Volume exportado compensa redução de preços e sustenta faturamento do agronegócio

Publicado em 01/09/2014 16:31 357 exibições

Em junho de 2014, a receita das exportações do agronegócio brasileiro alcançou U$$ 9,7 bilhões, superando em 4,6 % o valor de junho de 2013. No agregado de janeiro a junho de 2014, no entanto, o montante em dólares ficou um pouco abaixo dos U$$ 50 bilhões, o que representa queda de 1% em relação ao resultado obtido no mesmo período de 2013. No acumulado de julho/13 a junho/14 também houve retração na receita dos envios relacionados ao agronegócio, de 1%. Já a participação do setor nas exportações totais do País continua em crescimento e atingiu 44,4% no primeiro semestre de 2014.

A manutenção do faturamento das exportações do agronegócio brasileiro esteve relacionada ao crescimento de volume embarcado dos produtos do complexo da soja (grão, farelo e óleo), café, carne bovina e madeira. Em termos de preços, no entanto, apenas a carne suína, o farelo de soja, frutas e etanol apresentaram alta. Dessa forma, o bom desempenho das exportações brasileiras do agronegócio em 2014 resultou do maior volume embarcado, uma vez que as cotações dos principais produtos exportados, como açúcar, café, carne de aves e suco de laranja se mantiveram em queda no período.

Entre janeiro de 2000 e junho de 2014, o agronegócio brasileiro expandiu suas exportações mesmo com a forte valorização do Real frente ao dólar frente a uma cesta de moedas (de 48,84%), como mostra o crescimento das vendas externas (IVE), que foi superior a 219%, conforme dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Nesse período, os preços em dólares dos alimentos no mercado internacional aumentaram 107,53%, compensando a valorização da moeda brasileira, e fazendo com que a atratividade das exportações aumentasse quase 6% na comparação das médias do primeiro semestre de 2014 com a do ano 2000. A Figura 1 ilustra a evolução do quantum das exportações agrícolas (IVE-Agro/Cepea), dos preços em dólares (IPE-Agro/Cepea), da taxa real de câmbio (IC-Agro/Cepea) e do índice de atratividade das exportações brasileiras (IAT-Agro/Cepea).   

Desempenho do agronegócio brasileiro entre 2013 e 2014

Entre janeiro de 2013 e junho de 2014 as vendas externas do agronegócio brasileiro (IVE-Agro/Cepea) oscilaram mensalmente, seguindo padrão sazonal característico do setor, mas, no geral, apresentaram alta. Comparando-se o desempenho de junho/14 ao de junho/13, o volume exportado pelo agronegócio brasileiro cresceu 3,43%. Na comparação semestral (jan-jun/14 frente a jan-jun/13), o avanço foi de 1,64% (Figura 2).

Os preços em dólares dos produtos exportados pelo agronegócio brasileiro (IPE-Agro/Cepea), que haviam iniciado trajetória de queda em junho de 2013, reverteram a tendência a partir de janeiro/14 - Figura 2. Especificamente, na comparação entre os valores de jun/13 e jun/14, há recuperação de 2,43%, mas no comparativo semestral observou-se recuo médio de 2,6%.

Quanto ao Índice da Taxa de Câmbio Efetiva Real do Agronegócio (IC-Agro/Cepea), houve maior oscilação desde setembro de 2013, quando se completou o ciclo de desvalorização da moeda brasileira. Desde então e até maio/14, a tendência foi de valorização do Real. Ainda assim, em junho/14 comparativamente a junho/13, o Real se depreciou em 15%, enquanto na comparação entre as taxas médias dos primeiros semestres de 2014 e 2013, a desvalorização foi de 10% frente às moedas de seus principais parceiros comerciais.

Os preços em Reais (IAT-Agro/Cepea), que seguem tendência combinada de cotações externas e taxa de câmbio, aumentaram quase 18% em junho/14, na comparação com o mesmo mês de 2013. Na comparação semestral, o ganho de atratividade foi de aproximadamente 8% - Figura 2. 

De julho de 2013 a junho de 2014, o volume exportado pelo agronegócio brasileiro (IVE-Agro/Cepea) aumentou mais de 5% comparativamente ao dos 12 meses anteriores. Os preços em dólares recebidos pelos exportadores do agronegócio, por outro lado, recuaram mais de 5% (IPE-Agro/Cepea), enquanto a taxa de câmbio efetiva real do agronegócio (IC-Agro/Cepea) se depreciou em mais de 7,2%. Essa desvalorização da moeda nacional foi suficiente para compensar a queda dos preços externos e, como consequência, a atratividade aumentou 1% nesse período (Figura 3).


Exportações dos principais grupos de produtos

No primeiro semestre de 2014, quando comparado ao mesmo período de 2013, a soja em grão foi o produto que apresentou o maior crescimento nos embarques, de 21,85%. O segundo produto que mais cresceu em volume exportado foi o café (17,66%), seguido de carne bovina (13,94%), farelo de soja (13,09%), madeira (12,06%) e óleo de soja (11,10%). Os volumes exportados de celulose (0,45%) e de carne de aves (-0,06%) se mantiveram praticamente estáveis no período analisado. Por outro lado, o milho foi o que teve maior redução (-36,81%), seguido do complexo sucroalcooleiro (redução de 31,96% para o etanol e de 14,38% para o açúcar), suco de laranja (-17,73%), frutas (-11,23%) e carne suína (-1,88%) – Figura 4.   


O aumento nas exportações de soja ocorreu devido à maior demanda da China, que se consolidou como o principal importador do agronegócio brasileiro já no ano de 2013 e que tem dado preferência à importação de produtos menos elaborados. Esse cenário estimulou o Brasil a incrementar sua produção de grãos, e dessa forma, as safras brasileiras têm apresentados sucessivos recordes. 

Quanto ao milho, a redução nos embarques pode estar relacionada às perspectivas de safra recorde nos Estados Unidos, apesar de ser esperado pelos agentes de mercado um aumento na quantidade embarcada para o segundo semestre deste ano.

Em termos de preços, poucos produtos apresentaram crescimento nos primeiros seis meses de 2014. A maior valorização foi para a carne suína, de 13,06%, seguida pelo farelo de soja e frutas, que apresentaram alta de 7,81% e 6,12%, respectivamente. Já os preços da carne bovina (0,52%) e do etanol (0,02%) permaneceram praticamente estáveis no período. Por outro lado, milho, óleo de soja, açúcar, café e carne de aves apresentaram expressiva redução de preço, de 29%, 17%, 15%, 11%, 11% respectivamente. Além disso, também caíram as cotações de suco de laranja (8,03%), madeira (5,36%), soja em grão (4,21%) e celulose (2,03%) – Figura 5. No geral, os produtos que apresentaram aumento significativo nos preços não figuram entre os principais exportados pelo Brasil. Os maiores envios do agronegócio, como soja em grão, açúcar e carne de aves se desvalorizaram. Para a carne suína, há boas perspectivas para 2014, tanto em termos de volume quanto de preços, pois os russos reabilitaram oito frigoríficos, com objetivo de aumentar suas compras do País.

A desvalorização do Real em torno de 10,7% no primeiro semestre de 2014, comparativamente ao mesmo período de 2013, foi o principal fator para a alta dos preços domésticos em reais (IAT-Agro/Cepea) de carnes suína e bovina, frutas, farelo de soja, etanol, açúcar, celulose, madeira e suco de laranja (Figura 6).

Conclusões

Desde o ano 2000, o agronegócio brasileiro vem ganhando participação no mercado internacional de alimentos, com aumento contínuo do volume exportado e na participação nas exportações totais nacionais, das quais já representa 44%. 

Na comparação entre os primeiros semestres de 2014 e 2013, houve aumento de 1,6% no volume exportado, redução de 2,6% nos preços em dólares, desvalorização de 10,7% na taxa de câmbio efetiva real do agronegócio e aumento de 7,8% na atratividade (IAT-Agro/Cepea) das exportações nacionais. Como resultado, o valor exportado, em dólar, se manteve praticamente estável nesse período, com queda de apenas 1%.

Destacaram-se pelo crescimento de volume embarcado no primeiro semestre de 2014, comparativamente ao mesmo período do ano anterior, o complexo da soja (grão, farelo e óleo) o café, a carne bovina e madeira. Em termos de preços, apresentaram elevação a carne suína, o farelo, as frutas e o etanol. O destaque ficou com a desvalorização da moeda nacional iniciada no segundo semestre de 2013 e que ainda não foi totalmente revertida, apesar da valorização que vem se observando neste ano. Esse fator manteve a atratividade de exportações para carnes suínas, frutas, farelo de soja, carne bovina, etanol, celulose, madeira e suco de laranja. Dessa forma, o bom desempenho dos embarques brasileiros do agronegócio em 2014 tem sido via aumento de volume, já que os preços dos principais produtos exportados, como açúcar, café, soja em grão e carne de aves se mantiveram em queda no período.

Para o segundo semestre deste ano, espera-se alguma redução no volume exportado devido ao período de entressafra das principais culturas brasileiras.  Porém, vale considerar que o embargo russo aos produtos norte-americanos e da União Europeia, pode elevar as exportações nacionais, principalmente de carnes e frutas. Quanto aos preços de exportação, devem sofrer influência da maior oferta dos principais produtores mundiais, como Estados Unidos. A demanda por alimentos deve continuar firme, puxada principalmente pela China e a Índia. Já do lado da oferta, os estoques mundiais de importantes commodities como soja, açúcar e café, devem se manter em níveis confortáveis devido à boa safra mundial na temporada passada, no entanto, o risco climático deve ser sempre considerado.

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Cepea

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