Mercado de acucar: RESPIRANDO SEM A AJUDA DE APARELHOS

Publicado em 10/08/2013 09:38
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por Arnaldo Luiz Corrêa, da Archer Consulting

Mais uma semana de alta no açúcar. Havia já algum tempo que não víamos o mercado com esse viés construtivo. Nada para deixar ninguém muito animado, é verdade, mas o humor está mudando ligeiramente. O primeiro sinal de recuperação, como ocorre normalmente com as commodities, é quando os prêmios começam a apreciar. Negociava-se açúcar na exportação com desconto de 10 pontos sobre a tela de NY há mais ou menos 5-6 semanas e agora alguns negócios saíram com pequeno prêmio de 5 pontos.

Em NY o primeiro mês de vencimento fechou a 16.98 centavos de dólar por libra-peso 19 pontos de alta em relação à sexta-feira anterior, comportamento que se verificou com todos os demais vencimentos em variações positivas que oscilaram de 13 a 29 pontos (ganhos de 3 a 6 dólares por tonelada).

O número da UNICA foi considerado construtivo pelo mercado. A moagem de cana na quinzena foi 44,2 milhões de toneladas, 4.35% inferior à mesma quinzena do ano passado, acumulando até agora 268,7 milhões de toneladas. Tomando por base os últimos cinco anos, nesse período acumulado, já havíamos moído o equivalente a 40.7% ou 53.5% do total da safra do ano. Na média dos cinco anos, teríamos 47%; se desconsiderássemos os extremos teríamos os mesmos 47%. Assim, projetando, a moagem do Centro-Sul para esta safra ficaria em 571 milhões de toneladas, um número inferior às projeções do mercado e até do nosso próprio número que está ainda mantido nos 578 milhões de toneladas. 

O consumo total de combustíveis no acumulado de doze meses compreendendo o período de julho de 2012 até junho de 2013, segundo dados publicados pela ANP, atingiu novo recorde de 50,22 bilhões de litros. Desse total, 9,87 bilhões referem-se ao etanol hidratado e 40,35 bilhões de litros à gasolina C (que contém o anidro). O crescimento do etanol hidratado no período foi de apenas 0,39% enquanto a gasolina cresceu 7,88%. Em termos anuais, o crescimento no consumo de combustíveis atingiu 6,32% e o consumo em números absolutos aumentou 2,99 bilhões de litros no período de 12 meses. 

Em cinco anos, o crescimento médio do consumo de combustíveis no Brasil foi de 6,88%. Se projetarmos esse mesmo crescimento para os próximos 5 anos e assumirmos que o consumo de gasolina C fosse ligeiramente menor (digamos 5%) abrindo espaço para a utilização de mais etanol, chegaríamos na safra 2018/2019 com um consumo adicional acumulado nesses cinco anos de 132 bilhões de litros de etanol (média de 26 bilhões por ano), precisando moer naquela safra pelo menos 720 milhões de toneladas de cana. 

Um executivo do setor afirma que, ao contrário do que apontava nosso cálculo no último comentário semanal, não dá para pensar em greenfield assumindo US$ 135 por tonelada de cana moída. Segundo ele, o valor é bem acima disso. O estudo de um banco que cobre o setor sucroalcooleiro estima o greenfield em US$ 140 por tonelada de cana moída.

A defasagem interna do preço da gasolina líquido na bomba, sem impostos, comparativamente ao preço no mercado internacional é de mais de 30%, segundo cálculo de alguns traders do mercado. Desnecessário dizer o impacto que essa distorção causa no fluxo de caixa da Petrobrás que importa por um preço bem mais caro do que é vendido na bomba e no setor sucroalcooleiro que paga essa conta juntamente com contribuinte. 

Como Dilma e seus ministros são incompetentes de carteirinha, difícil imaginar que saia alguma positiva da cabeça desse pessoal como reajuste da gasolina e/ou uma política saudável e transparente para o etanol. Se o setor conseguir sobreviver até a safra 2014/2015 certamente terá sido por mérito próprio. Custo de produção competitivo em relação aos seus concorrentes internacionais, desvalorização do real que aumentou a remuneração às usinas e a perspectiva – ainda que tênue – de melhora no cenário de médio e longo prazo fazem parte da construção de um quadro que lembra um doente até então na UTI, que começa agora a respirar sem ajuda de aparelhos.

O contrato futuro de etanol hidratado na BM&F Bovespa, para desespero daqueles que gostariam de poder hedgear sua produção em volume, continua minguando, negociando pouquíssimos lotes e apresentando uma posição em aberto de menos de 4.000 contratos. O número de contratos negociados em bases diárias também é irrisório. Os traders e a própria bolsa (com reduzido, mas competente time na área agrícola) tentam tirar água de pedra e sofrem igualmente pela falta de transparência na formação de preço do etanol por parte do governo. Querer transformar o etanol em commodity com todas as cascas de banana que a administração lulo-dilmista-petista deixa pelo caminho é quase um milagre. 

Bom final de semana para todos.

Arnaldo Luiz Corrêa

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Fonte: Archer Consulting

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