Na FOLHA: Pela primeira vez, candidatos à Presidência procuram o agronegócio

Publicado em 19/09/2014 07:01 66 exibições
por Mauro Zafalon + artigo de Luiz Carlos Mendonça de barros, na edição de hoje da Folha de S. Paulo

Pela primeira vez, candidatos à Presidência procuram agronegócio

O setor de agronegócio vive momentos de indefinições e em busca de definições. O lado bom deste momento é que, pela primeira vez em um ano de eleições, os principais candidatos à Presidência da República procuraram as entidades de classe em busca de um programa de governo.

A avaliação é do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. "Antes, procurávamos os candidatos para sugerir pontos a serem incorporados no programa de governo e não éramos ouvidos."

Essa mudança de comportamento dos candidatos, diz, ocorre devido à mídia, que fez a sociedade entender a importância do agronegócio. Esta transferiu essa necessidade para a classe política.

O setor estará bem representado no próximo governo, segundo o ex-ministro.

Na previsão de Rodrigues, a reeleição de Dilma levará a senadora Kátia Abreu para o posto de ministro da Agricultura. Um governo da Marina da Silva terá Marcos Jank, enquanto o Aécio Neves prometeu um ministro forte e proveniente da classe rural.

O ex-ministro não arriscou um nome no caso da vitória do candidato do PSDB, mas especulações no mercado indicam que João Sampaio, ex-secretário de Agricultura de São Paulo, poderia fazer parte desse eventual governo.

Mas nenhum ministro vai resolver os problemas da agropecuária se nada mudar na estrutura do governo. Os instrumentos dos quais o ministro da Agricultura dispõe atualmente não são suficientes para um bom exercício. Quando se trata de portos, de estradas e até de aprovações de novos insumos para o setor, as decisões estão nas mãos de outros ministros. "É preciso que haja uma estratégia de governo e de planejamento conjunto", afirma.

Mas, só pelo fato de os candidatos estarem interessados no agronegócio, é provável que haja uma visão proativa.

Para mostrar esses momentos de indefinições e necessidade de correções de rumos, o setor se reúne neste sábado (20) em Campinas (SP) para apontar a perda de confiança na estrutura atual e o que tem de ser feito.

Rodrigues, presidente do Lide Agronegócios, que promove o evento, diz que é necessário o confronto das visões de interlocutores do governo e do setor acadêmico.

O momento é de derretimento dos preços das commodities, mas os custos continuam elevados. Diante desse novo cenário do agronegócio, é urgente uma solução para os principais problemas.

Entre eles, Rodrigues inclui logística, que afeta principalmente os produtores das novas fronteiras agrícolas.

O setor sofre ainda da ausência de uma política de renda, que incorpore crédito, seguro e preço, bem como de uma política comercial. Quanto a esta última, Rodrigues, que foi ministro no primeiro mandato de Lula (2003-2006) diz que "não há cabimento ficar pendurado no Mercosul e não fazer acordo com União Europeia, China e outras regiões. Não é necessário um abandono do Mercosul, mas um redesenho".

Rodrigues destaca ainda a necessidade do desenvolvimento de tecnologias, que são a alavanca da produtividade. A tecnologia tem de ter um peso maior no Estado, mas não deve ficar restrita à Embrapa, mas aos demais órgãos, hoje praticamente sem recursos e desmontados.

Um dos grandes problemas no setor é o de governança. Enquanto o mundo todo tem um órgão só decidindo sobre políticas agrícolas, de floresta e pesca, o país divide essas decisões por várias pastas.

"É um desperdício de Orçamento e de trombadas de decisões. O ministro da Agricultura deveria ser o gerente de uma estratégia do governo."

É bom, mas é ruim

POR ELIANE CANTANHÊDE

Na contramão das estatais e dos órgãos de governo, o IBGE resistiu ao aparelhamento e às ingerências indevidas e continua dando valiosas contribuições para a compreensão do país e para detectar o ritmo dos avanços nas mais diferentes áreas. Doa a quem doer.

Em plena campanha eleitoral, ao largo de palanques partidários e troca de ataques, o IBGE deu duas das piores notícias não só para a presidente Dilma, mas principalmente para a candidata Dilma. O Brasil entrou em recessão técnica, com dois trimestres consecutivos de crescimento negativo. E, depois de anos de queda, a Pnad de 2013 mostra que a desigualdade social parou de cair.

São dois golpes para Dilma. Um, o pibinho devagar quase parando, ratifica a crítica generalizada de que a política econômica dos últimos quatro anos deu errado. Outro, a desigualdade estacionada, enfraquece muito o discurso petista. Lula deve estar arrancando os cabelos.

O IBGE, porém, é um copo meio cheio, meio vazio. Se contém motivos de ataque contra Dilma, inclui também argumentos de defesa.

Exemplos. A oposição pode dizer que o desemprego subiu (e deve subir mais em 2014). Mas Dilma pode alegar que, apesar disso, a renda aumentou. A oposição pode dizer que há 13 milhões de analfabetos no país. Mas Dilma pode rebater dizendo que, apesar disso, eles continuam diminuindo. A oposição pode dizer que 43% das residências até hoje não têm esgoto, outra grande tragédia. Mas Dilma pode alegar que, apesar disso, houve uma redução acentuada no total. Ou, ao contrário: Dilma se elogiar, a oposição retrucar.

Ou seja, a Pnad contém dados para todos os gostos e ângulos. O que importa é que o IBGE resistiu à pressão do Planalto, via senadores amigões, e continua cumprindo seu papel de pesquisar, divulgar, analisar e, assim, contribuir para o entendimento e o planejamento do país, seja quem for o (a) presidente. O IBGE é nosso! Como a Petrobras um dia foi.

A injustiça social de Dilma

No que depende da renda, bem-estar ainda aumentou em 2013, mas país vai parando, POR VINICIUS TORRES FREIRE

A DESIGUALDADE DE RENDA no Brasil ficou na mesma entre 2011 e 2013, os três primeiros anos de governo de Dilma Rousseff. O bem-estar social no entanto aumentou bem nesses anos, inclusive no fraquinho 2013. Isto é, a renda de todas as classes cresceu. Ainda assim, a candidata-presidente Dilma Rousseff (PT) será avacalhada de modo extremo, portanto oportunista, culpada pelo fato de que a distribuição de renda parou de melhorar (não piorou).

A campanha petista vai provar um pouco do gosto do lixo ignaro que despejou na campanha marinista com aquela história de banqueiros do demo.

Isto posto, nem de longe está tudo azul ou rosa no Brasil que aparece no balanço anual da situação socioeconômica, publicado ontem pelo IBGE, a Pnad 2013.

Primeiro, porque em uma país ainda muito iníquo como o Brasil não é possível aceitar sem mais que a desigualdade deixe de diminuir. Segundo, porque ao menos parte dessa estagnação se deve ao baixo crescimento da economia dos anos Dilma. Terceiro, porque o governo não teve imaginação ou capacidade de alterar algumas características sociais e econômicas do país, as quais produzem desigualdade.

Repita-se que o bem-estar social, no que depende da renda, pode melhorar mesmo sem redução da desigualdade. Talvez a melhora se torne assim desnecessariamente mais lenta. A renda de todas as "classes" aumentou em 2013 ("classe" aqui é cada décimo em que é dividida a população). Mas os rendimentos dos 10% ou 20% mais pobres cresceram menos.

O que pegou? Provavelmente, reajustes menores do salário mínimo devido ao crescimento menor da economia, do PIB (o mínimo reajusta benefícios previdenciários e assistenciais, embora não o Bolsa Família). O crescimento menor do emprego também deve ter feito estragos.

É possível ainda que a redução adicional e rápida da desigualdade dependa agora de programas política e economicamente mais difíceis de implementar. Para dar dois exemplos elementares:

1) Mexer nos impostos de modo a favorecer os mais pobres, assim como melhorar a redistribuição de renda (as transferências de renda nem sempre favorecem os mais pobres);

2) Melhorar a educação e a infraestrutura de modo a retirar os mais pobres de trabalhos improdutivos, quando há trabalho, em especial em cafundós sem infraestrutura (sem estrada, sem acesso a mercados etc.): agricultores de subsistência, catadores em geral, prestadores de serviços primitivos, empregados do microcomércio precário, para ficar apenas em casos aberrantes.

Mas há mais: o Brasil tolera que se empreguem pessoas em ocupações de produtividade e salários baixos (para não falar do desperdício humano): frentista, cobrador de ônibus, porteiro, segurança. Falta de escola e baixo investimento dá nisso.

O governo até que se mexeu um pouquinho, com Pronatec, subsídios para faculdades (ruins...) e microcrédito. Mas é muito pouquinho. A escola básica é o que sabemos, e o investimento em infraestrutura (ou quase qualquer outro) decresceu devido à política econômica ruim.

A Pnad aliás diz coisas interessantes sobre escola, infraestrutura social e consumo. Mas isso fica para outro dia.

Carbonização

POR EDUARDO GIANNETTI

Desgraça pouca é bobagem. O recém-publicado relatório da consultoria PwC sobre a evolução do índice de carbonização nas principais economias do mundo adiciona uma nova dimensão à safra de péssimos indicadores colhidos pelo Brasil nos últimos anos. Como na economia, qualidade da educação e nota de crédito, não é só que paramos de avançar --é que regredimos.

O índice de carbonização mede o volume de gases de efeito estufa emitido por unidade de PIB. Por razões metodológicas, ele inclui as emissões associadas ao uso de combustíveis fósseis e geração de eletricidade, mas não o impacto da agropecuária e desmatamento.

A boa notícia do relatório é que, pela primeira vez desde que teve início a divulgação do índice há seis anos, as principais nações emergentes (E7) reduziram a intensidade de carbono das suas economias a uma taxa maior que os países avançados (G7). Entre 2012 e 2013 a queda no E7 foi de 1,7% (liderada por China, Índia e México) ao passo que no G7 foi de apenas 0,2%.

Ainda que o cômputo geral --redução de 1,2%-- fique aquém do necessário para limitar o aquecimento global a 2°C até o final do século, o resultado do E7 mostra que é perfeitamente possível crescer e descarbonizar ao mesmo tempo. Em 2013, o PIB real do E7 cresceu 5,4% contra apenas 1,3% do G7.

A nota dissonante ficou por conta do Brasil. Apesar de um crescimento pífio --menos da metade do verificado no E7 no ano passado--, conseguimos a proeza de ocupar a pior colocação no ranking mundial: aumento de 5,5% na intensidade de carbono por unidade do PIB em 2013.

O resultado reflete em parte o uso prolongado das termelétricas a óleo e carvão em virtude da estiagem. Mas não é só isso. Se tomarmos a média do período 2008 a 2013, o Brasil foi ainda o país que mais carbonizou a economia. Enquanto a Austrália, com crescimento semelhante ao nosso, teve queda de 4,6% ao ano em média na intensidade de carbono, no Brasil ele subiu 1,8% ao ano no quinquênio.

O fato é que o governo Dilma, além de levar o país à estagflação, colocou-nos na contramão da economia verde, ao subsidiar o consumo de derivados de petróleo nos transportes, forçar a redução das tarifas de energia e relegar as fontes renováveis de eletricidade. Para ter noção do atraso brasileiro, basta lembrar que a capacidade eólica instalada hoje nos EUA equivale à metade da energia gerada pela totalidade do nosso parque elétrico.

Depois de anos em queda, o desmatamento na Amazônia voltou a aumentar. Pior que crescer pouco ou carbonizar o PIB, só mesmo uma combinação judiciosa da duas coisas. E não é que o Brasil tem se esmerado!

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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