Missão e desafios no caminho do agronegócio, por Luiz Carlos Corrêa Carvalho, da ABAG

Publicado em 01/08/2014 08:25 e atualizado em 03/08/2014 15:06
no Estadão

Ao analisar o acelerado processo de crescimento populacional, da renda per capita e da urbanização na Ásia, em especial na China, maior comprador mundial de commodities agrícolas, tem-se a confirmação do desafio que é hoje denominado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como de segurança alimentar. Afinal de contas, recentes estimativas da consultoria McKinsey dão conta de que a China terá, em 2025, nada menos do que 221 cidades com 1 milhão de habitantes. Somado às 23 cidades chinesas que deverão ter mais de 5 milhões de pessoas, chega-se a um aumento na população urbana da China na ordem de 330 milhões.

É mais gente vivendo nas cidades, com novos hábitos de consumo e maior renda. Resultado: maior demanda por carnes, leite e ovos, fibras, etc. A dimensão do potencial explosivo de consumo futuro pode ser medida por uma colher de açúcar. Há dois anos, o consumo anual per capita de açúcar no interior da China era de 2kg por pessoa, enquanto nas cidades era de 20kg. Em nível global, para os próximos dez anos, teríamos de aumentar em 44 milhões de toneladas a produção anual de açúcar, mais do que o Brasil produz atualmente. E esse quadro vai além: hoje, no mundo, 14% das commodities como cana, milho, trigo e os óleos vegetais - soja, canola e palma - são para a produção de biocombustíveis. E vai crescer! 

Por esses dados, tem-se a noção da missão que o futuro reserva para o agronegócio brasileiro. E tal missão foi ainda mais magnificada pela recomendação da FAO e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de que o Brasil deverá responder por, pelo menos, 40% do fornecimento de alimentos projetados até 2050. É, indubitavelmente, a janela de oportunidade mais clara que temos hoje em âmbito mundial no horizonte de curto e de médio prazos.

Em razão dessa proposta desafiadora, espera-se, tanto do setor privado envolvido no processo produtivo quanto do governo, uma atitude moderna, arrojada e colaborativa, no sentido de considerar este segmento estratégico para o Brasil. Afinal, ele responde por 25% do produto interno bruto (PIB) e por cerca de 40% das exportações brasileiras. Na condição de grande celeiro tropical, o Brasil é, hoje, o terceiro maior exportador agrícola do mundo, atrás somente dos Estados Unidos e da União Europeia. Além disso, o produtor rural desempenha um papel vanguardista no que diz respeito à questão da sustentabilidade e no uso de tecnologia, pois tem conseguido ampliar a produção somente com ganhos de produtividade, sem aumento da área plantada.

Essas conquistas se devem a uma visão sistêmica e ampla dos negócios ligados ao campo, que foi incorporada aos processos produtivos pelos empresários por meio de atividades sofisticadas nas áreas de biotecnologia, mecanização e tecnologia da informação. Trata-se de uma realidade bem distante daquela vivida no passado.

O conceito das cadeias produtivas, lançado por Harvard e incorporado à realidade brasileira há cerca de 20 anos, envolvendo os elos que vão de bens de capital e insumos, passando pela produção agrícola e industrial, indo à distribuição, atacado e varejo, incluindo ainda as exportações, explica o peso e a importância da cadeia agroindustrial na economia do País.

Essa dinâmica impressionante do agronegócio brasileiro decorre da necessidade vital de ganhar competitividade. É um desafio que não se pode perder de vista no presente e no futuro, com a manutenção dos investimentos em pesquisas e em inovação. Existem no País vários casos de sucesso para exaltar a capacidade empreendedora de pequenos, médios e grandes agricultores. Fizemos uma mudança monumental na forma de produzir em solos quimicamente mais pobres do Cerrado, com o sistema de plantio direto na palha, a produção conjunta de etanol e de bioeletricidade e a integração lavoura, pecuária e floresta. Não é pouca coisa e isso se deve à enorme criatividade brasileira.

Para que todos esses avanços se traduzam na continuidade da posição vanguardista que o País ocupa no cenário agrícola mundial, é necessário haver bastante harmonia entre os atores privados e o governo, que deve funcionar como um facilitador. Atuando assim, não teríamos, por exemplo, uma situação em que nossa produção de grãos praticamente duplicou em dez anos sem contar com a equivalente expansão da infraestrutura de transporte, armazenamento e logística.

Essas deficiências anulam os ganhos de competitividade alcançados no campo. Não podemos, por exemplo, ter descontinuidade de políticas públicas, assim como não é compreensível a existência de tantas instâncias que são, em tese, responsáveis pela formulação e pela aplicação da política agrícola. Precisamos dessa sinergia para estarmos em condições de relevância geopolítica no século 21 e em condições de atender às expectativas do mercado global.

Todos esses pontos estarão em debate no 13.º Congresso Brasileiro do Agronegócio, que será promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) no dia 4 de agosto, em São Paulo, com o tema Agronegócio Brasileiro: Valorização e Protagonismo. No evento será analisada também uma proposta de ação elaborada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e entregue aos representantes dos três candidatos à Presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais.

Nossa expectativa é de que o Brasil aproveite este momento extraordinário de mudanças globais, num cenário de franca revolução do uso sustentável de recursos naturais, para reafirmar sua posição de protagonista e líder desse processo transformador da geopolítica mundial.

*Luiz Carlos Corrêa Carvalho é presidente da ABAG.

 

Aprendendo com a Embrapa

por Cristiane Alkmin J. Schmidt

Dos programas dos candidatos à Presidência da República, nota-se que os tópicos fortalecimento das instituições e ciência, tecnologia e inovação são entendidos como essenciais para o Brasil se desenvolver de forma mais vigorosa e sólida. Essa correta percepção pode ser endereçada pela compreensão dos nossos próprios erros e acertos. Um dos eventos mais relevantes que ocorreram no Brasil foi a revolução agrícola. Nos bastidores está a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). É irrefutável seu êxito. Como se deu isso? É possível replicar esse modelo?

Antes, vale contextualizar o tema. Na década de 1970, por causa da estagnação na agricultura e do aumento na demanda por alimentos, o risco de escassez era iminente. E o Cerrado, que era pouco produtivo, passou a receber agricultores do Sul. Havia uma vantagem comparativa potencial (VCP) no setor agrícola, devidamente comprovada pelo setor privado, que podia ser desenvolvida.

Uma das iniciativas do governo foi a criação da Embrapa, em 1973, que teve spillover para todo o País, além do Cerrado. A Embrapa, nestes 30 anos, adaptou, criou e transferiu mais de 9 mil tecnologias e 350 cultivares; possui mais de 200 patentes internacionais; e é considerada o principal polo de pesquisa tropical do mundo. Pesquisadores da entidade foram protagonistas na transformação do Brasil, de potencial produtor para o 4.º maior exportador de alimentos do mundo, por meio do aumento espetacular da produtividade no campo.

O triunfo da Embrapa passa por fatores endógenos e exógenos a ela. Paulo Correa e eu (Public Research Organizations and Agricultural Development in Brazil: How Did Embrapa Get It Right? Economic Premise, World Bank, june 2014) concluímos que, da primeira parte, ressaltam seis itens: 1) pela missão da instituição em produzir academicamente trabalhos direcionados exclusivamente em solucionar problemas da agricultura brasileira, transferindo conhecimento e tecnologia aos agricultores, constantemente; 2) pela estratégia de ter a Embrapa fisicamente perto do agricultor, descentralizando-a em agências regionais; 3) pela definição de metas nas pesquisas e pelo monitoramento no processo, para que os estudos não perdessem foco e timing; 4) pela premiação e reconhecimento vinculados aos resultados, e não apenas às publicações acadêmicas; 5) pelo maciço investimento em capital humano e importação e desenvolvimento de tecnologia de ponta. Até meados dos anos 80 não havia um corpo de pesquisadores qualificados nem tecnologia disponível. Atualmente, dos mais de 2.200 pesquisadores, 1.800 têm doutorado e 400, mestrado; e 6) pela independência política nos seus quadros e cultura meritocrática.

Dos fatores exógenos, destacam-se a adoção de políticas públicas efetivas, como a de abertura comercial e a de crédito aos agricultores, que contribuíram para a diminuição dos custos dos insumos e aumento da oferta; a abundância de terra; e a existência de uma demonstrada VCP.

É possível replicar o modelo meritocrático e técnico da Embrapa, portanto, desde que haja consciência do que a levou a ser bem-sucedida e de como o País se beneficiou com a sua existência, garantindo resultados sociais e econômicos inquestionáveis. As políticas públicas e incentivos direcionados ao setor tiveram êxito, sobretudo em razão da transparência na alocação dos recursos e à VCP existente.

O ideal é que os setores beneficiados sejam considerados de acordo com as reais vantagens comparativas potenciais que o País apresenta, além de aparelhar as empresas com quadros técnicos e geri-las com objetividade e meritocracia. São essas, entre outras, as boas lições aprendidas com a Embrapa, que tanto orgulha os brasileiros. Já que os temas fortalecimento das instituições e ciência, tecnologia e inovação fazem parte do debate dos candidatos, seria construtivo discuti-los de forma mais pragmática e metódica, utilizando, ainda, nossos próprios erros e acertos em termos institucionais e de políticas públicas.

*Cristiane Alkmin J. Schmidt é doutora em economia pela EPGE/FGV, foi Visiting Scholar em Columbia em 2013. É professora da FGV e consultora.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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2 comentários

  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Perdão è dr DR.LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO-ABAG-

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Dr .Luiz Carlos Corrêa Camargo –ABAG- Nem sei se esta mensagem chegará até o senhor,mas penso que sim, eu gostaria imensamente que o primeiro elo desta corrente(produtores) fossem os protagonistas de uma discussão tão importante como esta e digo porque,sei que a cadeia formada pelo antes e depois da porteira dominam as ações do setor e o produtores fazem as clássicas perguntas- quanto custa?(pelo insumo) e quanto você me paga?(pela mercadoria),sei também que,por ser uma atividade onde o mercado é livre isto é normal,todavia entidades como ABAG,CNA,OCB,SRB,APROSSOJA,UNICA,dentre outras teriam condições plenas de criar um CÓDIGO DE ÉTICA onde um setor não esfolasse o outro,respeitando a lei da livre concorrência,veja bem um pulverizador automotriz de última geração custa nos EUA o equivalente a cem mil dólares ,aqui custa duzentos e cinquenta,recentemente duas empresas lançaram produtos para controlar doenças da soja e o custo pulou de trinta reais para trinta dólares,o custo de transporte de uma tonelada de soja de Rondonópolis a Santos custa o mesmo valor tanto por trem quanto por caminhão,quinze quilos de semente de milho híbrido custa hoje o equivalente a quase 3000kgs de milho comercial em Sorriso-MT,a Monsanto estabeleceu quase 10% de desconto na moega pelo uso da tecnologia intacta,isto só para citar alguns exemplos... Outro assunto que urge, se quisermos ser o dono desta oportunidade de uma maneira sólida e duradoura é termos a tal segurança jurídica no campo como política de Estado e não de Governos.Desejo sucesso ao evento,saudações mineiras,uai!

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