No ESTADÃO: Marina decide apoiar Aécio em troca de compromisso real por fim da reeleição

Publicado em 07/10/2014 06:07 1642 exibições
E +: "Ecos daquele junho", artigo de Eliane Cantanhede, da Folha de S. Paulo

 

Marina Silva (PSB), terceira colocada na disputa presidencial, decidiu apoiar Aécio Neves no 2.º turno da eleição presidencial. Quer, porém, que o tucano inclua em seu programa de governo causas defendidas por ela nas áreas educacionais e de meio ambiente. A ideia da ex-ministra é fazer o anúncio de um “acordo programático”. Esse apoio seria costurado a partir de itens convergentes nos programas dos dois, como o fim da reeleição e a reforma tributária.

Conforme informou a colunista Sonia Racy no portal estadão.com.br, o que está em discussão, agora, é se a adesão de Marina ocorrerá com o PSB ou se será uma manifestação da Rede Sustentabilidade, grupo político da ex-ministra abrigado no partido que foi presidido por Eduardo Campos, morto em agosto.

Marina diz que não quer condicionar sua decisão a cargos, o que ela define como “velha política”. O caminho da “nova política” é pedir um compromisso formal de pontos do programa de governo anunciado pelo PSB em agosto. O discurso é semelhante ao adotado um ano atrás, quando Marina se filiou ao PSB de Campos, e meses depois, ao anunciar ser vice na chapa então encabeçada pelo ex-governador. 

Marina defende itens como a manutenção das conquistas socioeconômicas dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a inclusão da sustentabilidade na agenda e a garantia de aumento de produção do agronegócio sem riscos à floresta amazônica.

 Além disso, destacar os pontos em comum entre os planos de governo, como o fim da reeleição e a reforma tributária, é uma forma de Marina convencer aliados da Rede mais reticentes ao apoio ao tucano e que preferem a neutralidade, a exemplo do que ocorreu em 2010. Naquele ano, a terceira colocada fez uma lista de dez itens de seu programa e a enviou tanto a José Serra e quanto a Dilma. Sem a resposta esperada dos concorrentes no 2.º turno, ficou neutra.

No domingo, em discurso após reconhecer a derrota, Marina deu a entender que não ficaria neutra de novo e que os brasileiros demonstraram “sentimento de mudança” nas urnas. 

Entre os marineiros, é consenso de que os ataques da campanha petista impedem uma aproximação com Dilma. “Não há como conversar com o PT”, disse Sérgio Xavier, um dos assessores mais próximos de Marina. “A nova política é você se unir a partir de um programa de governo, e é isso que nós queremos fazer.”

A tendência entre os partidos aliados de Marina é apoiar Aécio. Já se manifestaram nesse sentido o presidente do PPS, Roberto Freire, que convocou reunião para esta terça-feira, e o do PSL, Luciano Bivar. Dirigentes de PHS, PPL e PRP também tendem a declarar adesão à campanha do tucano. 

Reunião. No PSB, foi marcada para quarta-feira uma reunião da Executiva para se buscar um consenso sobre o 2.º turno. A Rede também discute o assunto na quarta.

Na segunda-feira, porém, lideranças do PSB já começaram a indicar preferência por Aécio ou mesmo a declarar voto no tucano. Mesmo o presidente nacional do partido, Roberto Amaral, aliado de longa data e ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, sinalizou que não seria contra o apoio ao candidato do PSDB. “O fundamental é estar envolvido em um processo de progresso, de crescimento. Às vezes um reacionário serve de avanço.”

Questionado se ele, que se classifica como “homem de esquerda”, se sentiria confortável com uma aliança com o PSDB, Amaral respondeu com pragmatismo: “As alianças são táticas e, se não prejudicarem o projeto do meu partido, são válidas”.

O vice-presidente do PSB e parceiro de chapa de Marina, Beto Albuquerque, disse que apoiará Aécio e que “quem joga sujo na eleição” não terá o seu apoio.

Em Pernambuco, o advogado Antonio Campos, irmão de Eduardo Campos, adiantou seu voto em Aécio, mas afirmou ser uma decisão pessoal e que não falava em nome da viúva de Campos, Renata. O grupo político ainda vai discutir o assunto.

A adesão do PSB pernambucano e da família Campos é importante para Aécio. O tucano teve seu pior desempenho no Estado, com 6% dos votos válidos, enquanto Marina superou Dilma – em 2010, a petista era aliada de Campos e venceu em 100% dos municípios em Pernambuco. Um apoio público do partido e, em especial, da viúva do ex-governador poderiam impulsionar o tucano no Estado.

“Vamos conversar para tentar chegar a um consenso”, disse o prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), que foi segunda-feira cedo à casa da família do ex-governador. O governador eleito Paulo Câmara disse o mesmo, em entrevistas a rádios e TVs locais. 

Outro lado. Segundo informações do blog da Sonia Racy, Nilson Oliveira, assessor de Marina, negou que a ex-candidata tenha tomado alguma decisão. Ele informou que ela vai se reunir com a base da Rede nesta terça-feira.

NA FOLHA, artigo de HÉLIO SCHWARTSMAN:

Sinais e ruídos

SÃO PAULO - O resultado da eleição surpreendeu? É claro que sim. Poucos dias atrás, eu, a torcida do Corinthians e a maioria dos analistas considerávamos Aécio carta fora do baralho, mas é ele e não Marina quem disputará o segundo turno com Dilma. O que ocorreu?

Poderíamos jogar a toalha e dizer que a política não é pautada pela lógica, desistindo de qualquer tentativa de previsão. Mas, antes de entregar os pontos, imaginemos um antropólogo marciano que tenha visitado o Brasil em julho, quando Dilma liderava e Aécio vinha em segundo, e que tenha retornado ontem. Para o marciano, não houve surpresa alguma.

A candidata governista está na dianteira, o que é perfeitamente natural nas democracias que permitem a reeleição, mas a oposição cresceu, o que também é normal dado o mau desempenho da economia e o desgaste de 12 anos de administração petista, e disputará com chance o segundo escrutínio. Sob essa perspectiva, não só há lógica por trás do processo eleitoral como ela se mantém a mesma desde o início da corrida.

E Marina? Marina foi o ruído. Como explica Nate Silver, nossos cérebros, desenhados para detectar padrões, interpretam tudo como se fosse sinal, em vez de apreciar quanto ruído, isto é, quanta incerteza, existe nos dados. Vimos a subida de Marina como se fosse um "fait accompli", quando não era mais do que uma tentativa dos eleitores de formar um consenso em torno do nome que seria capaz de derrotar Dilma.

A maioria dos brasileiros parece disposta a despachar o PT para casa. A vontade difusa, contudo, não basta. É preciso também apontar um sucessor. Os oposicionistas começaram cerrando fileiras em torno de Aécio, depois flertaram com Marina, mas, como ela não deu, voltam para o mineiro. A questão é que é mais fácil formar um consenso em torno da ideia de que é preciso mudar do que de um nome específico. E, sem esse consenso, Dilma acabará ficando.

ELIANE CANTANHÊDE

Ecos daquele junho

BRASÍLIA - Engana-se redondamente quem acha que as manifestações de junho de 2013 foram episódicas, um vento que passou. Elas permearam todo o primeiro turno e terão papel relevante no segundo.

E o que elas diziam aos poderosos de todas as unidades da Federação, de todos os partidos e de todos os Poderes? Que a palavra de ordem desta eleição de 2014 seria... mudança.

O vento virou uma ventania que derrotou quatro governadores (DF, ES, PI e TO) já no primeiro turno e empurrou outros dez para um desconfortável segundo turno. Em tempos de mudança, a reeleição, sempre um grande trunfo, transformou-se também num fardo.

Esse movimento atingiu a presidente Dilma Rousseff, que venceu o primeiro turno, mas só em termos. Dilma saiu menor do que Lula em 2002 e 2006 e do que ela própria em 2010. Um dos motivos, talvez o principal, foi o tufão da mudança federal que veio de São Paulo.

Berço tanto do PT quanto do PSDB, o Estado é sobretudo o centro financeiro e industrial do país, onde há maior compreensão dos equívocos não só na condução, mas na concepção econômica do governo Dilma. Natural, portanto, que a onda da mudança, encorpada pelo antipetismo, tenha definido de forma particularmente forte os votos paulistas.

Dilma ficará ainda mais rouca de tanto falar em "fantasmas do passado", para conter a onda de mudança e reforçar estigmas contra o PSDB, logo contra Aécio. Para inverter o jogo, ele terá de combater o "monstros do presente", criando uma promessa de futuro --ou seja, reforçando o vento da mudança, mas "para melhor".

Mantidas as curvas da reta final do primeiro turno, o Datafolha desta quinta (9) poderá trazer Aécio na liderança, acionando todo o exército e a munição petista. Guerra fascinante, mas, além do debate ideológico sobre a economia e do debate político sobre métodos, virão os torpedos. Pode, agora metaforicamente, cair um novo avião e bagunçar tudo.

Financial Times: ‘Aécio surpreende, mas mercado não deve subestimar força do PT’

Aécio comemora em Belo Horizonte (Evelson de Freitas/Estadão)

Aécio comemora em Belo Horizonte (Evelson de Freitas/Estadão)

LONDRES - O blog que acompanha mercados emergentes do jornal britânico Financial Times, o BeyondBrics, publicou texto nesta segunda-feira em que avalia as chances de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) no segundo turno. O texto reconhece a surpreendente votação do tucano ontem, mas ressalta que os “investidores não devem subestimar a máquina de campanha do PT”.

O texto cita a forte reação dos mercados nesta manhã com o salto da bolsa paulista e do real brasileiro. Apesar disso, o blog ressalta que “é improvável que o segundo turno seja simples”. “Está longe de ser garantido que Marina Silva será capaz de transferir todos os seus votos para Aécio. Tanto Dilma como Aécio têm tudo para disputar e tudo depende de quão bem conseguirão planejar e executar suas propostas”, diz o jornal britânico.

No segundo turno, o FT diz que Dilma vai argumentar que o melhor é continuar com a atual política e cita frase atribuída ao prefeito Fernando Haddad – mas que é erroneamente citado como Paulo Haddad – em que ele afirma que há dois caminhos para enfrentar uma crise: alta dos juros e maior superávit primário ou com a manutenção do emprego e salário dos trabalhadores. A segunda opção é a preferida do atual governo.

Aécio, por sua vez, vai argumentar na campanha que o modelo de Dilma está falido e defenderá uma forma de melhorar a produtividade e aumentar o investimento. O texto pondera, contudo, que pode ser difícil tornar esse discurso atrativo para o eleitorado e que para muitos brasileiros é verdadeiro a campanha negativa dos concorrentes que liga Aécio às privatizações.

O texto cita ainda que as duas candidaturas têm fragilidades. Aécio, por exemplo, poderia ter sua vida pessoal explorada pela candidatura do PT, diz o FT. Dilma, por outro lado, poderia ser prejudicada pelas denúncias de corrupção. “Em 2010, Dilma ficou devastada por não ter conquistado a presidência no primeiro turno e o cenário era contrário a ela quando o segundo turno começou. No fim, ela ganhou confortavelmente. Este ano, ela ainda é o candidato a ser batido”.

 

NO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (versão brasileira), ARTIGO DE JUAN ÁRIAS:

O segredo da virada de Aécio Neves, o mais brasileiro dos candidatos 

Aécio Neves não só foi a surpresa final deste primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras como também sua vitória, maior do que a prevista em todas as pesquisas, deve-se a ele pessoalmente. Tratou-se quase de um fenômeno em termos de psicologia: sua capacidade de reação frente a uma derrota anunciada e de alguma forma já aceita até por seu partido.

Neves cresceu em vez de se apequenar quando o terremoto Marina Silva o esmagou de tal forma que ele foi inclusive aconselhado a desistir. Arregaçou as mangas e anunciou que seria o vencedor capaz de disputar um segundo turno contra a Presidenta candidata Dilma Rousseff, que era tudo o que o partido dela, o PT, não desejava.

Sua posição de terceiro na disputa, um candidato em quem ninguém apostava diante da força da ecologista Silva, o levou a reagir inclusive nos debates, que acabou vencendo.

Não sei se conscientemente ou não, o que garantiu a vitória a Neves foi o fato de ter aparecido em todas as suas manifestações exteriores, entrevistas e debates, como o mais brasileiro de todos os candidatos. Revelou isso de modo cristalino em sua despedida de um minuto e 40 segundos no último e mais importante dos debates televisivos, o da TV Globo, com 50 milhões de telespectadores.

Apesar de aparecer naquele momento como derrotado em todas as pesquisas, Aécio, ao contrário das suas duas adversárias principais, Rousseff e Silva, dirigiu-se à audiência com coração brasileiro, exalando confiança, ou seja, sem dureza, sem agressividade, agradecendo o carinho recebido em suas peregrinações pelo país, revelando sua vontade de prosseguir na disputa, e com a certeza da vitória. Apresentou-se como candidato de todos os brasileiros, aos quais ofereceu certezas e capacidade de Governo, assim como a segurança de que possuía a receita para levantar o país da sua atual frustração. Emocionou-se e apelou à esperança hasteando a bandeira da mudança que a rua pedia. Foi naquela hora o único que acabou sendo aplaudido pela plateia presente.

Ex-senador e ex-governador do segundo Estado mais populoso do país, Minas Gerais, revelou em suas discussões com a candidata que liderava as pesquisas, Rousseff, sua capacidade dialética e uma forma firme, mas ao mesmo tempo brasileira, ou seja, não raivosa, de enfrentar suas adversárias políticas.

Aécio sempre foi criticado, quando na oposição, por não saber bater de frente com o governo. Atribuíam isso a esse espírito mineiro, mais propenso ao diálogo e aos acordos do que à guerra.

Com esse espírito desarmado, enfrentou uma campanha levada a cabo sob o signo dos golpes baixos, sem se deter nem mesmo diante da mentira e das desqualificações pessoais.

Neves nunca caiu nessa armadilha e prosseguiu firme em seu esquema, convencido de que, apesar de ter sido quase selada sua derrota, ele continuava acreditando com fé firme em dar a volta por cima.

Os votos reais, contrariamente ao que as pesquisas anunciavam até os levantamentos de boca de urna, o colocam a seis pontos da Dilma, muito pouco quando se pensa em como ele estava ao iniciar a aventura.

Dilma, que conseguiu menos votos do que na primeira vez em que foi escolhida, em 2010, agora enfrentará Neves, que aparece como surpresa ganhadora e que poderia contar a seu favor com até 60% dos votos da perdedora Marina.

Ele, que já foi surfista, lançou o slogan de que a “onda da razão” havia se erguido no mar da campanha, contra a onda do sentimento.

Seu êxito consistiu em saber, com teimosia, querer ganhar. Também contribuiu para isso sua campanha propositiva e de esperança, as duas fibras do atual coração brasileiro: o afeto e ausência do medo e o sentimento dos brasileiros que, em junho de 2013, haviam começado a usar a razão para exigir um Brasil melhor, que é o que prometeu criar o candidato mineiro, prudente e ao mesmo tempo tenaz.

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Fonte:
Estadão + Folha + El País

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1 comentário

  • wilfredo belmonte fialho porto alegre - RS

    Com o passar de diversos pleitos eleitorais se consegue ver

    que as reeleições nada mais foram do que interesses pessoais e de grupos em se manter no poder. Alem das reeleições um dos maiores problemas também é a possibilidade de um político eleito se candidatar a outro cargo eletivo em pleno mandato. Isto é uma traição ao eleitor que o elegeu para aquele mandato, além de diminuir a possibilidade de novos candidatos.

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