O FATOR AGRO (o agronegócio brasileiro está bombando), por CELSO MING, no ESTADÃO

Publicado em 21/01/2017 03:47 e atualizado em 22/01/2017 04:38
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Leia também "Agrofalácias 1: Agricultura familiar vs Agronegócio" (por Marcos Sawaya Jank (*) na “Folha de São Paulo”.

O Brasil já produz uma tonelada de grãos por habitante. É o quinto dos líderes da produção agrícola no mundo nesse quesito, depois da Argentina, Austrália, Canadá e Estados Unidos. (Veja tabela no Confira.)

Quando as estatísticas focam a produção de grãos, pode ficar a impressão de que a agricultura brasileira se concentra apenas em soja, milho, arroz, feijão e outras oleaginosas. O setor ainda é grande produtor mundial de cana-de-açúcar, café, algodão, batata, silvicultura e ainda conta com as frutas, as hortaliças e todos os ramos da pecuária e da avicultura.

Produtividade

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Quem fica nas cidades e só vê tragédias pela TV pode ficar com a impressão de que continua tudo muito ruim na economia brasileira. E, no entanto, o agronegócio está bombando. Produzirá neste ano cerca de 215 milhões de toneladas de grãos, aumento de 15% em relação à produção anterior. A vantagem adicional é a de que os preços estão, em geral, melhores do que os do ano passado. Isso significa que grande massa adicional de renda deverá irrigar o País a partir do interior. As primeiras estimativas da Conab são de que as safras que começam agora deverão injetar neste ano quase R$ 200 bilhões na economia.

Quem argumenta que, do ponto de vista do PIB, essa boa notícia é pouco relevante, na medida em que a agricultura pesa apenas alguma coisa mais do que 5% da renda nacional, deixa de prestar atenção para o fato de que a participação da indústria de transformação mal ultrapassa os 11%. O setor de mais expressão no PIB é o dos serviços, com 72% do total.

O bom momento do agronegócio arrasta consigo também boa parte do setor de serviços na medida em que se apoia e, ao mesmo tempo, apoia a infraestrutura, o comércio, transportes, fornecimento de sementes, fertilizantes, defensivos, equipamentos, máquinas, etc.

A atual expansão do setor acontece com duas principais características: grande aumento da produtividade e utilização intensiva de tecnologia de ponta.

Em 1990, o Brasil produzia 57 milhões de toneladas de grãos em 37 milhões de hectares, ou 1,52 tonelada por hectare. Neste ano, deverá produzir 3,7 vezes mais com a utilização de apenas 1,6 vez hectares a mais. (Veja ao lado o gráfico sobre o avanço da produtividade.) Esses números são a principal resposta contra aqueles que vêm afirmando que o aumento da produção agrícola vem sendo feito à custa do desmatamento e da deterioração ambiental.

O incremento da tecnologia acontece em todos os subsetores, no preparo da terra, na produção de sementes, no cultivo e monitoramento da plantação, irrigação, na colheita, transporte e armazenamento das safras. Cada vez mais o agricultor brasileiro utiliza equipamentos de última geração, que vão de semeadeiras georreferenciadas à utilização de drones para controle de doenças e pragas. 

Alguns economistas temem que o sucesso do agronegócio acabe por transformar a economia brasileira num fazendão atrasado, pela baixa agregação de valor de sua produção. Está acontecendo o contrário.

CONFIRA

Grãos por habitantes

Aí está a produção de grãos por habitantes entre os maiores produtores do mundo, segundo o departamento de agricultura norte-americano (o USDA).

O fator Trump

Não está tudo claro para o futuro do agronegócio do Brasil. Desta vez, a incerteza maior não tem a ver com as condições climáticas nem com o comportamento dos preços. A maior incerteza para a agricultura tem a mesma fonte das incertezas para as demais áreas da economia. Ninguém sabe o que, na prática, será a política econômica e comercial de Trump.

 

Agrofalácias 1: Agricultura familiar vs Agronegócio (por MARCOS SAWAYA JANK, na FOLHA)

Inicio uma série de artigos para abordar as falácias em torno da agricultura e do agronegócio. Falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar o que alega.

Boa parte dessas falácias nasce nas salas de aula do ensino médio, propagadas por professores desinformados e material didático questionável, em aulas de História e Geografia, por exemplo. Outras propagam-se na forma de chavões repetidos por formadores de opinião e veículos de mídia. Outras ainda derivam de posições divergentes de autoridades e órgãos governamentais, naquilo que se costuma chamar de "fogo amigo".

Exemplos de polêmicas falaciosas que foram se firmando com o tempo são agronegócio vs agricultura familiar, produção de grande escala vs pequenos produtores, proprietários vs assentados, a tecnologia intensiva vs natureza. Entram também na lista as inverdades sobre monoculturas, transgênicos, defensivos agrícolas, antibióticos, bem estar dos animais e outros temas.

Comecemos hoje com a falácia que opõe o agronegócio e a agricultura familiar, que costuma gerar um filhote igualmente falso: os grandes produtores contra os pequenos.

As duas dicotomias não têm o menor fundamento. Para começar, a palavra "agronegócio" vem do termo em inglês "agribusiness", que não passa de um marco conceitual criado para delimitar os sistemas integrados de produção de alimentos, fibras e bioenergia.

Seis décadas atrás, em 1957, o professor Ray Goldberg, da Universidade de Harvard, constatou que a agropecuária deixara de ser um segmento isolado da economia (erroneamente chamado de setor "primário"), tornando-se um elo fundamental das cadeias integradas de valor do agronegócio, cercada por segmentos industriais e de serviços a montante e a jusante.

O agronegócio nasce no melhoramento genético de plantas e animais e termina no consumo dos produtos finais: alimentos, bebidas, roupas, produtos da celulose e da borracha etc. Nesse contexto, a integração às cadeias do agronegócio tornou-se uma condição de sobrevivência para os produtores agropecuários, sejam eles grandes ou pequenos, corporações ou famílias, proprietários ou assentados.

Milhares de pequenos produtores familiares no Sul estão hoje profundamente integrados às cadeias produtivas de grãos, lácteos e carnes na região, comprando insumos e vendendo matérias-primas para agroindústrias processadoras. São parte fundamental do agronegócio brasileiro. Já grandes propriedades sem nenhuma produção não fazem parte do agronegócio.

Portanto, não é a escala que determina quem vai sobreviver, mas sim a integração e a eficiência.

Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maior mobilidade social agrícola do planeta. Barões do café quebraram na crise de 1929, ao mesmo tempo em que migrantes italianos e japoneses pobres, que vieram colher café no interior de São Paulo, se tornaram os grandes produtores de cana, açúcar, etanol, hortaliças, algodão e outros produtos.

Pequenos agricultores familiares do Sul migraram para o Centro-Oeste nos anos 1970, abrindo a fronteira agropecuária do cerrado, ganhando escala, construindo estradas, pontes, cidades. Histórias fascinantes, que nunca foram bem contadas e reconhecidas.

Em suma, a maior parte dos grandes produtores de hoje é constituída por migrantes e pequenos produtores do passado. A gestão das suas propriedades continua sendo familiar. A pequena agricultura familiar é parte fundamental do agronegócio. Mas o que interessa, mesmo, não é o tamanho das propriedades em si, e sim a sua gestão e sustentabilidade.

Não há, portanto, confrontação de modelos de produção, mas sim migração, evolução, inovação e integração. O resto é esse besteirol endêmico de quem se recusa a olhar a realidade e reconhecer que o Brasil tem belas histórias de sucesso para contar. 

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio.

Depois do recuo do ano passado, agropecuária deve crescer em 2017 (EDITORIAL DO ESTADÃO)

Se os preços das commodities forem mais favoráveis e o clima ajudar, será possível tratar o ano passado como página virada

O setor agropecuário é o mais dinâmico dos segmentos econômicos do País, tem peso decisivo na balança comercial e a perspectiva é de um forte crescimento neste ano, à vista das projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de aumento de 15,3% da produção de grãos. Se os preços das commodities forem mais favoráveis e o clima ajudar, será possível tratar o ano passado como página virada. É o que indicam as projeções do governo, depois de um 2016 difícil para as lavouras, em especial do Cerrado e da Região Nordeste.

A safra de grãos diminuiu 21,1 milhões de toneladas nos cálculos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a queda da produção foi de 25,7 milhões de toneladas na avaliação do IBGE. Na maior quebra de safra em quatro décadas, os Estados mais atingidos foram Piauí e Bahia.

Entre 2015 e 2016, segundo o Mapa, o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária caiu 1,8%, de R$ 537,5 bilhões para R$ 527,9 bilhões, ficando em níveis próximos aos de 2014 (R$ 529,8 bilhões).

A retração agrícola foi de 1% e a pecuária, de 3,2%. As maiores influências negativas vieram do milho, do algodão e do tomate. Também caíram os preços das carnes bovina e suína e do leite.

Para a quebra anual do VBP contribuíram com R$ 7,3 bilhões a perda de preços do tomate; com R$ 2,6 bilhões a do milho; R$ 2,3 bilhões a do fumo; R$ 1,7 bilhão a do algodão; e R$ 1 bilhão a do arroz. O valor da produção de bovinos diminuiu R$ 4,3 bilhões; a de leite, R$ 2,3 bilhões; e a de suínos, R$ 1,7 bilhão. Só em parte esses recuos foram compensados pela elevação do VBP de banana, feijão, café, batata inglesa, trigo e frango.

Mas quebras da produção têm peso decisivo na elevação dos preços ao consumidor. Na média, os preços dos produtos alimentícios e bebidas subiram 8,62% em 2016, bem acima do IPCA, de 6,29%.

Com a melhora das safras, a expectativa é de estabilidade ou queda de preços em 2017, em benefício do consumidor. Mas projeções do Mapa sugerem que alguns produtos continuarão valorizados, caso do feijão, que provocou forte aumento da renda de produtores de Goiás, Minas Gerais, Paraná e São Paulo e deverá liderar a alta do VBP.

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Fonte: Folha de S. Paulo + Estadão

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