Agricultura, a Coreia (do Sul) brasileira

Publicado em 15/04/2014 08:04 1076 exibições
por Ignez Vidigal Lopes e Mauro de Rezende Lopes, pesquisadores do IBRE/FGV * - em O Estado de S.Paulo.

Os recordes nas exportações da agricultura brasileira fazem lembrar o desenvolvimento industrial da Coreia do Sul e, guardadas as devidas proporções, seguem uma mudança estrutural baseada em ciência, tecnologia e inovação - fatores-chave por trás do sucesso alcançado em ambos os casos. Nosso setor agroexportador é hoje reconhecido por sua indiscutível capacidade de competir em mercados frequentados por nações na fronteira do conhecimento e da pesquisa. Mercê de investimentos em pesquisa, a agropecuária brasileira foi bem-sucedida em montar um sistema de inovação capaz até mesmo de sustentar o crescimento do PIB brasileiro. O avanço tecnológico permitiu ao País voltar sua vista para a exportação de alimentos: o Brasil transformou-se em nação agroexportadora de primeira grandeza. Contribuíram para o desempenho da agropecuária a orientação dos produtores e investidores em direção a projetos com escala técnica e econômica, além de uma força de trabalho altamente qualificada. A Coreia revelou sua vocação de nação desenvolvida nesses mesmos pilares: exportações, escalas econômicas e técnicas de suas empresas e quadros profissionais de grande competência.

O desenvolvimento da Coreia e o da agricultura brasileira têm em comum um traço distintivo: o investimento em tecnologia de ponta, iniciado nos anos 1970 e 1980. O sucesso, em ambos os casos, deve-se a mercados internacionais ávidos por alimentos e produtos industriais de alta tecnologia. Do lado da demanda, os estímulos vieram da concorrência internacional, que exerceu forte pressão em favor do desenvolvimento de uma musculatura competitiva, anabolizada por ciência e tecnologia (C&T).

Do lado da oferta, empresas privadas, em ambos os casos, responderam aos estímulos de mercado, em que a concorrência recompensa menores custos e maior tecnologia. A essência do sucesso era a resposta rápida da oferta às mudanças nas condições de competição com os países mais tecnologicamente avançados.

Na Coreia e na agricultura do Brasil, pesquisadores e cientistas responderam à demanda por produtos com tecnologia competitiva e inovação em nível global. Por trás de todo esse desempenho estavam recursos humanos altamente treinados na produção científica. A Embrapa tem hoje 2.400 pesquisadores - 2 mil com doutorado -, distribuídos em mais de 30 centros nacionais. Os governos, nos dois casos, contribuíram para projetos de inteligência competitiva de forma decisiva. Contudo o "milagre" foi feito pelo setor privado. A Coreia e a agricultura brasileira, quanto mais competiam nos mercados externos, mais investiam em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em inovação.

Com isso a fatia dos dois países aumentou nos mercados mundiais. As exportações passaram de produtos de baixa e média tecnologia para produtos de alta tecnologia: na Coreia, na tecnologia eletrônica e no Brasil, na genética de plantas e animais. O Brasil hoje é bem mais do que simplesmente um país exportador de produtos intensivos em recursos naturais.

A Coreia montou indústrias intensivas em capital e tecnologia nos ramos da indústria de máquinas e de produtos químicos, no início, e, depois, nas indústrias de semicondutores, monitores de cristal líquido, componentes eletrônicos e equipamentos de telecomunicação. A agropecuária brasileira desenvolveu as tecnologias de produção de grãos, cereais, fibras e oleaginosas, além da pecuária, em condições de disputar mercados com outras nações agroexportadoras.

Os avanços mais notáveis da pesquisa foram a tropicalização de plantas e bovinos, a transformação de solos pobres em férteis e a recuperação dos solos com calcário e fertilizantes de alta resposta na produção. Com esses solos e com tecnologia, os produtores dominaram os cultivos nos Cerrados.

Em todos esses avanços houve a participação da Embrapa, que liderou organizações estaduais de pesquisas e fundações privadas de pesquisa agropecuária. A empresa tem indisputável liderança institucional, de hardware e brainware, em C&T no Brasil. Assim, foi decisiva para levar o Brasil à liderança na produção de alimentos para o próprio País e para o mundo.

Tanto quanto a Coreia nas suas indústrias líderes, a agropecuária brasileira tem uma força de trabalho com elevado nível de capacitação tecnológica e altamente treinada em métodos sofisticados de plantio e colheita - na agricultura de precisão, por exemplo.

A Coreia passou por três fases: 1) nos anos 1960 e 1970 a tônica foi a promoção da tecnologia; 2) nos anos 80 e 90, a ênfase foi desenvolver a capacidade de P&D; 3) dos anos 90 até hoje foram feitos investimentos em C&T e sistemas de inovação. Tanto quanto na Coreia, na agropecuária brasileira o papel dos governos nos avanços da ciência, tecnologia e inovação foi decisivo. A Coreia organizou seus centros de P&D registrados na Associação Coreana de Tecnologia Industrial. A Embrapa, guardadas as devidas proporções, também se organizou em 47 centros de pesquisa, concentrando recursos, perseguindo sem descontinuidade um modelo de inovação tecnológica induzida por estímulos de mercado desde os anos 1970 até hoje.

A Coreia tem na indústria um desenvolvimento emblemático. Seguindo os mesmos passos, o Brasil é hoje o país líder no domínio da tecnologia para a agricultura tropical. O caminho do desenvolvimento é conhecido. Trilhá-lo requer persistência e continuidade. O apoio indireto do governo é importante, mas é o mercado, reagindo à concorrência, induzindo a inovação, que assegura êxito no mundo globalizado. Os demais setores da economia, a indústria em particular, têm muito que aprender com a trajetória da pesquisa na agricultura - o único caminho para sustentação da competitividade no longo prazo.

*Ignez Vidigal Lopes e Mauro de Rezende Lopes são pesquisadores do IBRE/FGV. E-mail: v[email protected].  

Desafios do campo, por Xico Graziano

Convidaram-me os agricultores do Norte do Paraná para falar sobre os desafios da agricultura nacional. No recinto da famosa ExpoLondrina arrolei, entre tantos, seis deles. Para cada um apontei alguns caminhos de solução. Ao final do encontro, após intenso debate, saí com uma certeza: na desventura da política mora a angústia do produtor rural.

Aqui os seis grandes desafios no campo:

1) Manutenção da renda agregada. Crescentemente, na economia agrária, grandes conglomerados se formam, dominando preços e comprimindo a renda do agricultor. Seja na indústria processadora, que compra produtos agropecuários, seja nas empresas que fornecem insumos e máquinas, verifica-se uma concentração de poder que estrangula a rentabilidade agrícola. O produtor rural compra caro e vende barato.

Como poderiam os agricultores escapar dessa perversidade econômica? O cooperativismo e o associativismo configuram, com certeza, uma boa saída. Pequenos, juntos, ficam fortes, negociam em condições mais paritárias. Numa visão social-democrata, o Estado também deveria intervir, zelando pela livre concorrência. Caberia um Cade para regular os agronegócios.

2) Instabilidade da renda. Típica da produção rural, que sofre perdas devidas às catástrofes naturais - seca, chuvarada, granizo -, a insegurança da renda agrícola, no Brasil, ademais é afetada pelas erráticas políticas de governo, que mudam ao sabor do vento. Anunciam-se planos de safra anuais, refletindo sempre uma visão de curto prazo. Vive-se o presente sem perspectivas futuras.

Que fazer contra essa inconstância? Seguro rural, sem dúvida, auxilia, cabendo ao governo subsidiar o oneroso prêmio. Ter atitude previdente, coisa rara no agricultor brasileiro, também parece bom conselho. Importante mesmo, porém, será a construção de uma verdadeira política agrícola que ofereça as regras, no mínimo, quinquenais, quiçá decenais, para a economia rural. Aí, sim, com planejamento estratégico, se vislumbrará o longo prazo.

3) Sustentabilidade no campo. A agenda socioambiental chegou para ficar na roça. Produzir sem depredar agora se impõe. O novo Código Florestal consolida a produção tradicional e, por outro lado, exige absoluto respeito às matas ciliares e aos remanescentes de florestas. Certificação de boas práticas agrícolas, bem-estar animal, conservação do solo, manejo integrado de pragas e doenças, qualidade da produção: época da qualidade total.

Goste-se ou não, pouco adianta brigar contra a agenda ambiental, senão adotá-la como sua. Assim procedendo, tendo atitude proativa, se vencerá facilmente tal desafio. O desenvolvimento tecnológico será fundamental, necessário para casar a elevada produtividade com o preceito ecológico. Basta ver o plantio direto, técnica revolucionária que salvou o Cerrado nacional da erosão.

4) Segurança jurídica. O País parece precisar de uma nova Lei de Terras, a exemplo da que, em 1850, estabeleceu a propriedade privada no campo. Até hoje enormes regiões padecem das incertezas sobre a titularidade de seus imóveis rurais, glebas duvidosas, devolutas, que não conseguem registro em cartório. Além dessa fraqueza fundiária, surgiram conflitos pela posse da terra, protagonizados por indígenas, quilombolas, fora as invasões de terras que, num piscar de olhos, roubam a fazenda herdada dos avós.

Para enfrentar tais vicissitudes resta aos agricultores exigir firmeza do poder público, o único capaz de apaziguar o campo. O Incra, tão desprestigiado, deveria reinventar-se num poderoso "Instituto de Terras" e promover, de uma vez por todas, numa espécie de "rito sumário", a regularização fundiária do País. Todos fumariam o cachimbo da paz.

5) Logística e infraestrutura. Ferrovias inexistentes, hidrovias no papel, portos entupidos, estradas esburacadas, fretes caríssimos, burocracia exagerada, telecomunicações lerdas, tudo conspira contra a produção rural, especialmente a que se aventura nas distantes fronteiras do Centro-Oeste. Deficiências banais no armazenamento e no transporte de cargas roubam a competitividade do agronegócio.

Nesse caso, existe apenas uma saída: o governo investir, aceleradamente, nos corredores de desenvolvimento. Apostar na interiorização da Nação.

6) Imagem na sociedade. Entre tantos desafios, este rouba o brilho do campo e rebaixa a autoestima do agricultor. Influenciada pela imagem trazida do passado escravocrata e latifundiário, a sociedade brasileira pouco valoriza seus agricultores. Na Europa, ao contrário, eles representam o esteio antepassado; nos EUA, orgulhosamente, são tratados como pioneiros. Aqui, viraram ruralistas. Quase um palavrão.

Como vencer esse terrível desafio? A bola, nesse caso, quica nos pés do agricultor. Acertar a linguagem, fugir dos discursos antigos, renovar as lideranças, melhorar sua representação política, isso é essencial. Ter novas atitudes, promover os jovens, conectar-se com a sociedade, tudo fundamental.

Desafios existem para ser sobrepujados. Uns dependem de nós e outros, nem tanto. No caso da agricultura brasileira, algumas lições precisam ser vencidas pelos próprios produtores. Mas a maior parte das tarefas recai no âmbito do governo. E depende de decisões políticas. Aí a porca torce o rabo.

Pela primeira vez em 54 anos, nenhuma autoridade do governo federal participou da inauguração da ExpoLondrina. Solenidade que já contou, inúmeras vezes, com a presença de presidentes da República, desta vez nem o ministro do ramo nem representante compareceram. A ausência reflete o descaso pela agropecuária do Paraná.

Os produtores chatearam-se. Mas prometeram reagir. Ventos da mudança sopravam por lá.

*Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: [email protected].

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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