A florada do ipê, o governo e os médicos, por Armando Portas

Publicado em 04/09/2013 09:12 e atualizado em 04/09/2013 14:10
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Armando Azevedo Portas, é engenheiro agrônomo e produtor rural.

Nesta semana em boa parte do nosso território as plantas de ipê abriram suas flores mostrando  todo o seu esplendor. Neste ano, em parte da região Sudeste,   a florada  do ipê roxo se deu na mesma época que a do amarelo. Nem sempre isso acontece. Depende muito de como está a correr o ano do ponto de vista meteorológico: ocorrência de geadas, chuvas, mais ou menos frio ou  calor, água acumulada no solo, ventos, além de tipo de solo, altitude, etc.

Como sabemos pelos vinhos, cada ano é diferente do outro, daí a necessidade de se esclarecer no rótulo o ano da colheita. Mas também se aplica ao  café,  ao chá, à qualidade das frutas, influenciando na concentração de  sólidos solúveis (açúcares) e nos diversos componentes químicos que dão o conjunto de sabores que irão conferir  às frutas maior ou menor qualidade. Nas uvas que irão produzir vinhos, como definiram os franceses, irá formar  o “ buquê” da futura bebida.

Mas voltemos ao ipê, o que marca para nós as suas flores além de nos lembramos da cor da  bandeira? Um despertar de novas  brotações. Um novo ciclo de vida  que se anuncia. Um novo ano agrícola. Uma nova empreitada de trabalho e dedicação com responsabilidade e atenção aos prazos que nos indica a natureza.

rão  acabando os dias de seca no Sudeste e Centro Oeste.  Começam a chegar as chuvas, que de todo não cessaram na região Sul.

O café já está no final da colheita, o corte da cana segue célere  para aproveitar os  últimos dias secos, a colheita dos cereais de inverno se inicia na região Sul e em outras regiões os cotonicultores olham para o céu para saber se arriscam um plantio de algodão “no pó”.

Assim é todos os anos. Todos os anos o ipê floresce mais ou menos nesta época. Ele pode ser usado como um indicador para muitas práticas agrícolas como a poda da videira, feita pelos  viti vinicultores do Sul de Minas Gerais. Do ponto de vista  da fisiologia da planta, se as condições do clima já estão propícias para libertarem  as pétalas do ipê, é porque  na videira as gemas já estão maduras para poderem ser estimuladas a brotar, mediante a  poda.

Para os nossos agricultores nada mais lógico que seguirem esse rumo que o tempo e as condições  meteorológicas determinam todos os anos. Entretanto isso não parece lógico ou compreensível para quem nos governa e faz as leis, decretos, portarias e publicações. Estas, é  que deveriam vir para ajudar os agricultores na produção,   e apoiar o segmento que é responsável por grande parte da riqueza do Brasil 

Na maioria dos casos  tudo chega atrasado, fora de época, ou nem chega. São planos de irrigação e de transposição de rio que diz que vão chegar e não chegam.  São equipamentos de irrigação que foram comprados para onde  não tem água. É o milho que vai para a região da seca,  para matar a fome do gado (e de gente) que é para chegar e não chega, e muitas vezes quando chega nem para o gado serve.  É o armazém que deveria estar funcionando no meio de um mar de grãos depositados  no chão  e   se existir está sucateado e não funciona.

É o anuncio  todos os anos do plano agrícola, com pompa e circunstância, quando na verdade os planos teriam que ser pelo menos quinquenais, pois tal como o ipê que todo o ano tem flor, todo ano tem agricultura, e cada vez mais.

São as estradas, os portos, os acessos,  os terminais  graneleiros, as hidrovias e as ferrovias, que  já deveriam estar prontas, conforme  prometido,  mas ainda  não estão.

São  os  anúncio das medidas para minimizar o problema da cafeicultura que chegam atrasados, mas o dinheiro, que será pouco,  demora mais ainda  para chegar. É o recurso para ajudar os citricultores, falidos, que era para ser liberado (pasmem!)  no ano passado, etc, etc.

Na agricultura brasileira deveria existir mais planejamento. Pois todos os anos, certo com a florada do ipê,  as necessidades  e os problemas se repetirão. O ministro da Fazenda deve ser avisado,  já na posse,  que terá que arranjar dinheiro para a remoção da safra de um estado para outro,  ou para o silo, dinheiro para custeio e investimentos, prevenção das secas que são cíclicas, etc.

Temos que fazer como se programou o  Ministério da Saúde.  Anuncia que como não teve médicos suficientes para contratar,  irá buscar  médicos ao exterior, e três dias depois,  de jaleco branco chegam 400 cubanos ávidos por serviço.  

É assim que precisamos fazer com a nossa  agricultura:  previsão, planejamento e rapidez nas ações.  Vamos esperar para ver. Daqui a um ano teremos nova florada nos ipês.

Ipê Roxo

Ipê Amarelo

Ipê Amarelo 2

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Fonte: Armando Portas

2 comentários

  • PRISCIANE SCHROEDER TEIXEIRA Pelotas - RS

    Maravilhoso,muito bem escrito e pensado.

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Prezado armando,assim como a flor do ipê e de tantas outras belas flores deste paraíso chamado Brasil,a vida é cíclica,quiçá as oportunidades... é uma pena que nossos dirigentes não as vejam assim(preferem fazer uma política distributiva),com o advento da valorização das comodities o País está perdendo uma oportunidade ímpar de se modernizar e de se preparar para o tempo vindouro ,que eventualmente pode ser de vacas magras...Enquanto isto vamos criando travas ,obstáculos,insegurança jurídica permeados por uma ideologia arcaica e onerosa que privilegia aquele que sequer tem noção de que é trabalhar e produzir...convido os companheiros do campo e da cidade a visitar o site ipeflorido.com...saudações mineiras ,uai!

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