milhões de toneladas, os números oficiais só devem fechar em junho ou julho, sendo assim vamos ficar disputando cabeça a cabeça com os EUA, afinal eles fecharam sua safra em 82,3 milhões de toneladas. Mas é importante lembrar que se eles não tivessem enfrentado a seca produziriam 90 milhões de toneladas. Portanto, não será fácil o Brasil no curto prazo se manter a frente.
O mundo está com seus estoques muito baixos seja para soja ou milho. Afinal,estamos com uma produção mundial em torno de 260 milhões de toneladas de soja e consumindo esta mesma quantidade, sendo assim o risco de desabastecimento por uma quebra de safra é muito grande.
O Brasil tem uma grande oportunidade que já poderia ter sido aproveitada nesta safra, afinal dados de especialistas afirmam que temos mais de 30 milhões de hectares de pastagens com excelente aptidão para a produção de grãos, o que nos impede de aproveitar? Porque nesta safra já não estamos produzindo 90 milhões de toneladas? Diversos são os fatores que explicam nossa ineficiência e sobre eles discutiremos a seguir.
Dentro da porteira,apesar do crescimento experimentado nos últimos vinte anos, diversos problemas passaram a nos impedir de aumentar nossa produtividade. Em 1992, tínhamos uma produtividade média de 2.150 kg/ha e que em dez anos cresceu 23,5%. Avançando mais dez anos chegamos a em 2002 com uma nova média brasileira de 2.816 kg/ha. Mas nos dez anos seguintes crescemos apenas 5%, devendo produzir cerca de 3.000 kg/ha nesta safra.
Fatores como doenças e pragas têm sido causadores de enormes prejuízos aos produtores, nematoides e a ferrugem da soja têm tirado a renda no campo e como sempre existe pouco investimento em pesquisa. A maior parte dos recursos disponibilizados para a Embrapa é usado apenas para cobrir despesas de folha de pagamento.E o resultado prático disso tudo é que nos últimos dez anos já perdemos 40 bilhões de dólares para essas pragas e doenças, sendo mais da metade disso só para a ferrugem da soja.
E por falar em Ferrugem da soja, a doença que já levou 22 bilhões de dólares do Brasil e dos produtores, segue mais agressiva a cada ano já que os fungicidas registrados no Brasil não possuem eficiência alguma. E para desespero dos produtores, novos fungicidas estão anos na fila de registro com pedido de prioridade, mas até agora nada. Isso traz a tona uma triste realidade, a de que nossa competitividade é tirada ano após ano pelo sistema ineficiente de registro de tecnologia de defesas vegetal. No Brasil em média um produto leva 5 anos na fila para aprovação, enquanto que no resto do mundo leva um ano, e não adianta reclamarmos pois piora.
Em um estudo feito pela Aprosoja já em 2006 constatamos que os produtores Brasileiros gastavam 42,38% a mais com agroquímicos que os Argentinos, na época 29 dólares a mais por hectare, isto significava um bilhão de custos a mais. Em estudo recente, resultados preliminares apontam que esta diferença cresceu e a causa é a morosidade dos registros e o seu custo. Enquanto na Argentina o registro fica em 15 mil dólares, no Brasil é de um milhão. Se na Argentina um genérico é registrado em oito meses, no Brasil leva de 5 a 7 anos. Na Argentina um novo produto é registrado entre 12 e 18 meses, no Brasil em três anos. E é estranho, porque aqui o genérico demora tanto a ser registrado.
Outro entrave secular é a logística.Temos o modal de transporte mais desfavorável do mundo, no Brasil a soja anda em média 1.100 km para chegar ao porto, na Argentina são 300 km e nos EUA 1000 km.A diferença é que o custo médio na Argentina com o transporte é de 20 dólares a tonelada, nos EUA 23 dólares e no Brasil 90 dólares. Segundo estudo da FIESP, estamos perdendo quatro bilhões de dólares por ano com nossa ineficiência logística.
O problema todo é que enquanto nos EUA o modal de transporte é formado de 60% hidrovia, 35% por ferrovias e apenas 5% de rodoviário, no Brasil são totalmente invertidos sendo apenas 11% de hidrovias, 36% de ferrovias e 53% por rodovias. E para agravar, o modelo de concessão ferroviária não gera competitividade sendo o custo ferroviário o mesmo que o rodoviário.
Além de termos uma infraestrutura e logística de transporte tão desfavorável, vem somado a esta desvantagem a nossa ineficiência portuária.O Brasil é um país com vocação para a exportação de commodities e isto é o que faz nossa balança comercial ficar positiva e é o que nos faz crescer.
Mas isso não parecer ser uma verdade, pois não temos visto investimentos nos portos, a nossa capacidade portuária não cresce há 10 anos estamos classificados entre os piores do mundo.Um estudo recente apresentado pela CNA, mostrou que o Brasil está entre os países de desembaraço aduaneiro mais lento do mundo, cerca de 5,5 dias. Em um ranking de 113 países analisados o país ficou na 102ª posição.
O Brasil precisa urgentemente aproveitar as oportunidades, afinal produção é sinal de riqueza e poder, e de melhor qualidade de vida para sua população. Os países mais ricos do mundo produzem três vezes mais grãos que nós, EUA e China produzem em torno de 500 milhões de toneladas de grãos enquanto o Brasil produz 130 milhões. Mas ao contrário deles temos como dobrar nossa área de produção aproveitando o que já está desmatado e deixando 60% do Brasil intocável. Porque não aproveitar a oportunidade, ou vamos deixar a África ou Rússia ocupar nosso espaço.
Fonte:
Glauber Silveira