Análise semanal do mercado: trigo, milho e soja

Publicado em 04/03/2012 22:57 707 exibições
Prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹ Emerson Juliano Lucca²



TRIGO

As cotações do trigo em Chicago fecharam a semana (01/03) em US$ 6,59/bushel, com pequeno aumento sobre a semana anterior e sobre a média do mês de fevereiro, que ficou em US$ 6,48/bushel. Assim como o milho, o trigo não encontra apoio para subir.

Dito isso, as vendas líquidas de trigo, por parte dos EUA, referentes ao ano 2011/12, que teve início em 01 de junho de 2011, ficaram em 701.600 toneladas na semana encerrada em 16 de fevereiro, contra 420.400 toneladas a semana anterior. O Egito foi o principal comprador com 189.000 toneladas. Já as inspeções de exportação de trigo chegaram a 255.134 toneladas na semana encerrada no dia 23 de fevereiro. No acumulado do ano comercial, iniciado em 1º de junho, as inspeções somam 19,7 milhões de toneladas, contra 23,47 milhões no mesmo período do ano anterior.

Por sua vez, a produção e exportação da Rússia, para o ano 2012/13, estão sofrendo com o clima gelado da Europa. Nesse momento as lavouras estão sendo atingidas por fortes geadas. As exportações não devem superar 20 milhões de toneladas no atual ano comercial, que se encerra em 30/06. Muitos portos estão bloqueados pelo gelo, devendo se liberarem apenas a partir de meados do atual mês.

Por outro lado, no Mercosul os preços permaneceram estáveis. Na Argentina, o Up river registrou US$ 255,00/tonelada, com variação positiva mensal de 2,8% em fevereiro. Em Bahia Blanca, a tonelada está indicada US$ 265,00 na compra, o que representa uma elevação de 2,7% em comparação com o mesmo período do mês anterior. Na região de Necochea, a referência de compra está em US$ 50,00/tonelada, com variação positiva mensal de 2,9%. No Uruguai, a elevação em relação ao mês anterior, é de 4,2%, sendo indicado no momento a US$ 250,00/tonelada. A referência de compra no Paraguai ficou em US$ 275,00/tonelada e a de venda em US$ 285,00. (cf. Safras & Mercado)

No mercado brasileiro, o balcão permaneceu com dificuldades de comercialização em muitas praças, sendo que o preço médio gaúcho ficou em R$ 23,50/saco. Nos lotes, os preços estacionaram entre R$ 430,00 e R$ 435,00/tonelada no Rio Grande do Sul e em R$ 475,00/tonelada no Paraná. A alta média, em relação a janeiro, chegou a 5% no mês de fevereiro, confirmando a melhoria deste mercado de lotes. Todavia, em relação ao mesmo período do ano de 2011 o recuo ainda é de 12,5%. No Paraná, o ganho mensal é de 5,6% e a perda anual de 9,6% neste final de fevereiro. (cf. Safras & Mercado)

A expectativa do mercado, nesta semana, foi em relação ao leilão de PEP e Pepro previsto para este dia 1º de março. Até o momento, o governo garantiu a retirada de 1,76 milhão de toneladas do mercado via tais mecanismos. Esse foi outro elemento que ajudou na melhoria do preço em fevereiro. O leilão de 1º de março trabalharia com 375.000 toneladas.

Enfim, o potencial de alta nos preços do trigo ganhou dois aliados adicionais na semana. Em primeiro lugar, a forte possibilidade do produtor do Paraná reduzir a área semeada em favor do milho safrinha, diante dos altos preços deste último cereal. Em segundo lugar, um decreto do governo brasileiro, que impõe restrições às importações de grãos pela via terrestre atinge os exportadores do Mercosul. Segundo a medida, os caminhões de uma mesma empresa devem atravessar a fronteira de maneira simultânea e serem registrados através de um só contrato, o Documento Único Aduaneiro (DUA). Nos últimos dias dezenas de caminhões carregados com trigo não puderam ingressar no Brasil devido à nova norma. Tudo indica ser uma represália às medidas protecionistas argentinas sobre produtos brasileiros em geral. (cf. Safras & Mercado)

Abaixo segue o gráfico da variação de preços do trigo no período entre 03/02 e 01/03/2012.

MILHO

As cotações do milho em Chicago fecharam o primeiro dia de março em US$ 6,53/bushel, contra a média de US$ 6,40 em fevereiro. Nota-se que os preços do cereal oscilaram muito menos do que a soja, com variação ponto-a-ponto de 14 centavos de dólar/bushel entre o primeiro e o último dia do mês.

O mercado espera com certa ansiedade o relatório de oferta e demanda do USDA, previsto para o próximo dia 09/03 e, especialmente, o relatório de intenção de plantio dos produtores estadunidenses, previsto para o dia 30/03.

Enquanto isso, as exportações nos EUA ficaram em 840.800 toneladas na semana que passou, freando o ímpeto dos preços.

Paralelamente, a Bolsa de Rosário reviu para baixo a safra da Argentina, com a mesma sendo estimada, agora, em 19,8 milhões de toneladas. Ou seja, a quebra quase atinge a 10 milhões de toneladas em relação ao inicialmente projetado. Soma-se as perdas no sul brasileiro, e a oferta local do cereal será apertada. Todavia, no Brasil, o mercado espera que a safrinha recupere parte destas perdas, se o clima deixar.

Assim, nesse momento, os preços estagnaram no mercado brasileiro, com o balcão gaúcho fechando a semana em R$ 26,69/saco na média, enquanto os lotes ficaram entre R$ 27,75 e R$ 28,25/saco. Nas demais praças do país, a média oscilou entre R$ 22,00/saco em Sapezal (MT) e R$ 28,75/saco em Videira (SC). Já para a safrinha, o Centro-Oeste cota o saco de milho a R$ 15,00 em Sorriso, R$ 14,50 em Lucas do Rio Verde e R$ 18,00 em Primavera do Leste, todos em Mato Grosso. Para os primeiros dois casos, isso representa uma redução de preço ao redor de R$ 7,00/saco em relação ao que vem sendo praticado no momento naquela região.

Enfim, a Conab teria realizado dois leilões de oferta de milho, com um total de 53.900 toneladas, no último dia 29/02.

Na semana, o preço CIF de importação, junto às indústrias brasileiras, ficou em R$ 39,17/saco para o produto dos EUA e R$ 35,21/saco para o produto argentino, ambos ainda para fevereiro. Para março, o produto argentino se manteve em R$ 35,21/saco. Já na exportação, o transferido via Paranaguá, para março ficou em R$ 27,71; abril em R$ 27,59, maio em R$ 27,67, junho em R$ 27,46, julho em R$ 26,53, agosto em R$ 26,36 e setembro em R$ 26,58/saco.

SOJA

As cotações da soja voltaram a subir em Chicago, fechando o primeiro dia de março em US$ 13,16/bushel, após média de fevereiro em US$ 12,58/bushel para o primeiro mês cotado. Como se nota, o mercado voltou a romper o teto dos US$ 13,00/bushel, algo que não era alcançado desde o dia 21 de setembro de 2011. Somente em fevereiro, o bushel de soja em Chicago ganhou praticamente um dólar, passando de US$ 12,15 no dia 1º/02 para US$ 13,13 no dia 29/02.

Nesse momento, o retorno da especulação financeira à Bolsa, de forma mais agressiva, associado ao vigor dos preços do óleo, puxados pelo petróleo no mercado internacional, estariam justificando tal comportamento. Soma-se a isso a já esperada quebra na safra sul-americana que, a cada semana, está sendo reavaliada para baixo, embora o retorno significativo das chuvas no sul do Brasil e na Argentina neste final de fevereiro. Mas existe outro importante fator: com a proximidade do novo plantio nos EUA e a tendência dos produtores em conservarem a área, os operadores em Bolsa, pelo lado da soja, tenta puxar artificialmente as cotações para cima visando estimular os produtores locais a deslocarem mais área para a oleaginosa, em detrimento do milho. Essa queda de braço vai, pelo menos, até o dia 30/03, quando sai o relatório de intenção de plantio naquele país.

Por sua vez, o Fórum Anual do USDA informou que a nova área de soja nos EUA deverá ficar igual a do ano anterior, ou seja, ao redor de 30,3 milhões de hectares. Esse número pode não ser suficiente para manter os estoques até agora anunciados, fato que aqueceu o mercado igualmente.

Ao mesmo tempo, as exportações líquidas dos EUA, para o ano 2011/12, iniciado em setembro passado, chegaram a 1,16 milhão de toneladas na semana encerrada em 16/02, sendo a China o principal comprador com 521.000 toneladas. Já as vendas líquidas para o ano 2012/13 somaram 2,87 milhões de toneladas na mesma semana, com a China mantendo-se como principal comprador. O firme retorno da China ao mercado estadunidense favoreceu também à melhoria das cotações em Chicago.

Quanto aos registros de exportação, na mesma semana do 16/02, eles acumulavam 28,4 milhões de toneladas no ano 2011/12, contra 39,2 milhões um ano antes, confirmando volumes menores no atual ano comercial. Na semana do 23/02 os embarques de soja por parte dos EUA alcançaram 1,0 milhão de toneladas, acumulando 23,7 milhões de toneladas no ano comercial, contra 31,4 milhões no ano anterior.

Paralelamente, assim como no Brasil, a safra de soja na Argentina voltou a ser revisada para baixo, ficando agora estimada entre 44 e 46 milhões de toneladas. Cerca de 10 milhões a menos do que o inicialmente projetado.
Nesse contexto, os prêmios fecharam a semana da seguinte forma: no Golfo do México (EUA), o bushel ficou entre 47 e 78 centavos de dólar; em Rosário (Argentina), entre 63 e 69 centavos; e nos diferentes portos brasileiros, entre 68 centavos e US$ 1,13, todos para março.

No Brasil, os preços se mantiveram firmes, apesar de nova valorização do Real que, durante a semana chegou a ser cotado abaixo de R$ 1,70. Assim, o balcão gaúcho fechou a semana em R$ 43,11/saco na média, enquanto os lotes ficaram entre R$ 49,00 e R$ 49,50/saco. No restante do país, os mesmos oscilaram entre R$ 38,75/saco em Sapezal (MT) e R$ 48,40/saco no norte do Paraná. O mercado espera, diante disso, uma retomada das vendas futuras por parte dos produtores, além de uma aceleração das vendas do que já está sendo colhido. Nesse sentido, até o dia 24/02 o Brasil havia colhido 24% de sua área total, contra 16% na média histórica. No Paraná, a colheita atingia a 26%, no Mato Grosso 45%, no Mato Grosso do Sul 29%, em Goiás 31%, em São Paulo 14%, em Minas Gerais 15% e na Bahia 2%.

Quanto à quebra de safra, os números se definem aos poucos e causam surpresas desagradáveis em muitas regiões. No Paraná, por exemplo, a produção total deverá cair em 30% neste ano, ficando em 10,7 milhões de toneladas, com 28% de perda na produtividade média (cf. Deral). No Rio Grande do Sul, as perdas deverão ficar ao redor de 70% na principal região produtora (cf. cooperativas e produtores). Assim, a colheita gaúcha não passaria de 5,5 milhões de toneladas considerando que o clima não tenha atingido muito as chamadas regiões periféricas de produção. As últimas chuvas talvez recuperem algumas lavouras, porém, ainda é cedo para se chegar a uma conclusão a respeito.

Desta maneira, e considerando as perdas do oeste catarinense, a colheita final do Brasil deverá ficar entre 60 e 64 milhões de toneladas, contra quase 75 milhões na safra anterior.

Enfim, na BM&F/Bovespa, a semana terminou com o contrato maio/12 sendo cotado a US$ 29,75/saco, enquanto o maio/13 ficou em US$ 27,70/saco. Os preços futuros ficaram entre R$ 44,00 e R$ 48,50/saco no FOB interior, nos diferentes Estados produtores, tendo o período de abril e maio próximos como referência. Para fevereiro/13, o mercado goiano cotou o saco de soja a R$ 44,50.

¹Professor do DACEC/UNIJUI, doutor em economia internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA.
²Economista, Analista e responsável técnico pelo Laboratório de Economia Aplicada e CEEMA vinculado ao DACEC/UNIJUÍ

Fonte: Agrolink

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Sind. Prod. Cascavel

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