Mercado de açúcar: CADA UM COM SEUS PROBLEMAS

Publicado em 05/04/2014 22:36 437 exibições
por Arnaldo Luis Correa, da Archer Consulting

O mercado futuro de açúcar em NY fechou a semana com o vencimento maio/2014 cotado a 17.28 centavos de dólar por libra-peso. Essa foi uma queda de 70 pontos (ou 15 dólares por tonelada) em relação à semana passada. Sem que houvesse qualquer mudança nos fundamentos do mercado, assistimos a um derretimento de 130 pontos em relação à máxima negociada na semana anterior e a mínima desta semana, o que assustou alguns dos altistas mais convictos. De qualquer maneira, a arbitragem de etanol com o açúcar traz algum suporte nesse mercado (o anidro negocia o equivalente a açúcar a 21 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos). Mercado próximo dos 17 centavos de dólar por libra-peso abre o apetite para compras. 

A Agência Nacional do Petróleo divulgou o consumo total de combustíveis no mês de fevereiro/2014. No acumulado de doze meses (março/2013-fevereiro/2014), 31.8 bilhões de litros de gasolina A (sem mistura) foram consumidos um acréscimo de apenas 0.25% em relação ao mesmo período do ano passado. Já o etanol mostrou um consumo de 11.1 bilhões de litros para o hidratado e 10.1 bilhões de litros para o anidro, um aumento significativo em bases anuais de 14.3% e 28%, respectivamente. No total, o consumo de combustíveis atingiu a marca de 53 bilhões de litros, 7.47% de acréscimo em relação ao ano anterior. Nesse ritmo, assumindo que tudo o mais permaneça inalterado, nos próximos quatro anos, ou seja, até a safra 2017/2018, apenas para atender ao consumo de combustíveis que deverá somar 17.4 bilhões de litros adicionais nas próximas quatro safras, o Centro-Sul precisaria crescer a cada nova safra 50 milhões de toneladas de cana, algo em torno de 9% ao ano. Vocês já sabem o que vai da r nisso, caros leitores.

O modelo desenvolvido pela Archer Consulting aponta que até dia 31 de março de 2014, pouco mais de 50% das vendas de exportação já estão fixadas contra o mercado de NY, com o preço médio de 17.42 centavos de dólar por libra-peso, sem prêmio de polarização. Esse número é inferior ao mesmo período do ano passado quando cerca de 59% das vendas já estavam fixadas com preço médio de 19.32. O valor médio em reais por saca é de R$ 40,35 e o dólar médio usado pelas usinas foi de 2.3167. 

Só por curiosidade, a média de fechamento de NY e do dólar (pelo Banco Central) no período de julho/2013 até março/2014 foi de R$ 43,05 por saca o que nos leva a inferir que as usinas nem sempre podem aproveitar um dólar mais forte, ou fixar NY quando há um rally, ou a combinação dos dois pelos fatores já conhecidos como falta de crédito, flexibilidade com as tradings com as quais possuem contratos comerciais mas que não permitem fixação de preços com períodos longos até o efetivo embarque. Perde-se muito dinheiro quando não se olha a gestão de risco.

No primeiro trimestre deste ano, o contrato futuro de açúcar em NY já negociou 9.000.000 de contratos. Isso representa um acréscimo de pouco mais de 1.500.000 contratos em relação ao mesmo período do ano passado, um aumento no volume de 20%. É a volta dos fundos somada ao aumento da volatilidade que faz com que haja um giro maior, dentro do binômio mais risco, mais retorno.

Michael Lewis é um conhecido jornalista financeiro americano, escritor de vários livros, com uma extraordinária habilidade de usar uma linguagem acessível mesmo para aqueles não tão familiarizados com o mercado financeiro. Entre seus livros está um que todo trader deveria ler: Moneyball (que virou filme estrelado por Brad Pitt), publicado em 2003. Com sólida formação acadêmica (Princeton), Michael trabalhou para o Salomon Brothers em Londres, de onde se demitiu para escrever o livro, que virou filme, “Liar’s Poker” (que no Brasil teve o bizarro nome de Não Confie em Estranhos) e se tornar jornalista. Hoje, Michael é redator da revista Vanity Fair e escreve artigos para o jornal The New York Times. 

Esta semana ele participou do famoso programa na TV americana CBS, 60 Minutes, falando sobre os High Frequence Traders (HFT), operadores de mercado que tem acesso a redes de altíssima velocidade de tal maneira que permitem a eles saber em fração de segundos a ordem de compra que o investidor acabou de colocar no mercado e, fazer a operação primeiro, em microssegundos, aumentando o preço do ativo antes que dê tempo da ordem ser completada. Assim, eles compram e em seguida vendem mais caro para o tal comprador. Estima-se que 70% do mercado acionário esteja na mão dessa gente. Uma legalização da manipulação descarada. Bem, isto está no mercado acionário, certo? Não envolve o mercado de commodities, certo? Errado. A própria ICE, bolsa em que o contrato de açúcar é negociado, oferece desconto nas taxas de negociação para os HFT e, por um valor, deixa-os instalar seus computadores no mesmo local onde a bolsa tem os seus (a proximidade faz com que ganhem microssegundos preciosíssimo s). Além disso, os HFT não pagam margem de garantia pois não carregam posições de um dia para outro. Enquanto isso, tradings, usinas, refinarias, consumidores industriais e todos aqueles que estão na cadeia de comercialização do açúcar pagam tarifas, margens de garantia e ajustes diários sem nenhum desconto da bolsa que só está interessada em faturar. Ou seja, cada um com seus problemas.

Em fevereiro de 2011, comentamos nesse espaço (clique aqui) sobre uma matéria no jornal Financial Times citando a dura carta que o Comitê Mundial do Açúcar, um grupo consultivo que reúne os grandes negociadores de açúcar, fundos de hedge, produtores e refinarias, enviou para a bolsa de NY criticando a presença dos “parasitas” fundos HFT (High Frequency Traders) “que servem somente para enriquecer a si mesmos à custa dos tradicionais usuários do mercado”. Não sei qual foi o fim dessa discussão, nem se a mesma foi abafada. Caro leitor, não pense que isso ocorre apenas lá fora.

Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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Fonte:
Archer Consulting

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