Marina e o agronegócio, por MARCOS SAWAYA JANK -

Publicado em 02/09/2014 08:40 e atualizado em 02/09/2014 15:05 2379 exibições
artigo publicado em O Estado de S. Paulo (+ opinião de Reinaldo Azevedo, de veja.com)

Marina Silva aproximou-se do agronegócio na última semana. Esteve numa importante feira do setor sucroenergético, jantou com 60 lideranças na sexta-feira e seus assessores vêm dialogando com pessoas-chave do setor.

Todos sabem que o agronegócio viveu momentos de atrito com Marina no período em que ela foi ministra do Meio Ambiente. Exemplos são os embates em torno do Código Florestal e o zoneamento da soja transgênica, num momento em que produtores gaúchos plantaram variedades argentinas que ainda não haviam sido aprovadas no Brasil. Já se passaram dez anos. Desde então a Comissão de Biossegurança autorizou um amplo uso de sementes transgênicas no Brasil, a exemplo do que vem ocorrendo em quase todo o mundo. O novo Código Florestal virou lei em maio de 2012 e hoje há total consenso entre o agronegócio e a comunidade ambiental de que o desafio é implementar mais rapidamente o que foi definido.

Tendo participado de diversas conversas com Marina e seu grupo nos últimos cinco anos, permito-me fazer aqui uma análise das perspectivas dos temas do agronegócio à luz do seu programa de governo, recém-divulgado. O programa reconhece a competência dos produtores brasileiros, os ganhos de produtividade alcançados, o fato de o País dispor da melhor tecnologia tropical do planeta e o papel salvador que o setor desempenhou na garantia do equilíbrio das contas externas. Em síntese, os principais destaques do programa são:

1) Políticas tradicionais - taxas de juros mais baixas para a agricultura; continuidade das políticas de aquisição de alimentos, preços mínimos e estoques reguladores; ampliação de programas de seguro rural, cobrindo riscos climáticos e de renda; reforço das estruturas de pesquisa e controle sanitário; avanço no zoneamento agroecológico e melhorias na legislação trabalhista.

2) Acordos internacionais - ampliação dos acordos de comércio com os países mais relevantes para o agronegócio, independentemente do Mercosul.

3) Plano ABC - o Plano de Agricultura de Baixo Carbono ganhará prioridade, recebendo mais recursos para estimular o manejo e a recuperação de pastagens e áreas degradadas e buscar a meta de "desmatamento zero".

4) Governança dos ministérios da área - segundo o texto, no mundo inteiro o Ministério da Agricultura também cuida de questões fundiárias, de florestas plantadas e da pesca. "No Brasil temos quatro ministérios cuidando desses temas, disputando o mesmo orçamento e prestígio junto ao Palácio do Planalto, ao Legislativo, à mídia e à sociedade em geral. Ainda interferem no agronegócio mais uma dezena de ministérios e duas dezenas de agências correlatas. É preciso enxugar esse emaranhado de órgãos federais que engessam as ações para o setor rural".

5) Política energética - o diagnóstico e as diretrizes apresentados são claros e corretos. O ponto de maiores destaque é a prioridade de recuperar e revitalizar a produção de biocombustíveis e bioeletricidade, que não deveriam ficar a reboque da intervenção estatal em razão de políticas de controle artificial de preços da gasolina. "A intervenção do governo no setor deveria ser mínima e as regras para o desenvolvimento da energia de biomassa devem ser previsíveis e transparentes."

6) Infraestrutura e logística - o programa propõe ampliar e acelerar concessões, parcerias público-privadas e investimentos, aprimorando os marcos regulatórios, diversificando modais de transporte e aprimorando o diálogo com os investidores.

O programa traz temas que devem gerar embates com o setor, mas podem perfeitamente ser tratados de forma racional pelo Executivo pelo Legislativo:

O texto reconhece a queda expressiva do desmatamento em áreas de floresta, mas menciona seu avanço em certas áreas do cerrado, afirmando "que a agropecuária brasileira não precisa mais avançar sobre novas áreas de vegetação nativa para duplicar ou até triplicar sua produção". Creio que o agronegócio concorda plenamente com a necessidade de eliminar o desmatamento ilegal em todos os biomas. Defende, porém, o desmatamento legal de áreas férteis sob cerrado, seguindo estritamente o novo Código Florestal. A solução do "desmatamento líquido zero" - desmatamento legal de áreas com aptidão agrícola compensado por reflorestamento incentivado de áreas sem aptidão - pode ajudar a resolver a questão.

A atualização dos indicadores de produtividade agrícola relacionados com o diagnóstico da função social da propriedade rural, que permitiria rápida desapropriação de terras nos casos previstos em lei ou prêmio para quem faz uso correto da terra.

A demarcação de terras indígenas e quilombolas, prevista na Constituição, mas que causa discórdias com os agricultores nas áreas onde há disputas.

Na minha modesta opinião, o programa atende às principais expectativas do agronegócio. Ele diz ainda que a agropecuária tem uma agenda própria, que será considerada pelo novo governo, reconhecendo-se a importância do setor para o País. Marina afirmou ainda que o programa divulgado é um "projeto em construção" que será revisado sempre que necessário (como, aliás, já o foi no fim de semana).

Precisamos acabar com a falsa dicotomia que tem colocado agricultura e meio ambiente em lados opostos. O agronegócio global só sobrevive com desenvolvimento sustentável. Ele terá de produzir alimentos, bebidas, têxteis, papel, borracha e bioenergia para mais 9 bilhões de habitantes em 2050. Terá de gerar renda para quem nele trabalha e enfrentar crescentes restrições de recursos naturais e clima.

O mundo deposita enorme esperança no Brasil para servir como exemplo global na conciliação de questões econômicas, sociais e ambientais na agricultura. Nossa História recente mostra que estamos em posição bem melhor do que qualquer outro país para dar esse salto. Ou seja, há muito mais convergências do que divergências entre as agendas do agronegócio moderno e a agenda de gestão sustentável dos recursos naturais proposta por Marina Silva.

Marcos Sawaya Jank é diretor global de Assuntos Corporativos da BRF e foi presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e (Unica).

 

Por que Dilma não diz quem seria o seu “Armínio” da economia? Por que Marina não diz quem seria o seu “Armínio” do Meio Ambiente?

Pois é… Se Aécio Neves, do PSB, for presidente da República, sabemos que seu ministro da Fazenda será Armínio Fraga, o que indica uma condução técnica, serena e competente da economia. Se Dilma for reeleita, aí só Deus sabe quem conseguirá segurar o rojão. As expectativas vão se deteriorar enormemente, num cenário que já é de crescimento baixo, inflação alta e investimentos pífios. Uma coisa é certa: Guido Mantega não ficaria. Uma possibilidade a ser estudada pelos petistas é dizer agora quem será o substituto de Mantega se a petista ganhar mais quatro anos.

“Ah, mas aí o atual ministro vira um pato manco.” Errado! Ele já é um pato manco. A escolha de alguém com um perfil técnico, não chegado a feitiçarias, pode não ajudar a presidente a ganhar votos, mas contribuiria para baixar o pessimismo. Dilma precisa entender que é ela, hoje, um dos principais fatores da instabilidade da economia. E Marina? Vamos ver.

Na condução, digamos, macroeconômica, a candidata do PSB emitiu os sinais que mercados e investidores queriam ler. O principal, como é sabido, é a independência do Banco Central. Estou entre aqueles que veem certo fetichismo nessa questão, mas é evidente que é preferível tal promessa ao apanhado de bobagens e sandices que Franklin Martins mandou escrever no site “Muda Mais”, que é a página oficial da campanha petista.

Vejam que curioso: no caso de Marina, ninguém nem pergunta quem será o ministro da Fazenda ou o presidente do Banco Central. Dá-se de barato que será “o mercado”. Aí a Bolsa dispara, a exemplo do que aconteceu ontem, com as ações das estatais liderando a valorização. A resposta que a ex-senadora tem de dar é outra.

Eu não tenho curiosidade de saber quem será, por exemplo, o ministro da Agricultura de Marina Silva caso ela vença a eleição. O setor dispõe de quadros competentes, e certamente alguém com experiência aceitaria a tarefa. Hoje, o agronegócio é a área da economia brasileira que reúne um maior número de técnicos e especialistas capacitados. Eu quero é saber quem será o ministro do Meio Ambiente de Marina se ela sentar no trono, isto sim! É ele quem definiria o tipo de relação que a presidente manteria, por exemplo, com o agronegócio.

Até agora não vi — e, se aconteceu, me escapou — a candidata se comprometer com o Código Florestal que foi aprovado pelo Congresso e contra o qual ela lutou com determinação. A proposta de Marina, é bom não esquecer, implicava uma redução da área plantada no país. Da mesma sorte, interessa-me saber quem seria o  nome da área energética. Um dos entraves, não é segredo para ninguém, para as obras de infraestrutura são as licenças ambientais.

Por enquanto, convenham, boa parte das expectativas positivas que há em relação à candidata do PSB deriva apenas do fato de que ela não é Dilma. Mas o país precisa saber o que seria Marina por Marina. Se eleita e der uma de Lula no primeiro mandato, jogando no lixo boa parte do que disse ao longo de sua militância, pode até se dar bem…

Por Reinaldo Azevedo

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O Estado de S. Paulo + Veja

3 comentários

  • Telmo Heinen Formosa - GO

    Ontem assistimos a mais um debate entre os candidatos presidenciáveis, desta vez no SBT a partir das 17h45min.

    Em primeiro lugar eu gostaria de me mudar para a Dilmalândia*. Alguém sabe o caminho para lá, aliás alguém sabe se este lugar realmente existe?

    Além disto, chego a ficar com vergonha alheia quando reparo na fraqueza aritmética contida nos argumentos com que a turma do PT tenta passar a lábia no nosso emburrecido e imbecilizado povo.

    Quando digo que temos 96% de TOLOS, IDIOTAS e CORRUPTORES entre nossos habitantes acima de 12 anos de idade, muito me contestam.

    Realmente ninguém nasce idiota mas a partir dos 12 anos de idade começam a se aperfeiçoar, incrível!!! rs rs rs

    (*)Dilmalândia: Suposto país da propaganda do PT

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  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    Marcos Jank,sou agricultor médio,não pertenço a nenhuma agremiação política, apenas sou um articular dentro do sindicato rural,portanto tenho pouco espaço para manifestar a não ser aqui no NA,mas te garanto esta Marina é mais falsa que nota de 3 reais,se a gente ler também os programas do PT e do PSDB,vamos descobrir que,segundo eles, um paraíso nos espera nos próximos quatro anos e que,todos sabem políticos jamais falarão em dificuldades e arrochos,quero ver se a REDE,CIMI,FUNAI,MST,MTST,BLACK BLOCs,GREENPEACE,WWF,MÍRIAM LEITÃO,SEBASTIÃO SALGADO,STEDILLE,ONGs AMBIENTAIS,ECOXIITAS,todos companheiros e ligados umbilicalmente a ela,deixarão que ela dê um passo sequer num rumo contrário daquilo que ela sempre defendeu...Como diz aquela propaganda(sabe de nada,inocente)ou seus interesses andam pensando alto.Saudações a todos!

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  • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

    Ah, os empresàrios socialistas, essas pessoas chave do agronegócio, 60 lideranças! Ou serão 60 empresàrios extremamente dependentes do dinheiro pùblico tentando manter o poder? Primeiro, não foram as lideranças que resistiram aos ataques bucéfalos de Marina Silva, foram os produtores do RGS, que enfrentaram atè a policia federal para poderem manter os cultivos de trangênicos. Então o coisa fica assim, 60 pessoas reúnem-se com Marina Silva, ( Marina Silva usava um avião de usineiros, cheio de rolo por sinal, e por isso saiu em disparada para conversar com os mesmos ), para apresentar suas propostas, pressionar o grupo político de Marina Silva, em nome do agronegócio. Afirmam que foram os representantes do agronegócio que debateram e discutiram as propostas com os produtores, sendo que os produtores na verdade nem sabem quem são essas pessoas... as pessoas chave do agronegócio?! Os únicos que podem representar os produtores são seus deputados e entidades de classe, os que receberam voto. Como è que esses não eleitos podem representar os produtores? Esse è o truque.

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