O "Trem Bala" da Agricultura é a internacionalização, por Eduardo Lima Porto

Publicado em 13/08/2013 17:42 e atualizado em 13/08/2013 19:24
3965 exibições
Por Eduardo Lima Porto, consultor da CustodoAgro Consultoria Agrícola.

Nos últimos dias, tive a oportunidade de visitar novamente o interior de Angola onde fui algumas vezes desde 2009. 

Me surpreendi muito com a evolução verificada na infra-estrutura de locais que há menos de 5 anos eram inacessíveis. O que mais me chamou a atenção foi a intensa presença chinesa, sobretudo pelo fato de lá se encontrar a sua maior construtora e financiadora de projetos internacionais (CITIC Construction).

Essa experiência me motivou a escrever um Artigo, cujo título foi Angola - Futuro Player Agrícola, o qual se encontra postado no Notícias Agrícolas.

A repercussão do Artigo foi muito grande tendo ocorrido milhares de leituras no site, re-transmissões e re-postagens nas Redes Sociais.

Recebi centenas de emails com opiniões diversas, muitos solicitando informações mais detalhadas sobre as oportunidades citadas.

Naturalmente, fiquei muito feliz com a dimensão que o assunto tomou.

Em seguida me dei conta de que estamos tomando como "novidade" uma conjuntura que já é realidade de fato. Isso me deixou realmente preocupado.

Quem acompanha de maneira atenta e consciente a evolução do Mundo nos últimos 20 anos, viu entre muitas coisas:

(i) O surgimento da Internet que revolucionou a forma como as pessoas vivem e se comunicam. Tanto é assim que hoje é difícil lembrarmos como fazíamos as coisas antes e não admitimos a hipótese de ficar sem conexão, nem que seja por poucas horas. A mesma situação vale para o Telefone Celular.

(ii) O crescimento impressionante da China que passou rapidamente de um país atrasado para a economia mais sólida do planeta. A transformação superlativa da infra-estrutura chinesa, na forma de Estradas, Ferrovias, Portos e Cidades, não encontra qualquer paralelo na história da humanidade em termos de velocidade e aperfeiçoamento qualitativo. O mesmo se deu em relação a Educação, Geração de Patentes e tantos outros aspectos que designam a diferenciação entre os países no tocante ao desenvolvimento econômico.

(iii) Do início dos anos 90 até os dias de hoje, a prática do Plantio Direto no Brasil cresceu mais do que 30 vezes em superfície cultivada. O cultura da Soja saiu de 9 milhões de hectares para quase 28 milhões. A produtividade média também mais do que duplicou no período. Houve um massivo movimento migratório em direção ao Centro-Oeste, cidades inteiras nasceram onde só havia Mato e Pastagem Degradada. Fortunas se formaram e milhões de empregos diretos e indiretos se consolidaram numa região onde não havia quase nada.

Poderia descrever uma infinidade de outros contextos, produtos e comportamentos que surgiram, desapareceram ou se transformaram nas últimas duas décadas, porém a minha idéia é centrar o foco dessa análise sobre a Agricultura.

Não é preciso chover no molhado para dizer que a infra-estrutura brasileira ficou muito aquém do desenvolvimento que tivemos no Agro. Se compararmos o que construímos e o que a China fez no mesmo período, a diferença fica excessivamente humilhante.

Feita essa rápida contextualização histórica, observei que as opiniões foram variadas sobre a possibilidade de que a Africa se torne produtiva e venha a competir conosco pelo mercado chinês de Soja e Milho.

Alguns críticos da visão exposta no meu Artigo se posicionaram de maneira cética. 

Ouvi comentários bem fundamentados de que a insegurança jurídica em Angola e nos demais países da região permaneceria sendo um entrave ao desenvolvimento de uma Agricultura de escala. Outros manifestaram que a falta de infra-estrutura e conhecimento tecnológico também seriam fatores impeditivos para que viessem a se tornar concorrentes do Brasil.

Existe lógica e coerência em tais entendimentos, mas é preciso rever determinados conceitos e posicioná-los dentro de uma perspectiva mais ampla que nos permita avaliar concretamente as probabilidades a que estamos submetidos.

Me parece que o Brasil está longe de ser um país estável do ponto de vista político-econômico. Tampouco, para nossa desgraça, podemos considerar que o nosso Governo respeita rigorosamente o conceito de propriedade no âmbito de um Estado que se diz "Democrático e de Direito". 

As invasões promovidas pelo MST e pelos indígenas nos mostraram claramente que não somos o lugar mais "seguro" do Mundo para produzir. Se contarmos para um estrangeiro que o desrespeito à Lei é patrocinado por ONG's que são sustentadas com Recursos Públicos, que os atos ilegais não geram qualquer repercussão penal e o que é pior parecem ser incentivados pelo atual Ministro da Justiça, a conclusão óbvia será de que o nosso ambiente não é o mais propício para investimentos de longo prazo.

Remetendo-nos a história recente, muita gente respeitável do Agronegócio Brasileiro duvidou que o Centro-Oeste pudesse vir a se tornar o grande produtor de grãos que é hoje.

Na mesma linha de raciocínio, é possível afirmar que pouquíssima gente no Mundo teria a "Bola de Cristal" tão calibrada a ponto de visualizar com precisão que a China se transformaria na potência econômica e tecnológica que é na atualidade. 

Quem poderia dizer que eles teriam competência para construir centenas de milhares de quilômetros de Estradas e Ferrovias na rapidez e qualidade que fizeram? 

Os Portos chineses se tornaram referencia de classe mundial em termos de eficiência, volume de carga/descarga de granéis e containers, além de serem os de menor custo operacional. Há 20 anos atrás, seguramente, poucos experts no assunto poderiam imaginar a magnitude do que foi construído em tão pouco tempo!

Frente a isso, decidi formular alguns questionamentos reflexivos que compartilho a seguir:

1) A China vem investindo bilhões de dólares há alguns anos em diferentes países africanos, como Angola, Moçambique, Tanzania e Quênia. Segundo estimativas da FAO, a região abaixo do Deserto do Saara possui ao redor de 400 milhões de hectares agricultáveis muito semelhantes ao nosso Cerrado. Considerando que estão implantando uma boa infra-estrutura e contam com as condições naturais que favorecem o cultivo de Soja e Milho, podemos continuar sustentando que a Africa não terá condições de competir conosco?

2) Imaginemos um comprador chinês de grande porte que importe do Brasil mais de 1 milhão de toneladas/ano. Considerando as dificuldades enfrentadas esse ano nos Portos de Paranaguá e Santos, certamente que um cliente desse porte está enfrentando prejuízos financeiros e problemas operacionais bastante sérios. Se em poucos anos surgisse uma alternativa de fornecimento mais próxima da China, cujos embarques viessem a ser efetuados em Portos mais eficientes do que os nossos, qual seria a possibilidade do referido comprador diminuir as aquisições no Brasil em favor da nova fonte?

3) Estamos economicamente preparados para perder uma fatia de 10% a 20% das nossas exportações? 

4) Tendo em vista que o Mato Grosso é o principal exportador de Soja e paga o frete mais caro do Mundo da Fazenda ao Porto, qual seria o impacto de uma "eventual" diminuição dos embarques em função do enxugamento da demanda? Os preços no interior continuariam sendo compensadores? 

Não podemos fugir de responder a essas perguntas e a tantas outras que nos permitam melhorar a avaliação dos cenários de curto, médio e longo prazo.

Infelizmente, não temos o mesmo sentido ético de urgência dos chineses e isso aumenta significativamente os nossos Riscos. Nunca nos preocupamos em construir um consenso nacional em torno de um Plano de Desenvolvimento que esteja acima dos interesses político-partidários de curto prazo.

Precisamos no Agro de um Plano de Ação Estratégica totalmente independente do Governo que nos transforme em Exportadores de fato, pois desde sempre temos sido apenas "Comprados" ou meros "Embarcadores"!

Nos Estados Unidos, algumas Cooperativas e Cerealistas de médio porte estão embarcando Soja em containers para a China. Algumas operações envolvem a concessão de prazos de pagamento para os importadores a partir da utilização de mecanismos de Trade Finance de risco mínimo que estão disponíveis no Brasil. Já se sabe que determinadas variedades de Soja atendem melhor do que outras à aplicações industriais específicas, o que tem permitido aos produtores americanos a obtenção de prêmios. Possivelmente, alguém deve estar efetuando entregas fracionadas do grão para pequenos e médios consumidores, auferindo melhores margens com a desintermediação do processo.

O que é que estamos fazendo nesse sentido? 

Conhecemos quem são os compradores finais dos nossos produtos agrícolas, quais são as suas necessidades e o que poderíamos fazer para solidificar a nossa posição como fornecedores?

Sabemos a quanto os nossos produtos chegam na última ponta de consumo? Temos alguma estratégia que nos permita melhorar a margem atual?

Não podemos nos iludir mais. A nossa zona de conforto é literalmente efêmera. 

Na minha humilde opinião, devemos iniciar com a máxima urgência um processo de internacionalização das nossas empresas agropecuárias, seja investindo na produção em outros países, seja na organização de estruturas de comercialização que nos coloquem mais próximos do cliente final.

Se continuarmos estagnados, veremos em breve a falência do atual modelo agro-econômico simplesmente porque os nossos Preços não serão mais competitivos. 

Para não sermos atropelados pelo "Trem Bala" da história, temos de construir com a mesma rapidez as competências necessárias para não perder participação nos principais mercados do Agro.

Tags:
Fonte: CustodoAgro

10 comentários

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Complementando !! Se Dow Quimica e Monsanto (transgenicos) são entidades muito sérias e não são donas do mercado de 3 ou quatro da área que dominam o país eu sou o "trenzinho bala do caipira, a "Litorina" !!!

    0
  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Pô !! meu nome é Mauricio se você respondeu meu comentário

    ou parte dêle. Até nos emails tem trocas de elogios e politicagem entre 1/2 duzia de 3 ou quatro !!! Se descontar a soja e minério de ferro de nosso comércio exterior que representa 1,5% do comercio mundial não teremos nada de que nos orgulhar !!! Chega de salama leques e jogo de confetes como se dizia no século passado !!!! Temos que discutir seriamente este país e hoje em dia com água sanitária e defensivo agrícola da Dow tipo "agente laranja" para limpar o país, de tanto acôcho e falta de concorrência. Só tem oligopólio !!!! Os atravessadores fazem o preço e especulam no mercado de futuros, e quando o preço está baixo deixam os grãos ou frutos apodrecerem nos pés (p. explo. laranja)para gerar falsa escassez o que para mim é a maior sacanagem contras o povo. E depois ainda adulteram resultado dizendo que os preços abaixaram nos supermercados. A dona de casa é que sabe se caíram mesmo. Por exemplo, a esta básica de SP diminuiu em 7 quilos de produtos comprados no último ano. Mas o preço não !!! São dados de jornais e veículos publica dos inclusive nesta coluna !! É só verificar. E mais, cada vez estão diminuindo mai as quantidades contidas nas embalagens e os preços delas permanecem ou sobem, enganando o consumidor bobão.

    0
  • Guilherme Frederico Lamb Assis - SP

    De pleno acordo com o senhor Carlos Meloni e o senhor Dalzir Vitoria.

    As unicas unidades da embrapa que prezam por eficiencia são as ligadas a pesquisa com commodities agricolas negociada nos termos do livre mercado, que não sofrem manipulações politicas estatais, como a embrapa soja, e mesmo assim olhe lá.

    essas unidades da embrapa atuando em países comunistas da africa e coisas eco terroristas não passam de proselitismo socialista estatal.

    Os unicos setores no Brasil que se desenvolvem e são lucrativos são os que são regidos pelo livre mercado, concorrencia, com predominio do setor privado atuando como disse o senhor Dalzir.

    O trigo morre no Brasil devido as inumeras intervenções etatais, preços "minimos" do governo e "monopolio da pesquisa" na mão do governo.

    Praticamente não temos empresas privadas como Pioneer, Dow, e afins desenvolvendo cultivares de trigo como fazem com milho e soja.

    0
  • carlo meloni sao paulo - SP

    Mauricio, a Embrapa de 20 anos atras' com certeza

    e' um orgulho nacional---Pela Embrapa de hoje tenho

    muitas duvidas---Importamos leite e muitos produtos lacteos, (tem neozelandeses na Bahia alegando que o Brasil e' o melhor lugar para se produzir leite) importamos oleo canola do Canada', importamos muito azeite quando poderia ser tudo nacinal, nao temos uma normatizaçao de

    qualidade nos queijos , nos vinhos e nos embutidos como existe na zona do Euro.

    Mauricio nao existe BUM AGRCOLA . A soja levou 20 anos para dobrar de produçao.A Argentina com

    um quarto do nosso territorio produz quasi como o Brasil.--SOMOS UMA VERGONHA E PONTO FINAL>

    0
  • Marcelo Zarvos Linhares São Paulo - SP

    Excelente artigo,Eduardo.

    Traz uma lúcida advertência sobre o futuro do agro-negócio no Brasil.

    A África vai surpreender,e devemos nos preparar para a concorrência que deverá ser inevitável.

    Infelizmente hoje os agricultores seja qual nível for, e que têm salvo a economia do Brasil nos últimos anos,são vítimas de uma praga muito pior que a dos gafanhotos:a burocracia de um estado paquidérmico,e a total insegurança jurídica.

    0
  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Carlo Meloni !! Voce me desculpe mas está equivocado por origem !! Se temos esse boom agrícola devemos a Embrapa. Não caiu no colo não !! São cabeças pensantes de gente inteligente que agregaram qualidade ao nosso setor respectivo. Agora ficar pondo todos os ovos da agricultura, na soja é idiotice. Tem que avançar na industrialização. Vender matéria prima para os outros beneficiarem e nos mandarem de volta em produto final é o fim da picada. Como trilhos para trem. Vendemos a MP a US$ 100 e importamos os trilhos feitos com a nossa MP a US$ 450 O mesmo que buscar petróleo enquanto o mundo inteiro já está produzindo e usando veículos elétricos e energia renovável. Parece que temos músculos no cérebro.

    0
  • carlo meloni sao paulo - SP

    O Brasil ja' viveu o ciclo da borracha , do cafe' e

    agora da soja. Os tres cairam nos braços dos Brasileiros por sorte nunca foi por merecimento.

    Por falta de esperteza a Malasia tirou um o

    Vietnam esta' tirando outro e por fim a China

    vai acabar chutando a ultima chance. Voce pode

    ter tudo na tua frente, mas se nao tiver cabeça nada adianta.Considerando que o nosso governo se inspira em Cuba e nao na China, nao

    ha' esperança para o futuro.

    0
  • Eduardo Lima Porto Porto Alegre - RS

    Caro Amigo Severo, muito me honra os elogios vindos de um Mestre!

    O Agro Brasileiro precisa de um Adido Agrícola Internacional que domine integralmente o processo na sua amplitude, que tenha claramente a perspectiva da história e que possa oferecer interpretações técnicas confiáveis sobre as melhores opções disponíveis nesse tabuleiro tão complexo. Não conheço ninguém melhor do que você. Se tivéssemos 10 Traders com capacidade semelhante, esse País seria literalmente outra coisa.

    0
  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Caro amigo Eduardo. Excelente !!! Há anos tenho tentado incutir esse tipo de cultura para nosso povo. Vivemos intoxicados de falsas histórias em todos os âmbitos. Quando falo quem somos, como podemos vencer, encontro pouca ressonância porque nosso país e nosso povo está refém de nossos próprios algozes. Por isso muito apraz essa sua sincera manifestação. Talvez não esteja mais aqui mas um dia venceremos. Como escrevi no meu livro, não sei o mundo que deixo para os meus filhos mas sei os filhos que deixo para esse mundo. Obrigado e forte abraço !!!

    0
  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Nós precisamos urgentemente de sair da ficção. Não podemos ficar comparando países de 1,3 bilhões de habitantes como a China, que só a classe média tem quase a nossa população; com os EUA com 450 milhões, a Russia com outro tanto, a India e Indonésia com mais de 1 bilhão; com um Brasilzinho de 189 milhões. É o mesmo que comparar uma PME com uma Multinacional !!!!

    É muito mais fácil fazer qualquer coisa num paíseco do que num mega país !!!!! Acordemos, pois.

    0