No ESTADÃO: Segurar inflação com câmbio é um ‘erro mortal’, diz Delfim Netto

Publicado em 24/06/2014 09:57 490 exibições
Antigo chefe da Fazenda condena recurso, mas admite ser o 'único disponível'; para ele, IPCA fechará 2014 pouco abaixo do teto , por Ricardo Leopoldo.

Para o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, o “Banco Central usa o câmbio” para segurar a inflação no curto prazo. “É um erro mortal, mas é o único (recurso) disponível no momento”, destacou. Ele estima que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá fechar este ano pouco abaixo do teto de 6,5%.

Para economista, preços administrados deveriam subir de uma vez só no ano que vem

Para economista, preços administrados deveriam subir de uma vez só no ano que vemFelipe Rau/Estadão

Em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, Delfim afirmou que o próximo governo pode adotar algumas medidas essenciais para reduzir as pressões sobre o IPCA a partir do início de 2015.

Segundo ele, a correção dos preços administrados deveria ocorrer de uma só vez no próximo ano. “Isso é fundamental para retomar a ancoragem das expectativas sobre a inflação, ajudando a convergi-las à meta de 4,5%”, disse. “As expectativas vão continuar eternamente elevadas se há a percepção generalizada da sociedade de que preços administrados são responsáveis por 1,5 ponto porcentual do IPCA e isso não é corrigido nunca”, ponderou.

Nesse contexto, o ex-ministro defendeu que o governo anuncie a regra de retificação da defasagem dos combustíveis no Brasil em relação às cotações internacionais.

“A sociedade deveria estar ciente de que esta correção vai ocorrer num horizonte de 18 meses”, destacou Delfim. “Contudo, é fundamental deixar claro que não há uma data exata de quando isso vai ocorrer, ela será aleatória dentro deste prazo e ponto final.”

PIB estagnado. Delfim afirmou que vê o Produto Interno Bruto (PIB) estagnado no segundo trimestre, com resultado próximo de 0%. “A economia para 2014 está dada e deve ser relativamente fraca, com um crescimento ao redor de 1,5%”, comentou. Ele acredita que a inflação neste ano ficará pouco abaixo do teto de 6,5%.

Expectativas vão continuar eternamente elevadas se há a percepção generalizada de que preços administrados são responsáveis por 1,5 ponto porcentual do IPCA e isso não é corrigido nunca. 

Contudo, Delfim ressaltou que, devido às “imensas potencialidades” que o País possui é totalmente viável que a economia retome um ritmo de expansão entre 3% e 4% em três anos. “Para que isso ocorra é fundamental que o Estado se torne bem mais eficiente - nem mínimo nem balofo”, comentou.

“Nesse contexto, não dá mais para usar a política fiscal para estimular o consumo, como ocorreu nos últimos anos”, disse. “O superávit primário deveria subir para a média de 2,5% do PIB ao ano, a fim de reduzir o patamar da dívida bruta dos atuais 58% para 45% do PIB em seis anos. E por que 45%? Esse número é relevante porque, se houver alguma necessidade de elevar os gastos públicos para puxar a demanda, há essa folga essencial.”

Juros. Por outro lado, o ex-ministro da Fazenda ressaltou que o retorno da harmonia da política fiscal com a monetária, como havia em 2011, ajudará a reduzir os juros, o que é muito importante para estimular os investimentos e ampliar a oferta. 

“Parece que há uma nova onda daqueles que acreditam que o Brasil não pode ter juro real abaixo de 6% ao ano. Isso é uma tolice e a taxa pode ser mais baixa, sim”, disse.

Mas Delfim destacou que a política monetária é uma espécie de força resultante do bom controle de gastos do governo, patamar do câmbio e ritmo de expansão dos salários compatível com a velocidade da produtividade do trabalho.

“Como a carga tributária está próxima a 36% do PIB, pode-se gerar muito mais eficiência no setor público. E com isso é possível perfeitamente levar o déficit nominal para perto de zero em quatro anos”, destacou.

Na avaliação do ex-ministro, um elemento essencial para estimular os investimentos no País é o governo intensificar o programa de concessões em infraestrutura, pois isso vai combater os gargalos nacionais de logística, especialmente em portos, rodovias e ferrovias.

“É preciso ter modicidade tarifária nos leilões, mas eles precisam ser feitos de forma que viabilize uma boa taxa de retorno dos projetos. E isso é coisa para profissionais e não para amadores de Brasília”, disse.

Preços de produtos exportados caem e afetam resultado da balança comercial

LUIZ GUILHERME GERBELLI - O ESTADO DE S. PAULO

23 Junho 2014 | 21h 23

Volume exportado cresceu com antecipação de embarque da safra da soja, mas previsão de saldo caiu de US$ 8 bi para US$ 2 bi

A balança comercial brasileira está enfrentando uma combinação perversa: ao mesmo tempo em que os preços das commodities estão em queda, a indústria brasileira carrega os problemas de baixa competitividade e tem dificuldade para exportar seus produtos.A decepção com o comércio exterior fica evidente porque havia uma expectativa de que a balança comercial teria um resultado melhor este ano do que o de 2013, quando o superávit foi de US$ 2,5 bilhões, o mais baixo em 13 anos.

Entre os analistas, a previsão para o saldo comercial fica evidente no relatório Focus, do Banco Central. Na última pesquisa do ano passado, eles projetavam um superávit comercial de US$ 8 bilhões. Na pesquisa mais recente, a projeção caiu para um saldo positivo US$ 2 bilhões. Até maio, a balança comercial brasileira acumula um déficit de US$ 4,9 bilhões. 

Os dados da Fundação Centros de Estudo de Comércio Exterior (Funcex) mostram que a queda em valor dos produtos exportados pelo Brasil foi de 4,3% no acumulado em 12 meses encerrados em maio. Esse recuo tem sido aliviado, em parte, pelo aumento na quantidade. No período, aumentou 4,9%.

Básicos. A queda de preço dos produtos básicos pode ser atribuída ao menor crescimento da China. A economia chinesa é uma grande importadora mundial de produtos básicos, sobretudo do Brasil. Logo, o crescimento mais lento leva a uma demanda menor por produtos básicos, reduzindo o preço das commodities no mercado internacional e, consequentemente, causando impacto na receita de exportação brasileira.

“Os preços das commodities agrícolas e minério de ferro estão em queda”, afirma Daiane Santos, economista da Funcex. A entidade projeta um déficit de US$ 3 bilhões para a balança em 2014.

Apesar do déficit acumulado neste ano, o resultado da balança comercial brasileira poderia ser pior. O Brasil tem antecipado a exportação de alguns produtos - como a soja - para não coincidir com o início do embarque da safra americana, prevista para agosto e setembro. 

“Há uma expectativa de que este ano sejam embarcadas 43 milhões de toneladas. Até agora, foram embarcadas 66% dessa projeção”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). 

Neste ano, a expectativa é que o preço médio da tonelada de soja fique entre US$ 505 e US$ 507. Em 2013, o preço médio foi de US$ 533 por tonelada. Em dezembro, a AEB projetou um superávit de US$ 7,2 bilhões para a balança comercial este ano, mas esse número será rebaixado em julho. “Hoje diria que estamos num zero a zero”, diz Castro, em relação ao saldo comercial esperado para 2014.

Uma outra parte da queda dos preços dos produtos básicos está relacionada com a menor liquidez no mercado financeiro, o que afeta o preço das commodities. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) está retirando os estímulos financeiros. Na semana passada, o Fed reduziu em mais US$ 10 bilhões, para US$ 35 bilhões, a compra de títulos mensais. 

“À medida que os EUA reduzem a expansão monetária, mais o dólar tende a se valorizar. Como contrapartida, isso acaba reduzindo os preços das commodities”, diz Fabio Silveira, diretor da GO Associados.

Manufaturados. A exportação de manufaturados também deve ser prejudicada este ano. Além da já conhecida baixa competitividade da indústria brasileira para competir internacionalmente, a crise argentina deve tornar ainda mais difícil a vida do setor industrial brasileiro. 

A Argentina, um dos principais mercados de exportações brasileiras de manufaturados, voltou ao centro da discussão financeira mundial depois que a Justiça americana determinou o pagamento de US$ 1,33 bilhão para credores que não aceitaram participar das renegociações de dívidas feitas pelo governo em 2005 e 2010. 

O problema para o governo argentino é que a conta pode chegar a US$ 15 bilhões se todos os processos forem revistos. Se isso ocorrer, a Argentina fica próxima de um calote, já que as reservas são de US$ 28 bilhões. Com pouco dinheiro em caixa, é provável que os argentinos diminuam ainda mais a importação de produtos manufaturados brasileiros.

“Neste ano, mesmo com o acordo automotivo, a Argentina está numa situação pior do que estava em 2013”, afirma Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). 

O resultado da balança comercial neste ano também não deve ter a ajuda das plataformas de petróleo. Em 2013, a venda das plataformas somou US$ 7,7 bilhões. Neste ano, a expectativa é que esse valor fique em US$ 2,5 bilhões.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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