Tecnologia da cana com novas cultivares e MPB + MEIOSI, por Agroanalysis/FGV

Publicado em 31/10/2019 12:42
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A entrevista aborda o cenário de turbulência e mudanças em que se encontra o setor sucroalcooleiro nas duas primeiras décadas do século XXI

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A indústria de cana-de-açúcar experimentou momentos bem diferentes nessas duas décadas deste século. Na primeira, houve um período de enorme euforia, com enormes investi- mentos para expandir a produção sucroalcooleira. Na segunda, os equívocos da aplicação das políticas governamentais, com congelamento de preços nos biocombustíveis, prejudicaram o ambiente de negócios do setor. Marcos Guimarães de Andrade Landell é pesquisador científico do IAC e coordenador do Programa Cana IAC, com larga experiência e conhecimento na criação de novas cultivares e manejo varietal de cana-de-açúcar. Recentemente, ganhou o Prêmio Norman Borlaug de Sustentabilidade, concedido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

AGROANALYSIS: COMO ENTENDER O FRACO DESEMPENHO DO SETOR NESTA DÉCADA?

MARCOS GUIMARÃES DE ANDRADE LANDELL: A partir de 2003, com a implantação de dezenas de projetos na região Centro-Sul do Brasil, a área cultivada de cana-de-açúcar praticamente dobrou. Esses novos espaços caracterizaram-se como de menor potencial edafoclimático em relação ao daqueles já existentes no estado de São Paulo. Esse cenário, acrescido da rápida adoção dos processos de mecanização para o plantio e a colheita, gerou um patamar produtivo agrícola inferior às expectativas iniciais.

Na sequência, a mudança da política setorial redundou no endividamento do setor. Isso promoveu ações negativas na área agrícola, como a redução no uso de tecnologias e uma menor renovação dos canaviais. Esse envelhecimento das plantas levou a produtividade a patamares inferiores em relação ao histórico entre a década de 1990 e o início da década de 2000.

Em resumo, a expansão nos investimentos deu-se para ampliar a área agrícola e atender a maior demanda das indústrias. Esse objetivo não necessariamente visava à verticalização da produtividade agrícola. Infelizmente, isso se tornou uma “grande armadilha” para muitas empresas. A área agrícola representa mais de 70% do custo agroindustrial no setor sucroenergético, sendo, portanto, incompatível haver baixa eficiência no ponto de maior gasto.

O PROCESSO DE MECANIZAÇÃO DOS CANAVIAIS FOI MUITO RÁPIDO?

MGAL: De maneira geral, o impacto da mecanização foi muito positivo para o processo como um todo. Mas a adequação ao novo modelo, principal- mente no contexto biológico, foi muito onerosa. Se compararmos o perfil das variedades cultivadas há quinze anos ao daquelas que os produtores buscam hoje, veremos mudanças significativas. Isso se deve à percepção de que uma variedade de alta performance no novo contexto precisa ter, entre outros importantes atributos, uma população de colmos maior. Além de serem “facilitadoras” do plantio mecânico, essas variedades devem possuir um hábito de crescimento mais ereto para otimizar o pro- cesso de colheita.

Assim, em um primeiro momento, a mecanização reduziu a produtividade agrícola dos primeiros cortes e, como consequência, do todo. Além disso, aumentou a infestação de pragas importantes, como a cigarrinha-da-raiz e o bicudo-da-cana. Apesar de esses aspectos serem relevantes, o conhecimento da operação que é adquirido pelas equipes de plantio e colheita a cada safra gerou uma experiência acumulada incorporada como expertise para os técnicos brasileiros. Como a introdução das tecnologias de precisão aprimora ainda mais o processo de produção agrícola, a perspectiva futura fica muito positiva.

FALTA APOIO DA POLÍTICA PÚBLICA?

MGAL: A “Era Flex” teve um início auspicioso. O processo atraiu investimentos nacionais e internacionais para o setor da agroenergia. Políticas desastrosas adotadas a partir do final da década passada, no entanto, arrefeceram esse clima de euforia. Muitas empresas abandonaram seus projetos, que, poucos anos antes, pareciam de grande solidez. Quase cem agroindústrias encerraram suas atividades nesta última década por insolvência ou falta de perspectiva. No momento, o projeto RenovaBio, a ser implantado a partir de 2020, acena para um futuro promissor.

COMO ENCARAR O ENVELHECIMENTO DOS CANAVIAIS E O AVANÇO DA CANA BIS*?

MGAL: Desde 2016, o Programa Cana IAC participa de um projeto, coordenado pelo estatístico Dr. Rubens Braga Jr., que mostra claramente o envelhecimento dos nossos canaviais, sem o ritmo de renovação na proporção verificada quinze anos atrás. O Estágio Médio de Corte (EMC), historicamente próximo de 3,34 anos, está próximo, hoje, de 3,80. Estudos indicam que isso pode estar relacionado à redução da produtividade agrícola.

Numa primeira análise, o aumento de idade dos canaviais ocorre pela baixa disponibilidade de recursos do produtor. Isso decorre do fato de o plantio ser a operação agrícola mais cara da atividade. No entanto, outra parte importante deve ser considerada na justificativa ao retardamento da renovação: a obtenção de produtividades maiores nos canaviais com idade mais avançada.

ISSO RESULTA NA POSTERGAÇÃO DA RENOVAÇÃO?

MGAL: Sim. Mas, nesse caso, cabe ressaltar que os créditos devem ser dados aos manejos mais avançados, com variedades possuidoras de maior população de colmos, melhor programa de nutrição e a utilização de estratégias de mitigação de déficit hídrico, tais como a adoção da chamada “matriz tridimensional”, com os conceitos do terceiro eixo preconizados pelo Programa Cana IAC.

Quanto à cana bis, mais do que uma estratégia, é, na realidade, a decorrência de uma produtividade acima do esperado, como deverá ocorrer em 2019 para algumas empresas, ou mesmo decorrente de problemas operacionais da indústria ou na área agrícola durante a colheita que impedem a retirada integral da cana produzida dentro daquela safra.

ESTAMOS COMPONDO E RENOVANDO OS CANAVIAIS COM O LANÇAMENTO DE NOVAS VARIEDADES?

MGAL: Nos últimos dez anos, os pro- gramas brasileiros de melhoramento genético de cana-de-açúcar apresenta- ram aproximadamente oitenta novas cultivares ao setor. Isso proporcionou um amplo leque de opções ao produtor. Essas oportunidades, no entanto, não foram plenamente aproveitadas por inúmeros fatores. Um deles refere-se à grande descapitalização acumulada pela área produtiva na última década, de modo a impedir mais voracidade na utilização de novas tecnologias. Apesar disso, o último relatório do Censo Varietal IAC indicou, por meio do Índice de Atualização Varietal (IAV) para a região Centro-Sul, que os pro- dutores começam a se preocupar com a modernização de seu plantel varietal, com adoção de lançamentos recentes dessa importante tecnologia biológica.

ESTAMOS LONGE DO POTENCIAL GENÉTICO DA CANA-DE-AÇÚ- CAR?

MGAL: A área canavieira brasileira ocupa quase 10 milhões de hectares com abrangência de regiões extremamente distintas e restritas em termos edafoclimáticos.

Apesar disso, o uso de irrigação é mínimo. A eficiência produtiva decorre, principalmente, do desenvolvimento de cultivares pelos programas de melhoramento genético de instituições como o IAC, a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (RIDESA) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Esses trabalhos buscam juntar modelos de manejos avançados que contemplem a mitigação do déficit hídrico e estratégias de proteção sanitária das plantas. “

O potencial biológico de novas cultivares no primeiro ciclo chega a mais de 350 toneladas de colmos por hectare, desde que em condições ótimas de cultivo, inclusive com irrigação. No entanto, o grande déficit hídrico limita a produtividade a uma média de 125 toneladas por hectare (t/ha). Os novos conheci- mentos gerados pelo Programa Cana IAC possibilitam atingir produtividades médias de 150t/ha em áreas comerciais de primeiro corte ou média dos cinco primeiros cortes de 120 t/ha. Isso representa uma revolução no histórico de produtividade da cana-de-açúcar.

Para se ter uma ideia, produtividades de alto nível equivalem à produção de 10.000 litros de etanol por hectare (l/ ha), contra a média atual em torno de 6.400 l/ha, ou seja, um verdadeiro pré-sal biológico. O aumento da produtividade vem com a incorporação das tecnologias já disponíveis, ou seja, o estado da arte do canavial já nos permite navegar por essas águas da alta produtividade.

PODEMOS APOSTAR NAS MUDAS PRÉ-BROTADAS (MPB)?

MGAL: Uma das grandes vantagens do advento das MPB, tecnologia desenvolvida pelo IAC, foi a velocidade de incorporação de novas cultivares de cana-de-açúcar nas lavouras comerciais. No final da década passada, grande parte dos plantios havia migrado do modelo clássico manual para o modelo mecânico. Isso implicou a redução da taxa de multiplicação de viveiros. Houve um retardamento na incorporação dos ganhos oriundos da utilização de novas cultivares sistematicamente lançadas nos programas de melhoramento genético de cana-de-açúcar do Brasil.

Quando associadas ao Método Intercalar Ocorrendo Simultaneamente (MEIOSI) – técnica desenvolvida na década de 1980 por José Emílio de Barcelos, na Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (Unesp), campus de Jaboticabal –, as MPB inverteram essa lógica. Houve um aumento na taxa de multiplicação de 1:1.000 em apenas 270 dias.

A DOBRADINHA MPB + MEIOSI TROUXE IMPACTO?

MGAL: Muito, pois proporcionou uma nova variedade com ganhos agroindustriais significativos em relação à variedade anteriormente utilizada no mesmo talhão, além de ser incorporada em áreas comerciais com quatro a cinco anos de antecedência em relação ao plantio mecânico convencional.

Na atualidade, as MPB carregam a responsabilidade pelo processo de recuperação de produtividade de açúcar em várias empresas e produtores. Existem casos de 15 toneladas de açúcar por hectare na média de oito cortes, em cana de “sequeiro”. A associação de tecnologias trazidas pelas novas cultivares e a combinação da MPB com a MEIOSI, junto a estratégias de proteção, colocarão o Brasil novamente na ponta tecnológica do mundo, com vantagens difíceis de serem superadas por outras nações canavieiras.

*Matéria-prima que deveria ser colhida em uma safra, mas que, por falta de tempo, será colhida apenas na safra seguinte

MARCOS GUIMARÃES DE ANDRADE LANDELL - Pesquisador científico do Instituto Agronômico da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (IAC/APTA/SAA)

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Por: Marcos Guimarães de Andrade Landell
Fonte: Agroanalysis/FGV

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