Soja: O preço da escassez. Sem solução de curto prazo, a saída é promover um cenário de preços elevados

Publicado em 23/08/2013 15:10 e atualizado em 23/08/2013 23:54
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por Liones Severo

São muitas as perguntas que afligem os produtores rurais e como se posicionar na sua atividade, com relação às safras futuras e como decidir sobre os altos investimentos necessários para cada safra que plantam e colhem, além das preocupações inerentes dessa atividade que expõe os 2 maiores riscos, o preço e o clima.

A história contemporânea se desenha a partir de 1996, com a implantação de uma forte política norte-americana de subsídios à agricultura. Foi uma grande e persistente derrocada dos preços para as commodities agrícolas na Bolsa de Chicago, principalmente a soja, até o ano de 2002 quando venceu aquela política de subsídios. Desde a grande crise do petróleo entre 1969 e 1973, os preços para a soja na Bolsa de Chicago, tinham feito somente 6 incursões abaixo do preço de us$ 5.00 por bushel, mas durante aquele período os preços trabalharam persistentemente abaixo desse nível, chegando a registrar o preço mais baixo da história moderna da soja (1972 a 1999), no mês de julho de 1999, no nível de us$ 4.02 por bushel. Foi um grande e tenebroso período para agricultura brasileira, vencida pela força e a raça de nossos produtores.

Nestes 6 anos de preços deprimidos houve redução do plantio de produtos agrícolas em muitos países do mundo. Formou-se então, o consenso que os preços elevados para as commodities agrícolas não mais aconteceriam. Era uma condição que pertenceu ao passado. Essa máxima se fortaleceu com advento do mundo global, onde haveria um domínio mais efetivo dos países desenvolvidos sobre os países em desenvolvimento. O resultado contrariou a concepção do mundo global, porque com mais informações os países emergentes se fortaleceram, e na esteira dos preços deprimidos  pela política americana de subsídios, que disponibilizou a soja e sua valiosa proteína à preços insignificantes,  aumentou consumo de alimentos à base de proteína para as populações que estavam emergindo, principalmente no eixo do pacífico, onde já havia uma forte recuperação dos tigres asiáticos, depois da grande crise econômica de 1997. O ano 2000 ficou marcado como o primeiro na história que o crescimento dos países emergentes superaram o crescimento dos países desenvolvidos, fato que permanece até os dias atuais.

Nessa esteira, em 1996, com os preços deprimidos  surge a China como importador de soja, que até aquele ano era um modesto exportador de soja. A China já apresentava uma grande expansão econômica, a partir de 1987 com Den Xiao Ping, implantando reformas econômicas de gestão de mercado. Naquele ano de 1996/7 a China iniciou importando 900.000t de soja do ocidente e atualmente suas importações alcançam cerca de 60 milhões de toneladas, numa curva de crescimento que deve se prolongar por algumas décadas.

Em 2002, com a reação dos preços a partir do término da política americana de subsídios, os chineses me procuraram.  Estavam surpresos com o desempenho dos preços da soja porque já não eram tão baratos como no inicio de suas importações. Fazendo curta, uma longa história, foram mais de 10 anos de convívio, tendo negociado um volume acima de 20 milhões de toneladas de soja, com eficiente resultado operacional,  negocial e de execução.

A década de 70 já havia provado o gosto amargo da escassez que impactou os preços das commodities agrícolas, que durante muitos anos permaneceu com alta volatilidade, por absoluta falta de estoques de garantia.

No entendimento tácito do mercado global, que estimava haver estabilidade de preços para as commodities agrícolas, surge uma grande escassez de soja no ano de 2004, talvez maior do que estamos enfrentando nesses dias, não seria difícil superar aquela escassez porque era uma situação pontual. Os governos disponibilizaram suas reservas dos estoques de garantia que não foram suficientes porque, mesmo assim, os preços alcançaram us$ 10,66 por bushel no final de março de 2004.

As tentativas de reconstruir os estoques pouco acrescentaram nos anos que se seguiram. Em 2008 surge uma nova crise de escassez  com estoques governamentais já reduzidos pela crise de 2004, não se evitando que o mercado registrasse um novo preço recorde na ordem de us$ 16,66 por bushel no mês de julho de 2008. Estavam assim, praticamente esgotados os estoques de garantia dos governos/países à nível mundial.

Os anos subsequentes a 2008, pouco ou nada acrescentaram em estoques de segurança alimentar dos países. Uma nova escassez de produtos agrícolas surge em 2012, e já não haviam  estoques suficientes capaz de impedir uma escalada de preços para a soja no objetivo de racionar a demanda global. O resultado foi um novo recorde de preço para a soja na ordem de us$ 17,9475 por bushel no mês de setembro de 2012. Estaria assim comprovado que os mercados e governos estavam descapitalizados de estoques de produtos agrícolas, principalmente de soja. Inclusive o Brasil que somente agora retoma a construção de estoques de produtos agrícolas.

Nesse contexto  afirmei, no dia 4 de março de 2011, no livro ´Como Lucrar Negociando Soja`, que no ano de 2012 poderíamos experimentar os maiores preços de todos os tempos para as commodities agrícolas, como de fato aconteceu. Este livro foi sucesso de venda, mas ninguém, até hoje, me perguntou o porquê daquela afirmação com mais de 1 ano antes de sua comprovação.

O mundo flertou com o risco do desabastecimento. Portanto, continuaremos a enfrentar fortes e repentinos avanços significativos nos preços, diante de qualquer ameaça  de prejuízos nas safras em andamento, como acontece neste momento com as safras de verão americanas. Estamos repetindo a década de 70, sem estoques e com o consumo concorrendo com a capacidade de produzir produtos agrícolas à nível global.

O USDA continua estimando e agregando estoques fictícios às produções mundiais, resultado do critério de medida dos estoques, sobre o que já me reportei no passado recente. No último relatório deste mês de agosto, o USDA fez uma manobra de forte redução das safras de verão, deixando os players do mercado perplexos, na tentativa de oferecer preços elevados para o mercado que precisa conter a forte demanda por soja e, de alguma forma, justificar os estoques inexistentes. Situações como esta, tendem a se repetir nos próximos meses pelo  forte avanço da demanda da soja norte-americana. Isto poderá causar um novo período de escassez na entressafra (maio a setembro de 2014).

Não existe solução de curto prazo, a não ser promover um cenário de preços elevados para remunerar as produções agrícolas, que seja capaz de estimular o aumento das produções e, ao mesmo tempo tentar racionar a robusta demanda que se estabeleceu desde a virada do milênio.

O Brasil também esta se excedendo nas exportações de soja in natura. Os embarques de soja para a China já acusam 32 milhões de toneladas,  ou seja, 10 milhões de toneladas acima dos recordes anuais anteriores. Poderá faltar soja para o consumo doméstico brasileiro na entressafra. A industrialização da soja no Brasil está fortemente reduzida, por isso o preço do farelo de soja dispara. Se o Brasil tiver que importar soja dos Estados Unidos, o que pode ser cogitado, aumentaria a demanda por produto norte-americano que já comprometeu cerca de 50pct (18,8 milhões de tons) do excedente exportável de soja, uma safra que nem foi colhida e tampouco se conhece seu respectivo tamanho.

Foi neste contexto que pude afirmar com segurança que teríamos preços remuneradores para a soja, declarando que haveria uma escalada de preços elevados em busca do intervalo de escassez, que de acordo com nossas medidas se localiza entre us$ 12,50 a us$ 14,50 por bushel. Talvez esse padrão de preços para soja já não seja suficiente para racionar a demanda mundial.  Minhas afirmações Fórum da Aprosoja na cidade de Toledo/PR, deram origem a controvérsias no mercado brasileiro da soja.    

Faz todo o sentido os mercados consumidores estarem realizando uma verdadeira avalanche de compras de soja em todas as origens, provocando escassez pontual em alguns mercados produtivos, como aconteceu no Brasil nos meses de setembro e outubro de 2012 e, recentemente nos Estados Unidos, mais precisamente a partir do mês de maio deste ano, até os dias atuais.

Ainda persiste o risco de novas escaladas de preços e, dependendo do resultado da safra de soja norte-americana, poderemos assistir um novo recorde de preço. Em 2003 já havia afirmado no livro ´Soja: por que fizemos o negócio da China ?` que a soja seria a commodity do milênio.

Os mercados não atuam essencialmente por fundamentos. Os fundos de investimentos são  participantes importantes dos mercados de derivativos agrícolas. Portanto, não existe uma formação compacta de entendimento que não há solução para sanar a escassez no curto prazo. Esta situação sugere uma alta volatilidade nos preços, mas estejam seguros que todas as escorregadas de preços que houverem serão prontamente recuperadas, pelo menos, até a definição do tamanho da safra norte-americana.

Concluindo, não existe ameaça de preços deprimidos  abaixo de us$ 12,00 por bushel, porque isto aumentaria o consumo a níveis estupendos, capaz de provocar a maior de todas crises, uma escassez crônica de produtos agrícolas em todos os níveis e por um longo prazo. Não está fora de cogitação que o USDA reduza novamente as estimativas de produção de soja e milho nos próximos relatórios. Esta seria a medida correta para enfrentar a crise de escassez que vivemos nesses últimos anos, pois elevaria os preços para racionar o consumo. O único remédio para preços altos são preços mais altos.....

Atenciosamente,

Liones Severo

www.simconsult.com.br

(leitura recomendada : Fernão Capelo Gaivota)

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Fonte: Liones Severo

4 comentários

  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Caro BRUNO BREITENBACH, obrigado pela deferência e pela sinceridade do seu depoimento. Vida longa para você. abraços

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  • Liones Severo Porto Alegre - RS

    Muitos devem ter percebido que os preços da soja experimentaram o lado alto do nosso padrão a us$ 14,49 por bushel (12.50/14.50). abraços

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  • Bruno Breitenbach Goiania - GO

    Caro Liones.

    Deixo aqui minha admiração pelo seu trabalho. Há um tempo atrás vi uma entrevista sua no canal rural e fui atrás do seu livro. No entanto em sua entrevista você afirmava que a soja iria subir por n fatores e o que aconteceu no mercado no curto prazo foi uma depreciação dos preços. Pensei: Será que esse consultor está querendo lançar boatos no mercado pra faturar em cima?

    Mas eis que no prazo das suas previsões, e conforme seu livro, setembro o preço começa a reagir e, o quadro que você havia desenhado começa a aparecer nos relatórios do USDA. Até parece que você os tinha lido meses antes dos mesmo serem escritos.

    então parabéns pela ótima leitura das informações que estão além dos dados oficiais. Aliás gosto muito quando você cita detalhes como por exmplo tempo de embarque de navios oou disponibilidade dos mesmos pra mostrar como os dados oficiais são incompletos

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  • FREDERICO STELLATO FARIAS Campo Mourão - PR

    Caro Liones, você é o "Mestre dos Magos". Parabéns pelo seu brilhante trabalho!

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