Na FOLHA: Acusações de corrupção e nepotismo acirram debate

Publicado em 15/10/2014 06:23 532 exibições
No primeiro embate no segundo turno da eleição, Aécio cobra Dilma sobre denúncias na Petrobras e petista acusa tucano de empregar familiares em MG; Em intensa troca de farpas, Aécio chamou Dilma de leviana, e ela o acusou de 'fabular' sobre Bolsa Família

No primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) trocaram pesados ataques na noite desta terça-feira (14), relacionando um ao outro a atos de corrupção, nepotismo e patrocínio de interesses privados.

No evento promovido pela TV Bandeirantes --o primeiro dos quatro debates previstos para o segundo turno--, o tucano e a petista também acusaram um ao outro de serem levianos e de liderarem uma campanha de mentiras.

O clima reflete a acirrada disputa pelo Palácio do Planalto. De acordo com pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira (10), Aécio tinha 51% das intenções de voto, ante 49% de Dilma.

Logo no segundo bloco do debate, o tema corrupção veio à tona, por iniciativa do tucano, que chamou de "absolutamente inacreditável" denúncia envolvendo a Petrobras.

Revelado na esteira da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, o escândalo da Petrobras ganhou projeção com a divulgação, na semana passada, de depoimentos do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa (1) e do doleiro Alberto Youssef. Segundo os dois, recursos desviados da estatal abasteceram campanhas de PT, PMDB e PP.

A petista respondeu dizendo que sua indignação é a mesma de todos os brasileiros, mas partiu para o ataque. Citou casos relacionados aos tucanos, como o mensalão mineiro, o cartel de trens de São Paulo e a compra de votos para a aprovação da reeleição durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-98).

"Aonde estão todos os envolvidos no caso da compra de reeleição? Todos soltos. [...] O que eu não quero é isso, candidato. Eu quero todos aqueles culpados presos."

"A senhora busca comparar coisas muito diferentes. O que acontece na Petrobras é algo extremamente grave", respondeu Aécio.

A petista seguiu na ofensiva, lembrando a revelação, feita pela Folha, de que o adversário, durante sua gestão no governo de Minas (2003-2010), construiu um aeroporto numa área desapropriada na fazenda de um tio-avô, em Cláudio. Além disso, acusou o tucano de nepotismo.

"Eu quero dizer que o nepotismo é crime. O senhor teve uma irmã, três tios e três primos no seu governo."

Aécio mostrou indignação. "Eu quero responder olhando nos seus olhos. A senhora está sendo leviana, candidata. O Ministério Público Federal atestou a regularidade dessa obra", disse.

Sobre a irmã (2) Andrea Neves, uma de suas principais auxiliares, também mostrou-se exaltado. "A senhora tem a obrigação agora de dizer onde minha irmã trabalha. Sua propaganda é uma mentira. A senhora mente aos brasileiros para ficar no governo. [...] A senhora deixou o governo num mar de lama."

"Leviano, neste caso que estamos discutindo, foi o senhor", rebateu Dilma.

O clima acirrado permeou todo o debate, com alfinetadas veladas. A presidente, que é mineira, disse que não saiu de Minas "a passeio", em referência ao fato de Aécio se dividir entre Minas e o Rio. Ao rebater Aécio, Dilma acusou o tucano de "fabular" em citação ao Bolsa Família.

Só nas considerações finais Aécio citou Marina Silva (PSB), terceira colocada na eleição, que declarou apoio ao tucano. Apesar do duro embate, os dois se cumprimentaram no final.

PERGUNTA DE AÉCIO PARA DILMA: 

Quais foram os bons serviços prestados por esse diretor da Petrobras [Paulo Roberto Costa]?

RESPOSTA DE DILMA
A minha indignação [com o caso Petrobras] é a mesma de todos os brasileiros. E onde estão os envolvidos no mensalão mineiro? Todos soltos

RÉPLICA DE AÉCI0
A sra. busca comparar coisas diferentes. A sra. não tem tomado as providências necessárias [no caso Petrobras]

TRÉPLICA DE DILMA
As investigações ocorreram graças às medidas que eu tomei no meu governo

PERGUNTA DE DILMA PARA AÉCIO:

Como o senhor explica a construção do aeroporto de Cláudio, MG, na fazenda de um tio seu?

RESPOSTA DE AÉCIO
A senhora está sendo leviana. O Ministério Público atestou a legalidade dessa obra. O aeroporto foi construído em um terreno desapropriado

RÉPLICA DE DILMA
O Ministério Público começou a investigar a obra em Cláudio por improbidade administrativa. E sobre nepotismo? O sr. empregou parentes no seu governo

TRÉPLICA DE AÉCIO
A senhora mente, candidata, não pode esse vale-tudo

FRASES: 

MESMO COZINHEIRO
"O senhor indicou para ministro da Fazenda um [ex-]presidente do Banco Central [Armínio Fraga] que deixou duas vezes a inflação escapar do limite da meta [2001 e 2002]. [...] Como o senhor quer que eu acredite que, com a mesma receita, o mesmo cozinheiro, vocês não vão entregar o mesmo prato? Vocês gostam de cortar empregos e salário"
DILMA ROUSSEFF
candidata à reeleição

CARNE POR OVO
"Há mais de um ano venho alertando sobre a volta da inflação e a senhora disse que era conversa de pessimista. Seu secretário de Política Econômica, Márcio Holland, disse [na semana passada] que a pessoa deveria parar de comer carne e [passar a] comer ovo [para contornar a inflação]. Será que é essa a política econômica ideal?"
AÉCIO NEVES
candidato à Presidência

 

NA COLUNA PAINEL:

Peso do cargo Antes do debate de ontem na Band, o banco instalado atrás do púlpito de Dilma ameaçou ceder quando a presidente se acomodava. Um funcionário da emissora precisou trocá-lo.

Hora do remédio Ao chegar ao estúdio, o vice de Aécio, Aloysio Nunes, quis saber a que horas o programa acabaria. "Xi, já tomei meu Rivotril", disse, ao ouvir que o debate só terminaria depois da meia-noite.

Sem estresse Vice de Marina Silva, Beto Albuquerque (PSB) assistiu ao debate com ar tranquilo, fazendo piadas. "Quando o candidato não é do seu partido, tudo fica mais fácil", brincou.

Controle remoto Eleitores monitorados pelo PT consideraram Dilma nervosa no início do debate. Depois, reprovaram o sorriso irônico de Aécio quando criticava a rival.

Era uma vez Segundo as pesquisas petistas, os eleitores não conseguiam se lembrar dos escândalos do governo FHC citados por Dilma, como o da Pasta Rosa, de 1995. Disseram entender, genericamente, que a presidente acusou o PSDB de "maracutaias".

Grama do vizinho Aloizio Mercadante (Casa Civil) debochou do excesso de referências de Aécio ao governo de Minas: "Se ele é tão bom, por que o candidato dele perdeu a eleição lá?".

Água fresca Cobrado por sua ausência na campanha de Dilma, Lula passou o fim de semana em um sítio em Atibaia (SP). "Ele tirou uns dias para descansar", explica o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). "Mas agora vai rodar o país."

Ala do PT propõe que Dilma reconheça erros na Petrobras

Grupo ligado a marqueteiro quer mudança de discurso para reduzir danos provocados por escândalo na estatal

Já a ala do ministro da Casa Civil defende que a presidente continue questionando as acusações do delator

VALDO CRUZNATUZA NERYDE BRASÍLIA

A cúpula da campanha da presidente Dilma Rousseff está dividida sobre a melhor estratégia para enfrentar o escândalo da Petrobras, que arranha a imagem do PT na reta final da disputa pelo Planalto.

Um grupo avalia que a tática mais eficaz seria reconhecer que houve erros na gestão da estatal, insistir que os culpados devem pagar por eles e que a Justiça Federal dará a palavra final sobre a responsabilidade de cada um, buscando virar a página do escândalo.

Segundo a Folha apurou, são favoráveis a esta posição o marqueteiro da campanha João Santana, Miguel Rossetto, um dos coordenadores da campanha, Jaques Wagner, atual governador da Bahia, e Fernando Pimentel, governador eleito de Minas Gerais.

Outro grupo, integrado por Rui Falcão, presidente do PT, Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil, e Franklin Martins, da coordenação da campanha, acredita que Dilma deveria seguir na linha atual, defendendo a reforma política como escudo contra desvios e questionando as acusações feitas pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef.

O tema foi debatido nesta semana em reunião da cúpula de campanha petista. Por enquanto, prevalece a tese do segundo grupo. O PT já anunciou que vai processar Paulo Roberto Costa por difamação.

A presidente Dilma, segundo interlocutores, até gostaria de optar pela estratégia de admitir que houve erros na estatal e tentar se descolar do escândalo da Petrobras. Mas resiste, ainda, por acreditar que compraria briga com o PT na reta final da campanha.

Nos dois grupos, há dúvidas, porém, se o reconhecimento de erros na agenda ética não alimentaria ainda mais a ofensiva do PSDB na propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Os defensores da tese de que a candidata petista deveria admitir desvios dizem que Dilma poderia adotar o lema de que a Justiça deve cuidar dos criminosos, sejam eles quem forem, e que cabe à presidente da República cuidar do Brasil.

Segundo auxiliares da petista, o desgaste do governo só aumentará se o PT e o Palácio do Planalto optarem apenas por uma postura reativa. Como na semana passada, em que negaram as irregularidades e atacaram a divulgação dos depoimentos do ex-diretor da Petrobras e do doleiro Youssef à Justiça.

Um interlocutor de Dilma disse que será um erro o PT ficar insistindo na tecla de que as declarações do ex-diretor e do doleiro são caluniosas. Segundo ele, os áudios divulgados e a informação de que Paulo Roberto Costa vai devolver R$ 70 milhões frutos de corrupção dão credibilidade a, no mínimo, parte importante das acusações contra o partido.

Em depoimento à Justiça, o ex-diretor afirmou que o esquema de corrupção na estatal irrigou campanhas de três partidos nas eleições de 2010: PT, PMDB e PP.

DIVERGÊNCIA

O receio é que, nos próximos dias, surjam mais novidades do escândalo, com citação de envolvimento de assessores do governo e de aliados, o que deixaria a presidente em situação ainda mais difícil.

Pesquisas qualitativas mostram que já se cristalizou na opinião pública a visão de que existia, de fato, um esquema de corrupção dentro da Petrobras.

A cúpula petista, porém, não concorda com essa visão. Diz que o partido e o governo não podem ficar acuados diante das denúncias e que precisam se defender. O PT acredita ser vítima de uma armação política para tentar derrotar Dilma na eleição.

Enquanto a divergência dá sinais de que tanto o partido quanto o governo ainda não encontraram a fórmula ideal para blindar a presidente no debate sobre corrupção, petistas afirmam que a saída para a vitória em 26 de outubro é reconquistar parte do eleitorado de classes mais pobres que votou com Aécio Neves (PSDB) ou Marina Silva (PSB) no primeiro turno.

análise de ELIO GASPARI:

O PT quis carregar 'Paulinho'

Assim como ocorreu com o mensalão, o comissariado achou que levaria o caso com a barriga, errou duas vezes

A doutora Dilma chamou de "golpe" a exposição dos depoimentos de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e do operador financeiro Alberto Youssef. Pode-se achar que tenha sido meio girafa a escolha da ocasião, entre os dois turnos eleitorais. Mesmo assim, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, ouviu-os no desempenho de suas atribuições e tinha obrigação de tornar públicas as informações que recebeu. "Golpe" houve quando a dupla e seus comparsas delinquiram.

Como aconteceu no caso do mensalão, o comissariado fez várias apostas e perdeu todas. Houve um dia em que o governo poderia ter saído da crise, tomando o caminho da moralidade: 19 de março de 2014. Na véspera, respondendo a uma indagação da repórter Andreza Matais, a doutora Dilma redigiu uma nota dizendo que, como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, aprovara a compra da refinaria de Pasadena baseada em "informações incompletas" de um parecer "técnica e juridicamente falho". Era só continuar nessa linha.

No dia 20 de março, a Polícia Federal prendeu Paulo Roberto Costa. Tratava-se de uma investigação relacionada com suas transações com Youssef, um notório operador de ilegalidades, que já passara por dois escândalos.

Se o comportamento do Planalto e a ação da Polícia Federal tivessem andado na mesma direção, teria sido possível abrir a caixa-preta da Petrobras. Doeria, mas seria uma boa marca para o governo. Como no caso do mensalão, os sábios resolveram fazer o contrário. Deram marcha a ré e criou-se um "gabinete de crise" para lidar com o problema provocado pela nota de Dilma. Erro, a nota não era a origem de um problema, mas de uma solução.

Youssef e o "amigo Paulinho" (diminutivo carinhoso usado por Lula) continuavam na cadeia. O comissariado sabia que empreiteiras, fundos de pensão, fornecedores e políticos haviam caído na rede da investigação. Temia-se que Paulo Roberto Costa virasse um "homem bomba". O comissariado operou e "Paulinho" passou com louvor por uma CPI. Disse que tinha R$ 1,2 milhão em casa para fazer pagamentos, e o líder do PT considerou sua fala "satisfatória". Não se tratava mais de fingir que não se sabia, mas de encobrir o óbvio. Apostaram que o "amigo" ficaria calado e levaram a bomba para dentro do governo.

Parecia possível empurrar o caso com a barriga, pedindo-se até mesmo a anulação das provas já conseguidas. Em junho, o governo suíço bloqueou US$ 23 milhões que o "amigo" guardava no ultramar. Ele voltou a ser preso e, dois meses depois, começou a colaborar com a Viúva. Youssef acompanhou-o. Deu no que deu e no muito que dará.

O governo apostou no efeito-barriga. A blindagem chegou ao absurdo quando a doutora Dilma disse que demitira o "amigo Paulinho". A ata da Petrobras informa que ele pediu demissão, mas ela acrescentou que esse é um "direito" dos servidores. Errado, não existe esse direito. Na ata onde está o registro de sua saída lê-se que o presidente do conselho da Petrobras, ministro Guido Mantega, "determinou o registro do agradecimento do colegiado ao diretor que deixa o cargo, pelos relevantes serviços prestados à companhia". Falta definir "relevantes serviços".

Tags:
Fonte:
Folha de S. Paulo

0 comentário