Índios contemporâneos, por Xico Graziano

Publicado em 12/06/2013 17:33 e atualizado em 12/06/2013 19:10
Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. (abaixo, artigo de Odacir Klein sobre a questão indígena):

A Constituição brasileira deixa claro: pertencem aos índios "as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União de­marcá-las". Princípio que ne­nhuma pessoa civilizada contes­ta. De onde surgiu, então, esta confusão que anda assustando a sociedade?
 
É simples explicar: ocorre que certos grupos Indígenas estão, com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), reivindicando áreas de terra que, há tempos, deixaram de ocupar. Colonizados pelos produtores Rurais, tais espaços agrários ajudaram a edificar a nação brasileira. Em alguns casos, a exploração agropecuária ultrapassa 90 anos, com imóveis registrados no cartório de imóveis. Posse legítima, zero de terra devoluta.
 
Situada em Mato Grosso do Sul, assim se configura a Fazenda Buriti, palco do infeliz conflito que matou o terena Oziel Gabriel. Mantida desde 1927 pela família Bacha, suas cercanias foram invadidas para forçar a conclusão do processo demarcatório, visando a transformá-la em reserva indígena. O tiroteio ocorreu em meio ao cumprimento do mandado de reintegração de posse, ato judicial contra o qual os Indígenas resistiram com violência. Tragédia anunciada.
 
Em todo o sudoeste de Mato Grosso do Sul existem, há tempos, dezenas de propriedades Rurais ameaçadas por essa inusitada categoria de sem-terras com penachos coloridos. O miolo da encrenca afeta 3 milhões de hectares, exatamente o mes­mo tamanho da área cultivada no Estado, onde labutam 100 mil famílias Rurais. O exagero da "causa indígena" assombra o bom senso.
 
O acirramento dos ânimos resulta da demora do governo federal em resolver a questão. As reservas Indígenas já existentes no território sul mato-grossense somam 613 mil hectares, abrigando 31 mil remanescentes das tribos originais. Alguns defendem ser necessário aumentar esse domínio. Inexistem, porém, áreas disponíveis, exceto aquelas dedicadas historicamente aos cultivos de soja, milho e algo­dão, ou à pecuária, de excelente nível. Há proprietários que aceitariam, se indenizados, entregar parte das terras, mas o governo sempre afirmou ser impossível pagar. Entregar de graça ninguém topa.
 
Enquanto nada se decidia, o caldo da encrenca engrossava e se contamina vai de o logicamente. Os Indígenas invasores de terras se articulam com vários movimentos, todos próximos da chamada Via Campesina, uma organização de natureza anticapitalista, que propõe uma espécie de regresso às origens comunitárias da civilização. Gostam de desafiar autoridades, desprezam o regime democrático, bancam os salvadores messiânicos da pureza humana. No fundo, é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) que comanda essa jornada, aliado, no caso, ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a outras entidades que dizem representar os "povos excluídos".
 
Tal conexão, com ramificações internacionais, destinada a "libertar os oprimidos", se espraia pelo Brasil, fazendo do "ruralista" sua vítima. Em Mato Grosso, entre várias pendengas, existe uma suposta tribo remanescente no Pantanal que deseja o mundo na região do Pirigára. No Rio Grande do Sul, remanescentes caingangues querem tomar 22 mil hectares de colonos gaúchos próximos de Passo Fundo. No Paraná, invasões se verificam em Guaíra, Terra Roxa, Palotina, Mercedes, Santa Helena e Francisco Alves. Os invasores, conforme denunciou o senador Álvaro Dias (PSDB) na tribuna do Senado, não falam português, mas, sim, guarani e castelhano. Em Santa Catarina, o drama de milhares de agricultores ameaçados de perder suas terras na região de Chapecó e Palhoça foi relatado e documentado pelo senador Luiz Henrique (PMDB).
 
No Pará, fabricaram-se índios boraris na região de Santarém, mirando 80 mil hectares dentro da Gleba Nova Olinda. Na Bahia, afora aqueles malucos que invadiram um resort, e depois saíram envergonhados, outras etnias desconhecidas es bulham terrenos Rurais ocupa­dos há 80 anos em Ilhéus, Borá e Buerarema. Para não falar da história de Paulo Apurinã, o falso índio amazonense, um barrigudo velhaco que posava de líder junto das autoridades. Ponta do iceberg?
 
Nenhum desses conflitos envolve disputa por Floresta virgem. Todos, pelo contrário, recaem sobre terras produtivas, sob a alegação de que seriam, no passado, Indígenas. No limite, o raciocínio permite englobar também as praias cariocas, a Avenida Paulista, a Esplanada dos Ministérios, recantos alhures, pois, afinal, tudo pertencia aos índios até o descobrimento. Como, e a partir de quando, se comprova a "ocupação tradicional" das terras pelos remanescentes Indígenas?
 
Aqui está o xis da questão. A legislação exige laudos antropológicos, a cargo da Funai. O procedimento, correto em tese, tem-se desvirtuado ao se utilizar de argumentos suspeitos, pouco científicos, para apontar "vestígios" recentes de ocupação indígena onde era imemorial seu sumiço. Referindo-se a uma querela em Mato Preto, no norte gaúcho, o procurador do Estado, Rodinei Candeia, denunciou o respectivo laudo antropológico como "uma fraude absoluta". Essa desconfiança sobre a veracidade dos laudos antropológicos levou o governo Dilma a propor que outros órgãos, como a Embrapa e o Incra, também opinassem sobre a matéria. Aprova dos nove, necessária, irritou os indigenistas.
 
Percebe-se que os atuais conflitos Indígenas não decorrem de nenhuma guerra de extermínio, ataque à Floresta ou prepotência ruralista. Nada disso. Os índios contemporâneos não querem, exceto talvez os da Amazônia, caçar com arco e flecha. Desejam terras para cultivar, pastorear rebanhos, ganhar dinheiro. Estão certos.
 
Errado é continuar tratando índios remanescentes como "almas puras", inimputáveis perante a lei da sociedade humana. Isso precisa mudar.

 

Terras indígenas...

por Odacir Klein

 

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Há poucos dias recebi matéria de autoria do engenheiro agrônomo e produtor rural Rogério Arioli da Silva, sob o título “É hora de descer do muro”, tratando da situação atual referente às demarcações de terras indígenas.

Acompanho o assunto com interesse, por contradições que entendo ocorrerem em relação ao mesmo. Tenho 70 anos de idade e em minha região natal, nos municípios de Erebango - onde nasci -, Getúlio Vargas e Erechim, atualmente a Funai procura demarcar áreas como se indígenas fossem, para delas deslocarem pequenos agricultores que as cultivando e dedicando-se à criação de animais, conseguem receitas necessárias às suas subsistências.

Acompanho, também, o noticiário de que parlamentares vinculados à agricultura organizam movimentos mais radicais, com manifestações nas rodovias, visando a chamar a atenção para o problema.

No caso a que me referi, em minha região natal, não lembro, nestes meus 70 anos, de presença de índios nas áreas que pretendem demarcar como se indígenas fossem. Há, naquela parte do território ao norte do Rio Grande do Sul, algumas áreas demarcadas, das quais lembro desde minha infância. Outras, não existiam.

Telefonei, hoje, ao deputado Alceu Moreira – PMDB/RS -, que é o primeiro subscritor de um pedido de CPI para investigar, na Câmara dos Deputados, a atuação da Funai.

O vigoroso parlamentar me informou a respeito do assunto, mas chamou-me a atenção para um detalhe. O estabelecimento do que é terra tradicionalmente ocupada por indígenas, sob orientação da Funai, é feito através de um processo não público, em esferas específicas, sem audiência dos interessados e apenas através de um processo de informação oral sobre o uso remoto de terras que poderiam ter sido ocupadas por indígenas.

Na minha região de origem, a colonização iniciou em 1.908. Na atual cidade de Getúlio Vargas foi construída a casa em que era administrada a colonização da denominada Colônia Erechim, hoje representada por aproximadamente 30 municípios. Os colonos foram colocados nas terras sem qualquer conflito com indígenas.

A Constituição Federal, em seu artigo 231, estabelece que:

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.

§ 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.

Fica muito claro que o termo “tradicionalmente” deve ser interpretado como a ocupação em caráter permanente, ou violentamente interrompida em período recente.

Tradição não é apenas um momento do passado ou uma época, mas a reiteração que perpetua o ontem, passando pelo hoje para chegar ao amanhã.

Volto a exemplificar com o que conheço bem. Para mim, nascido em 1.943, ou seja, 35 anos após o início da colonização daquela área ao norte do Rio Grande do Sul, o tradicional é ver pequenos agricultores retirando o sustento de suas terras, nas quais seus ascendentes foram instalados há pouco mais de um século.

Não é possível que através de um simples processo - inclusive questionado por outras áreas do Estado como o Ministério Público, no caso de minha região original –, ouvindo poucas pessoas, sem publicidade, possa-se determinar como “tradicionalmente ocupado” aquilo que talvez tenha ocorrido em passado muito distante.

O articulista Rogério Arioli Silva diz, com propriedade, que reconhecer tal prática como definidora do que são “terras tradicionalmente ocupadas pelos silvícolas” seria considerar todo o território nacional como reserva indígena.

Vivemos um momento de conflitos em que ao poder público, através dos três Poderes, incumbe concorrer para o diálogo, a harmonia e a pacificação.

A ninguém, de bom senso e com boas intenções, pode interessar o agravamento de uma situação de animosidade. No entanto, o que é preciso, em caráter permanente, é clareza institucional e coibição às práticas de alguns organismos que perdem a visão nacional, segmentam radicalizadamente suas atuações – como é o caso, atualmente, da Funai – e criam conflitos como os vigentes, em que praticamente só há prejuízos.

Os índios devem ter seus direitos respeitados. O artigo 231, caput, da Constituição os assegura. No entanto, o mesmo dispositivo, nos seus parágrafos 1º e 2º, já mencionados, definem “terras indígenas”.

São necessárias ações imediatas visando a evitar confrontos com efeitos catastróficos. De outra parte, se não houver clareza institucional, o esforço presente terá resultados apenas transitórios, mas não evitará agravamentos futuros.

Poderão dizer que hoje, neste espaço, não falei em milho. No entanto, esta questão, com profundos reflexos sociais, envolve a todos os setores.

Odacir Klein

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Fonte:
Xico Graziano + Odacir Klein

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5 comentários

  • WOLMAR FRIES Antônio Prado - RS

    A minha preocupação é com os acampamentos às margens das rodovias. A faixa de domínio pertence à rodovia. Muitas dessas áreas não foram indenizadas até hoje, aos proprietários. Por ser uma área de escape, para o caso de saída de pista, a faixa de domínio não pode ser habitada, ainda que em carater temporário. Entretanto, o Governo, através de seus órgãos como DNIT, FUNAI e outros, não reprime tais acampamentos. Em caso de acidente com vítimas fatais, será sociedade que pagará a conta. As manifestações no Brasil, embora com algum exagero, estão voltando. Teremos novos "caras pintadas", agora para pôr fim ao governo de esquerda? As vaias à Presidenta Dilma foram tão grandes na inauguração da Copa das Confederações, em Brasília, que até o Presidente da FIFA, que entende pouco a nossa língua, entendeu tudo. Aliás, vaiar em Português, Inglês ou Mandarim, faz pouca diferença, todo mundo entende.

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  • João Gleison Drews Campos de Júlio - MT

    De onde vem ???

    do ((Governo)) !!!

    Por que a mídia só ve o lado do indígena e não o do produtor rural, ta sendo vergonhoso essa situação brasileiros, autoridades competentes tem que abrir os olhos e para com essa bandidagem ,,,

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  • Adriana Figueriedo Rio Brilhante - MS

    Gostaria de saber por que a midia não ve o lado do produtor? Somos menos que os indios?

    Acompanhei pelos jornais televisivos os conflitos ocorridos em Sidrolandia MS, porem, tive a nitida impressão que a midia estaria do lado indigine. Por que?

    Houve um assassinato de um produtor na região de Douradina MS que não foi divulgado pela midia, inclusive quem quiser acessar se não foi retirado tem no You Tube.

    Isso tem que parar, porque tenho que sentir culpa por algo que ocorreu em um passado distante. Minha conciencia não me incomoda em relação a isso.

    Se eles quissesem viver como silviculas como na epoca do descobrimento ate concordaria em devolver terras a eles, mais alem de terra ainda temos que arcar com cestas basicas e outros montes de auxilios que o governo tem para eles.

    Isso é certo?

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  • NAMIR ANTONIO BERTUOL Londrina - PR

    Esta mais que na hora desses indios começarem a trabalhar. Soa um peso morto para asociedade e para as pessoas que realmente trabalham neste pais. Alias pais este que valoriza quem nao produz nada em detrimento de quem realmentre teria que ter valor.

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  • TULIO DENARI SIDROLANDIA - MS

    Esta correto o colega Xico!!!

    O Brasil se fosse uma pessoa, teria diagnostico de Síndrome da Culpa Eterna, Desvio de Caráter, Falta de Ética e Honestidade, Medo da Verdade!

    Fomos criados num pais que se diz maravilhoso, esplendido por natureza e abençoado por Deus, de gente muito perseverante e decidida! Mas ao mesmo tempo vemos piadas de que tudo isso se compensa pelo povo ruim que foi posto aqui!

    Na verdade somos um país, como muitos outros, sem cultura e sem respeito às leis. Aqui muito comumente, juízes são corruptos, policiais são bandidos, políticos são mafiosos, criminosos ficam impunes e a população no geral é velhaca e avessa ao trabalho. (Índices de transparecia, desenvolvimento, cultura e produtividade atestam isto).

    Vendemos o voto, roubamos cargas nas estradas, quando por infelicidade alguém sofre um acidente, achamos que roubar de rico não é nada, tirar de quem tem muito não tem problema, crimes praticados por gente marginalizada, só tem vitimas e não culpados e devemos defender os criminosos, achamos certo recompensar as pessoas pela cor, etnia e hábitos, não pelo mérito. Alunos da mais renomada escola de direito acham que podem comer em restaurantes e sair sem pagar, dizem ser uma tradição. Achamos divertido dar golpe e enganar! Queremos que a esmola dada pelo governo nos programas sociais seja eterna e nos revoltamos e fazemos quebra-quebra se ela é cancelada, mesmo sabendo que deveria ser provisória.

    Escolhemos as leis que valem e as que não valem, de acordo com nosso interesse. Temos muita inveja do sucesso de nossos vizinhos e de nossos parentes, bajulamos os ricos e ao mesmo tempo odiamos tudo neles! Mas não esperamos nem um segundo, em se dando bem, para fazer tudo igualzinho de modo a ficar parecidos com eles e ter os mesmo gostos que eles.

    A lei aqui só vale se pegar, quem deve fazer cumprir a lei fica na dúvida se ela deve ou não ser cumprida. A impunidade é troféu dos políticos, dos bandidos e dos velhacos. O Brasil quer privilegiar a velhacaria a vagabundagem e a baderna em detrimento de quem fica inerte e apavorado com o decorrer das coisas! Índios acham que são mais brasileiros que os outros.

    Sociedade urbanista! Não fiquem vocês pensando que isso acontece com quem tem terras e com certeza as tirou dos pobres índios! Que fazendeiros são ricos e merecem sofrer.

    A mesma teoria que esta tirando de suas propriedades os seus legítimos donos vale para quem vive no Morumbi, no Itaim Bibi, Ipiranga ou qualquer lugar do Brasil, não pensem vocês que a Funai não pode reconhecer como área tradicional indígena sua casa, sua rua, seu bairro, e mesmo vocês com o título de domínio com origem pública na mão, vão ficar falando sozinhos na barra da justiça e da policia, sem terem a quem recorrer.

    Fique você indignado como se fosse a sua casa, seus móveis, seu emprego, sua poupança. Por mais absurdo que pareça! Para quem vive no campo e tem propriedade rural, o lar, a casa, o trabalho, o patrimônio é tudo uma coisa só, a terra em que se vive e se tira o sustento!

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