O álcool em crise, por ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE

Publicado em 12/02/2012 13:23 693 exibições
A tão desejada redução do protecionismo estrangeiro, o fascínio do governo pelo pré-sal e a demanda por açúcar deixarão o álcool escasso (hoje, na Folha):

Com razão, crescem as apreensões de que haverá durante os próximos dois ou três anos escassez de álcool no mercado nacional. O motivo é a confluência de um conjunto de fatores diversos, o que torna praticamente inevitável a crise que se avizinha.

Pior ainda. Se medidas imediatas não forem tomadas pelos empresários e pelo governo, a crise vai durar décadas, em vez de anos.

Certamente, o primeiro fator adverso, e talvez o mais importante, é a crescente demanda de açúcar no mercado global e consequente aumento de preços dessa commodity.

Devido possivelmente ao aquecimento global, a alteração do regime de chuvas denominado monções, na Índia (segundo maior produtor de cana), compromete a produção de açúcar daquele país.

A produção indiana, em função da sua estrutura familiar, com mais de mil produtores, dificilmente poderá se reorganizar para enfrentar as mudanças climáticas. Outro problema é a China, que, devido à sua ascensão econômica, faz com que a demanda por açúcar aumente.

No início do Pró-Álcool, prevendo essa possibilidade, os investimentos foram direcionados, através de empréstimos públicos subsidiados, para as destilarias ditas autônomas -ou seja, aquelas restritas à produção de álcool.

Hoje, porém, elas foram reformadas para produzir também açúcar ou estão sucateadas. Essa versatilidade entre álcool e açúcar é fundamental. Trata-se de um grande trunfo para o empresário do setor sucroalcooleiro. Tentar restringir esse instrumento estratégico por qualquer meio, mesmo que justo, seria uma medida condenada ao fracasso.

Por outro lado, tudo indica que a demanda internacional por açúcar continuará crescendo e que ela preenche uma vantagem competitiva para o Brasil.

O segundo problema que a oferta de álcool combustível encontra é a preferência obsessiva que o governo brasileiro dirige ao pré-sal.

Ele tem natureza antieconômica (a produção de um litro de gasolina do pré-sal vai custar, na melhor das hipóteses, entre duas e três vezes mais do que um litro de álcool) e antiecológica -será que alguém ainda duvida que o aquecimento global será, muito em breve, uma catástrofe incontrolável? (Se é que ele já não é...)

O pré-sal ainda oferece inerentes riscos ambientais locais, como também incertezas financeiras relacionadas a uma tecnologia ainda em desenvolvimento. Apesar de tudo isso, o fascínio pelo pré-sal parece não ceder tão cedo.

Como consequência dessa obsessão idiossincrática, a ampliação da infraestrutura que reduziria os custos de produção e de distribuição do álcool tem sido sistematicamente negligenciada pelo governo brasileiro. O pré-sal continuará sugando, consequentemente, muito dos recursos disponíveis para investimentos públicos e privados.

O terceiro componente que, reduzindo a oferta interna, vai causar aumentos nos preços do álcool é, ironicamente, a tão almejada redução dos dispositivos protecionistas europeus e americanos.

Essa tendência já está em curso. No Brasil, a competitividade do álcool é determinada pelo preço da gasolina. No exterior, as exigências de frações mínimas de biocombustíveis a serem adicionados nos derivados fósseis e os custos locais de produção de álcool muito mais elevados do que os brasileiros deverão sugar o álcool do nosso mercado.

Pois bem, no curto prazo e no médio prazo não parece existir remédio para a escassez de álcool no mercado brasileiro.

Somente os ingênuos continuarão a depositar esperanças no carro flex, que já pareceu tão promissor. A longo prazo, para derrotar tantas ameaças, investimentos em tecnologias como a segunda geração e a cogeração serão imprescindíveis, assim como a ampliação de área plantada e novas usinas.

Mesmo assim, será necessário esperar algumas décadas. O álcool já foi derrotado várias vezes e ressurgiu de suas próprias cinzas, com mais vigor.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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