China e as mudanças para o futuro, por Glauber Silveira
Publicado em 22/04/2013 16:15
e atualizado em 24/04/2013 11:50
Por Glauber Silveira, engenheiro agrônomo, produtor rural e Presidente da Aprosoja Brasil.
Nesta semana, de 15 a 20 de abril, tivemos uma intensa agenda na China onde eu e o senador Blairo Maggi nos reunimos com setores privados e governamentais para discutir sobre qual seria o posicionamento futuro do mercado chinês, o que nossos principais compradores de soja estariam interessados a comprar e qual seria este potencial de crescimento.
Em todas as reuniões ficou claro a importância do Brasil como fornecedor de soja e que esta demanda é crescente, no último ano importaram 27 milhões de toneladas de soja do Brasil e neste ano deve passar de 30 milhões. Mas, também fica claro em todas as reuniões que uma das principais preocupações da China em ter o Brasil como seu principal fornecedor no futuro próximo é a ineficiência logística.
Em reunião com a COFCO, uma empresa estatal muito importante no país, e que compra muito do Brasil, seu executivo Cheng Muping nos colocou que nesta safra tiveram um impacto muito grande nos carregamentos no Brasil e isto os deixa muito preocupados. Ele nos pediu claramente para que fizéssemos investimentos urgentes nos portos brasileiros, complementando que a partir de março a fila nos portos brasileiros cresceu muito, com a espera superando os 60 dias, o que tem resultado em paralisação da fábrica de esmagamento na China.
Cheng Muping nos disse que a demanda chinesa irá continuar crescente. A demanda por ração está fortemente aquecida e os chineses deverão importar mais de 64 milhões de toneladas de soja no próximo ano. Além disso, afirmou também que não só pela soja, mas a demanda também por milho está crescente e a China pode, já no curto prazo, importar 15 milhões de toneladas de milho.
Em reunião com a Associação da Indústria Anima, o presidente Sr. He Xintian, nos informou que eles têm grande interesse na compra de farelo de soja do Brasil, porém lamenta que farelo tenha taxas de importação, mas espera que no futuro essas taxas por acordos entre os dois países possam cair. Ele nos disse ainda que na China existe um Fundo de Investimento para financiamento de projetos agroindustriais fora do país.
Estivemos reunidos com o Vice-Ministro Niu Dun que nos disse da preocupação da China com relação a segurança alimentar, e que o país tem um grande respeito pelo Brasil como parceiro, nos disse que o governo chinês estaria disponibilizando 100 bilhões de dólares para investimentos em agricultura fora da China.
O que me deixou mais surpreso nestas reuniões foi a mudança nos discursos onde todos colocam a preocupação da China com relação a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental. Nos foi questionado muito sobre o potencial brasileiro de produção, mas também foi colocado que eles, de forma alguma, esperam que o Brasil desmate novas áreas, e claro relatamos que de forma alguma esta é uma intenção brasileira e que temos muitos áreas abertas de pastagens onde a agricultura pode se expandir sem desmatar.
Outro ponto que chama a atenção é referente aos transgênicos. Ficou nítido o interesse das empresas por soja convencional, quando questionamos qual a tendência do mercado na relação entre transgênicos e não transgênicos nos foi colocado que a grande massa é menos sensível a isto, compra o mais barato. Já uma parcela importante da população chinesa melhor colocada financeiramente estaria atenta e teria preferência por produtos não transgênicos.
Todas as empresas importadoras do Brasil que conversamos se mostraram interessadas em criar um mercado específico de soja convencional mesmo que tenham que pagar mais. Fomos questionados da possibilidade do fornecimento no curto prazo de volumes superiores a 10 milhões de toneladas de soja convencional, o que realmente chama a atenção e pode influenciar todo o mercado brasileiro, afinal nós produtores vamos plantar o que o consumidor demandar.
Existe uma mudança na tendência chinesa com relação a importação e a sua preocupação de segurança no fornecimento de alimentos, e também a tendência de termos espaço para soja transgênica e não- transgênica, o que, para nós produtores, é muito positivo, afinal nos permite manejar as duas tecnologias. Mas, fica claro que temos um dever de casa urgente a fazer com relação a infra-estrutura.
Ficou claro aqui a preocupação do governo chinês com a anseio da população, e ao contrário do que se pode pensar, mesmo sendo comunista, o governo é muito sensível ao que o povo pensa e deseja, afinal, são 1,4 bilhões de pessoas, o que para nos brasileiros é muito bom afinal a melhoria na qualidade de vida das pessoas é uma meta governamental, o que significa comer melhor e reflete diretamente na importação de comida do Brasil.
O nosso maior desafio é saber aproveitar a demanda crescente da China por produtos alimentícios e conseguir captar por conta disso recursos para investimentos em infra-estrutura no Brasil, as nossas culturas são muito diferentes e existe uma grande desconfiança de ambos os lados, amadurecida a relação com projetos bem elaborados e uma sinalização positiva do governo em assegurar esses investimentos, sem dúvida o Brasil tirará ganhos muito positivos na locomotiva chinesa.
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Fonte:
Aprosoja Brasil
1 comentário
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Parabéns Glauber - este é o verdadeiro retrato da China. Precisam do Brasil e são sinceros em suas afirmações. Não temos nada a temer com relação ao futuro de nossa agricultura. Precisamos aproximar nossas diferenças culturais. abraços