"Nerso", meu primo sabido! Por Osvaldo Piccinin
Claro que também sou muito curioso e gosto de saber como estão meus amigos de infância, como está o fulano como está o sicrano e assim a gente fica tricotando por minutos a fio, coisa que ela adora fazer.
Nelson, Nerso ou Italiano é o nome do meu homenageado nessa crônica. Temos a mesma idade e passamos bons tempos de nossa infância no sitio de nossos pais. Já fico imaginando as mentes poluídas o que irão pensar dessa nossa infância na roça. Mas nós fizemos um pacto que nem depois de mortos vamos falar sobre este assunto... Coitadas das galinhas de minha avó!
Brincadeiras à parte, mas este meu primo ficou na labuta da roça até seus vinte e poucos anos, pois era o filho do meio de uma “ninhada” de oito irmãos. Pagar faculdade para tantos filhos era impossível devido aos parcos recursos da família, versus a quantidade de irmãos. O caminho natural dele e seus irmãos foi trabalhar na roça, mesmo contra suas vontades.
Já casado com a simpática Cida, resolveu abandonar o cabo da enxada “Duas Caras” e mudar-se para a cidade onde foi tentar a vida no comercio, como vendedor de máquinas agrícolas – e por sinal, se deu muito bem! Matemática nunca foi seu ponto forte, mas ele superou esta deficiência com muita competência. Inventou uma fórmula infalível de não perder dinheiro numa venda - isso sem fazer nenhuma conta! Impossível? Aguardem a receita do Nerso!
Numa dessas ligações dominicais à minha mãe, perguntei sobre o Nerso. Foi quando ela me disse: - ele está rico vendendo umas tranqueiras velhas! Ele já comprou cinco sítios! Fiquei muito feliz com esta notícia, afinal, se tem alguém que merece progredir na vida é ele, pois trabalha como um maluco, e não tem hora pra nada, como se diz por aquelas bandas.
É tão sabido que quando eu disse que iria homenageá-lo, sua única preocupação foi: - cuidado com o que você vai escrever, porque os fiscais de renda poderão acreditar! Tranqüilizei-o e disse-lhe que minhas palavras seriam apenas manifestações de carinho e admiração.
Um dia fui visitá-lo de surpresa e como fazia algum tempo que não nos víamos, ele e a sua fiel companheira, demoraram um pouco para me reconhecer. Assim que nos cumprimentamos afetuosamente eu disse-lhe que estava ali para aprender como eu deveria fazer para ficar rico, assim, como ele.
Fiz algumas perguntas usando uma linguagem financeira do tipo: qual sua margem bruta, qual é o retorno sobre o capital investido, etc. Claro que só fiz isso para sacaneá-lo, pois esta linguagem soa grego aos seus ouvidos.
Sem perder a pose me disse: - Ninão, este era meu apelido de infância, não estou entendo sua conversa, mas imagino que você está querendo saber quanto ganho para vender estes ferros velhos. Eu disse: - é exatamente isso Italiano!
Foi quando me passou a fórmula mágica de vender ganhando dinheiro sem precisar fazer conta. Ninão, eu e a Cida somos pessoas simples e você sabe disso, nós comemos arroz, feijão, bife, ovo frito e uma salada quase todos os dias, então não precisamos ganhar muito. Por exemplo: nós compramos uma mercadoria por um real e vendemos por dois reais e com esse um por cento “noi vai viveno”. Num tá bom assim?
Eita primo sabido! Além de ser um pai, esposo e amigo carinhoso é um grande comerciante! Ainda bem que não sou seu cliente! Agora entendo porque você tá cada vez mais rico! Com cem por cento de margem, fazer conta pra quê não é mesmo?!
E VIVA O UM POR CENTO DO NERSO!
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