Eu não venderia soja e milho... Por Prof. Dr. Marcos Fava Neves

Publicado em 31/01/2019 11:22 e atualizado em 31/01/2019 11:52
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Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio

Como foi nosso agro em janeiro? Na análise da economia, segundo o FMI, o crescimento mundial em 2019 e 2020 será de 3,5% e 3,6%, respectivamente, quedas de 0,2% e 0,1% ante sua última previsão. O crescimento da Europa caiu 0,3% (para 1,8%), EUA mantém em 2,5% (mas cai para 1,8% em 2020), China manteve 6,2%, e emergentes caem de 4,7 para 4,5%. O Banco Mundial é mais pessimista, estimando o crescimento mundial em 3% para 2018, 2,9% para 2019 e 2,8% para 2020, com crescimentos ligeiramente menores para todos os países e regiões listadas acima.

Preocupa o mundo as tensões comerciais e desaceleração da taxa de crescimento da China. A meta do Governo Chinês é de um crescimento entre 6 a 6,5% para 2019 e já está tomando providências para reaquecer sua economia. Em relação às tensões com os EUA, o superávit comercial dos chineses nesta relação foi de US$ 323 bilhões em 2018, realmente gigante e uma das maneiras de compensar isto seria aumentando o consumo interno e a compra de produtos do agronegócio americano, principalmente grãos, proteína vegetal e etanol, o que afetaria negativamente o agronegócio do Brasil.

No caso do Brasil, o cenário é de estabilidade nos números, com todos preocupados com a capacidade do novo Governo em aprovar as reformas necessárias, que sumiram da mídia graças ao triste episódio de Brumadinho, que arrasou a nós todos. O último Relatório Focus do BC coloca o crescimento do PIB em 2019 em 2,53% e 2,60% em 2020. O câmbio em 3,75 e 3,78 respectivamente para os dois anos, a taxa de inflação em 4% para os dois anos, e a taxa Selic em 7,0 e 8,0%, respectivamente. Tanto na arena mundial como no Brasil são números um pouco piores que os anteriores, mas ainda positivos ao agro, pois tem crescimento econômico pela frente.

A nova estimativa para o valor bruto da produção (VBP) feita pelo MAPA para 2019 é de R$ 581,6 bilhões, sendo R$ 200,3 bilhões na pecuária, valor 7,7% maior que 2018, e na agricultura será de R$ 381,3 bilhões, valor 0,7% menor. Reforçando os benefícios do agronegócio, a análise de dados feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em mais de 5 mil cidades indicou que o PIB das 100 cidades maiores produtoras do agro nos anos de 2014 e 2016 cresceu 9,81%, muito mais que o Brasil.

Fechamos os números das exportações do agro em 2018 e estas realmente deram show, mesmo com a greve dos caminhoneiros e tiveram recorde de US$ 101,7 bilhões, com crescimento de 5,9% sobre 2017. As vendas para a China aumentaram US$ 9 bilhões em apenas um ano, e para lá são direcionados 20% da carne brasileira, quase 30% do algodão, 40% da celulose e pouco mais de 80% da soja.

Conseguimos estes números mesmo com o ano de 2018 judiando dos preços das commodities. O índice da FAO caiu 3,5% e fecha o ano com 168,4 pontos. Quase 30% menor que o recorde visto em 2011. Os cereais subiram 9%, óleos caíram 15%, carnes caíram 2,2%, lácteos caíram 4,3% e o açúcar impressionante queda de 22%, derrubando o índice geral. Em 2018 quem voltou a sorrir foi o setor de máquinas agrícolas, que cresceu 12%. Para 2019 a Anfavea espera 10% de crescimento. Boas notícias!

A Abiove estima as exportações de soja de 2019 em 70 milhões, 13,7 milhões menores que ano passado e gerando US$ 26,6 bilhões, 25% a menos que em 2017. A estimativa caiu US$ 1,5 bilhão em um mês, graças ao clima. Quando se considera também óleo e farelo, as exportações serão de US$ 32,75 bilhões, 20% menores. Estima nossa safra em praticamente 118 milhões de toneladas, queda de 2,5% em relação ao estimado em dezembro. Em direção oposta, as exportações de milho devem saltar de 23 para 31 milhões de toneladas.

Boa parte desta soja seguirá para a China, cujas importações são estimadas em 87 milhões de toneladas. Praticamente está fechado o fluxo de soja entre os EUA e a China. Em dezembro foram importadas apenas 70 mil toneladas, contra 6,2 milhões no ano anterior, sendo 2018 o pior dos últimos 10 anos neste fluxo comercial. Do Brasil em dezembro a China comprou 2,43 milhões de toneladas a mais que o mesmo mês de 2017. A tarifa de 25% começou em junho e o impacto está aí para todos verem.

A soja no fechamento da coluna estava em R$ 77,50 nos portos e R$ 69 entregue em cooperativas do Sul do Brasil e a referência de março em Chicago foi de US$ 4,25/bushel. Já no caso do milho, no fechamento desta coluna os preços estavam em R$ 38/saca em SP, R$ 32/sc entregue em cooperativas do Sul do Brasil.

Estamos com problemas no clima, falta de chuvas e calor intenso afetando a produtividade da soja, do milho, da cana e em algumas regiões está dificultando o semear da segunda safra, e quanto mais tarde for semeada, mais risco corre de geadas e secas. Pode ainda aparecer algum evento climático ainda nesta fase final da safra no Brasil e na Argentina, e os comportamentos de plantio nos EUA mostram até agora menos soja. Se tivesse soja e milho, venderia apenas para quitar os investimentos (custos) e guardaria parte da produção, pois meu viés é de alta, mesmo se existir acordo China e EUA.

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Fonte: Marcos Fava Neves

2 comentários

  • Ricardo Seghetto -

    se o mercado cair mais do que está hoje, garante o pagamento da diferença???

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  • Frederico Ozanan Machado Durães -

    A riqueza das nações é invisível a olhos nus e o desenvolvimento econômico tem duas malhas produtivas - complexa e não complexa.

    Os clássicos do desenvolvimento econômico argumentam que a industrialização sempre foi um caminho para se desenvolver e aumentar a produtividade de um país, região ou território.

    Uma questão central está no fato de que manufaturas são complexas e commodities são não complexas.

    Guardadas as devidas proporções, os dados históricos dos ciclos econômicos com produtos do setor primário - extração do pau brasil, monocultura da cana-de-açúcar, garimpo do ouro, algodão, pecuária, café, borracha - que são passado, e, mais recentemente soja/milho e minérios precisam ser revistos, criteriosa e criticamente, do ponto de vista de uma "curva de aprendizagem" para o Brasil.

    Nos tempos contemporâneos, a economia mundial e brasileira tiveram dinâmicas diferentes. Compreender a evolução e a natureza do PIB Brasil, Coreia do Sul e China nestes últimos 40 anos, por exemplo, precisa demonstrar, com base na teoria das vantagens comparativas, novas formas de formular e implementar estratégia de ação para o Brasil, nos campos da ciência, da inovação, do empreendedorismo e desenvolvimento produtivo.

    Nos tempos correntes, eu venderia soja e milho, mas como bem sabe o professor Marcos Fava Neves - que não venderia soja e milho, esta é uma agenda de risco, de agregação de valor com alto potencial de sofrer externalidades, e que pouco, muito pouco contribui para uma agenda brasileira de independência tecnológica e comercial.

    Um alerta e um fato agravante deste cenário é que em 2022 (logo depois de amanhã) o Brasil completará 200 anos de independência política, e o que teremos realmente para comemorar de independência tecnológica? Resultados da Embraer (aeronáutica), da Embrapa e rede SNPA (agricultura tropical baseada em ciência, dados e evidências), e de alguns outros poucos nichos de prosperidade?

    A quem interessa a agropecuária brasileira? Se desenvolvimento econômico é complexidade, manufaturas são complexas e commodities não são complexas e a agropecuária é atividade econômica de baixa intensidade de P&D, o rico Brasil é pobre e a nossa vantagem comparativa é "capinar a roça", ou melhor, em tempos modernos citadinos (mais de 85% da população brasileira vive nas cidades) é "lavar louças"?

    Eu venderia soja e milho..., mas o negócio agrícola brasileiro apresenta fragilidades de alto risco e influi na agenda de desenvolvimento brasileiro.

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