Embargo Russo: é necessário cautela para o mercado de carnes e leite, aponta IEA

Publicado em 15/09/2014 10:20 461 exibições

A Rússia proibiu as importações, pelo período de um ano, das carnes bovina, suína e de aves, pescado, leite, queijo, legumes e frutos provenientes dos Estados Unidos e União Europeia, além da Austrália, Canadá e Noruega. Isso ocorreu após esses países anunciarem sanções nas áreas de finanças, tecnologia e defesa devido ao conflito político da Rússia com a Ucrânia, por conta do apoio russo aos separatistas do leste ucraniano. Nos últimos dias, a Rússia decidiu, ainda, permitir que os produtos lácteos sem lactose, concentrado de proteína e outros produtos antes proibidos voltem a ser comprados pelo Brasil1.

Informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)2 mostram que esse fato foi antecedido de entendimentos anteriores com o chefe do Serviço Veterinário da Federação Russa, em maio, quando se discutiu a importância do monitoramento do serviço sanitário brasileiro como garantidor da sanidade do produto exportado, além de tratar sobre o envio de listas de potenciais fornecedores de carne para a Rússia. No encontro dos países que formam o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o governo brasileiro conseguiu dar garantias de que os problemas que restringiram as vendas aos russos estavam superados.

Posteriormente, em julho, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou uma série de acordos bilaterais nas áreas de economia, defesa, tecnologia, energia e produção de vacinas. 

No mês de agosto, o MAPA também conseguiu a aprovação de Serviços de Inspeção Federal (SIFs) para a comercialização de miúdos (rim, fígado, coração, intestino) e oficialização do Certificado Sanitário Internacional (CSI) para a exportação de lácteos para a União Aduaneira de Rússia, Bielorússia e Casaquistão.
A medida poderá beneficiar o mercado de alguns desses produtos brasileiros, pois a Rússia, segundo informações do MAPA, já liberou 89 estabelecimentos para exportar carnes, miúdos de carnes, aves, miúdos de aves, suínos e miúdos de suínos, e 2 estabelecimentos de produtos lácteos3. No último dia 14 de agosto, o serviço sanitário russo liberou mais 4 estabelecimentos brasileiros para exportação de carne e miúdos de suínos4. Somando estes establecimentos, o número total de frigoríficos com condições de exportar para este país passa a ser de 93.

O fato é considerado muito positivo para algumas cadeias produtivas envolvidas, principalmente pelos setores de carne suína e bovina in natura, que já têm neste país o principal destino de suas exportações5.

Entretanto, a carne de frango pode ter a maior oportunidade, já que há possibilidades de ampliar as exportações rapidamente, pois o setor tem possibilidade de rápida expansão de sua produção, pois o ciclo produtivo da avicultura é curto (cerca de 40 dias).

A Rússia é o segundo maior comprador de frango dos Estados Unidos. Com a impossibilidade deste país de exportar essa carne para a Rússia, o Brasil pode ganhar espaço considerável nesse mercado. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, há condições dos produtores brasileiros venderem 150 mil toneladas/ano de frango para a Rússia6.

No setor de suínos há certa cautela, pois o mercado brasileiro teve por muito tempo grande dependência do mercado russo e tem procurado, há alguns anos, diversificar os mercados.

Além disso, no momento, segundo Francisco Turra, “não há capacidade disponível para ampliar significativamente as vendas para a Rússia”7 e seria necessário, para atender de imediato a essa demanda, que se desviasse a produção atual de carne suína, que atende ao mercado interno para o mercado russo, pois a expansão da produção dos suínos é lenta (ciclo de 12 meses).

O presidente da ABPA explicou que a meta do setor é exportar 500 mil toneladas de carne suína, em 2014, com uma receita de US$1,7 bilhão. Para a Rússia, a projeção era de 60 mil toneladas, 12% das exportações totais. No entanto, a demanda russa neste momento é de 110 mil toneladas, 83,3% a mais do que o previsto8.

Produtores querem maior garantia de compra de seus produtos, como contratos mais longos que apenas o período de um ano do embargo, pois se os russos, após esse período, deixarem de comprar a carne suína brasileira, não há como colocar esse volume de produto no mercado interno, o que exigiria esforços para conseguir novos mercados. Isso acarretaria prejuízos a toda a cadeia produtiva.

Essa prevenção se justifica, pois o comércio com a Rússia tem se caracterizado pelo embargo ao mercado brasileiro com constantes reduções no número de frigoríficos habilitados a exportar para esse país, por restrições sanitárias isoladas, devido a fatos que normalmente não têm afetado o comércio com o resto do mercado internacional. Outro fator são favorecimentos a outros mercados, como o do Leste Europeu, em detrimento ao brasileiro.

Em relação à carne bovina, além de ser atualmente o maior exportador, o Brasil tem também o maior rebanho comercial, apesar de menor produtividade que os Estados Unidos. Ainda nesse ano, em julho, o mercado russo foi o principal destino das exportações de carne bovina. No entanto, vale ressaltar que essa carne também sofre, em alguns momentos, restrições sanitárias por parte do governo russo.

A grande novidade neste setor é a abertura para a compra de miúdos. O mercado russo poderá abrir uma perspectiva de aumento de vendas, o que, por outro lado, poderá alterar os preços para cima e levar os frigoríficos a optar por esse mercado em detrimento de outros que pagam menos, inclusive o mercado interno, o que afetaria diretamente os preços ao consumidor brasileiro, apesar da demanda ser fraca no momento.

No setor de lácteos, essa é considerada uma boa oportunidade, como perspectiva para abrir esse mercado. Segundo Carlos Humberto Mendes de Carvalho, presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de São Paulo (SINDILEITE), o setor tem muito interesse de exportar leite para a Rússia, mesmo que no momento os preços do mercado interno estejam mais compensadores9.

O consumo brasileiro, por conta da economia, sofreu certa retração e a expectativa é que se retraia mais e sobre leite. Segundo o presidente do SINDLEITE, a previsão é que haja uma sobra superior a 10%, internamente, e assim vale a pena vender os lácteos por um preço inferior. Melhor que perder esse volume de produto.

Outro ponto levantado por Carlos Humberto Mendes de Carvalho é o fato de a Austrália, grande produtor e exportador de leite, estar entre os países embargados pelos russos. Com a Austrália e União Europeia fora do mercado russo, deverá sobrar leite no mercado internacional e os preços devem baixar. Assim, melhor garantir vendas a preços atuais do que vender mais para frente a preços menores que os atuais.

Essa não é a posição do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ), Fábio Scarcelli. Na última reunião da Câmara Setorial de Leite e Derivados do Estado de São Paulo, ele informou que as indústrias queijeiras não estão interessadas em vender para os russos, pois os preços que estes querem pagar estão abaixo dos custos de produção, apesar de no momento as indústrias de queijo estarem com estoques altos. Nesse período, não é normal ocorrer isso; no entanto, mesmo com preços baixos no mercado interno, o consumo de queijo está baixo.

A perspectiva é de que os preços internacionais do leite caiam, pois a necessidade da União Europeia de encontrar novos mercados, já que este é um mercado importante, deverá influenciar as cotações.

Apesar de algumas áreas e o próprio governo federal terem se entusiasmado com o embargo russo às carnes e lácteos dos Estados Unidos e União Europeia, Austrália, Canadá e Noruega, as oportunidades não são favoráveis a todos os setores envolvidos e há necessidade de cada área e empresa avaliar, caso a caso, as oportunidades que surgirem. Isso não invalida as ações anteriores do governo federal de conseguir maior abertura aos produtos brasileiros da área de proteína animal. Entretanto, há necessidade de consolidação desse novo mercado sem base num embargo pelo período de um ano, para se ter garantias de que os investimentos na produção valham a pena.

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IEA

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