Na FOLHA: Planalto avalia 'descolar' Dilma da Copa após vexame da seleção

Publicado em 09/07/2014 10:01 658 exibições
Governo teme que mau humor com a derrota para a Alemanha se espalhe para outros temas, como a economia, e tenha reflexo nas urnas, diz jornal Folha de S. Paulo

Planalto avalia 'descolar' Dilma da Copa após vexame da seleção

Governo teme que mau humor com a derrota para a Alemanha se espalhe para outros temas, como a economia, e tenha reflexo nas urnas, diz jornal

Presidente Dilma Rousseff levanta a Taça da Copa do Mundo junto com o ex-jogador Cafu, no Palácio do Planalto em Brasília`

Presidente Dilma Rousseff levanta a Taça da Copa do Mundo junto com o ex-jogador Cafu, no Palácio do Planalto em Brasília (Roberto Stuckert Filho/PR)

Até agora, a presidente Dilma Rousseff vinha tirando proveito da onda de otimismo espalhada no país pela Copa do Mundo. Colou sua imagem à do sucesso do torneio até aqui – e não hesitou em usar o Mundial para atacar seus críticos, aos quais diversas vezes classificou como "pessimistas". O vexame da seleção brasileira nesta terça-feira, contudo, deve provocar uma guinada na estratégia da petista, que busca a reeleição. Reportagem desta quarta-feira do jornal Folha de S. Paulo informa que a equipe da presidente teme que o mau humor decorrente da derrota por 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão contamine as expectativas dos brasileiros sobre outros temas, como economia – a inflação oficial ultrapassou em doze meses o teto da meta do governo –, e afetem a campanha de Dilma. Segundo o jornal, integrantes do governo chegaram a citar a expressão "descolar da Copa" em discussões sobre o jogo na noite desta terça.

Logo após o jogo, Dilma procurou mostrar solidariedade à seleção. Em sua conta no Twitter, escreveu: "Assim como todos os brasileiros, estou muito, muito triste com a derrota. Sinto imensamente por todos nós, torcedores, e pelos nossos jogadores". E prosseguiu: "Não vamos nos deixar alquebrar. Brasil, 'levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima'".

Mas nos bastidores o clima passava longe do apoio. Segundo a Folha, membros do governo passaram a defender, minutos após a goleada histórica, uma mudança de rota na estratégia de associar Dilma aos sucessos da Copa dentro e fora de campo. O plano da presidente deentregar a taça ao vencedor do torneio, porém, está mantido por ora. O governo avaliava que uma derrota brasileira para os alemães seria assimilada como natural. O que ninguém no Planalto podia esperar era um placar tão humilhante. De acordo com o jornal, conforme os gols da Alemanha saíam, a equipe da presidente mudava seu discurso: da expectativa de assimilação da derrota para uma genuína preocupação com o efeito do pesadelo.

Além de descolar-se do Mundial, interlocutores da presidente avaliam que o governo deve assumir a linha de defesa da Copa como evento. Para evitar um fracasso duplo, a segurança nos estádios será reforçada – um revés na organização do torneio na ultima semana do Mundial é considerada como fatal para a imagem da presidente. O Planalto teme, ainda, a volta, com força, das críticas aos gastos com a realização do evento.

E o governo seguirá temeroso até sábado, quando a seleção brasileira disputará o terceiro lugar. Se a Argentina perder nesta quarta para a Holanda no Itaquerão, enfrentará o Brasil no Mané Garrincha. E uma eventual derrota brasileira poderia ampliar o impacto da goleada desta terça.

Leia no blog de Reinaldo Azevedo:
Qual é a última torcida que cabe à presidente? Por razões que o técnico argentino chamou nesta terça de “culturais” — ele se referia ao fato de que a imprensa de seu país comemorava o desastre brasileiro —, resta à nossa governanta torcer desde já para que seja a Holanda ou a Alemanha a vitoriosa. Ou lhe caberá a honra, depois de ter esconjurado os urubus, de entregar o troféu ao capitão da Seleção da Argentina.

Eu não acho que a derrota da Seleção fará o eleitor votar dessa ou daquela maneira. Não o subestimo assim. Isso não nega o fato de que o PT tinha planos para tentar fazer da eventual vitória uma arma para esmagar os adversários. Seria ineficaz porque, reitero, não é assim que se dão as coisas. Mas o Brasil ficaria um pouquinho mais incivilizado, matéria em que essa gente é craque.

É TOIS, DILMA!

Análise: O inominável ocorrido cai como uma bomba no colo dos políticos

IGOR GIELOW
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O inominável ocorrido em Belo Horizonte caiu como uma bomba no colo dos políticos que, mesmo a uma semana do fim do torneiro, ainda ensaiavam como lidar com a Copa em casa em pleno ano de eleição presidencial.

Não por acaso houve a submersão dos candidatos, denunciada por algumas bolhas, como as emitidas no Twitter por Dilma Rousseff.

O governo federal, como anfitrião e hospedeiro de um evento privado, naturalmente é o que mais tem a perder com o desastre do Mineirão.

Se é verdade que desempenho em Copa nunca afetou resultado de eleição, Fernando Henrique Cardoso sob o baile tomado na França em 1998 que o diga, também é igualmente correto pensar que nunca fomos tão humilhados –e, ainda mais inédito, em solo pátrio.

De forma mais ampla, claro que 2014 não é 1950, ainda que esportivamente a tragédia hoje seja maior. Há 64 anos vivia-se uma era mais inocente, em que a formação do caráter nacional cabia mais nos moldes da "pátria de chuteiras".

Ao longo do jogo, o simulacro de identidade que vemos em ebulição nas redes sociais já estava em modo de deboche –com piadas como o "É hexa" celebrado no sexto gol teutônico. Não é mais imaginável uma tragédia nos moldes do Maracanazo, embora não se saiba a extensão do mau humor nacional.

A desgraça para os estrategistas de Dilma é que o tempo é curtíssimo para apoiar-se em pesquisas até a entrega da taça no domingo.

O oba-oba que a presidente havia abraçado, colocando no mesmo saco quem criticava superfaturamento de estádios e os que duvidavam da capacidade da seleção, tende a ser engavetado.

Uma defesa sóbria do evento, a torcida para que nada de errado aconteça fora dos estádios até domingo e a esperança de que o azedume seja dissipado na velocidade de um comentário de Facebook é um roteiro conservador que pode ser esperado.

Para a oposição, o abacaxi é um pouco menor. Sem saber se abraçavam ou não o evento, transitando entre críticas leves aos problemas e tímidas comemorações esportivas, Aécio Neves e Eduardo Campos agora tendem a lamentar o ocorrido, se fazer de mortos e esperar para ver a evolução do eleitorado.

Ao fim, a Copa trazida no auge da euforia da era Lula tornou-se um grande passivo para os políticos.

Em 2013, a dicotomia título na Copa das Confederações/erupção das ruas pegou governo e oposição de surpresa. Um ano depois, a debacle em campo ainda espera a resposta fora dele, para o pasmo da mesma classe política. 

Em São Paulo, ativistas apostam em maior adesão a manifestações

Ativistas que foram às ruas contra a Copa nos últimos meses dizem não ter comemorado a eliminação histórica da seleção, mas acreditam que a derrota vai acentuar a visão crítica sobre o Mundial.

Para eles, o clima de festa que tomava conta do país e que contribuiu para a diminuição dos protestos cairá por terra, dando lugar a uma nova insatisfação.

"Sem dúvida os protestos tendem a ter adesão maior agora, o que mostra que estávamos certos desde o começo. A ilusão toda se quebrou, vão perceber que se trocaram saúde e hospital por nada", diz Rafael Padial, militante do Território Livre, um dos integrantes do grupo "Se não tiver direitos, não vai ter Copa".

Em algumas páginas de grupos de ativismo contra a Copa foram postadas homenagens aos alemães.

"Sou fã da Alemanha desde que eliminou o Brasil", dizia uma delas.

Mesmo antes do jogo, um ato já estava marcado para esta quinta (10), mas com foco na libertação de manifestantes presos e contra a ação da polícia na repressão a protestos em São Paulo.

O Movimento Passe Livre, que defende a tarifa zero nos transportes, não quis comentar a relação entre a derrota e um eventual crescimento de protestos.

No Rio, ativistas afirmam não acreditar em protestos maiores agora. Para eles, quem deixou de comparecer às manifestações com a Copa não voltará às ruas por causa da derrota.

A avaliação é que as manifestações podem ganhar força após as eleições, caso impere o sentimento de que a política não teve mudanças profundas após os protestos junho de 2013.

Agora, a ressaca, por Fernando Rodrigues

 Ganhar ou perder faz parte da vida. Mas a derrota com certa dose de humilhação da seleção brasileira para a da Alemanha por 7 a 1 produz uma sensação um pouco mais desoladora.

Passaram-se 64 anos desde a decepção de 1950. O imaginário local sobre ganhar "em casa" provocou um estado de transe coletivo. A nação escancarou todo o seu atraso civilizatório resumido na dicotomia reducionista e infantil do "é tóis" (o Brasil) contra "eles" (o restante do mundo), como se uma disputa esportiva fosse vital para o país conseguir sanar seus problemas.

Protofascistas pediram na internet o assassinato do colombiano que causou a contusão em Neymar. O principal telejornal do país dedicou quase 90% do seu tempo diário ao futebol. O paroxismo da patriotada.

Agora, a ressaca. Talvez seja necessário esperar algumas décadas para ter outra Copa do Mundo no Brasil. O sonho de ganhar a atual se dissipou com os sete gols alemães de ontem (8). E ainda há o "jogo mais triste de todos", com os derrotados das semifinais disputando no sábado o 3º lugar.

O mundo não acabou, mas o bom humor das últimas semanas vai se evanescer um pouco. O país voltará a se enxergar como de fato é.

Haverá efeito político relevante? Não creio. O jogador Ronaldo teve um apagão durante a Copa de 1998. A seleção brasileira perdeu de maneira contundente. Mas o tucano Fernando Henrique Cardoso, com a economia no buraco, conseguiu se reeleger presidente. Em 2006, o petista Lula foi reeleito ainda sob os eflúvios do mensalão e de uma derrota do Brasil na Copa da Alemanha.

É claro que a vitória da seleção prolongaria o estado de torpor quase geral. Ajudaria quem já está no poder, a presidente e os governadores. O despertar do sonho –ou do pesadelo– acelera a percepção da realidade. Não é ruim. O Brasil ainda é uma nação a ser construída, e tem pressa. 

 

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Torcedores brasileiros choram a derrota da seleção para a Alemanha no Mineirão, em Belo Horizonte

Torcedores brasileiros choram a derrota da seleção para a Alemanha no Mineirão, em Belo Horizonte - Ricardo Corrêa

 

 

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Fonte:
Folha de S. Paulo/Veja

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