Agronegócio dribla inflação, tem safra recorde e injeta até R$ 237 bi no País (ESTADÃO)

Publicado em 27/01/2017 01:41 e atualizado em 29/01/2017 17:02
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Crescimento real na renda do setor deve chegar a 16% e o dinheiro que começa a circular nas cidades do interior já está irrigando o comércio local; produtores investem na compra de máquinas colheitadeiras de última geração, de até R$ 1,5 milhão (POR MARCIA DE CHIARA, O Estado de S. Paulo)

Na boca da safra, a agricultura é um dos poucos setores que têm o que comemorar em meio à recessão. Puxada pela dobradinha soja e milho, a receita da produção de grãos que começa a ser colhida no Centro-Sul deve passar de R$ 200 bilhões este ano. É uma cifra recorde, assim como o volume de produção, e com ganhos acima da inflação. 

Esse resultado funciona como uma injeção de ânimo na economia do interior do País e traz alívio para os preços dos alimentos, que foram os vilões do custo de vida no ano passado. A agropecuária, segundo os dados mais recentes do IBGE, representou mais da metade da atividade econômica em 1.135 municípios do País em 2014.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) estima colheita de 215 milhões de toneladas de grãos e renda de R$ 237,7 bilhões. O economista da CNA Renato Conchon diz que a receita deste ano avança quase 14% em relação à de 2016, descontada a inflação. Já o economista Fabio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, prevê safra um pouco menor, de 211,4 milhões de toneladas, admitindo riscos de perdas. Ele estima receita de R$ 226,1 bilhões, com crescimento real de quase 16%.

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Diferenças à parte, o dinheiro que começa a circular nas cidades do interior já está irrigando o comércio local. A rede de lojas Havan, por exemplo, especializada em vestuário, tem 25 lojas no Paraná. Destas, 13 estão em cidades do agronegócio e tiveram aumento de vendas de 20% em janeiro em relação ao mesmo mês de 2016. Nas demais o avanço foi de 10%.

El Niño. O resultado favorável da renda do campo deste ano reverte a frustração que houve em 2016, quando a produção recuou por causa das perdas climáticas provocadas pelo El Niño. “2016 é um ano para ser esquecido”, diz Leandro Cezar Teixeira, gerente da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, de Maringá, no Noroeste do Paraná. A região, dominada pela soja, teve perdas de 30% em 2016, mas se recuperou este ano. Apesar da menor cotação da saca de soja neste ano – R$ 68 ante R$ 72,50 em 2016 – Teixeira conta que os produtores estão animados e um grande número deles não vendeu a safra antecipadamente. É um sinal de baixo endividamento do produtor e de que o preço é favorável.

Outro sinal positivo aparece nas compras de insumos para a safrinha de milho plantada logo após a colheita da soja. Na Cocamar, a venda de sementes, adubos e defensivos cresceu 25% este ano. Números da indústria de fertilizantes mostram que as entregas avançaram 11,4% de janeiro a novembro de 2016 ante 2015, revertendo a queda de 6,2% no período anterior.

O ânimo dos produtores aparece também nas vendas de máquinas agrícolas. Em dezembro, quando iniciam os preparativos da colheita, houve crescimento de 84% nos negócios em relação ao mesmo mês de 2015. 

Na Iguaçu Máquinas Agrícolas, por exemplo, com sete lojas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o volume de vendas cresceu entre 10% e 15% a partir de novembro até agora, conta o gerente-geral de Rondonópolis (MT), Mario Guilherme Lange. “Esta é uma região de puro agronegócio e não sentimos a crise.” Neste ano apareceram agricultores interessados em comprar equipamentos para pronta entrega, o que não é usual. Ele notou uma procura maior por colheitadeiras de grande porte, com mais eletrônica embarcada. “São as ‘Ferraris’ do campo, que chegam a custar R$ 1,5 milhão.” Juro baixo, produtor capitalizado e clima favorável animaram os agricultores, afirma.

“O clima foi fundamental”, diz o vice-presidente da Associação dos Produtores de Milho e Soja do Mato Grosso, Elso Pozzobon. A produtividade das cidades do Norte do Estado, onde 30% da safra de soja foram colhidas, está surpreendendo. Em Sorriso, a média é de 58 sacas por hectare, ante 47 em 2016.

Pozzobon diz que a agricultura “vai ajudar a economia a sair da letargia”. Para Silveira, o agronegócio evita outro ano recessivo no País. Porém, pelo fato de ter cadeias curtas de produção e empregar pouco, o setor não pode trazer de volta o crescimento: “Essa função ainda é da indústria.”

 

Brandalizze: crise econômica brasileira fará com que o consumidor volte para o arroz e feijão, elevando o consumo desses produto (na FOLHA DE S. PAULO, por MAURO ZAFALLON)

Ovo e frango também estarão na lista de preferências do consumidor.

A opção dos consumidores por esses produtos vem do bolso.

A renda está encurtando devido a salários menores e ao desemprego crescente.

A avaliação é de Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, de Curitiba.

Arroz e feijão estarão com preços mais acessíveis e substituirão parte das carnes, principalmente a bovina, afirma ele.

O feijão, que chegou a R$ 20 por quilo no pico da crise no ano passado, custa de R$ 4 a R$ 6 nas gôndolas dos supermercados.

O arroz, após uma quebra de safra em 2016 no Rio Grande do Sul, o principal produtor nacional, terá um volume maior neste ano.

Brandalizze não acredita, no entanto, em uma queda tão acentuada nos preços do arroz como a que teve os do feijão.

Os estoques do cereal estão baixos, e a safra está atrasada em pelo menos duas semanas.

O maior volume a ser produzido, no entanto, não permitirá uma evolução acentuada dos preços, segundo ele.

Um pouco mais capitalizados, devido ao cenário favorável de preços nos últimos três anos, os produtores deverão imprimir um ritmo mais lento às vendas de arroz.

Com isso, o cereal em casca se mantém a R$ 50 por saca no Rio Grande do Sul, mesmo com os produtores do Estado já se movimentando para a colheita de 8,4 milhões de toneladas neste ano. A área de produção é de 1,1 milhão de hectares.

Haverá um aumento de oferta de arroz no Rio Grande do Sul, mas um recuo em outras áreas produtoras do país.

Com isso, a produção total do Brasil deverá ficar abaixo dos 12 milhões de toneladas, o volume estimado para o consumo.

A opção dos consumidores pelo arroz e feijão virá porque os preços desses produtos no varejo acompanham a flutuação de preços no campo.

Ele cita o trigo, que também teve queda nos preços na matéria-prima, mas esse recuo não refletiu no pãozinho.

"Os preços do pão, do presunto, da mortadela e do queijo tornam o custo do sanduíche menos atrativo do que uma refeição à base de arroz e feijão", diz Brandalizze.

Nas próximas semanas, arroz e feijão vão tomar caminhos diversos. A saca de arroz, com a chegada da safra, deverá recuar de R$ 50 para R$ 45, enquanto a de feijão subirá dos atuais R$ 120 para R$ 200.

Mesmo assim, um valor bem inferior aos R$ 500 a R$ 600 de alguns períodos do ano passado.

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Algodão - A menor oferta interna de algodão faz o preço do produto avançar neste mês, registrando o maior valor real desde junho de 2011: R$ 2,77 por libra-peso, segundo dados do Cepea (Cento de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Alta técnica - A alta externa do algodão é mais técnica e especulativa do que fundamental, já que não houve mudança significativa nos dados ou expectativas de oferta e demanda.

Fundos - Mas a grande posição comprada dos fundos de investimento de gestão ativa segue chamando a atenção, segundo Daniele Siqueira, da AgRural.

Posição - Na segunda semana deste mês, os fundos detinham 2 milhões de toneladas compradas de algodão, a maior posição desde 2006. Na terceira semana venderam um pouco, mas ainda continuam com 1,9 milhão de toneladas, aponta a analista da AgRural.

Arroz - O Brasil exportou 698 mil toneladas de arroz no ano passado, 27% a menos do que em 2015. Quebra de safra foi um dos motivos dessa redução, segundo a Abiarroz (Associação Brasileira da Indústria do Arroz).

Sem simplificação tributária, economia não crescerá com vigor (PEDRO LUIZ PASSOS, na FOLHA)

A intenção do governo de apoiar o movimento no Congresso para desatolar a reforma tributária, conforme anunciado pelo presidente Michel Temer, traz alento cauteloso à economia. Nas últimas décadas, promessas de desembaraçar o nó tributário fracassaram por não conciliar os interesses envolvidos na partilha da arrecadação entre os entes federativos e do ônus tributário entre os contribuintes.

A demora em equacionar o problema só acentua a sua urgência, conferindo-lhe legitimidade para "furar a fila" das reformas, uma vez aprovada a PEC do Teto e já encaminhada a revisão das regras da previdência.

A evolução da agenda tributária será decisiva para a retomada do PIB, pois ajudará a impulsionar o investimento, tanto de empresas já consolidadas como de empreendedores que aguardam um horizonte para levar adiante seus projetos.

Sem me estender quanto ao conteúdo, a proposta discutida na Câmara toca no ponto nevrálgico de qualquer reforma que pretenda provocar um efeito virtuoso: simplificação e unificação dos impostos indiretos, como ICMS, IPI, PIS e Cofins.

Do jeito atual, o cruzamento de impostos, alíquotas, bases tributáveis e regimes diferenciados gera uma teia enigmática, complexa e cara para as empresas. Recorro ao setor de cosméticos, em que atuo há décadas, para ilustrar o caos tributário.

O PIS/Cofins possui dois regimes, dependendo do produto. Num regime, o tributo é recolhido em todas as etapas da cadeia de produção e vendas. No outro, incide apenas na etapa de fabricação.

Outro tributo importante, o IPI tem alíquotas que vão de zero a 42%, sem justificativa técnica para tal dispersão, e duas bases de cálculo conforme o regime atribuído ao produto.

Já o ICMS, cuja apuração se baseia em variáveis como o Estado de destino e de origem e é regido por 27 legislações, uma para cada unidade da Federação, é mais assunto para a ciência das patologias mentais do que para a economia.

Mais: o regime da substituição tributária, exigida para o último elo da cadeia produtiva, é regulado por regimes especiais entre a empresa e cada fisco estadual, que determina de modo arbitrário a margem da operação e, portanto, a base de cálculo do ICMS.

Chega-se ao absurdo de um mesmo produto ter carga tributária diferente a depender do modelo escolhido para sua distribuição. Ou seja, há tratamento fiscal desigual para mercadoria absolutamente idêntica.

Resumo: todas as combinações possíveis geram para a Natura, da qual sou conselheiro, 9.450 diferentes regras para pagamento de suas obrigações fiscais. E há exemplos mais graves em outros setores.

A complexidade tributária estabeleceu uma espécie de darwinismo no universo empresarial, vitimando, sobretudo, organizações ainda sem fôlego para arcar com as obrigações exigidas pela legislação.

Inicia-se, assim, um círculo vicioso. Para compensar os estragos do emaranhado de impostos, criam-se paliativos, que por sua vez geram novas distorções e agravam a irracionalidade do sistema, com elevado custo fiscal. O Simples é um exemplo. Este caos lembra o "Samba do Crioulo Doido", de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo do grande jornalista Sérgio Porto).

Medidas simplificadoras, como redução no número de alíquotas e sua uniformização, são possíveis e poderiam ser agilizadas. A tecnologia disponível permite iniciativas como essas sem prejuízo à arrecadação.

Isso facilitaria a vida dos contribuintes, reduziria os contenciosos judiciais e traria ânimo e segurança aos investimentos. Afinal, ninguém supõe que a burocracia e os políticos sintam prazer em atazanar a vida dos brasileiros. Ou não?

Bolsa sobe pelo 4º pregão consecutivo após recorde do índice Dow Jones

A Bolsa brasileira fechou em alta nesta quinta-feira, acompanhando parte dos ganhos registrados no mercado internacional durante o feriado de aniversário da cidade de São Paulo. O dólar também avançou ante o real, em um movimento que se repetiu ante outras moedas emergentes.

Na quarta (25), com o mercado fechado no Brasil, as Bolsas americanas avançaram e o índice Dow Jones ultrapassou os 20 mil pontos. O Ibovespa pegou carona para ajustar preços dos ativos em relação ao mercado dos Estados Unidos. A alta foi de 0,53%, para 66.190 pontos.

Esse é o quarto pregão consecutivo de alta do Ibovespa, que renovou a máxima em quase cinco anos.

Os bancos lideraram os ganhos do dia, puxados pelo Banco do Brasil, que terminou o dia a R$ 32, alta de 6,31%.

Os papéis do Santander, que registrou crescimento de 10% no lucro de 2016, também tiveram ganho expressivo. As units (grupo de ações) do banco espanhol avançaram 2,5%, a R$ 31,90.

Bradesco e Itaú ganharam mais de 1% no pregão. Fora do Ibovespa, o Banrisul avançou 14,21% com a possibilidade de privatização. O governo federal quer a venda do banco gaúcho como contrapartida para o pacote de resgate do Estado.

Petrobras e Vale fecharam no negativo. A estatal informou nesta quinta que as reservas provadas de petróleo da companhia recuaram 5,8% em 2016. O indicador de reservas provadas mostra o volume de petróleo e gás economicamente viável que uma petroleira tem sob sua concessão.

Além disso, investidores internacionais da companhia iniciaram o processo na Holanda em busca de ressarcimento por perdas decorrentes de corrupção investigada na Operação Lava Jato.

As ações preferenciais (sem direito a voto) da companhia recuaram 1,49%, a R$ 15,80. Os papéis ordinários caíram 1,91%, a R$ 17,39.

A Vale, que veio de três pregões em forte alta, passou por realização de lucros. Os papéis preferenciais cederam 1,54%, para R$ 31,88, enquanto os ordinários perderam 1,55%, a R$ 33,60.

DÓLAR

A moeda americana fechou em alta nesta quinta ante o real, acompanhando o movimento visto com outras moedas emergentes.

O dólar à vista (referência para o mercado financeiro) ganhou 0,40% e terminou o dia a R$ 3,1786. A cotação comercial (usada em operações de comércio exterior) avançou 0,41%, para R$ 3,1820.

"O dólar precisa de um motivo mais forte para cair mais, o fim do recesso parlamentar pode trazer um pouco mais de ânimo ao mercado", disse um profissional da mesa de câmbio de uma corretora nacional.

A moeda tem oscilado perto do piso informal de 3,15 reais e profissionais vêm chamando a atenção para a dificuldade de romper esse patamar sem algum fato relevante.

"Janeiro está acabando e há questões que apresentam riscos, como delações, a Lava Jato, sucessão na Câmara (dos Deputados). Isso também dificulta o investidor de apostar ainda mais na queda do dólar", afirmou o operador da corretora H.Commcor Cléber Alessie Machado.

JUROS

Os contratos futuros de juros negociados na BM&FBovespa avançaram, também em um movimento de ajuste a taxas internacionais.

O contrato com vencimento em janeiro de 2018 subiu de 10,94% para 10,96%. O vencimento janeiro de 2021 teve ganho mais expressivo, de 10,62% para 10,73%.

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Fonte: ESTADÃO / Folha de S. Paulo

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