Venezuela prende generais que pretendiam se rebelar, afirma Maduro

Publicado em 25/03/2014 16:11 364 exibições

Três generais da Força Aérea da Venezuela que pretendiam se rebelar contra o governo foram capturados, anunciou nesta terça-feira (25) o presidente Nicolás Maduro em uma reunião com chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em Caracas. Ele não revelou os nomes os militares. A reunião ocorreu durante protestos de opositores, que já deixaram 34 mortos durante confrontos com as forças policiais e militares do país.

"Capturamos três generais da aviação que vínhamos investigando graças à poderosa moral de nossas Forças Armadas. Três generais que pretendiam se rebelar contra o governo legitimamente constituído", disse Maduro. Segundo Maduro, os oficiais generais são acusados de ter "vínculos diretos com setores da oposição".

A morte em uma barricada de uma jovem grávida estremece a Venezuela

Adriana Urquiola, uma tradutora da linguagem de sinais de 28 anos, recebeu um tiro ao passar por um protesto no estado de Miranda (norte)

Uma mulher cobre o rosto para se proteger do gás lacrimogêneo em Caracas. / M. G. (EFE)


A Venezuela, um dos países mais violentos do mundo por seus índices de criminalidade, e após cinco semanas de distúrbios que já deixaram dezenas de seus cidadãos mortos, ainda teve na noite de domingo a capacidade de se estremecer ante a notícia da morte de Adriana Urquiola, uma tradutora da linguagem de sinais de 28 anos de idade.

Urquiola voltava para casa em uma unidade de transporte público que não pôde continuar seu percurso por uma barricada que obstruía a passagem no município de Guaicaipuro, no estado de Miranda (centro da Venezuela). Enquanto a jovem profissional tentava, em companhia de seu marido, ultrapassar o obstáculo a pé, chegou ao local uma caminhonete, da qual dispararam vários tiros –de cinco a catorze, segundo os diversos relatos de testemunhas. Uma das balas atingiu na cabeça. Outra pedestre, Rosalba Pérez, de 32 anos de idade, ficou ferida em um braço.

Soube-se que Urquiola, que prestava serviços como intérprete para pessoas com dificuldades auditivas nos noticiários da Venevisión –o principal canal de televisão aberta do país, pertencente ao Grupo Cisneros– havia se casado em outubro passado e tinha cinco meses de gravidez.

De acordo com testemunhas, os agressores chegaram a bordo de um veículo 4 x 4 de um bairro próximo para fustigar os defensores da barricada. Foi a segunda vez em dez dias que os manifestantes da região sofreram um ataque a tiros, informou o diário El Nacional de Caracas.

O incidente ocorreu perto da cidade de Los Teques, capital do estado de Miranda (norte), governado pelo líder opositor Henrique Capriles. De modo que o assassinato de Urquiola, além de ilustrar o absurdo da morte, deu lugar também a uma disputa grotesca sobre a polarização política que se vive na Venezuela.

Mal o fato foi noticiado, o chanceler venezuelano, Elías Jaua –nomeado pelo presidente Nicolás Maduro como protetor do estado de Miranda, depois de sair derrotado nas eleições regionais por Capriles– divulgou através de sua conta no Twitter que o crime ocorreu “em uma curta distância da sede do Governo (a cargo de Henrique Capriles), sem que polícia fizesse algo contra os agressores” e “em um contexto de guarimba”. Guarimba é o nome que se dá ao bloqueio de ruas na Venezuela.

Garcés decretou três dias de luto na entidade. Não fez menção aos autores materiais do assassinato. No entanto, o presidente Maduro –que atribui todas as mortes ocasionadas durante os distúrbios “à direita criminosa”– prometeu justiça para o caso. “Minhas condolências à família de Adriana Urquiola, assassinada ontem à noite como resultado da violência de uma guarimba em Los Teques”, escreveu o mandatário venezuelano em sua conta oficial no Twitter.Algo similar disse o prefeito do município de Guaicaipuro, onde o crime ocorreu. Em um momento em que o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) venezuelano, ativado pelo governo de Maduro, ameaça destituir os prefeitos opositores que se neguem ou fracassem em combater as barricadas, o prefeito local, Francisco Garcés –um ex-ministro do gabinete do falecido Hugo Chávez–, responsabilizou os manifestantes opositores da tragédia. “Queremos refutar categoricamente as ações de guarimba que provocaram essa morte”, disse durante uma coletiva de imprensa na sede do governo regional.

Fitch rebaixa nota da Venezuela para 'B', com perspectiva negativa

A agência de classificação de risco Fitch rebaixou nesta terça-feira (25) a nota soberano da Venezuela para "B", de "B+", com perspectiva negativa, citando uma maior instabilidade macroeconômica e atrasos na implementação de políticas para lidar com a alta inflação e com as distorções no mercado cambial.

A Fitch destacou que a perspectiva negativa reflete a falta de políticas de ajuste sustentáveis e coerentes, que pode levar a uma maior instabilidade financeira e exacerbar o risco de uma crescente agitação social devido ao alto nível de polarização política do país.

O bolívar venezuelano sofre uma nova desvalorização encoberta de 88%

O novo sistema fixa o câmbio em 51,86 bolívares por dólar, enquanto o oficial é de 6,3

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

O valor do bolívar venezuelano cai. O que era uma realidade na rua, onde funciona um mercado paralelo bem longe do câmbio oficial, passou a ser visto também nas operações do Banco Central da Venezuela. O primeiro leilão do novo Sistema de Câmbio Alternativo de Divisas (SICAD II) fixou nesta segunda-feira um câmbio médio de 51,8604 bolívares por dólar. Esse câmbio supõe uma depreciação de 88% em relação ao câmbio oficial, que continua artificialmente fixado em 6,3 bolívares por dólar, e de 78% se se tem como referência os 11,36 bolívares do arremate do Sistema Complementar da Administração de Divisas (SICAD), realizado em 15 de janeiro, que já supunha uma depreciação de 44%.

O novo sistema cambial, que permite a compra de dólares com menores restrições, é um primeiro passo para o reconhecimento de que a divisa venezuelana perdeu praticamente todo seu valor desde a chegada de Nicolás Maduro ao poder. Com seu predecessor Chávez ainda vivo, Maduro assumiu os poderes econômicos e aprovou uma desvalorização de 32% há um ano, desde 4,3 até 6,3 bolívares por dólar. Depois começou uma série de desvalorizações encobertas pouco transparentes através do SICAD, e agora se começa a reconhecer a evidência com o SICAD II.

O líder opositor venezuelano Henrique Capriles qualificou ontem de "megadesvalorização" o resultado da primeira sessão do Sicad II em sua conta do Twitter. O líder opositor se referiu a esta primeira jornada do Sicad II como "a segunda-feira negra de Nicolás", ao estimar que com a nova taxa de câmbio, a Venezuela passará a ter "o salário mínimo mais baixo" da América Latina depois de Cuba. Por erro, no entanto, Capriles cifrou a desvalorização em 400%, que é o que o dólar se revalorizadiante do bolívar, ao passar de 11,36 a 51,86, quando o correto seria dizer 78%, que é a perda de valor da moeda venezuelana desde a última referência.

A desvalorização é uma má notícia para três empresas espanholas que têm interesses na Venezuela. A primeira, Telefónica, acumula um impacto de 4,6 bilhões de euros em suas contas nos últimos anos, como consequência das sucessivas desvalorizações do bolívar. Ainda falta contabilizar 1,8 bilhão da desvalorização anterior, de janeiro. A empresa ainda não publicou as estimativas do impacto do novo câmbio, mas com referência nos cálculos mais recentes, a nova depreciação pode afetar seu patrimônio em 1,5 bilhões de euros, sendo que 1 bilhão seria em ativos financeiros líquidos, denominados bolívares fortes.

Além da Telefónica, o banco BBVA e a seguradora Mapfre podem ser afetados. Em 2013, a Venezuela foi o segundo mercado latino-americano para a seguradora, que teve 64,7 milhões de euros em resultados, segundo as contas apresentadas recentemente. A cota de mercado da empresa no país é de 6,9%. Já o BBVA controla 55% do Banco Provincial, cujo valor líquido nos registros oficiais é de 493 milhões de euros. A filial venezuelana do BBVA tem um patrimônio de 1,5 bilhões e teve um fechamento em 2013 de 645 milhões de euros. A desvalorização, portanto, terá um impacto de vários bilhões, tanto para a Mapfre quanto para o BBVA.

A Repsol também realiza investimentos no país e tem operações de exploração e produção, mas como a moeda operativa dos negócios do petróleo é o dólar e os gastos são em moeda local, o impacto é pouco relevante.

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Fonte:
G1 + El País

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